Uma Madona para o Brasil

9788534930970O mito da Madona que se tornou a Padroeira do Brasil começou em 1717. Ela foi encontrada no rio Paraíba, que cruza a fronteira entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, por Domingos Alves Garcia e seu filho, João Alves. Além de pai e filho, também estava presente o tio de João, Felipe Pedroso, que era casado com a irmã de Domingos.

Lucy Penna

[Penna, Lucy. Aparecida do Brasil: A Madona Negra da abundância. São Paulo: Paulus, 2009, p. 17. – (Coleção Temas marianos).]

Aproveitando o ensejo da festa de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, a ser comemorada na próxima segunda-feira, 12 de outubro, quero apresentar hoje um dos livros mais singulares dentre as publicações dedicadas à mariologia. Refiro-me à obra Aparecida do Brasil: A Madona Negra da abundância, escrita por Lucy Coelho Penna. A autora é doutora em Psicologia Clínica, residindo em Goiânia onde fundou o Núcleo Junguiano do Cerrado.

O livro é dividido em duas partes. A primeira intitula-se O feminino sagrado e a segunda, Aparecida e a alma brasileira. Valendo-se de conceitos tomados de empréstimo à psicologia junguiana, a autora tece uma bela e peculiar análise de Nossa Senhora Aparecida, enfocando-a sob uma perspectiva arquetípica. Depois de situar historicamente o encontro da imagem pelos pescadores nas águas do rio Paraíba, Lucy Penna aborda aspectos míticos relacionados ao feminino, passando pela Madona Negra, figura arquetípica presente em diversas culturas.

A abordagem das hierofanias femininas culmina com uma análise de três arquétipos onipresentes na cultura brasileira. Escreve Lucy Penna no capítulo 5, As senhoras das águas:

Deusas das águas significam aspectos da alma brasileira. A intensidade das devoções às divindades femininas neste país mostra que elas têm uma função muito importante no “self” cultural. Escolhi duas representantes de cada uma das três principais vertentes da nossa cultura para abordar o intrigante simbolismo que mescla água com feminino. Da tradição indígena emerge a famosa Yara de longos cabelos pretos. Uma divindade proveniente de uma cultura ancestral, cujos restos cerâmicos foram encontrados na Ilha de Marajó, na Amazônia, também será associada com a seca e as enchentes. Conheceremos melhor a face de Aparecida e Nazaré, que abrigam sob seus mantos a maioria dos católicos. Pedimos licença para chamar Yemanjá e Oxum, deusas de dois continentes. Tecendo fios simbólicos entre essas grandes senhoras, vamos navegar nas águas doces de Oxum e nas ondas salgadas da sedutora Yemanjá. A malevolência de Yara escapa nas névoas do tempo. Nos redemoinhos da instigante deusa do Marajó ecoa o ronco da pororoca. A luz azul de Aparecida embala sonhos que aliviam as dores da alma e o colo úmido de Nazaré, a mãe da Amazônia regala de frescor o corpo suado do trabalho (p. 71).

A leitura de Aparecida do Brasil se converteu para mim em deleitoso navegar pelas fluidas e fluentes idéias disseminadas pela autora ao longo do livro. Leitores interessados por mitologia e psicologia junguiana, além daqueles que têm especial apreço por estudos tendo por escopo a nossa brasilidade, encontrarão na leitura desta obra instigantes motivos para reflexão. No meu caso particular, além de ser um apaixonado pelos três temas, fui agraciado por Deus com o colo úmido de uma certa Nazaré, no qual tenho encontrado, ao longo de vinte anos, conforto e acolhimento nos momentos em que somente a presença feminina pode socorrer as minhas carências e fragilidades masculinas.

Concluo com o trecho final do livro, no qual Lucy Penna se refere com maestria e rara beleza à figura de Nossa Senhora Aparecida:       

Aparecida emerge das águas como se tivesse passado por uma iniciação. Está transformada não apenas na aparência, como também no poder dos símbolos que expressa. Quando ali caiu, ou foi atirada, era apenas mais uma imagem barroca de Nossa Senhora. Emerge do seu mergulho como quem ressuscita. Vem para transformar a consciência de uma nação. Atrai

Basílica de Nossa Senhora Aparecida
Basílica de Nossa Senhora Aparecida

multidões. Instiga oposições. Mistura crenças e povos. Torna-se uma líder.

Aparecida, entretanto, não está confinada a uma igreja. (…) Em vez de propriedade de uma instituição, Aparecida é do Brasil. Sua força transcende a frágil e pequena aparência. Há muito mais em Aparecida do que a figura de terracota por trás do vidro blindado. Somos cocriadores de Aparecida junto com as águas do rio Paraíba. Somos parceiros de Deus e responsáveis pela implementação do projeto que Aparecida veio trazer à nação. As mãos das mulheres e dos homens que a tocaram, para manchar, golpear, e também para restaurar, são tão importantes quanto as palavras que usamos para cantar para ela. Aparecida existe na ousadia dos gestos anônimos de solidariedade. Ela se agiganta nos atos de amorosidade a cada minuto. Aparecida dentro de nós materializa a energia dos brasileiros e brasileiras como cocriadores com a Natureza para que germine o autêntico ouro do coração. A sabedoria no uso dos dons que recebemos de Deus (p. 206/207).

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