E quando a Ritalina não funciona mais?

Antes e depois de aprender a meditar
Antes e depois de aprender a meditar

 

– Vou ser jubilado na UFMG. Perdi todos os pontos que poderia perder. Acabou tudo.

 

Wilson demorara quatro anos para passar no vestibular de engenharia elétrica. De família simples, formou-se em técnico em eletrônica e começou a peleja para entrar na federal.

 

Estava arrasado.

 

– Acabou tudo.

 

Contou com detalhes os muitos anos de luta e frustração com o tão difícil curso. Contou também de sua dificuldade de estudar. Ao final do relato perguntei:

 

– Você já avaliou se tem TDAH?

 

– O que?

 

– TDAH. Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade.

 

– O que é isso?

 

– Você tem muitas características indicativas deste transtorno. E se tiver esse problema, sua dificuldade para se formar pode ser compreendida de uma outra forma.

 

– Agora é tarde…

 

– Talvez não seja. Vamos fazer uma avaliação? E se houver indicativos fortes, sugiro pedir uma avaliação psiquiátrica. Se o psiquiatra confirmar, pedimos pra ele um laudo, eu faço outro laudo, você os leva a UFMG e pede revisão do seu processo, para que você possa tentar o curso agora devidamente tratado.

 

Assim foi feito. O colegiado suspendeu o processo e Wilson teve uma segunda chance.

 

Ano e meio depois, faltando dois semestres para concluir o curso, ele disse:

 

– Não to conseguindo estudar de novo. Mesmo tomando Ritalina.

 

Voltou ao médico, que aumentou a dose. Não funcionou. Ficou ainda mais ansioso.

 

– A Ritalina perdeu o efeito. O médico falou que não posso mais tomar. E agora? Faltam matérias bem difíceis e o trabalho de conclusão do curso. Vou ser jubilado de novo?!?

 

– Podemos tentar outros caminhos. Sugiro que você faça um treinamento de Vipassana.

 

– O que é isso?

 

– É uma das técnicas mais aprofundadas de meditação. É a Ferrari das meditações.

 

– Mas você já tentou me ensinar a meditar e eu não consegui.

 

– É. Mas Vipassana é mais radical, mais forte. E agora você tem uma grande motivação para tentar. Veja o site. Normalmente é nas férias, dez dias num sitio meditando dez horas por dia, sem celular, tv, praticamente sem conversar. Você vai desenvolver a habilidade de controlar muito melhor sua ansiedade e, principalmente, no seu caso, a capacidade de focar sua atenção, conscientemente, no que você quiser. É uma alternativa para você conseguir estudar no ano que vem. E vem com um tanto de bônus para a sua vida que você nem imagina.

 

– Mas eu não tenho dinheiro…

 

– Não tem problema. No mundo inteiro é feito da mesma forma. No último dia quem pode contribuir para a realização do próximo encontro deixa um valor qualquer em cima de uma mesa. Quem não pode não precisa deixar nada. Quem não gostou, também não.

 

Wilson se matriculou e seu curso coincidiu com minhas férias. Na sua primeira consulta, assim que voltei de viagem, eu não sabia nem se ele conseguira terminar os dez dias, sem abandonar o processo.

 

Quando abri a porta do consultório a expressão do seu olhar respondia minhas dúvidas. Me lembrei da expressão de pessoas depois de aprenderem a meditar, exposta em fotos em outra postagem.

 

http://blog.opovo.com.br/psicologiadocotidiano/meditacao-vamos-praticar/.

 

Antes seu olhar tinha algo de tenso, uma ansiedade quase que permanente, uma dor guardada visível a quem o observava com cuidado. Agora era quase que completamente tranquilo, sereno, relaxado.

 

– E aí? Concluiu a Vipassana? Gostou?

 

– Concluí. Adorei. Maravilhoso. Mudou minha vida.

 

Das três pessoas que conheço que concluíram a Vipassana ele era a segunda que dizia ter mudado de vida. A restante foi um pouco mais enfática e disse “salvou minha vida.”

 

– Oitenta pessoas participaram. Só uma desistiu porque não conseguiu ficar sem fumar. Maravilhoso. Mudou minha vida.

 

Mês passado Wilson mandou uma mensagem, marcando nova consulta. Havíamos suspendido a terapia alguns meses atrás, pois ele estava bem. Na consulta contou que formou-se. Está com alguma angustia, frente a perspectiva de conseguir seu primeiro emprego de engenheiro eletricista, numa economia em crise como a do nosso país.

 

Mas aquele olhar permanece em seu rosto.

Nello Rangel

Sobre Nello Rangel

Psicólogo atuante há mais de 20 anos, com experiência em clínica e desenvolvimento de pessoas. Formação adicional em artes plásticas. Professor de pintura e teoria da cor.

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