Um dicionário para bibliófilos

Anopistógrafo, colaturas, cul-de-lampe, facustol, ozalide, dente-de-cachorro, corandel. Desculpem-me aqueles que leem estas linhas em uma livraria em que os livros permanecem fechados em embalagens plásticas, ou, eventualmente, aqueles que as leem em uma reprodução eletrônica, mas apenas abrindo este Dicionário do Livro: Da Escrita ao Livro Eletrônico, poderão descobrir os sentidos exatos e específicos, relacionados ao mundo bibliográfico, dessas palavras e expressões.

José Mindlin

[ Faria, Maria Isabel Ribeiro de.; Pericão, Maria da Graça. Dicionário do Livro: Da Escrita ao Livro Eletrônico . – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008, trecho do texto da contracapa.]

Dia 15 de dezembro tinha sido a data marcada para a minha posse na Associação Brasileira de Bibliófilos, por ocasião do jantar anual de confraternização promovido pela agremiação no Ideal clube. Ansiei muito por este dia, pois ingressar num sodalício composto por amantes do livro era um sonho acalentado há muito tempo. Eis que agora, sem que eu jamais tivesse manifestado a quem quer que seja meu anseio, ele se realizaria.

Pela manhã me dirigi à Livraria Arte e Ciência com o objetivo de adquirir alguns livros sobre bibliofilia para assinalar a data, pois ali sempre encontro bons livros sobre o assunto. Dentre os escolhidos, gostaria de comentar aqui um que considero de particular interesse pelo fato de constituir uma espécie de compêndio particularmente valioso para aqueles que, como eu, têm no livro uma de suas maiores paixões.

Trata-se do “Dicionário do Livro: Da Escrita ao Livro Eletrônico”. A alentada obra foi escrita por duas autoras portuguesas, Maria Isabel Faria e Maria da Graça Pericão, ambas especialistas em catalogação e  conservação de livros.

Contando com nada menos que 22.957 entradas, uma das grandes virtudes da obra é  o cuidado que tiveram as autoras de, a par da inserção de neologismos e termos contemporâneos associados à temática do livro, terem tido o cuidado de  compilar também verbetes arcaicos ou em desuso, que corriam o risco de se perderem caso não fossem registrados, conforme afirmam:

“Examinando este dicionário, a primeira coisa que surpreende (e não fomos nós as menos surpresas!…) é o considerável número de palavras e expressões que é usado na arte gráfica e nas indústrias afins. Evidentemente que não temos a veleidade de ter recolhido todos os vocábulos de um universo tão extenso como este sem termos esquecido algum, mas pareceu-nos que seria uma perda irreparável deixar passar a oportunidade da sua divulgação, apesar da limitação que desde o início lhe reconhecemos, pela enorme quantidade e diversidade de domínios terminológicos que abarca. Também é provável que a terminologia recém-chegada e os neologismos todos os dias criados e ainda não fixados, até por esse fato, possam não ter sido consignados; todavia, no que respeita à terminologia mais antiga, caída em desuso e que corria o risco de desaparecer irremediavelmente, essa terá sido recolhida quase na totalidade. Aliás, a garantia do seu registro foi um dos nossos objetivos primordiais ao concebermos esta obra (p. 14).

Além disso, em virtude da complexidade do tema, a obra lança mão, inclusive, de vocábulos de outras áreas, dentre as quais podem ser citadas a arquitetura e a liturgia. A propósito, informam as autoras: “Uma questão que poderá deixar o leitor perplexo é a de aparecerem inseridos numa obra desta natureza termos arquitetônicos ou litúrgicos, por exemplo. Tal circunstância poderá, à primeira vista, levar a pensar numa seleção terminológica incorreta ou feita de uma forma apressada, o que efetivamente não aconteceu. A inserção desses termos neste texto justifica-se pelo fato de, no tratamento técnico do livro antigo ilustrado, por exemplo, poder haver necessidade de descrever portadas de estilo arquitetônico, referir gravuras com inscrições, etc., o que traz consigo o recurso obrigatório ao uso dessa terminologia. No que respeita aos termos litúrgicos (orações, diferentes partes do ofício divino, horas canônicas, partes da Bíblia) e a outros ligados à ambiência religiosa ou a termos musicais (libreto, notação musical, partitura e diversos gêneros de música), a sua inclusão fica a dever-se à circunstância de tais informações serem necessárias a quem tem a seu cargo a descrição de códices iluminados ou outros ou o tratamento técnico de fundos bibliográficos musicais antigos. Incluímos ainda os aspectos da composição, edição e os da encadernação, dado que esta constitui o último estágio da montagem do livro tradicional como unidade física (p. 16).

Em que pese o título que dei a esta resenha, não se pense, entretanto, que o Dicionário do Livro interesse apenas a bibliófilos: “Uma obra como esta destina-se a um universo muito vasto. Ela dirige-se, poderá dizer-se, a quantos, de uma ou outra forma, intervêm no percurso do livro, tais como: fabricantes de papel, autores, tipógrafos, impressores, encadernadores, ilustradores, designers, leitores, etc.; bibliotecários, arquivistas, documentalistas e demais técnicos que trabalham com informação; bibliófilos, alfarrabistas, pessoas e entidades ligadas à comercialização do livro antigo ou moderno; pesquisadores; pessoas que trabalham no mundo dos negócios da informação; estudantes de Bibliografia, Biblioteconomia, Ciências Documentais, Ciências da Informação, Arquivologia, etc.; curiosos, que a compulsarão como recorrem a qualquer outro dicionário técnico e quantos, em suma, estão ligados à escrita e à ciência da informação registrada em suporte papel ou eletrônico” (p. 15).

Inicialmente publicado em Portugal, o “Dicionário do Livro: da Escrita ao Livro Eletrônico”, editado no Brasil pela Editora da Universidade de São Paulo, é, segundo informa José Mindlin, provavelmente o único existente em língua portuguesa. Uma obra que os aficionados pelo livro compulsarão com imenso prazer.

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