Portugal sem passaporte

01.02.12 10:18

Nova Rede da AICEP Reforça Exportações e Internacionalização das Empresas

Por: Graciano Coutinho - Jornalista | Comentários: Comente

 

 

 

Pedro Reis Presidente da AICEP: "Nova Rede da AICEP Reforça Exportações e Internacionalização das Empresas"

O papel da AICEP na promoção das exportações, na captação de investimento e na internacionalização da economia portuguesa, a integração da Agência no MNE e a sua articulação com a nova diplomacia económica, a gestão renovada da imagem do país, bem como a aposta em novos mercados e na competitividade empresarial, são alguns dos temas focados nesta entrevista de Pedro Reis, presidente da aicep Portugal Global.

 Com a integração da AICEP no âmbito do MNE, qual será o seu papel estratégico em termos de promoção da exportação, de captação de investimento e de internacionalização?

 A meu ver, a AICEP ganha uma nova dinâmica com esta articulação, pois no âmbito da rede diplomática passa a estar, não em 40 mercados, mas em cerca de 80, abrangendo todos os países em que existem representações diplomáticas e consulares, beneficiando ainda do facto de muitos embaixadores estarem acreditados em mais do que um país. A dimensão económica da diplomacia portuguesa sai, por isso, reforçada com este novo protagonismo da AICEP, à qual continuam atribuídos os papéis estratégicos nas áreas da promoção da exportação, da captação de investimento e da internacionalização. Naturalmente que com a transferência da tutela da AICEP para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, esta continuará a articular-se estreitamente com o Ministério da Economia, e também com outros ministérios e entidades públicas. 

 De que modo se vai articular a AICEP no âmbito da nova diplomacia económica e com outras redes que actuam no terreno, como a do MNE e a do Turismo?

 Os embaixadores irão receber uma carta de missão em que se explica também o papel coordenador que a AICEP terá em matéria económica e comercial. Os embaixadores serão funcionalmente responsáveis pelas delegações da Agência no estrangeiro mas, por seu lado, deverão cumprir um plano estratégico elaborado em conjunto com esta, com objectivos concretos e métricas de avaliação bem definidas para que se possam aferir os resultados obtidos, recebendo instruções da AICEP quanto ao plano de trabalhos definido. Neste sentido, a AICEP passará, muito em breve, a comunicar directamente com a rede diplomática e consular, que orientará em matéria económica e comercial. Na minha perspectiva o que muda fundamentalmente para melhor é a estratégia de reforço, consolidação e agilização da articulação que já existia no terreno entre a AICEP e as Embaixadas, uma realidade que tanto os nossos delegados no exterior como os nossos embaixadores confirmam estar a funcionar bem. Há que dar mais corpo a isso, institucionalizando os canais de comunicação e definindo claramente as responsabilidades.

Qual o papel da Agência na promoção da imagem de Portugal e das suas marcas no exterior?

A definição e promoção de uma imagem integrada e estável do país no exterior, a chamada “Marca Portugal”, é um dos grandes desafios que temos pela frente este ano, dado que esta tem que ser necessariamente o espelho do ADN do país e dos seus factores de diferenciação, caracterizados por séculos de história e cultura e com todos os factores de atractividade que nos distinguem dos outros povos e nações. Contudo, essa “Marca Portugal” deve resultar de um esforço de concertação de perspectivas diversas, especialmente ao nível da AICEP e do Turismo de Portugal, que se traduza numa mensagem estável e reconhecida por todos os quadrantes políticos, económicos e sociais relevantes da nossa sociedade. Portugal precisa de recuperar a sua credibilidade externa e a sua boa imagem internacional. Há, pois, que começar por “desconstruir” o valor negativo frequentemente associado à marca Portugal.

 Quais são as suas previsões, no contexto de um 2012 difícil, considerando a dinâmica das áreas de actuação da AICEP?

Em termos de dinâmica da AICEP, há duas observações a fazer. A primeira, diz respeito à actual equipa directiva, que está a olhar cuidadosamente para o mapa da rede externa, analisando as necessidades de serviço e os objectivos geo-estratégicos e económicos, conjugando-os com a nova realidade do movimento diplomático anunciado há dias, em articulação com os mercados em que queremos apostar fortemente este ano. Estamos ainda a elaborar conceitos estratégicos e seguidamente vamos definir os perfis dos mercados em que é imperativo actuar. O mundo mudou muito neste último ano e coloca-nos sem dúvida novos desafios. A par dos mercados consolidados, há que definir um mapa de novas oportunidades de negócio para as empresas e, nesta medida, a AICEP tem que estar não só onde já estão as empresas portuguesas, como apoiar, com todos os meios ao seu alcance, o desejo, por parte destas, de descobrir novos mercados.

 O que é que se pode esperar da evolução da economia portuguesa no actual contexto europeu e mundial e em função dos desafios que esta enfrenta este ano?

Sabemos que as perspectivas para 2012 são exigentes, mas tenho a certeza de que a situação transitória que vivemos, fruto da austeridade decorrente do plano de ajustamento implementado pelo Governo, trará resultados benéficos e será positivo para o futuro do país. A situação económica, transitória, não nos deve desencorajar, devendo antes servir de incentivo ao esforço de superação das dificuldades e levar-nos a dar o melhor de nós próprios em prol de Portugal nesta hora decisiva para o nosso futuro.

Considerando a experiência e o know-how da AICEP em matéria de mercados, dada a estreita relação que esta agência tem tido com eles, como é que esta contribuirá para potenciar novas oportunidades de negócio? Quais são os mercados considerados prioritários?

 Os mercados prioritários são, antes de mais, aqueles onde já estão as empresas portuguesas. Em relação a potenciar novas oportunidades de negócios, esse é justamente o core business da AICEP no exterior, que tem por missão central conhecer aprofundadamente os mercados, bem como os principais sectores de actividade empresarial e todos os procedimentos administrativos e regulamentares que tenham a ver com a entrada de serviços ou bens portugueses nesses mercados. E, claro está, a Agência tem a obrigação de colocar essa intelligence com valor acrescentado ao serviço da exportação e da internacionalização das nossas empresas.

 Nesta medida, o que é que está a mudar na geografia das exportações portuguesas e como é que se conquistam e consolidam novos mercados estratégicos?

 Tenho sublinhado em diferentes ocasiões que as nossas exportações estão excessivamente dependentes do mercado europeu, o que agora nos obriga ao reforço da estratégia de diversificação de mercados levada a cabo pela AICEP. Essa diversificação tem que centrar-se na procura de mercados pujantes e em que se verifiquem taxas de crescimento elevadas. Contudo, se a AICEP pode contribuir para identificar tais mercados, apoiando com esse conhecimento e outros meios ao seu alcance as empresas, não lhe compete, no entanto, decidir quais os países para onde as empresas devem investir, decisão que tem que ver com as opções estratégicas de cada empresa acima de tudo. Tanto mais que há mercados que são uma boa aposta para um conjunto relevante de sectores, mas há também outros que só fazem sentido para um conjunto reduzido. Este conhecimento dos mercados torna-se essencial sobretudo para as apostas das pequenas e médias empresas, com menores recursos e dimensão.

Em matéria de captação de investimento estrangeiro, qual será a actuação estratégica a seguir neste domínio e quais são os factores que, quanto a si, tornam Portugal claramente mais atractivo?

 Há que encontrar uma narrativa sólida, coerente e estável para os negócios com Portugal, que permita que o nosso país esteja permanentemente na mira dos investidores internacionais, apesar das dificuldades conjunturais que possa atravessar. A actuação e a eficácia estratégicas, em matéria de atracção de investimento, serão a partir de agora potenciadas pelo elevado nível de articulação institucional entre a AICEP, o ministério da tutela e outros ministérios e organismos do Estado, procurando eliminar custos de contexto e promovendo a criação das melhores condições para o investimento. Portugal oferece boas condições de atractividade para além dos benefícios fiscais de que alguns investimentos podem beneficiar: membro pleno da União Europeia, com ligações profundas a África e ao Brasil e estabilidade política, Portugal é um país seguro, que possui uma excelente rede de infra-estruturas, bem como de óptimos acessos viários, ferroviários, fluviais e aéreos, de portos e logística portuária e de comunicações. Dotado de mão-de-obra qualificada e motivada, de bons centros de formação, de investigação científica e tecnológica, assim como de universidades reconhecidas internacionalmente e com centros de competências que são referência nas mais diversas áreas, Portugal proporciona ao investidor exigente além da excelência, inovação e competitividade, todos os meios para o desenvolvimento do seu negócio. 

Quais são as características, consideradas incontornáveis, de uma empresa exportadora, ou que o queira ser, no actual contexto da economia e da concorrência globais, seja ela uma grande empresa ou uma PME?

 Dados os actuais desafios do contexto nacional e internacional, o país precisa de exportar mais, através de mais empresas, de vender mais e melhores produtos ao exterior, com mais valor acrescentado, diversificando os seus mercados. Nesta medida, a exportação de bens e serviços assume-se como estratégica para o país e como um passo fundamental para a internacionalização da economia portuguesa. Mas, para que tal aconteça, é necessário que as empresas ganhem capacidade de concorrer globalmente. E isso exige planeamento de recursos e consistência empresarial, devendo esta pautar-se por uma correcta avaliação do potencial exportador e competitivo da empresa, por uma avaliação cuidada de quais os factores decisivos, como uma estratégia de internacionalização (que passa por uma análise do mercado, da concorrência, dos potenciais clientes e dos pontos fracos e fortes da estrutura da empresa), assim como a formação de quadros superiores e intermédios e mão-de-obra especializada e motivada, ou acesso a financiamento e garantias. É igualmente incontornável a aposta em marcas próprias e na diferenciação do serviço prestado ao cliente, bem como no marketing, no design e na implementação de programas de promoção adaptados aos mercados alvo. 

 No processo de exportação e internacionalização, quais as vantagens e desvantagens de ser PME?

No passado, a dimensão, pequena ou média, de uma empresa poderia constituir um obstáculo à sua actividade exportadora. Mas hoje as PME com assumida vocação exportadora, têm vindo a melhorar a sua capacidade para satisfazer as expectativas do cliente final e neste sentido estão mais bem apetrechadas a vários níveis: têm cada vez mais uma boa relação qualidade/preço dos produtos, um adequado know-how e flexibilidade produtiva, diversidade de oferta qualificada, uma crescente capacidade de resposta técnica às exigências do consumidor externo. Por outro lado, encontram-se bem equipadas em termos de inovação e desenvolvimento tecnológico (I&D), apostam em altos padrões de diferenciação e qualidade, na criação e no aproveitamento de economias de escala e de gama. A certificação da qualidade dos produtos, que permite fazer a diferença, e dos processos de gestão, são hoje factores determinantes. Ou seja, a chave não está na dimensão da empresa mas sim na sua capacidade para vingar nos mercados externos.

 Pode fazer um resumo, que fique na memória dos leitores, dos factores de sucesso que devem caracterizar uma empresa exportadora?

 Para uma grande empresa ou para uma PME ganhar o desafio da exportação, mesmo considerando que já domina os factores de competitividade mais importantes (inovação, qualidade, design, marca, imagem e marketing), esta deve reunir outros factores de sucesso, entre os quais um bom conhecimento dos mercados, ter uma clara percepção das áreas em que é fundamental ter excelência e deter vantagens competitivas face à concorrência, desenvolver capacidades de fazer/produzir diferente, transmitindo valor acrescentado ao cliente e afirmando uma imagem de solidez empresarial, bem como uma base financeira sólida para se abalançar para novos mercados. Ou seja: antes de uma empresa avançar para um processo de exportação regular, deve reunir condições de viabilidade estratégica, económica, financeira e técnica que permitam a expansão dos negócios, com sucesso, na economia global.

Na presente conjuntura da economia e com a crescente dificuldade dos recém-licenciados conseguirem emprego, o programa INOV Contacto – um programa que conquistou a popularidade junto do tecido empresarial – atrai cada vez mais jovens. O que está previsto nesta matéria?

 Uma das primeiras decisões que esta administração tomou quando tomou posse foi a de desbloquear o processo do INOV Contacto que se encontrava parado. Deu-se já início ao processo de escolha dos 250 jovens que iniciarão o seu estágio no próximo mês de Abril. É uma iniciativa para continuar, mas vamos avaliar em que moldes e com que modelo de financiamento. Admito que, no futuro, uma pequena componente da retribuição dos estagiários possa ser suportada pelas empresas, de forma a podermos continuar a assegurar a viabilidade do programa.

 AICEP

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