Plínio Bortolotti

17.10.09 23:03

"O castiçal", de Leonardo Mota

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 2 Comentários

Venho publicando, a cada domingo, as 11 primeiras histórias do livro “No tempo de Lampião”, de Leonardo Mota.

Esta é a terceira da série, “O castiçal”.

“No tempo de Lampião” foi publicado origalmente em 1930, por Leonardo Mota, um cearense que dedicou a vida a pesquisar as coisas do Nordeste.

O cearense Leonardo Mota [1891-1948], nascido em Pedra Branca,  escreveu várias obras sobre as coisas do Nordeste, região que ele percorria para coletar as histórias que escreveu.

Textos anteriores já publicados:

O príncipe
Para tirar  a raça

O castiçal

Quando Lampião ocupou a povoação baiana de Abóboras teve a fantasia de exigir que lhe trouxessem e a seus cabras onze mulheres amigadas. A localidade não contava com tal número de concubinas, pois graças à ação dos padres no confessionário e no púlpito, vão rareando os amancebados.

Ele satisfez-se com as três ou quatro que lhe foram levadas e condescendeu em deixar em paz as matronas e donzelas. Formou, em seguida, um samba orgíaco, todos os figurantes em trajes paradisíacos, como é de seu gosto.
Os bandidos, sem exceção de um só, ficaram completamente bêbados. A povoação possui algumas dezenas de homens válidos, vigorosos. Se oito ou dez desses homens se dispusessem, já não digo a matar os onze cangaceiros, mas a amarrá-los e prendê-los, isso teria sido conseguido, pois no estado de embriaguez em que os criminosos se encontravam, quase nula reação haveriam de opor. Mas, este nome Lampião é o espantalho de milhões de almas no sertão nortista!

Pouparam-no em Abóboras. Dias depois, no lugar “Carro Quebrado”, ele praticava infâmia de fuzilar nove homens indefesos que trabalhavam numa estrada de rodagem. E liquidava, a faca, os sete soldados do destacamento de Queimadas, de cujo comércio extorquiu vinte e quatro contos de réis.

Nessa última façanha ignóbil, culminou a sua perversidade. Apanhados de surpresa, os soldados se lhe haviam rendido, sem resistência. Lampião meteu-os num cubículo e, ao escurecer, de um em um, os fez retirar para o oitão da cadeia.

- Sabe que vai morrer? perguntava ao que chegava.

O infeliz pedia-lhe compaixão, em súplicas da maior humildade, em rogos da maior angústia. Fingindo-se apiedado, ele ordenava:

- Pois, então, tire as suas perneiras, que eu preciso delas.

Quando o desgraçado se curvava para as desabotoar, traiçoeira punhalada pelas costas o prostrava. E Volta Seca ia sangrando na garganta os apunhalados. (Um parêntese. Volta Seca é o benjamim da horda, quase uma criança. Não tem dezoito anos. Verdadeiro criminoso nato, vive carrancudo, alegrando-se apenas quando dá expansão aos instintos sanguinários. Chama a Lampião de “padrinho” e este o considera o seu “menino de confiança”.) Continuar lendo

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Plínio Bortolotti

Plínio Bortolotti

Jornalista. Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O POVO, jornal, rádios […]

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