06.05.11 05:00
Correr descalço pode? Parte II
Leia agora a segunda parte da história de Alexandre Holanda
*por Alexandre Holanda
“A intuição baseada em anos de uso de tênis especializados diz que sim. Mas uma pitada de pensamento científico e outra de atitude filosófica, ou seja, de dúvida do que é posto como correto ou dado, é capaz de considerar o contrário.
Fui atrás das evidências sobre essa contra-corrente. E ela existia de fato. McDougall apresenta algumas em seu Livro. Pela Internet é possível chegar a várias outras além de muitos relatos não científicos de quem experimentou tirar os tênis. Quase sempre narrações motivadas por lesões das mais variadas que deixaram corredores lúgubres e muitas vezes sem esperança de voltar a correr.
Um dos artigos mais importantes foi o do antropólogo e professor de biologia evolutiva Daniel Eric Lieberman de Harvard (Título original: Foot strike patterns and collision forces in habitually barefoot versus shod runners. Publicado na Revista Nature de Janeiro de 2010 – http://www.nature.com/nature/journal/v463/n7280/full/nature08723.html). Ele queria saber como e porque os seres humanos de outrora (diga-se de passagem, até aproximadamente 40 anos atrás) podiam correr sem os tênis modernos. Estudou os tipos de pisadas e as forças de impacto quando se está calçado ou descalço. Comparou quenianos e americanos, experientes e inexperientes, descalços e calçados. O resultado é surpreendente, pois descalço o chamado impacto transicional, aquele que acontece assim que tocamos com o pé no chão, é mínimo ou inexistente. Isso corresponde a pelo menos da metade do impacto que sofremos quando estamos calçados. Isso mesmo! Descalço o impacto imediato, assim que tocamos o pé no chão, é aproximadamente 7 vezes menor do que quando calçados. Uau! Agora, isso é devido a biomecânica de pousar o pé pela frente, ou pelo meio, ao invés de pousar pelo calcanhar que é o que acontece mais comumente com quem corre calçado. (http://www.barefootrunning.fas.harvard.edu/). Há um vídeo excelente da revista Nature com o próprio autor do estudo falando sobre isso e postado pela revista no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=7jrnj-7YKZE).
A hipótese agora era se isso causaria menos lesões em quem corre descalço. Ou, na verdade, as lesões entre corredores descalços seriam de outro tipo… Essas perguntas ainda não foram cientificamente respondidas. A estatística não é muito favorável aos corredores calçados, pois as estimativas são de que deles, 30-75% se lesionam.
É sabido que aproximadamente 75% dos corredores calçados pisam com o calcanhar e que a velocidade influencia no tipo de pisada. Quanto mais devagar, mais calcanhar pousando no chão durante as pisadas. Há ainda evidências que o gasto de energia na corrida descalço é 5% menor do que calçado. E isso pode ser importante para competidores.
Então se o impacto é menor, teremos menos lesões? Não há certeza ainda, mas agora a intuição virou ao avesso.
Além das evidências surgindo, há ainda mais algumas como o fortalecimento natural dos músculos do pé que os tênis impedem; o fortalecimento dos músculos da perna e da coxa já que a técnica de corrida muda e o recrutamento de fibras musculares novas ou não-utilizadas acontece; e o fato do contato real da sola do pé com o piso (seja uma pista de atletismo, areia, grama ou asfalto). Na verdade quanto mais duro for o piso mais eficiente seria correr descalço em comparação com calçado, tendo em vista a eficiência em transformar a energia do impacto que aconteceria no calcanhar calçado em energia rotacional nas articulações quando se pisa pela frente do pé. Além da sensação do chão que o corredor sentiria.”
(Continua amanhã)
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Comentários | 6 Comentários
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José Márcio 06.05.11 | 07:36
Sem contar outros quesitos, acho que precisa muita coragem para colocar os pés descalços no “excelente tapete” do asfalto de Fortaleza.
Diego Lopes 06.05.11 | 12:23
Assim como os tênis/calçados fazem com que percamos um dos principais ou o principal mecanismo de propriocepção que é o contato da sola dos pés direto no chão; os músculos da fáscia plantar se tornam frágeis e rígidos com o uso dos calçados, dentre outros…
Nuno Solano de Almeida 06.05.11 | 12:49
Informativo e muito relevante. Excelente reportagem.
Padinha 06.05.11 | 13:35
um dia eu gostaria de testar….venho lendo muito sobre isso, e acho que usar essa vibran (que ja me falaram que é tipo uma meia, que não influencia no movimento do pé, serve apenas para proteger um pouco o pe quanto a vidros e pedrinhas)…depois gostaria de mais informaçoes sobre esse calçado
Jéfferson Malveira - CORREFOR 06.05.11 | 14:05
O psicológico é impressionante!
Alexandre 08.05.11 | 22:37
José Márcio, eu fico imaginando como o Fernando Mineiro (corredor descalço) passou ao lado do cachorro morto com as visceras à mostra ali na Leste Oeste na Meia de Fortaleza.
Fico imaginando também encarar o rato morto – também com as vísceras para fora – na Abolição na corrida da Pague Menos. Tinha até um caranguejo morto na Av. Beira-mar… caranguejo só pode ser coisa daqui de Fortaleza mesmo.
Essas coisas são uma preocupação para quem corre descalço em corridas de rua sim. Questão de saúde e possibilidade de infecção.
Acho que um dos tipos de asfalto (chamado por muitos de chokito) pode lesionar a pele sim, além da temperatura elevada se a corrida passar das 9 ou 10h.
São questões muito pertinentes e que os 5Fingers e outros modelos (há vários fora do Brasil) estão preenchendo essas demandas.