Psicologia Budista

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Texto baseado no livro Psicologia Tibetana de Clóvis Correia de Souza Filho

Skandas: Os Cinco Componentes do Ego

Segundo a filosofia budista a crença num ego individual é a causa de todo sofrimento. O ego é a instância do nosso ser que tenta formar um conceito sólido e permanente a cerca de nós mesmos e do mundo. Como a nossa vida é feita de ciclos e de impermanência a tentativa de manter uma estrutura constante é ilusória, causando frustração e dor.

A psicologia Budista dedica-se a compreender o processo do ego e concebe a felicidade não como a satisfação de todas as necessidades apetitivas do mesmo, mas procura observar a compulsividade envolvida nas necessidades e aponta o caminho da libertação da dualidade, dos apegos e aversões.

Os cinco componentes do ego são: a forma física, a sensação, a percepção, a vontade do intelecto, a consciência.

  1. A forma física – O ego ao nascer se identifica com o corpo físico se percebendo como uma entidade separada da consciência cósmica.
  2. A sensação – O desenvolvimento do ego se dá pela capacidade de sentir o mundo através dos sentidos e assim auto proteger-se de ameaças exteriores. Qualquer experiência é sentida de três maneiras: agradável, desagradável e neutra. È a partir das sensações que reagimos ao mundo.
  3. A percepção – A percepção é a forma como interpretamos os estímulos sensoriais que estamos recebendo do mundo e consequentemente como reagimos a eles. Três maneiras de reações:

a) apego/paixão (sensação agradável) – Desejamos tudo que dá prazer ao ego.

b)repulsa/ódio(sensação desagradável) – Nos afastamos de tudo que ameaça a solidez do ego.

c)indiferença/ignorância (sensação neutra) – Ignoramos os fatos que não nos convém ou que queremos evitar.

Fórmula da Percepção

P.O. = N.C.S………R.I.

A percepção do objeto (P.O.) depende do nível de consciência do sujeito (N.C.S.), o que vai determinar o tipo de reação impulsiva. (R.I.).

Conforme reagimos, outra reação seguinte será gerada indefinidamente. Esta é a Lei do Karma que determina a continuidade da nossa existência.

A percepção do objeto pode ser feita de duas maneiras:

a) Dualista – È a reação que comumente temos numa relação de sujeito e objeto percebidos como entidades separadas.

b) Una -  È a reação que se dá a partir da compreensão da interdependência entre sujeito e objeto.

O Karma depende da relatividade da percepção entre eu e outro, causa e efeito, ação e reação.

  1. Vontade/Intelecto – A quarta etapa do desenvolvimento do ego é o ”a atuação do intelecto” que engloba todas as atividades que seguem a percepção e se traduzem numa vontade consciente. O intelecto fortalece o ego dando sentido à sua existência através da sua capacidade de categorizar, julgar, dar nomes, avaliar e classificar pessoas e coisas.

O intelecto nos leva a transcender as reações impulsivas e instintivas, tornando o pensamento mais elaborado a partir de especulações muito lógicas e racionais, mas também muito limitadas.

  1. Consciência – A consciência é formada a partir da integração das emoções e pensamentos que se retro alimentam sustentando e dando um sentido a novela do ego. As emoções e os pensamentos possuem uma imensa energia e movem o destino do mundo. Eles são constituídos de fantasias e respaldados por um universo simbólico que são os fundamentos da nossa estrutura de personalidade e do comportamento que temos como indivíduos frente ao mundo.

Resumindo: Os Skandas são os constituintes do ego e tentam dar um sentido de permanência e proteção, dentro de uma existência sujeita a impermanência e a dissolução. Seguem-se na seguinte ordem, ao tomarmos contato com um objeto através dos sentidos – reagimos a ele  com uma sensação instintiva  (aspecto físico)  – o que nos provoca uma percepção e uma reação impulsiva (aspecto vital) – em seguida intelectualizamos, julgamos a partir de nossas experiências (aspecto mental) – por fim projetamos no objeto nosso universo simbólico de fantasias, recheado de pensamentos e emoções que dão sentido ao nosso momento existencial com ele (aspecto psíquico).

O objetivo da psicologia budista é levar os indivíduos a reconhecerem suas projeções, transcendendo a noção dualista e fictícia de um ego separado, liberando a mente de ilusão e atingindo a mente iluminada, na qual os eventos são vistos como um sonho sem apego ou aversão.

3 comentários sobre “Psicologia Budista

  1. Boa noite Nello! tudo bem com você?
    Achei excepcional o seu artigo. Parabéns!

    Sou budista praticante do templo ZU LAI EM COTIA. Gostaria de fazer uma pergunta que há tempos me intriga ou mesmo pedir por alguma referência bibliográfica sobre a lei do karma.
    Tenho uma enorme dificuldade em compreender a lei do karma dentro de “uma relação direta de causa e efeito” como muitas pessoas costumam conceber. Isto é, ao estar sendo agraciado por situações favoráveis é porque tão somente ações positivas se acumularam em renascimentos anteriores ou mesmo ainda neste, e vice-versa.
    Tenho percebido que o fato de muitas pessoas acreditarem nessa idéia isso as leva a diminuir a compaixão pelo sofrimento do próximo porque acabam pensando que, se estão sofrendo é porque de alguma forma erraram no passado.
    Não consigo compreender o karma deste ponto de vista extremamente simplista. Acho até que a lei do karma guarda tantas outras condições causais, mas que nunca tive a oportunidade de encontrar em nenhum livro que li até o momento.
    Será que pode me auxiliar? Ficaria mto grata.
    Atenciosamente,
    Angela Paes!
    tenha uma ótima semana!

  2. Boa Noite!

    Agradeço o envio da mensagem e o elogio.
    Conheço bem o Templo Zu Lai, especialmente na época da Monja Sinceridade.Quando vou a São Paulo, quandoposso, dou uma passadinha por lá.
    Nosso site é http://www.anaenello.org.
    Pode dar uma passeada por lá.
    Muita Paz!

  3. gostei tanto dos apontamentos que acabaram de me fornecer

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