Plínio Bortolotti

29.08.11 00:00

Uma coisa leva à outra: do PIG às “Recordações do escrivão Isaías Caminha”

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: Comente

Leio com certa regularidade os artigos de Lúcio Flávio Pinto, o editor do Jornal Pessoal (PA), um dos jornalistas mais perseguidos do país, que se confronta constantemente com a grande imprensa, mas nem por isso deixa que se sufoque a clareza de suas ideias e seu poder de análise.

Para que serve?

Ele não cai, por exemplo, no canto da sereia que classifica os meios de comunicação como PIG (partido da imprensa golpista).

Em seu artigo A imprensa, para que serve?, ele escreve:

“Encarar a grande imprensa como um Partido da Imprensa Golpista não é só uma ofensa à verdade histórica: é uma forma sorrateira (e, para alguns usuários dessa definição, cínica) de estimular, ainda que subliminarmente, a censura oficial, a perseguição estatal ou a sedução pelo poder estabelecido”.

Recordações

No mesmo artigo Lúcio Flávio anota que o livro Recordações do escrivão Isaías Caminha faz “uma das mais confiáveis referências sobre a redação de um jornal dessa época” (início do século passado). O livro é de Lima Barreto, o mulato que tinha “a alma de bandido tímido”, como sua própria descrição.

Instado pela citação, voltei ao livro e – diferentemente do que escrevi no post abaixo -, a maioria das vezes sinto reduzir-se o impacto quando revejo determinada obra, “Recordações…” fez um efeito inverso. A poderosa escrita de Lima Barreto, a cada vez que se lê, é uma porrada mais forte.

Lima Barreto

Ele não faz concessão nem a ele mesmo e deixa-se nu nas “Recordações…”, pois Isaías Caminha é seu evidente alter ego: descrevendo a humilhação, o desprezo e o escárnio a que se vê jogado em uma sociedade prenhe de preconceito. Isaías, jovem e bem preparado intelectualmente, vê nulidades passando-lhe à frente, ascendendo socialmente, enquanto a ele é reservada uma posição subalterna.

Trechos

“[...] Fiquei amedrontado em face das cordas, das roldanas, dos contrapesos da sociedade; senti-os por toda a parte, graduando os meu atos, anulando os meus esforços; senti-os insuperáveis e destinados a esmagar-me, reduzir-me ao mínimo, a achatar-me completamente.”

Quando é interrogado por um delegado, que duvida de sua condição de estudante (obviamente devido à sua cor). “Você é um gatuno”, diz o homem a lei. “Todo eu me agitei, todo eu me indignei. Senti num segundo todas as injustiças que vinha sofrendo; revoltei-me contra todos os sofrimentos que inha suportando. Injustiças, sofrimentos, humilhações, misérias, juntaram-se dentro de mim, subiram à tona da minha consciência, passaram pelos meus olhos e então expectorei sacudindo as sílabas:

– Imbecil

(O que lhe custa algumas horas no xadrez da delegacia.)

Jornal

Como contínuo e, depois, como repórter de jornal (o que Lima Barreto, de fato, foi) Isaías Caminha passa a ver as coisas com mais clareza – e faz uma descrição demolidora da imprensa carioca no início do século passado.

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11.01.11 12:15

“O PIG é uma fantasia”, por Lúcio Flávio Pinto

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 4 Comentários

Pelo que pode ensinar sobre jornalismo – e algumas coisas mais – reproduzo abaixo o artigo do jornalista Lúcio Flávio Pinto, reproduzido do Observatório da Imprensa (nº 624), que por sua vez o reproduziu do Jornal Pessoal (nº 479).

Quem quiser saber mais sobre Lúcio Flávio, veja no perfil do Jornal Pessoal, editado pelo jornalista. O texto mas vale cada linha.

O PIG é uma fantasia
Lúcio Flávio Pinto

A expressão PIG (Partido da Imprensa Golpista), inventada pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, circula há meses como dogma da verdade pela rede mundial de computadores. Seu efeito deve ter sido significativo. Não entre pessoas mais maduras e mais bem informadas, mas entre os jovens e desavisados. Se muitos desses destinatários da mensagem ainda pensavam em ler jornais da grande imprensa, devem ter desistido. Os que continuam a freqüentar suas páginas devem lê-las agora com total ceticismo. Os críticos e adversários das empresas jornalísticas radicalizaram suas posições.

Numa época em que a imprensa escrita convencional sofre a concorrência de mídias mais rápidas e acessíveis, o dano pode ser profundo, agravando o prejuízo econômico (os anunciantes dos Estados Unidos pela primeira vez, neste ano, colocaram mais dinheiro na internet do que nos impressos). A perda maior é para a formação da opinião pública, para a maior circulação de informações com qualidade para fundamentar posições públicas e gerar verdadeiros cidadãos.

Mesmo jornais ruins devem ser lidos. Estimular ou induzir que sejam ignorados é desservir a democracia, a pretexto de fomentar a crítica e combater as elites. A sociedade está cada vez mais repleta de críticos, que não vacilam quando expressam opiniões ou emitem juízos definitivos, verdadeiras sentenças. Mas que não sabem explicar por que são contra. Principalmente por desconhecerem o conteúdo do que criticam ou rejeitam. São personagens patéticos de Oswald de Andrade: não leram e não gostaram. Continuar lendo

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17.11.09 10:24

Aviso aos navegantes – e os cachorros loucos da internet

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 1 Comentário

Fazia tempo que eu não sustava algum comentários, pois as pessoas que frequentam esse blog sabem que este é um espaço de debates e não para brigas de rua.

Deixei de liberar alguns esses dias, e passo a explicar por quê.

Dois posts recentes Apagão causa briga entre repórteres da Record e da Globo e FHC decide reconhecer filho que teve ha 18 anos com jornalista da  TV Globo atraíram alguns daqueles que eu chamo de “cachorros loucos da internet”, uma matilha que quer estraçalhar a presa só pelo gosto de ver sangue, sem se importar em analisar os fatos – ou de ver para além de seus próprios preconceitos. Esse tipo de gente não respeita, minimamente, quem pensa diferente deles. Os que deles discordam, só podem ser “vendidos” ou  “traidores”, portanto podem ser desqualificados sem dó nem piedade.

Os cachorros loucos da internet estão bem distribuídos no espectro ideológico: à direita e à esquerda. Quem pensa diferente deles ou pertence ao PIG [para os da "esquerda"] ou são “petralhas” [para os da direita].

O diálogo se torna impossível.

Assim, não publico comentários que contenham:

?  Xingamentos: mesmo que não contenham palavrões, não publico ofensas como “burro” ou “imbecil”.

? Que tenham expressões como PIG [um suposto "partido da imprensa golpista"] ou “petralha”, um modo depreciativo de se nomear os militantes do PT.

? Que substituam alguma letra da sigla de partidos, qualquer que seja ele, para classificá-los como “dos trambiqueiros” ou “dos traidores”.

? Incitação à violência.

? Acusação sem prova.

Quem achar que está bem, será bem-vindo neste espaço; quem discordar, pode procurar sua turma.

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Plínio Bortolotti

Plínio Bortolotti

Jornalista. Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O POVO, jornal, rádios […]

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