Plínio Bortolotti

12.12.09 18:16

Com “O cabo Militão” completo as 11 histórias de Leonardo Mota “No tempo de Lampião”

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: Comente

Com este conto encandeante de Leonardo Mota concluo a série de 11 histórias que publiquei neste blog reproduzidas do livro “No tempo de Lampião”, que contém uma segunda parte com o entretítulo “Anedotári, adagiário e notas sobre a poesia e a linguagem populares”.

Espero ter levado aos possíveis leitores um pouco do que foi este cearense de Pedra Branca que varou sem descanso os sertões nordestinos para nos legar livros reveladores da alma do sertanejo.

Quem quiser saber mais sobre os livros do Mestre Leota, aqui.

Aqueles que quiserem ver os as outras histórias publicadas:

O príncipe; Para tirar a raça; O castiçal; Quem escreveu a patente de Lampião;
A morte do Jararaca; O troféu; Brincadeira de Homem;
A prisão de Antônio Silvino; Um precursor de Lampião; Lampião e seus perseguidores.

Leia agora:

O cabo Militão

Foi uma tarde pressaga aquela em que na fazenda “Corituba”, de Sergipe, Ezequiel, irmão de Virgolino, com este se desaveio e o desafiou para uma luta, a punhal, injuriando-o com os epítetos de cego frouxo, fazedor de mal a moças donzelas, ladrão de beira-de-estrada, dador de surra em homem desarmado e cabra covarde que só tem fama por via dos companheiros… Devido à oportuna intervenção de Corisco e de Pai Velho, um duelo fratricida se não verificou. Mas, desde esse dia, Lampião passou a se mostrar taciturno e se tornou ainda mais irascível e cruel. O olho direito, que ele tem cego e esbranquiçado, estava sempre lacrimoso e isso neurastenizava e enfurecia o celerado.

Por outro lado, Virgolino sentia que a maioria do bando não recebera bem a sua decisão contra Corisco, no incidente deste com Volta Seca. Fôra o caso que, dias antes, estando Volta Seca a torturar uma pobre velha, cujo rosto já arranhara com o punhal, Corisco o repreendeu e, como o perverso insistente na sua maldade, Corisco pespegou-lhe uma bofetada que o atirou, desacordado, ao chão. Virgolino metera-se entre os dois, mas desgostara Corisco, em lhe não reconhecendo razão. Só por estarem atropelados mui de perto pela polícia, os cangaceiros não se separaram, fragmentando o grupo. Tais ocorrências obrigavam Virgolino a procurar escaramuças que dissiassem o mal-estar que ensombrava os ânimos da malta. Fazia-se mister que a luta novamente os solidarizasse.

A 29 de junho do ano passado, quando todo o sertão baiano guardava, tranquilo e feliz, o dia onomástico de São Pedro, Virgolino, a três léguas do arraial Várzea da Ema, do município de Curaçá, assaltou a fazenda “Formosa”, de propriedade do Cel. Petronilo Reis. Aí incendiou duas casas e, afora outras depredações, matou, a faca, três vacas de leite e cento e sessenta e oito (168) ovelhas que encontrou presas num curral. Em seguida, fez juntar grande ruma de esterco, empilhou sobre ela as reses e lanígeros abatidos e ateou fogo ao sinistro montão de animais sacrificados. Por muitos dias um cheiro nauseabundo de carnes podres e queimadas empestou as redondezas da fazenda reduzida a ruínas.

Após a selvajaria desses desatinos, Lampião partiu com o seu séquito, declarando na fazenda “Curundundu” que ia desgraçar a vila de Uauá. Então, perseguia-o mais de perto a volante comandada pelo Tenente Arsênio Alves de Sousa. Verdadeira marcha batida, em a qual, sem descanso, os cangaceiros venceram trinta e uma léguas e a polícia vinte e quatro.

Foi assim que Lampião logrou escapar aos que se lhe haviam escanchado no rastro: perto da fazenda “Lagoa Escondida”, numa bifurcação da estrada, rumou para a direita, indo pernoitar a 30 de junho, em Poço de Fora, iludindo, pois, o contingente policial que prosseguiu pela esquerda, a fim de entrar pelo lado sul de Uauá.

Auxiliado por sequazes incorporados à sua alcatéia em território baiano e perfeitos conhecedores da região, Virgolino novamente deu às de vila-diogo na madrugada de 1° de julho, empreendendo um raid ainda mais exaustivo e ousado. Egresso das caatingas e grotões, o bandoleiro-fantasma teve a audácia de voar sobre Itumirim, onde chegou ao lusco-fusco do dia 2, depois, em trinta e seis horas, haver vencido quarenta e cinco léguas! Aí reduziu a cinzas a estação ferroviária, cortou as comunicações telegráficas com a localidade, bebeu à farta e tentou formar um samba na casa da… Escola Pública. Mas, medroso de uma surpresa dos seus perseguidores, arribou logo mais e foi refugiar-se, durante o resto da noite, na Serra dos Morgados. O dia 3 assinalou o seu assalto à fazenda “Piabas” e o seu pernoite no lugar “Buraco d’Água”.

Coincidiram tais fatos com a fuga de cinco soldados criminosos, recolhidos à cadeia de Bonfim. Esses fugitivos, em bilhete irônico e malcriado que deixaram ao Capitão José Galdino, avisavam que se iam reunir a Lampião.

Em atividade, no encalço dos detentos foragidos, a manhã de 4 de julho veio encontrar os destacamentos da zona.

Procedentes de Campo Formoso, o Cabo Antônio Militão da Silva e os Soldados Pedro Santana, Cecílio Benedito, Manoel Luís de França e Leocádio Francisco da Silva pararam em Brejão de Dentro e ali aguardaram a chegada de outros companheiros, por ser aquele o ponto combinado de junção das forças.

Como devessem dali ingressar na região de Gruna, penetrando em lugares insidiosos e de penoso acesso, “lugares esquisitos”, como eufemicamente por lá se diz, os soldados abandonaram as armas e aproveitavam o tempo de espera, escrevendo bilhetes para suas famílias em Campo Formoso, dando-lhes conhecimento da direção que iam tomar. Estavam todos no interior da residência de Alfredo Monteiro e, fora, o Cabo Militão consertava os loros de uma montaria. Seriam onze horas da manhã.

Em dado momento, Militão avistou longe, na estrada, diversos homens armados e avisou: – Lá vêm nossos camaradas! E continuou, despreocupadamente, no reparo dos arreios. Também as praças não tiveram a curiosidade de ver quem era que se aproximava. A estrada faz uma curva fechada e vem desembocar abruptamente junto à casa, motivo por que Militão logo perdeu de vista os indivíduos que julgou serem soldados.

De súbito, o troço aparece. Num ápice, saltam das selas Lampião, Volta Seca, Ezequiel, Pai Velho, Corisco, Arvoredo, Moderno, Esperança, Moirão, Gato, Pernambuco e Labareda. Virgolino já está intimando o Cabo Militão:

- Se prepare, cabra, se prepare pra apanhar! Continuar lendo

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05.12.09 22:21

Lampião e seus perseguidores

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: Comente

Esta é a 10ª história sobre o cangaço do livro “No tempo de Lampião”, de Leonardo Mota, no próximo domingo, conclui-se a série.

Saiba mais sobre Leonardo Mota e as hisórias que venho publicando:

O príncipe; Para tirar a raça; O castiçal; Quem escreveu a patente de Lampião;
A morte do Jararaca; O troféu; Brincadeira de Homem;
A prisão de Antônio Silvino; Um precursor de Lampião.

O texto que se segue mostra que mestre Leota, mesmo considerando Lampião um bandoleiros – não um “bandido social” – não compactuava com as arbitrariedade da polícia que lhe dava perseguição e nem lhe aliviava cíticas aos agentes do governo.

Fique com:

Lampião e seus perseguidores

Enrolei o meu cigarro de palha e pedi ao fazendeiro em cuja casa me hospedara me dissesse o que pensava das polícias que dão combate aos cangaceiros. Ele entupiu as ventas com uma pitada de “torrado” rescendente a cumaru, limpou o bigodão com a manga da camisa, aprumou-se na tripeça e não tardou em me dizer:

- Quero mais ante me ver neste ôco de mundo, às volta com bandido que com soldado de poliça. Me creia que os mata-cachorro, quando sai da capital, vem com o pensamento fixe em que todo matuto protege cangaceiro. Querem, por fina força, que a gente descubra o roteiro dos criminosos. Se o freguês diz que ignora, apanha pra descobrir; se descobre, também apanha, porque é sinal que, conhecendo, protege quem eles caçam. Não tem pronde correr: ninguém escapa…

- E os bandoleiros?

- Abém, esses estão no seu papel. Assim mesmo, tem vez que a questão é se saber tirar eles com jeito. A não ser um ou outro cabra desalmado, eles só fazem mal a nós quando andam aperreados pela poliça, quando desconfiam que se deu notiça deles à tropa do Governo, ou quando, precisando de dinheiro, sabem que o sabagante tem em casa, mas não dá porque não quer.

- Admiro-me de o Sr. falar assim: tenho sabido e apurado tanta crueldade de Lampião…

- Sim, me entenda: eu falo do tempo de Antônio Silvino, Luís Padre, Sebastião Pereira e outros, pois esse tal de Virgolino, com a graça de Maria Santíssima, nunca me apareceu aqui, não. Vejo se dizer que esse Lampião é um satanás de perverso…

- Mas, se os policiais cometem absurdos, por que os senhores não os denunciam às autoridades?

- Só se se fosse maluco! Ter questão com soldado é ter questão co Gunverno e ter questão co Gunverno é não ter amor à vida. Um Tenente no sertão manda mais que um Juiz de Direito. Se dependesse de mim, o Gunverno não mandava força pro interior. A gente ficava só com os cangacero, era só uma desgraça, em vez de duas. Quer que lhe seja franco? Muito desprepósto, muito abissurdo que se cuida, por aí afora, que foi feito por cangacêro, uma óva: foi, mas foi pela poliça!

- Por que, neste caso, os senhores não tratam de restabelecer a verdade? Continuar lendo

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04.12.09 10:58

ABC Editora e seu acervo de clássicos cearenses e nordestinos

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 11 Comentários

L. Mota - 4 livrosQuem tem paciência de acompanhar este blog, sabe que eu venho publicando alguns textos de Leonardo Mota, referência nas pesquisas sobre a cultura popular nordestina.

Divulgo as onze histórias sobre o cangaço que ele recolheu e enfeixou em No tempo de Lampião, livro escrito em 1920. 

Leonardo Mota é nome de rua no Dionísio Torres, o que o faz, de certo modo, ser lembrado. Mas a importante obra do Mestre Leota deveria ser mais conhecida, pois o cearense de Pedra Branca foi o primeiro a recolher e publicar os causos, as anetodas, a poesia e o cancioneiro nordestino, sendo fiel à linguagem popular, sem fazer dela uma caricatura.

Assim, foi com alegria que descobri a ABC Editora, de Fortaleza, editou – e ainda tem em estoque - quatro de seus principais livros: “Cantadores – Poesia e linguagem do sertão cearense” [com prefácio de Luis da Câmara Cascudo]; “Violeiros do Norte” [prefácio de Herman Lima]; “No tempo de Lampião” [prefácio de Fran martins] e “Sertão alegre” [prefácio de Rachel de Queiroz].

A ABC também  tem “Terra de Sol”, de Gustavo Barroso, um importante intelectual cearense, pouco conhecido [talvez porque tenha sido integralista, por isso mal visto na "Academia"]. Em uma das edições do Anuário do Ceará, do O POVO, o professor Eduardo Diathay publicou um de seus textos.

A editora também tem “Viagens do Nordeste do Brasil” [1816], um clássico do inglês Henry Coster, com prefácio e comentário de Câmara Cascudo.

O acervo é completado por uma lista de livros de autores cearenses e brasileiros que se tornaram clássicos, como Machado de Assis, José de Alencar, Oliveira Paiva, Bernando Guimarães, Joaquim Manuel Macedo, entre muitos outros.

Caso se interesse, terá ainda a oportunidade de trocar dois dedos de prosa com o jornalista e editor Maurício Xerez, negociar com ele um preço justo pelas bem cuidadas edições [foi assim que eu fiquei com os quatro livros de Leota]  - e observar o seu entusiamos pelos livros.

O telefone da ABC editora: (85) 3264 3648.

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21.11.09 22:39

A prisão da Antônio Silvino, em "No tempo de Lampião"

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: Comente

Leonardo Mota - livro - 3ª Edição - ABC Editora - 2002Esta é a oitava história do livro “No tempo de Lampião”, de Leonardo Mota [1891-1948], o cearense de Pedra Branca que dedicou-se a estudar as coisas do sertão nordestino, publicando seu trabalho em vários livros.

“No tempo de Lampião” foi escrito em 1930, os contos que eu reproduzo aqui são da segunda edição, de 1967, que eu pensava ter sido a última.

Mas a professora Eloísa Vidal, leitora deste blog – e que não perde o hábito de puxar a orelha de seus alunos – me mostrou uma edição de 2002, da ABC Editora, cuja imagem pode-se ver ao lado.

Os textos já publicados:

O príncipe
Para tirar a raça
O castiçal
Quem escreveu a patente de Lampião
A morte do Jararaca
O troféu
Brincadeira de Homem

Fique agora com:

A prisão de Antônio Silvio

O aprisionamento de Lampião não se me afigura impossível. Nada importa diga ele que prefere a morte. Antônio Silvino também o dizia, mas, apenas se viu baleado, foi o primeiro em fazer questão de mansamente se entregar à justiça. Restabelecido ulteriormente, voltaram-lhe no presídio os ímpetos brutais, como na manhã em que, entre descomposturas do calão mais vil, sacudiu um pão na cara de um desembargador.

Quando a captura de Lampião parece a tanta gente sonho irrealizável, vem a propósito recordar como se deu a de seu terrível predecessor.

O que desgraçou Antônio Silvino foi a perseguição sem tréguas que lhe moveu uma de suas vítimas mais humildes. Bem diz o povo que “não há inimigo pequeno” e que “mutuca é que tira boi do mato”…

José Alvino Correia de Queiroz era obscuro comerciante no sertão de Pernambuco, quando Antônio Silvino lhe saqueou o pequeno estabelecimento. Reduzido à miséria, jurou vingar-se e entrou a polícia daquele Estado. Acreditaram nos seus propósitos e fizeram-no sargento.

Inteirado de que Silvino transitaria por certa faixa do município de Taquaretinga, o Sargento Alvino buscou informações de João Vicente e Joaquim Pedro, moradores naquelas paragens. Ambos negaram a pés juntos ter qualquer conhecimento a respeito. Mas, tão jeitosamente o miliciano conduziu as investigações, que a esposa de João Vicente o orientou:

- Quando o Sr. chegar à casa de nosso vizinho, o Joaquim Pedro, e encontrar as mulheres torrando galinhas ou fazendo comedoria de sobra, pode apertar o pessoal que o “capitão” Antônio Silvino está escondido perto, no mato…

No dia esperado, 27 de novembro de 1914, os policiais, sob o comando do Alferes Teófanes Torres e do Sargento José Alvino, estavam no local referido, de nome Lagoa Laje.

Assim que penetrou na residência de Joaquim Pedro, o Sargento Alvino se encaminhou diretamente para a cozinha, atrás de cuja porta se lhe deparou pendurada uma banda de ovelha. E viu chegar desconfiado, pelo quintal, um rapazola com um tabuleiro à cabeça, cheio de tigelas, colheres e pratos. Interrogado, o recém-vindo explicou, titubeante, que havia ido deixar comida a uns “trabalhadores”, num roçado.

Concomitantemente, o Alferes Teófanes submetia Joaquim Pedro a interrogatório, e este negava que soubesse do paradeiro de Silvino.

Aparece o sargento e, depois de falar na ovelha morta e de mostrar o tabuleiro com os restos de comida, pede permissão para forçar o velho sertanejo a não continuar mentindo. Ato contínuo, tranca-lhe, numa alcova, a mulher e os filhos e ordena que os soldados desembainhem os sabres.

Nesse momento, mais nervosa, uma filha do ameaçado pede, da alcova:

- Meu pai, por caridade, descubra logo! Continuar lendo

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15.11.09 00:01

"Brincadeira de homem"

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: Comente

Publico a sétima história sobre o cangaço, reproduzida do livro “No tempo de Lampião”, de Leonardo Mota [1891-1948 ], cearense de Pedra Branca que dedicou-se a pesquisar as coisas do sertão nordestino.

Estou editando as publicações aos domingos, tendo já publicado:

O príncipe
Para tirar a raça
O castiçal
Quem escreveu a patente de Lampião
A morte do Jararaca
O troféu

Fique agora com:

“Brincadeira de homem”

Antônio Silvino fazia-se respeitado de seus satélites. Disciplinava-os. Sabia assegurar a conveniente distância que deve existir entre comandante e comandados. Jamais permitiu atrocidades que não houvesse, em pessoa, determinado.

Chegara ele com a sua récua a uma fazenda. À hora do improvisado almoço, um cabra, o Tempestade, deu-se ao luxo de reclamar:

- Ô arroz insosso de todos os diabos!

Um relâmpago de cólera fulgiu nos olhos de Silvino, que, findo o repasto, foi falar à mulher do fazendeiro:

- Dona, a senhora tem sal em casa?

- Tenho, seu Capitão. Eu vi aquele homem não gostar… Vossenhoria me discurpe, me perdoe o arroz sair insosso: foi coisa do avexame, do aperreio do perparo…

… – Nhóra não, não é por isso, não: eu quero saber se a senhora me pode vender meio litro de seu sal.

- Posso lhe ceder; vender não. O Capitão leve o sal, que não lhe custa nada e é dado de gosto!

- Nhóra não, não é pra carregar, não. É um ensinamento que eu quero dar naquele cabrocha, que falou do arroz. Me vá ver meio litro, por bondade!

Atendido, Silvino pediu uma bacia, derramou dentro o sal, dissolveu com uma porção de água e, voltando ao terreiro, onde o Tempestade esgravatava a dentuça, obrigou-o, de punhal à mão, a beber toda aquela água, horrivelmente salgada:

- Isso é pra você, seu bruto, perder o costume de botar defeito no que lhe dão, de graça! Engula! Ou engole, ou morre! Comeu insosso, beba salgado, que é pra carga não ficar torta… Cabra sem criação!

Daí a pouco o Tempestade padecia sob a ação do purgante mais que enérgico… Continuar lendo

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08.11.09 00:37

"O troféu", de Leonardo Mota

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 2 Comentários

Esta postagem é a sexta história sobre o cangaço que reproduzo do livro “No tempo de Lampião”, de Leonardo Mota [1891-1948 ], cearense de Pedra Branca que dedicou-se a pesquisar as coisas do sertão nordestino. São 11 contos no total.

Estou editando as publicações aos domingos, tendo já publicado:

O príncipe
Para tirar a raça
O castiçal
A morte do Jararaca
Quem escreveu a patente de Lampião

 Fique agora com

O troféu

Zé Pinheiro, o celebérrimo facínora que tão sinistramente se afamou na sedição de Juazeiro contra o Presidente cearense Franco Rabelo, era um cangaceiro perversíssimo, ajutor de dezenas de homicídios bárbaros. O seu renome se fez no período que mediou entre o alumbramento da estrela de Antônio Silvino e o fulgor infernal da triste glória de Lampião.

Conheci-o pessoalmente em abril de 1914, quando a jagunçada do Padre Cícero passava pela cidade de Quixadá. Acabou martirizado nos sertões alagoanos por uns rapazes, cujo pai fora por ele assassinado. Essa vingança foi terrível: convenientemente amarrado, não lhe deram pancadas nem tiros – esfolaram-no vivo, suplício que o bandido suportou, rilhando os dentes e sem a humilhação de inútil pedido de misericórdia.

Quando Zé Pinheiro morava nos domínios do Padre Cícero, vivia também, a esse tempo, em Juazeiro, o Antônio Godê, outro cangaceiro famoso. O Godê era mais valente que o Zé Pinheiro; este tinha apenas mais perversidade.

Incomodado com a fama do rival, Zé Pinheiro brabateou, um dia, que ainda havia de mostrar ao Godê quem dos dois era o homem mais homem. A ameaça chegou aos ouvidos do Antônio Godê que, sem dizer palavra, saiu ao encontro daquele que assim jurara despachá-lo, antes de tempo, deste para o outro mundo. Encontrou-o a beber cachaça e contar proezas, num quarto de feira. Aproximou-se, bateu-lhe levemente no ombro e pediu em tom camaradesco:

- Zé Pinheiro, meu cabôco, deixa eu ver aí a fralda de tua camisa!

- Que negócio é este, Antônio Godê

- Nada. É uma brincadeira, é uma caçoada que eu quero te ensinar…

E, dando o exemplo, pôs para fora das calças a camisa. Zé Pinheiro fez o mesmo e o Godê, dando forte nó com ambas as peças de roupa, falou, noutro tom:

- Agora que nós estamos amarrados um no outro e nenhum de nós pode correr, bata mão à sua faca, cabra severgonho, que chegou a hora de se decidir quem de nós dois é home mais home!

E já empunhando a sua pajeuzeira, deu vários panos no peito e no rosto do bandido acovardado, que não teve coragem de sacar o punhal e se desmanchou em desculpas e protestos de amizade. Cansado de o provocar, Antônio Godê falou, com desprezo:

- Eu não te mato, mundiça, porque cabra frouxo como tu, um home como eu inzempla é assim como eu fiz agora. Mas, olha: tu larga meu nome de mão, deixa de paleio com minha vida, senão eu te arranco o coração pelas costas! Tu cuida que eu sou o negro Quintino, que se o Padre Ciço não chega tão depressa, tu tinha comido a língua do cadáver dele crua e com cachaça?

E pôr termo à estranha xifopagia, cortando com certeiro golpe de faca a união que ardilosamente conseguira para o duelo mortal. Mas, cortando como? Por derradeiro escárnio, cortando do lado da camisa do Zé Pinheiro e pondo para dentro das calças, como troféu, o nó cego que fizera…

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31.10.09 23:58

A morte do Jararaca

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: Comente

Jararaca preso em Mossoró

Jararaca preso em Mossoró

Este é a quinta história sobre o cangaço que reproduzo do livro “No tempo de Lampião”, de Leonardo Mota [1891-1948 ], cearense de Pedra Branca que dedicou-se a pesquisar as coisas do sertão nordestino.

Estou editando as publicações aos domingos, tendo já publicado:

O príncipe
Para tirar a raça
O castiçal
Quem escreveu a patente de Lampião

Fique agora com:

A morte do Jararaca

Quando Lampião teve a certeza de que atravessaria livremente todo o Ceará, em cujo território já por vezes penetrara, erguendo vivas ao então Presidente do Estado, decidiu invadir o Rio Grande do Norte, para atacar a cidade de Mossoró. Seduziam-nos os pingues recursos desse empório comercial, servido por uma agência do Banco do Brasil.

Saiu-lhe, porém, o ano bissexto… A população de Mossoró, tendo à frente o valoroso Prefeito Cel. Rodolfo Fernandes, reagiu bravamente ao assalto da cabroeira de Virgolino e dois sequazes deste tombaram baleados, sem que os companheiros os pudessem conduzir.

Um dos feridos era o Jararaca. Transportado para a cadeia, solicitamente o medicaram. Era preciso que ele não falecesse sem que as autoridades o ouvissem. De fato, só depois de prensado, interrogado e, até, de fotografado, o Jararaca morreu. Mas ninguém o viu morto, pois o enterramento foi dado como feito alta noite.

Uns vinte dias depois, dizia-me em Fortaleza um sertanejo da terra potiguar:

- Jararaca morreu, mas não foi de morte morrida: foi de morte matada…

E com a desenvoltura de quem não tem papas na língua nem é jornalista do Governo, descreveu a cena macabra:

- Uma boca-de-noite, noite de lua, o Jararaca, algemado, foi conduzido da cadeia pro cemitério. Chegando lá rodeado de soldados, mostraram-lhe uma cova, aberta lá num canto, quase fora do “sagrado” e lhe perguntaram se ele sabia pra que era aquilo… Foi quando o Jararaca falou, frocado e destemido:

- Saber de certeza não sei, não, mas porém estou calculando… Não é pra mim? Agora, isso só se faz porque eu me vejo nestas cerconstança, com as mãos inquirida e desarmado! Um gosto eu não deixo pra vocês: é se gabarem de que eu pedi que não me matassem. Matem! Que matam mas é um home! Fiquem sabendo que vocês vão matar o home mais valente que já pisou neste…

Mas, não teve tempo de acabar de dizer o que queria. Por trás dele, um soldado, naturalmente de combinação com os outros, deu-lhe um tiro de revólver na cabeça. A bala pegou bem no mole do pé do ouvido, lá nele. O Jararaca amunhecou das pernas e caiu, de olho vidrado. Aí, os soldados o empurraram com os pés pra dentro da sepultura. Só demoraram enquanto tiravam os ferros das algemas. Quando o cadáver rolou pra cova, fizeram luz e espiaram: o finado tinha caído de bruços. Mas, ninguém se embaraçou com isso: por cima do corpo inda quente, as pás de terra deram serviço…

Calou-se o narrador, para dizer, logo mais, entre compadecido e irônico, num misto de piedade e de galhofa:

- Coitado do Jararaca! Tão valente na hora da morte, mas foi enterrado dando as costas pra este mundo velho, onde ele fez tanta estrepolia…

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25.10.09 21:17

Quem escreveu a patente de Lampião

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 2 Comentários

Leonardo Mota e Anselmo Vieira“Não mexe em nada do que o teu pai escreveu. Orlando, Orlando… O que o Leota fez está feito e é sagrado”, de Luís Câmara Cascudo, a Orlando Mota, filho de Leonardo Mota, que organizava um livro do pai a partir das anotações que ele deixara. Orlando perguntou a Câmara Cascudo se devia fazer algum tipo de alteração e recebeu essa suave admoestação de Cascudo.

Os que acompanham este blog já sabem que venho publicando, a cada domingo, as 11 primeiras histórias de “No tempo de Lampião”, de Leonardo Mota, livro escrito em 1930 pelo mestre das pesquisas do folclores e das coisas nordestinas.

Na foto, Leonardo Mota com o cantador Anselmo Vieira, em data não especificada, do blog Cantinho da Dalinha.

Já publiquei:

O príncipe
Para tirar a raça
O castiçal

Leia agora:

Quem escreveu a patente de Lampião

Foi nos primeiros dias do ano passado e quando me internei nos sertões de Pernambuco.

Não sei como, naquela calçada de hotel, em Caruaru a palestra começou a girar em torno do Padre Cícero, de Juazeiro. Falou-se na extrema capacidade de sedução do quase nonagenário reverendo. Na ignorância eterna em que ele finge estar de ofensas jornalístyicas que lhe são irrogadas. No empenho de obsequiar a todo hóspede ilustre de sua terra. Nos seus recursos de conversador matreiro, não abordando política com adversários, nem religião com incréus. Na sua eleição de Deputado Federal, sem dar à Câmara a confiança de tomar posse da cadeira para que fôra colhido. No seu culto pela virtude da Castidade, contra o que inimigos acérrimos jamais articularam qualquer imputação. Na sua megalomania, crendo-se autorizado a escrever cartas ao Kaiser, sugerindo-lhe a rendição da Alemanha, ou a dar conselhos a presidentes do Brasil, quanto ao modo por que se devem conduzir no governo… Éramos poucos, mas tudo gente esfarinhada no “caso” de Juazeiro.

Alguém lembrou que, de uma feita, ouvira um romeiro falar ao taumaturgo juazeirense: – Meu Padrim, eu queria que o Sr. me dissesse se, este ano, o sol incriza. Lhe pergunto porque eu estou com uma filha pra casar, mas ela diz que, se o sol incrizar este ano, ela não se casa… O Padre, que já havia lido as folhinhas do ano, disse que a moça podia se casar, pois naquele ano não haveria eclipse do sol…

- Certos milagres que o Padre Cícero faz eu também faço! ajuntou outro da roda. E exemplificou:

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11.10.09 05:13

Leonardo Mota: "Para tirar a raça"

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: Comente

No tempo de LampiãoComo anotei em post anterior, estou publicando as 11 primeiras histórias do livro “No tempo de Lampião”, de Leonardo Mota.

Esta é a segunda da série:  “Para tirar a raça”, sobre Sabino Gomes, um dos lugares-tenentes de Lampião.

“No tempo de Lampião” teve apenas duas edições, em 1930 e 1967 [editora UFC], a que ilustra a postagem.

O cearense Leonardo Mota [1891-1948] escreveu várias obras sobre as coisas do Nordeste, região que ele percorria para coletar as histórias que escreveu.

Veja aqui o conto anterior: O príncipe

Fique agora com: Continuar lendo

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04.10.09 00:05

No Tempo de Lampião: "O príncipe"

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 4 Comentários

No tempo de LampiãoO cearense Leonardo Mota (1891-1948) foi jornalista e um dos maiores pesquisadores das coisas do Nordeste. Não o encantava nem ouro e nem prata – abriu mão de uma vida tranquila de dono de cartório -; dedicou-se a percorrer os sertões colhendo palavras e histórias diretamente da boca do povo, registrando-as em em seus livros.

Em “Nos tempos de Lampião” [1930] ele escreveu, na primeira parte do livro, histórias sobre o mais famoso cangaceiro que percorreu os sertões nordestinos.

São estas histórias, 11 no total, que vou reproduzi-las neste blog, já que a última edição do livro [a que vocês veem ao lado] é de 1967 – e não foi mais republicado.

O título desta primeira história é “O príncipe”, referência a Lampião. Observem – principalmente os estudantes de jornalismo – que a descrição inicial que o mestre Leonardo Mota faz, tem 224 palavras, antes que ele pingue o ponto final.

Qualquer manual de redação condenaria uma exorbitância dessas. Mas vejam o ritmo, o encadeamento das palavras, que não deixam o leitor se perder, algo que inevitavelmente aconteceria com alguém menos hábil para manejar o vernáculo.

[Os textos foram digitados por Gutemberg Figueiredo, do O POVO, a quem agradeço.]

Fiquem com Leonardo Mota.

O príncipe

AMULATADO e de estatura meã; magro e semicorcunda; barba e nuca ordinariamente raspada; cabelos compridos e, sempre que é possível, perfumados; na perna esquerda, encravada, uma bala, com que o alvejou o sargento Quelé, da polícia, paraibana; o olho direito, branco e cego, escondido pelos óculos pardacentos, de aros dourados; mãos compridas, que semelham garras; os dedos cheios de anéis de brilhantes, falsos e verdadeiros; ao pescoço, vasto e vistoso lenço de cores berrantes, preso no alto por valioso anel de Doutor em Direito; sobre o peito, medalhas do Padre Cícero, escapulários e saquilhos de rezas fortes; chapéu de cangaceiro, tipicamente adornado de correias e metal branco; ensimesmado toda vez que defronta uma turba de curiosos, folgazão quando entre poucos estranhos ou no meio de seus comparsas; não se esquecendo dum guarda-costa vigilante, à direita, sempre que desconhecidos o rodeiam; paletó e camisa de riscado claro, calças de brim escuro; alpercatas reluzentes de ilhoses amarelos; a tiracolo, dois pesados embornais de balas e bugigangas, protegidos por uma coberta e xale finos; tórax guarnecido por três cartucheiras bem providas; ágil como um felino, mas aparentando constante estropiamento e exaustão; às mãos o fuzil e à cinta duas pistolas “Parabelum” e um punhal de setenta e oito centímetros de lâmina: eis Virgolino Ferreira da Silva – LAMPIÃO – duende das estradas, assombração das matas e caatingas! Continuar lendo

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Plínio Bortolotti

Plínio Bortolotti

Jornalista. Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O POVO, jornal, rádios […]

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