Padre Marcelo Rossi em Portugal. “Se uma mulher casasse comigo, nem dois dias me aguentava”

O padre brasileiro está em Portugal a apresentar o seu livro “Ágape” e falou ao i da sua vocação e das últimas polémicas da Igreja Católica

Padre Marcelo Rossi, em Portugal
O Padre Marcelo Rossi aterrou em Lisboa, esta semana, para promover o livro “Ágape”, que já vendeu mais de sete milhões de exemplares no Brasil. Chegou às 5h30 da manhã e a primeira entrevista com jornalistas estava marcada para o meio-dia. Mesmo assim, o padre brasileiro não foi à cama e arrastou o agente para uma caminhada de duas horas à beira-Tejo. Porque, garante, “o segredo do equilíbrio passa pelo exercício físico”. Em 2010, Marcelo Rossi sofreu um acidente e ficou numa cadeira de rodas durante meses. Agora diz que nesse período de profunda solidão descobriu o “ágape” – que é o “verdadeiro amor de Deus”. Recuperou, mas há quem diga que está mais introvertido. Na rua, faz questão de usar sempre batina ou cabeção – para evitar o assédio das mulheres. Já foi pedido em casamento, mas garante que é celibatário “convicto” e que nenhuma mulher conseguiria ficar com ele “mais do que dois dias”. O padre brasileiro começou como professor de Educação Física, coleccionou namoradas e era obcecado por musculação. Até que um dia se converteu. Desses tempos, ficou-lhe o gosto pelos filmes de acção: “Até é pecado, mas eu assumo: gosto de filmes violentos”, confessa.

O que é o “Ágape”, afinal?
“Ágape” significa “amor” em grego. E, infelizmente, hoje as pessoas não estão vivendo o verdadeiro amor. Escrevi o livro num espaço de dois meses e meio, depois de ter sofrido um acidente e ter ficado numa cadeira de rodas. Nesse período pensei muito sobre a minha vocação e sobre o que é o verdadeiro amor, o amor incondicional de Deus. Comecei a perceber que as famílias, a televisão, os meios de comunicação, as redes sociais não estão levando ágape. Estão levando eros, que é o amor egoísta.

E porque é que as pessoas não estão a amar verdadeiramente?
Deus colocou-nos dois mandamentos essenciais: amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. E muitas pessoas, hoje, não se amam a si mesmas.

E porque é que isso acontece?
Porque estão no eros. No amor mesquinho, superficial e egoísta. O amor de posse não é o amor verdadeiro: é paixão, e as paixões passam. A pessoa precisa de se descobrir e de descobrir que há um deus que a ama incondicionalmente. O mundo tornou-se supérfluo. As pessoas pensam demasiado em si, estão cada vez mais fechadas, cercadas por portas, com medo de amar ou de serem assaltadas. Só o ágape, o amor verdadeiro, pode fazer com que a pessoa se encontre.

Esteve parado vários meses. Foi difícil?
Foi horrível. No início houve uma fase de depressão. Ganhei uma nova visão do deficiente: é preciso ajuda para tudo. Até para ir à casa de banho. Foi aí que procurei a auto-ajuda na palavra de Deus. Comecei a escrever as minhas reflexões e orações, mas longe de imaginar que daria um livro.

Sentiu-se sozinho nessa altura?
Sim, mas foi até bom. Foi uma solidão positiva, apesar de ter sido mau no começo. Mas quando se ultrapassam os problemas com o ágape – o amor incondicional de Deus –, tudo se torna simples. E sai-se fortificado.

Tem recebido ágape da Igreja?
Houve um incidente em 2007, quando o Papa foi a São Paulo, que foi público. A arquidiocese boicotou a minha actuação. Mandaram-me cantar às cinco da manhã, quando não havia ninguém no recinto, com um frio que não tem noção… Cantei de capote, para ninguém. A celebração só começava às 10h.

Porque é que fizeram isso?
Porque no Brasil a teologia da libertação ainda é muito forte. Eles não gostam de mim. Eu acredito numa igreja una, mas que é diversa. Já eles… são muito uniformes. Quando se trabalha com mentes fechadas, é muito complicado. Mas o Papa, mais tarde, deu-me o prémio de evangelizador moderno.

O que é um evangelizador moderno?
É o que eu estou a fazer: evangelizar em todos os meios de comunicação. No Facebook, no Twitter, a rezar missas pela internet. Hoje, se não estiver na net, não está conectado com as pessoas. Se Jesus vivesse no nosso tempo, estaria na rede social, no Facebook.

Como é que a Renovação Carismática é encarada pelos bispos brasileiros?
Eu nasci dentro do movimento da Renovação, mas não sou padre carismático, sou padre da Igreja – que dentro de si tem vários movimentos, como a Opus Dei ou a Renovação Carismática.

O movimento carismático tem pontos em comum com as igrejas evangélicas?
Não. Na verdade, copiam-nos. Deram uma copiadinha. Sobretudo os pentecostais, que usam a palavra e os milagres para atrair a pessoa e depois pedir dinheiro. É complicado.

Como se relaciona com os líderes das igrejas evangélicas no Brasil?
Há evangélicos e evangélicos. A IURD, por exemplo, não é evangélica, é uma firma. E agora os pastores andam a falar mal uns dos outros, estão a dividir-se. Já a Igreja Católica existe e persiste, há séculos, mesmo sendo santa e pecadora.

Por falar nisso, têm vindo a público disputas de poder na Santa Sé. O que é que se passa com a Igreja?
A Igreja também é humana e, mesmo em Roma, adoram fofocar. O que mais existe neste mundo senão fofoca?

Mesmo dentro da Igreja?
Em todo o lugar. Tenho um amigo padre que está com cancro e pediu ao bispo afastamento para poder fazer um tratamento. Os outros padres já andam na fofoca e inventaram mil coisas, dizendo que o bispo o afastou por razões horríveis. É muita maldade.

Espera-se demasiada santidade dos homens da Igreja?
Todos somos chamados à santidade. Mas se eu, enquanto padre, ajudar 99 vezes uma pessoa e houver um dia em que não possa, porque não estou bem, essa pessoa vai esquecer as 99 vezes em que a ajudei. O ser humano é mesquinho e o poder do ágape é abrir horizontes.

Dizem que depois do acidente ficou mais introspectivo. É verdade?
Não. Cresci mais, só isso. As missas que celebro continuam alegres, apesar de já não poder saltar como antes. Nestes 17 anos de padre cresci muito. Precisamos de estar abertos ao crescimento.

Mesmo antes do acidente houve um momento – e isto foi público – em que quebrou e chegou a tomar medicação…
Não é verdade. Escreveu-se no Brasil que entrei em depressão, mas é mentira. Os únicos remédios que tomei foi devido ao acidente. Mas o acidente foi uma coisa boa. Visitei mais de 50 cidades a assinar livros, tive contacto com o povo. Antes era o povo que tinha contacto comigo. Cresci. Passaram por mim mais de 500 mil pessoas.

É na dor que se encontra Deus?
Infelizmente, e eu sou um desses casos, é na dor que se encontra Deus. Mas ainda bem. Hoje eu amo o que faço.

Nunca pôs em causa a sua vocação?
Jamais. Até porque já estive desse lado.

Mas quando se tem poder, fama e dinheiro, a fé pode ser tentada, ou não?
Eu previno-me contra as tentações. Por exemplo, o dinheiro dos sete milhões de livros e dos mais de 12 milhões de discos que vendi foi canalizado para a construção do maior santuário do mundo, com capacidade para 100 mil pessoas, em São Paulo. Está quase a ser inaugurado. E já fechei contratos na China e na Coreia para a venda do livro. Todo o dinheiro será para concluir o santuário. Embora eu não vá à China apresentar o livro…

Porque não?
Tanto tempo dentro de um avião? Nem pensar. Há pouco disse que não tomo remédios, mas é mentira: tomo quando vou andar de avião, peço sempre qualquer coisa ao meu médico para apagar nas viagens. E, em breve, o livro também chegará aos Estados Unidos.

O mediatismo não mexe com a sua espiritualidade?
Não, faço duas coisas. A primeira é zelar pela minha oração. Quando acordo, celebro logo missa. Depois, o exercício físico é fundamental para o equilíbrio da mente. Ter uma passadeira em casa é fundamental, até porque no Brasil não posso sair à rua, porque toda a gente quer tirar fotos comigo, é uma loucura. E desde que inventaram os telemóveis com câmara é terrível.

Mesmo assim, faz questão de usar sempre batina?
Sempre.

Afasta o assédio das mulheres?
Também. E, além disso, eu sei que não tenho ar de padre. A batina ou o cabeção são uma identidade que um padre não pode perder. Embora não seja a roupa que faz o padre, mas sim a santidade da sua vida.

É muito assediado?
Até já me pediram em casamento, uma morena muito bonita. Mas eu acho que era só para testar (risos). Eu estou muito seguro da minha missão, sabe? Mas o principal assédio é outro: as pessoas querem sempre tocar-me, acham que eu faço milagres.

É verdade que, se tocar na barriga de uma grávida, adivinha o sexo da criança e que consegue saber os pecados de uma pessoa olhando para ela?
É verdade. Tem a ver com a Renovação Carismática e acontece só para ajudar os outros. Mas eu não procuro isso, acontece. Às vezes ponho a mão na cabeça de uma pessoa e, se vir alguma coisa que sinta que a pessoa deva saber, aviso. Mas não vejo nada de assustador. Muitas vezes, a pessoa está na confissão e está a enrolar-me, e eu sei logo qual é o problema e toco no assunto. Há uma série, não sei se já passou em Portugal, chamada “Dead Zone”. Comigo acontece exactamente como na série.

Não tem dias em que não lhe apetece ser outra pessoal qualquer?
Com certeza. Não é fácil, a minha vida. No Brasil tiraram-me uma coisa muito importante, que é a minha privacidade. Não consigo ir a um restaurante com amigos, por exemplo.

Gosta de boa comida?
Ah, claro, quem é que não gosta? Especialmente pasta, porque a minha família paterna é italiana. E, por acaso, a materna é portuguesa. Os meus bisavós viajaram para o Brasil para trabalhar na plantação de café e na instalação de energia eléctrica. De Portugal herdei o gosto pelo bacalhau (risos). Do lado italiano, a mania de falar com muitos gestos.

É formado em Educação Física…
Sim. Fui dono de um ginásio e tudo, mas quando acabei o curso comecei a sentir a vocação. Desde os 16 anos que não pisava numa igreja. Era narcisista demais. Fazia musculação, vivia obcecado com o corpo, praticava artes marciais. Achava que queria, podia e mandava. Era corpulento, tinha várias namoradas. Aí um primo meu faleceu numa morte estúpida, de acidente, e logo a seguir morreu a minha tia, com cancro. Comecei a pensar no futuro. Até aí, eu ficava só no presente e vivia sem consequências. Mudei.

E os seus pais, o que disseram?
A minha mãe chorou muito, mas aceitou. Com o meu pai foi mais difícil. Não caía bem para a família ter um filho padre.

Por ser uma família rica?
O meu pai era o gerente geral de um banco. Éramos classe média-alta, sim. Quando fiz 18 anos, ganhei logo um Passat.

Como é que se abandona uma vida tão luxuosa de repente?
Ágape.

Mas às vezes não pensa nessas coisas? Até porque já as viveu…
Mas o que recebi foi 20 vezes mais. Até financeiramente. Se não desse tudo o que ganho, seria milionário.

E teve várias namoradas?
Ui… Várias.

Foi difícil passar a viver sem sexo?
Eu sou celibatário convicto. Já vivo assim há quase 20 anos. É uma vida de coração. Se você buscar as coisas, e vir filmes pornográficos, é óbvio que vai acabar se sujando. Mas se, pelo contrário, olhar as pessoas com carinho e amor verdadeiro, nem pensa nisso. E mesmo que os padres pudessem casar, coitada da mulher que estivesse comigo. Ia sofrer muito e nem dois dias me aguentava.

Porquê?
Porque a minha vida é louca e uma correria. Trabalho para Jesus a toda a hora e nenhuma mulher iria entender isso.

Graciano Coutinho - Jornalista

Sobre Graciano Coutinho - Jornalista

A comunicação é a arma mais poderosa do nosso tempo, formando um triangulo ideal-mental, em cujo ápice se encontram os três veículos principais da informação, da mensagem e da mobilização de massas: o Jornal, a Rádio e a Televisão. Na base, o Livro, o Cinema e o Teatro, estes três últimos, porém, com muito menor raio de ação e com reflexos não instantâneos na massa amorfa das multidões, sobre cuja sensibilidade atua mais com o “imediato” da noticia e da informação, que o complexo elaborado dos outros instrumentos intelectuais de expressão e de comunicação. ................................................ Essas considerações, de caráter filosófico, aliás, primário, vêm a propósito de um português que se tem destacado na Colônia e nos meios luso-brasileiros por uma atividade constante no jornalismo, na radiofonia e com incidência também na televisão, sempre dando caráter construtivo à sua missão de critica não apaixonada, de informação correta, na ação não divisionária, pois seu objetivo profissional tem o duplo sentido de INFORMAR e de UNIR. Graciano Coutinho, tem sido, assim, um elemento de fraternização e integração, pela inteligência, pela sinceridade e, sobretudo, pela veracidade com que informa e serve aos interesses e ideais da Comunidade Portuguesa e da Família Luso-Brasileira. Muitos e bons têm sido os serviços que presta à Comunidade, sem empáfia e sem carisma de nenhuma espécie. Entra por tudo isso neste friso de pedreiros-intelectuais, dedicados à construção de nossa Comunidade de língua Portuguesa. Graciano Coutinho nasceu em Rocas do Vouga, Concelho de Sever do Vouga, Distrito de Aveiro, filho de Maria Antonia Coutinho. É Jornalista profissional. Desde que chegou ao Brasil, em 9 de maio de l959, teve sempre participação ativa no meio jornalistico, social e associativo.

Um comentário sobre “Padre Marcelo Rossi em Portugal. “Se uma mulher casasse comigo, nem dois dias me aguentava”

  1. Sou leitor assíduo do excelente Graciano Coutinho. O texto é muito interessante, e ajuda a conhecer melhor essa figura famosa que faz um trabalho maravilhoso e benemérito, mas faço algumas observações: 1ª- Pelo formato, trata-se de uma entrevista, mas, embora implícito, não fica claro se GC é o entrevistador. 2ª- Aparentemente o repórter adulterou algumas falas do entrevistado, talvez para adaptar ao português de Portugal. Por exemplo, duvido que Marcelo Rossi tenha dito “cancro” em vez de “câncer”, “aktuação” em lugar de “atuação”, “colekcionou” em vez de “colecionou” (usei o k para enfatisar a pronúncia). Ora, como ficamos em face do Acordo ortográfico? Também não acredito que ele tenha falado “ir à casa de banho”. O que é isso, para um leitor brasileiro? 3ª- Aparecem ainda algumas expressões esquisitas, esranhas para os leitores brasileiros, mesmo para os luso-brasileiros, tais como: “o padre brasileiro não foi à cama”, e outras.
    Ótimo, o “Portugal sem passaporte”. Poderá contribuir para que o corrente “Ano de Portugal no Brasil”, atinja os objetivos colimados.

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