Plínio Bortolotti

31.07.09 06:01

Graciliano Ramos, Joel Silveira, Mário de Andrade e os tostões da literatura

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 3 Comentários

Eu vou contar uma coisa para vocês. Para mim, não existe melhor escritor brasileiro do que Graciliano Ramos. Podem pôr de balaiada qualquer outro, incluindo Guimarães Rosa [Machado de Assis, este eu vou ficar quieto, pois estava na melhor das considerações do mestre Graça. De Rosa, ele votou contra o seu livro Sagarana em um concurso; depois se tornaram amigos - e Graciliano só tinha palavras gentis para Rosa.]

Sempre volto a Graciliano: inclusive porque ele tem muitas lições a dar a jornalistas – de como se deve escrever um texto. Eu tento ser aluno aplicado, mas não lhe serviria nem de escabelo.

Tenho-lhe a coleção completa.

Veio-me Graciliano devido a duas postagens recentes neste blog.

Sou mais Joel Silveira [em comparação com Gay Talese] e
Vale Cultura, Dimenstein e a elite cultivada

Pois fui me lembrar do mestre Graça por um texto dele, de 1939, em que ela fala justamente de Joel Silveira [só elogios] e sobre Mário de Andrade, que acusava “mau gosto” na literatura brasileira. Vejam diretamente na lavra de Graciliano:

Os tostões do sr. Mário de Andrade
Graciliano Ramos

O sr. Mário de Andrade, há algum tempo, lamentando o mau gosto e a imperícia que atualmente reinam e desembestam na literatura nacional, utilizou uma imagem espirituosa e monetária: dividiu os nossos escritores em duas classes – a dos contos de réis, pelo menos centenas de mil-réis, onde se metem alguns indivíduos que arrumam idéias com desembaraço, e a dos tostões, gavetinha que encerra criaturas de munheca emperrada e escasso pensamento. O sr. Joel Silveira, sergipano bilioso, incluiu-se modestamente na segunda categoria, tomou a defesa do troco miúdo, dos níqueis literários que enchem revistas, jornais, cafés, livrarias, cômodos ordinários em pensões do Catete.

Enquanto o autor de Macunaíma exige acatamento à tradição e à regra, o jovem contista de Onda Raivosa se mostra desabusado e rebelde: não chega a atacar a cultura, mas refere-se a ela com tristeza, julga-a remota e inacessível ao homem comum.

Há uma técnica na arte, diz o sr. Mário de Andre. Romain Rolland foi mais longe: afirmou, creio eu, que a arte é uma técnica. O moço nortista repele semelhantes exigências. Vivemos arrasados, o numerário foge, há dívidas abundantes e falta-nos vagar para os cortes, as emendas necessárias. Não faz mal que a produção artística saia capenga.

O que nos desagrada nessa questão, hoje morta, é notar que o crítico paulista, colando em alguns escritores etiquetas com preços muito elevados e rebaixando em demasia o valor de outros, vai tornar antipática a boa causa que defende, prepara terreno para o paradoxo sustentado pelo sr. Joel Silveira. E teremos então uma demagogia louca. “Somos tostões, perfeitamente, um considerável número de tostões. Some tudo isso e verão a quantia grossa que representamos.”

Não há nada mais falso. Mas os indivíduos que se imaginam com boa cotação no mercado naturalmente se encolhem, silenciosos por vaidade ou por não quererem molestar os níqueis comparando-se a eles. E as moedinhas devem andar rolando por aí, satisfeitas, areadas, brilhantes, pensando mais ou menos assim: “Joel Silveira é dos nossos, inteiramente igual a qualquer um de nós. Ignorante que faz medo, nunca leu um livro. Conversa mal, não vai além dessas pilhérias que a gente larga nos cafés. Mora numa casa cheia de pulgas, é amarelo como flor de algodão e tem a fala arrastada. Pobrezinho, com certeza come pouco ou não come. Pensa pouco ou não pensa. Um tostão como eu, como tu, como aquele. Podemos supor que Joel Silveira valha mais de um tostão? Não podemos, razoavelmente, porque ele chegou perto de nós e gritou: Eu sou um tostão. Entretanto Joel Silveira inventa uns negócios que sujeitos entendidos elogiam. Ora se Joel, tão arrastado, tão amarelo, tão barato, faz contos e crônicas interessantes, por que não faremos nós coisa igual? Mexamo-nos, fundemos sociedade e pinguemos em revistas os nossos cinco vinténs na literatura.”

Um desastre. É necessário pôr fim a essa confusão, que nos pode render muito prejuízo. Já existe por aí uma quantidade enorme de livros ruins. E o sr. Joel Silveira não é um tostão, nunca foi. Escreveu um excelente artigo para demonstrar que não sabe escrever.

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30.07.09 05:55

Joel Silveira, o filho, me escreveu

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: Comente

Podem chamar de vanidade, mas não resisti a reproduzir, como postagem, o comentário que deixou neste blog Joel Silveira Filho, devido ao texto que escrevi a respeito do pai dele comprando-o, em favor do repórter brasileiro, com o americano Gay Talese.

Respondi ao filho dizendo que recebi o texto como se fora do próprio pai.

O post pode ser visto aqui. O comentário de Joel Silveira filho, a seguir:

«Como filho anônimo do grande reporter (era como gostava de ser intitulado) Joel Silveira, é muito gratificante para mim ver a obra e sua personalidade como profissional ser reconhecida, principalmente pelos que militam na imprensa atual sem perder de vista os desbravadores/inovadores que deixaram sua marca na história do jornalismo desse País, entre eles, Joel Silveira. Naquela época, reporter era pura vocação, um dom. Meu pai sempre dizia que jornalismo não se aprende em faculdades, mas próximo das “rotativas” dos jornais e se virando como “foca” à caça de assuntos que alimentassem a voracidade dos leitores pelo que estava acontecendo em qualquer lugar do planeta. Joel Silveira Filho.»

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20.07.09 07:01

Gay Talese fala hoje no Roda Viva; sou mais Joel Silveira

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 4 Comentários

O jornalista e escritor americano Gay Talese esteve na Flip [Festa Literária de Parati], quando o “auditório” de sua palestra, fazendo um papelão, aplaudia cada platitude que ele dizia; circulou por São Paulo – seus ternos e chapéus fizeram sucesso – e hoje à noite estará no programa Roda Vida [gravado, com legenda], da TV Cultura, às 22h.

Ainda não tinha lido seu festejado livro “Fama & anonimato”, incensado por 11 entre 10 jornalistas e  indicado por 10 entre 9 professores de jornalismo. Comprei-o no congresso da Abraji [R$ 65,00] deste ano. Mas não esperem que seja eu a falar mal do livro – é bom. São matérias sobreviventes de 40 anos, o que, por si só atestam a qualidade de um texto jornalístico.

Mas vou dizer uma coisa: prefiro o Joel Silveira de “A milésima segunda noite da avenida Paulista” [R$ 31,00 - na época em que comprei]. Comparando-se a primeira parte do livro de Talese – “A jornada de um serendipitoso” – com o dois textos iniciais de Silveira – “1943: Eram assim os grã-finos de São Paulo” e “A milésima segunda noite da avenida Paulista” -, o placar favorece Joel. E eu suspeito que Silveiral não chegou nem perto de gastar cinco mil dólares ["com almoços, jantares, hotel e aluguel de carro"] e nem mais de dois meses para apurar e escrever os seus textos. [Não quero ser injusto - ainda que isso não diga nada para o escritor americano e menos ainda para Joel Silveira, que já morreu -, mas, de Talese, li o livro traduzido, o que pode fazer alguma diferença.]

Silveira escreveu seus textos na década de 1940, vinte anos antes de Talese, mas se diz que o “novo jornalismo” nasceu com os americanos na década de 1960 – Talese um de seus maiores representantes.

É interessante observar que os textos de Talese guardam certa similitude com o que escreveu Silveira vinte anos antes. Obviamente não houve cópia – é bem provável que Talese nunca tenha ouvido falar de Silveira. Mostra apenas que ambos são jornalistas argutos para os detalhes.

Joel, a exemplo de Talese [que fez o perfil do cantor em "Frank Sinatra está resfriado" sem falar com ele],  descreve a festa de casamento da filha de um  Matarazzo sem ter ido lá.  E mostra, com perspicácia a alma dos “grã-finos” sem conviver com eles.

Vejam dois trechos de “Eram assim os grã-finos” [não vou reproduzir Talese pois, provavelmente mais brasileiros o leram do que a Silveira]:

« Há coisas muito estranhas em São Paulo: os cafés não tem cadeiras nem mesinhas, dessas onde a gente costuma sentar e conversar. O trânsito das ruas é dirigido por guardas rigorsosos, como nas outras cidades importantes. E nas salas do Automóvel Club homens muito ricos jogam razoáveis fortunas, em alegres jogos de carta. Um financista de São Paulo, dono de várias fábricas e empresas, é homem sensível e inteligente, muito culto, que adora livros e faz versos. Seu rosto é cor-de-rosa, como o rosto das crianças. Seus cabelos estão alvos, porque a vida cheia de trabalho do milionário os fez assim. Mas não existe ódio nem raiva da voz do financista: ele conversa sobre livros, lê suas traduções de poemas clássicos e sua voz é suave e absorvente como uma esponja.”

[...]

« D. Fifi Assunção e d. Iolanda Penteado são muito mais paulistas do que dona Irene Crespi. São paulistas de quatrocentos anos. Vocês, que apenas são capixabas do princípio do século, não sabem o que signfica, em São Paulo, ser paulista de quatrocentos anos. É mais importante do que ter uma estátua em praça pública. O poeta Olegário Mariano tem uma estátua em praça pública e passa despercebido na rua do Ouvidor. Um paulista de qutrocentos anos jamais será confundido na multidão da rua Direita. »

Então a pergunta é: por que Joel Silveira, lúcido e sempre atualizado, morreu semi-esquecido em seu apartamento de Copacabana, sem que nenhum jornal se lembrasse de convidá-lo para escrever com regularidade? Por que ele não merecia um décimo da atenção que se dá a Gay Talese?

Uma das prováveis respostas: um escritor, um jornalista, um artista  razoável, com as poderosas máquinas de divulgação dos “países centrais” terá mais destaque do que um ótimo equivalente brasileiro.

[Felizmente a Abraji, em seu congresso de 2007, homenageou Joel Silveira ainda em vida, quando foi representado pela sua filha. Ele morreria no mesmo ano. No congresso foi exibido um vídeo - do qual eu guardo uma cópia - em que Joel explica por que ganhou de Assis Chateaubriand o apelido de "a Víbora". Lendo o trechos acima tem-se uma pista da razão de seu apelido. ]

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Plínio Bortolotti

Plínio Bortolotti

Jornalista. Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O POVO, jornal, rádios […]

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