01.02.12 08:44
Museu de Cultura Popular reverencia a alma do povo potiguar

Salão de danças populares - Congó, Boi de Reis, Araruna
As linhas modernas do prédio em que funciona o Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, em Natal, no Rio Grande do Norte – estilo arquitetônico da década de 60 – não destoam da autenticidade do ambiente lúdico elaborado no interior do edifício, repleto de memórias artísticas, tradição e saber das gentes do estado potiguar. Pelo contrário, a construção fortalecida pelo concreto, com linhas semelhantes aos traços de Niemeyer, abriga a sabedoria de um povo, em que a criatividade, a cor e a luz foram sempre o foco principal, em todos os aspectos da vida, alimentação, dança, religiosidade e folguedos.
Exatamente a autenticidade dos potiguaras, em especial dos artistas, foi o que conquistou a paranaense Tania Andrade,que há 13 anos decidiu deixar o seu trabalho de pesquisadora em arte e educação na Fundação Cultural de Curitiba e apostar numa carreira profissional nesta região do nordeste do Brasil. Tania é hoje diretora do Museu Djalma Maranhão e ao lado do diretor do Departamento Cultural da Cidade de Natal, o artista plástico Vatenor de Oliveira, empenham-se na preservação da essência cultural do Rio Grande do Norte.
O museu foi inaugurado há três anos com a proposta de mostrar ao público um universo rico de hábitos e costumes de um estado, em que a capital possui o clima mais estável do Brasil, onde o sol brilha em parceria eterna com uma brisa refrescante e as cores da natureza são intensas, vibrantes e a costa litorânea está entre as mais belas, com seus coqueiros e falésias. Todo esse conjunto estético natural gerou na alma do povo, criações originais na dança, na religiosidade, nas brincadeiras infantis e no teatro, áreas que o Museu de Cultura Popular dedicou espaço para destacar seus ícones.
O nome Djalma Maranhão foi escolhido em homenagem a um dos prefeitos – décadas de 50 e 60 – que mais estimulou a cultura na cidade e construiu o prédio em 1963, para funcionar primeiro como uma rodoviária. A localização da sede do museu no Bairro da Ribeira, não poderia deixar de ser a melhor escolha, considerando que a área é constituída de prédios, ruas, bares, residências que registram em suas fachadas as várias culturas de outros povos e nações que influenciaram no desenvolvimento da cidade.
A caminhada no interior do Museu passa pelo salão das danças de tradição popular – Araruna, Congós, Pastoril, Boi de Reis – sendo a primeira criada pelo mestre Cornélio, uma mistura de dança palaciana com a regional, Congós, trazida pelos negros escravos, Pastoril, que lembra o nascimento de Jesus e Boi de Reis, uma alegoria conhecida em todo o Brasil. Na sequência, os bonecos de pano fazem a festa para olhos, nas cores e nas formas, e a justa homenagem, em um painel de fotografias, a seus criadores, mestre Chico Daniel, Gapó, entre outros.
Com a seriedade de alguém que é amante da arte, o ator e arte educador, Leonardo Prata, explica que o teatro de bonecos foi muito difundido no século XIV, por intermédio da imaginação do artista de estrada, que levava de cidade em cidade, suas histórias e fantasias. Os “sabores e fazeres” do potiguar tem outro painel de fotografias dedicado a destacar nomes mais conhecidos da região e as quitutes mais apreciadas. A literatura de cordel também tem seu espaço especial, com fotos e vídeos de repentistas mestres na arte da cantoria, dos contadores histórias que povoaram imaginação das pessoas de antigamente, que não sabiam ler, embora amassem um enredo, conto ou causo, a exemplo de “dona Militana”, romanceira que morreu com mais de 90 anos em 2009.
Os modelos de barcos mais usados pelos pescadores, o Robalo, Ciobá, Aracumã, estão à vista do visitante, assim como as representações das embarcações enfeitadas para os dias das festas de Iemanjá e dos Navegantes. Os pilares da religiosidade têm quatro salas à parte – catolicismo (com ex-votos e promessas), catimbó jurema (afro-indígena), umbanda (catolicismo, afro-indígena) e Lutero. Também não pode faltar a tradicional oratória, que era e ainda é, espaço importante para orações no interior das residências antigas. “Conforme contava minha avó, toda casa tinha que ter um altar para evitar que a “besta fera” invadisse o local no juízo final”, lembra Leonardo.
Para conduzir o visitante a reverenciar este imaginário popular, que transita entre o ingênuo, fantástico e original, Tania conta com o apoio de Celina Carvalho( estudante de História), Genilza Oliveira, Silvaneide Rodrigues ( que desenvolve paralelamente o projeto do rio Potengi – Pôr do sol) e Leonardo. Uma equipe com ideias sincronizadas, capaz de mostrar ao público a importância de um acervo, que inclui mais de 200 horas de vídeos e 2000 peças incluindo as obras naïf de artistas locais conhecidos no Brasil e no exterior.
Cidade do Sol
Não é sem razão que o Rio Grande do Norte reúne bons nomes na poesia e na pesquisa. A própria paisagem natural estimula à criatividade. Um exemplo é o historiador, antropólogo, jornalista e advogado, Luiz da Câmara Cascudo, o poeta Ferreira Itajubá. Além disso, outros nomes como Pedro Velho, Newton Navarro, Aderbal de França, Erasmo Xavier, foram figuras célebres pela criatividade e inteligência.
Sabe-se que Natal é uma cidade litorânea, tendo como marco inicial o estuário do Rio Potengi. Embora haja muita controvérsia quanto a quem foi o fundador, a data e o nome da cidade, grande parte dos historiadores afirma que Natal foi fundada em 25 de dezembro de 1599. Vale lembrar que a colonização principal foi portuguesa, apesar dos holandeses terem se estabelecido ali entre 1633 a 1654, deixando um legado de exploração e massacre religioso (fonte: INAES – Instituto Natalense de Educação Superior).Somente no século XVIII foi que Natal começou adquirir visual urbano. Os primeiros bairros foram Cidade Alta e Ribeira.
Informações úteis:
Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão
Localizado no Largo Dom Bosco – Ribeira (Corredor Cultural).
Horário: 8h às 18h (de terça a sexta)
Fone: (84) 3232-8149 .
http://soltonacidade.com.br/guia/index.php
Por: Pan Horam Arte
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