Plínio Bortolotti

09.02.12 00:05

Pinheirinho: “A justiça perfeita”

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: Comente

Meu artigo publicado na edição de 8/2/2012, no O POVO.

Foto de Drawlio Joca, do ensaio "Centro Invisível". Veja mais em http://www.flickr.com/photos/drawliojoca (clique para ampliar)

A justiça perfeita
Plínio Bortolotti

Comecei a ler “A ideia de justiça”, de Amartya Sen. Na introdução ele expõe as linhas gerais do que tratará no livro: “O que nos move [...] não é a compreensão de que o mundo é privado de uma justiça completa – coisa que poucos de nós esperamos –, mas a de que à nossa volta existem injustiças claramente remediáveis que queremos eliminar”.

De outro modo: “O objetivo é esclarecer como podemos proceder para enfrentar questões sobre a melhoria da justiça e a remoção da injustiça, em vez de oferecer soluções para questões sobre a natureza da justiça perfeita”.

Lembrei do livro ao ler matéria na Folha de S.Paulo (5/2/2012), na qual, segundo o jornal, o advogado Toninho Pereira, ligado ao PSTU, considera uma vitória o que aconteceu no bairro Pinheirinho (São José dos Campos, SP), por terem eles conseguido “unificar o movimento operário e camponês”. Como se sabe, sob ordem judicial, duas mil famílias foram expulsas do terreno, com violência, pela Polícia Militar. (Brutalidade injustificável sob qualquer aspecto.)

Segundo a reportagem, uma empresa especializada em regularização fundiária teria procurado o PSTU (que lidera os moradores ou parte deles), propondo acordo em que os lotes seriam comprados por prestações até R$ 100 mensais. A proposta teria sido rejeitada. “Nosso papel é impulsionar a luta do povo, não entregá-lo para a especulação imobiliária”, disse Zé Maria, presidente nacional do PSTU.

Pelo jeito, o PSTU é adepto da “justiça perfeita”, coisa que nos prometem as religiões, no céu, ou adeptos de certas teorias políticas que ofertam o paraíso na terra. Terrenos férteis para fanáticos, que descambam para “guerras santas”, ou para ditaduras, tipo Coreia do Norte.

Portanto, identificam-se duas correntes cantando vitória no caso Pinheirinho: o governo de São Paulo (com seus adeptos) e os militantes do PSTU. Os moradores, para ambos, são mero detalhe: para serem removidos com um estorvo ou para serem usados como instrumento de interesse partidário.

26.01.12 00:03

Pinheirinho: sobre decisões insensatas

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 6 Comentários

Meu artigo publicado na edição de hoje (26/1/2012) do O POVO.

Ilustração de Hélio Rôla (clique para ampliar)

Pinheirinho
Plínio Bortolotti

Duas mil famílias, seis mil pessoas, foram expulsas com violência de suas casas, em São José dos Campos (SP), em um bairro chamado Pinheirinho.

A Polícia Militar, apoiada por helicópteros e acompanhada de seu aparato bélico, fez o trabalho, escudada em uma ordem judicial, expedida pela juíza da 6ª Vara Cível de São José dos Campos. Cerca de dois mil policiais e guardas municipais iniciaram a ação às 6 horas de domingo passado.

O resultado pode ser visto nos jornais e TVs – e também pelas redes sociais da internet. Digitando “Pinheirinho” no Youtube, poder-se-á ter uma ideia de como se deu a expulsão dos moradores.

A área de um milhão de metros quadrados – que começou a ser ocupada há oito anos – pertence à massa falida da Selecta, uma empresa do “investidor” Naji Nahas (preso em 2008 na Operação Satiagraha) – e está avaliada em quase R$ 200 milhões.

É incompreensível o que se passa na cabeça de um juiz, no caso uma juíza, ao dar uma ordem dessas, aparentemente sem levar em conta as consequências de sua decisão. Desconhecimento da realidade? Arrogância? Inépcia? Falta de senso de justiça? Apego formal à lei?

Havia negociação em curso, incluindo representantes do governo federal, buscando uma saída pacífica – e havia um conflito de competência entre a Justiça federal e a estadual, o que recomendava cautela e um pouco de paciência. A Justiça estadual optou pelo uso da força, e muita.

Dito isso, revelou-se no caso Pinheirinho uma situação que se repete a cada polêmica, a cada conflito que se estabelece no país: um verdadeiro Fla-Flu. Exige-se alistamento automático e acrítico – e lança-se mão do argumento ad hominem (contra a pessoa) a qualquer um que questione qualquer “verdade” estabelecida por um dos lados.

A democracia tem dessas conseqüências: a tentativa de interditar o pensamento deixou de ser privilégio da direita.

Plínio Bortolotti

Plínio Bortolotti

Jornalista. Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O POVO, jornal, rádios […]

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