27.04.10 18:02
Divergências sobre tombamento deixa situação tensa em icó
Alguns conflitos, inclusive ameças de morte, ocorreram em Icó desde o tombamento de uma ampla área da cidade pelo Insituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A situação ficou mais tensa desde a semana passada quando Altino Afonso Medeiros, técnico da Prefeitura e colaborados do Iphan, foi perseguido por um homem que o ameaçou de morte.
Há dois tipos de tombamento, o sítio histórico (com cerca de 260 prédios) e o entorno, uma área de mais de 40 hacteres. Os moradores e comerciantes, principalmente do entorno, queixam-se que as regras do tombamento são muito rígidas, restringindo qualquer mudanças nos prédios e dificultando o desenvolvimento do comércio.
O superintendente do Iphan no Ceará, Clodoveu Arruda, diz que a agressão sofrida por Altino Afonso é “grave, mas residual”, pois a violência não seria a marca principal do relaciomento com os moradores da cidade com os órgãos de preservação do patrimônio.
A maioria dos moradores e comerciantes com quem conversei – incluindo o presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Icó, Gecione Pereira Martins – defende a preservação. Alguns acham que devia haver mais flexibilização na área de entorno. Vários deles queixam-se da falta de ação da Prefeitura para tornar mais conhecido o sítio histórico. Nem mesmo uma equipe de guias existe para mostrar a cidade aos visitantes. Igreja e prédios públicos costumam ficar fechados à visitação.
Estivemos em Icó, eu e o repórter Deivyson Teixeira – devidamente conduzidos pelo motorista Valdir Gomes.
As matérias:
Ameaças após tombamento de Icó
Moradores pedem normas mais flexíveis
Exemplo de preservação
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24.04.10 12:53
Um assassinato e outra morte anunciada?
Uma situação dramática e inaceitável, é que estamos vivenciando no Ceará.
Depois do assassinato em Limoeiro do Norte – foram 19 tiros de pistola ponto 40 – do líder comunitário José Maria Filho, que denunciava o uso abusivo de agrotóxicos na chapada do Apodi, leio no jornal Diário do Nordeste que um técnico da prefeitura de Icó, colaborador do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) vem sofrendo ameaças de morte [aqui].
O assassínio de José Maria também foi precedido de ameaças.
Altino Afonso
O técnico é Altino Afonso de Medeiros – coordenador do sítio histórico -, que conheci quando fiz uma viagem pelo interior, no mês de janeiro deste ano, tendo me demorado três dias em Icó. [Veja alguns posts que fiz na época.]
A cidade tem toda a sua área histórica tombada pelo Iphan, o que provoca a resistência de proprietários, da Igreja e da própria Prefeitura, que é uma das acionadas na Justiça pelo Iphan, por alterar a calçada original, em frente ao prédio onde funciona a Câmara de Vereadores.
Altino Afonso, de modo voluntário, percorre a cidade com grupos de visitantes, estudantes e a quem lhe pede – como foi o meu caso – para conhecer o casario, os prédios e a rica história e as lendas que a cidade guarda – a sua maior riqueza.
Andar em Icó – com seus 300 anos – dá uma sensação física de viver a história, fora as belas histórias e lendas que Altino Afonso nos oferece generosamente.
Voluntário
Com as ameaças, Altino Afonso disse que vai abandonar a função de coordenador do sítio histórico e o trabalho que faz, voluntariamente, como guia: “Não quero mais fazer esse trabalho; levei cuspida na cara, empurrões e, por último, quase tiraram a minha vida”, disse, ao relatar o modo ameaçador como foi abordado por um mototaxista.
Ele se queixa que, nem a Prefeitura e nem o Iphan reconhecem o trabalho que ele faz. O salário que recebe do município: R$ 460,00.
O superintendente do Iphan, Clodoveu Arruda, que esteve em Icó, disse que um dos arquitetos do Instituto, Eric Mendes, também sofre ameaças de agressão física. Ele disse que vai pedir proteção ao funcionário do Iphan e a Altino Afonso.
Comentário
O governo do Estado tem de agir com presteza para prender os assassinos e mandantes de José Maria e para proteger a vida de Altino Afonso.
Já passou do tempo de as polícias terem uma ação mais dura para acabar com essa mancha que envergonha o Ceará: os chamados crimes de pistolagem.
Isso aqui tem governo ou é terra de ninguém?
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16.01.10 18:44

Em Icó faz calor. Às vezes sopra uma brisa. Às quatro da tarde ainda é possível sentir o mormaço nas paredes dos prédios que ficam virados para o sol. Às cinco da tarde as pessoas começam a pôr as cadeiras nas largas calçadas de algumas ruas. Formam-se rodas de famílias e amigos.
No Largo Théberge jovens jogam bola, brincam as crianças; as meninas passeiam. Vai entardecendo calmamente: Icó é uma bela cidade.
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Veja mais fotos. Continuar lendo
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15.01.10 20:24
Afonso, Dona Socorro e a casa das 42 portas em Icó

O historiador Altino Afonso e Dona Socorro, a guardiã da casa de 42 portas e 24 cômodos
Afonso bate na porta e uma senhora abre as duas folhas, diz que demorou pois estava nos fundos – a casa deve ter cerca de 80 m de comprimento. Dona Socorro é simpática e falante, mostra comorgulho a casa em que ela mora há 41 anos, e faz tudo para mantê-la como era originalmente a construção de cerca de 200 anos. Ela via mostrando a casa, as peças antigas: mesa, relógio do século XVIII, garante, cadeiras.
A casa vai de uma rua a outra; Dona Socorro diz que fica “com raiva” dos moradores que descuidam da originalidade das construções ou “divide a casa em três”
A casa dela tem 42 portas e 24 cômodos, como ela gosta de frisar.
Peço para tirar a foto, ela se queixa que está com roupa de ficar em casa e de chinelos, mas concede, ficando semiescondida atrás da parta de entrada.
Quem está ao lado dela na foto é o historiador Altino Afonso Mederios, de quem falei post abaixo, que me conduziu pela história e pelas lendas de Icó. Veja mais sobre ele.
E eu vou dizer: não contei nem a metade das histórias de Icó e nem mostrei um décimo da beleza completa de seu casario [a falta que faz um fotógrafo de verdade].
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15.01.10 20:15
A incrível história Antônio Pluma, o fuzilado salvo pelo Senhor do Bonfim

Pátio da Câmara e Cadeia onde forma fuzilados revolucionários da Confederação do Equador
Afonso me conta uma história, que, a cada vez, me faz mais crer que o realismo fantástico dos escritores latino-americanos nada mais é do que a realidade ela mesma, factual.
Um dos revolucionários da Confederação do Equador, condenados ao fuzilamento em Icó, foi Antônio Pluma, conhecido como “Pau Brasil”.
Ao ser levado para a frente do pelotão, ele resiste. Os soldados amarram-no a uma cadeira, põem-lhe o capuz.
Ao ouvir a ordem de disparo, ele grita: “Valei-me Senhor do Bonfim”. Nenhum tira lhe acerta: os soldados preparam a segunda carga. Ele repete o grito de socorro: sai vivo. Os soldados recarregam e atiram no novo; Pluma invoca novamente o Cristo: “Valei-me Senhor do Bonfim”: alguns tiros pegam de raspão.
Os soldados se preparam para nova carga. O povo que assistia ao fuzilamento corre e abraça Pluma, impedindo o fuzilamento. Ele é carregado para a Igreja Senhor do Bonfim, que fica a cerca de 200 metros da Casa de Câmara e Cadeia. Ele não é mais importunado.
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15.01.10 20:08
Casa da Câmara e Cadeia de Icó e a Confederação do Equador

No local, além da cadeia, funcionou o governo do Ceará e o Judiciário
A Casa da Câmara e Cadeia Pública de Icó começou a ser construída no fim do século XVIII – e entrou na história de uma das revoltas anti-Império mais importantes do Brasil: a Confederação do Equador.
O prédio serviu de sede para o governo legalista e lá foram julgados, presos e fuzilados alguns dos revolucionários republicanos.
Bárbara de Alencar e Tristão Gonçalves [seu filho e líder da revolta] ficaram presos a ferros, por três dias, antes de serem enviados a Fortaleza.
Outros cinco, tiveram destino mais cruel: foram fuzilados no pátio da cadeia.
As paredes do prédio, construído com pedras, tem 1,5 metro de largura; para levantar as grades das celas é necessário a força de seis homens; as chaves pesam meio quilo cada uma.
Tristão Gonçalves viria a morrer em combate, em Quixeramobim. Seu corpo ficou exposto como exemplo do que acontecia aos que se revoltavam contra o Império.
Sua mulher passou a usar luto fechado, até a morte, o que lhe valeu o apelido de Ana Triste.
A Confederação do Equador no Ceará aconteceu durante o ano de 1824 e foi esmagada pelo Império em poucos meses
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15.01.10 20:00
A praça, o Largo do Théberge, era um entreposto comercial em Icó

Largo do Théberge: ao fundo a Igreja de São José, à direita, a Igreja de Nossa Senhora da Expectação, construída por volta de 1709, portanto, com 300 anos
O Largo do Théberge, em Icó, tem mais de 50 mil m², cerca de um quilômetro de extensão. Ao fundo, vê-se a Igreja de São José. Entre os séculos XVIII e XIX era o maior entreposto de carne do Ceará. Ao redor dela estão os principais prédios históricos, como o Teatro da Ribeira, a Casa de Câmara e Cadeia, e as igrejas Senhor do Bonfim e da Matriz.
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15.01.10 19:49
Icó: a Igreja Nosso Senhor do Bonfim e a baleia adormecida

A imagem do Senhor do Bonfim guarda uma baleia adormecida, segundo o credo popular
A igreja Nosso Senhor do Bonfim, em Icó, foi construída em 1749; quando ficou pequena para abrigar os fiéis construiu-se outra igreja, que teria o mesmo nome.
Já estávamos no século XX, no ano de 1960, mas quando a nova igreja ficou pronta e se iniciou o processo para transferir a imagem do Senhor do Bonfim [o Cristo na cruz], o povo se revoltou, não permitindo a mudança.
É que corre a história que, sob o altar, esta uma balei adormecida. Se a imagem for retirada, a baleia vai acordar e começará a jorrar água, transformando Icó em um braço do mar.
Os padres desistiram da transferência e deram à nova igreja o nome de São José.
A imagem do Senhor do Bonfim, em madeira, é do século XVII e, segundo a tradição popular, foi trazida de Salvador [BA], em uma procissão de fiéis. Todos os anos, cerca de 30 mil pessoas repetem o mesmo trajeto.
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15.01.10 19:42
Ribeira dos Icós: o teatro que nunca foi inaugurado

Teatro da Ribeira dos Icós: o palco é inclinado para permitir a visão dos pés dos artistas em espetáculos de dança
O Teatro da Ribeira dos Icós é o mais antigo do Ceará, construído em 1860. Mas, até hoje, não foi inaugurado.
Segundo a história oral, no dia da inauguração; a elite de Icó, muito ciosa de sua importância, mandava os empregados ao teatro para ver se alguém havia chegado e que roupa estava vestindo: ninguém queria chegar primeiro e todos queriam brilhar mais. Nessas idas e vindas, o baile programado acabou não acontecendo e o teatro nunca foi inaugurado.
Vejo que o palco do teatro é levemente inclinado, em direção à platéia. Pergunto a Afonso o motivo: foi o modo que o construtor encontrou para, quando houvesse espetáculo de dança, os espectadores vissem os pés dos atores. [Bem pensado!]
Pela disputa que há com Quixeramobim, para ver quem tem o teatro mais antigo, os quixerambinenses admitem que o seu é o segundo mais antigo do Ceará – mas ironizam o Teatro da Ribeira dizendo que este nunca foi inaugurado.
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15.01.10 19:36
Barão do Crato: arrogância, crueldade, brigas e a paixão impossível pela irmã

Sobrado do Barão do Crato, ao lado a Igreja Senhor do Bonfim
O sobrado de Bernardo Duarte Brandão – o Barão do Crato – foi construído há mais de 200 anos em Icó – e foi palco de brigas; de amor impossível; e é cercado de lendas.
Crueldade
Afonso fala com a atual proprietária, dona Doraci, e subimos ao sobrado. Piso e portas são de madeira da época; o marido dela, seu Arnaldo, me mostra uma bola de ferro [segurei, deve pesar mais de dez quilos] e diz que a encontraram no quintal: o barão costumava castigar os escravos fazendo-os arrastar o pesado metal. Ele também diz que encontrou vários dentes humanos: segundo ele conta, arrancar dentes a sangue frio era outro castigo impingido pelo Barão do Crato a seus escravos.
Dona Doraci mostra a fotografia do pai e da mãe na parede, diz que são seus “anjos da guarda”. O pai era telegrafista dos Correios – “nem na calçada ele ia sem terno” – e sempre teve cuidado em preservar a casa, tarefa que Dona Doraci tomou para si.
Arrogância
Talvez devido à sua arrogância, a histórica oral conta que do térreo do sobrado saem dois túneis: um para o Teatro da Ribeira dos Icós e outro para a Igreja Matriz: o barão não se misturava ao povo. Afonso me diz que havia proposto ao Iphan verificar se os túneis de fato existem, mas, segundo ele, o instituto achou mais interessante deixar correr a lenda. [É como dizer John Ford: “Se a lenda for mais interessante que a realidade, publique-se a lenda”.]
Briga
A meia quadra do sobrado do Barão, morava dona Glória Dias, mulher valente, dona de fazendas. Debaixo das duas frondosas tamarineiras, que ela mesma plantara, ela abrigava seus animais e descarregava cargas que trazia de suas fazendas. Corria o ano de 1840.
Incomodado com o barulho e a sujeira, o Barão disse que iria cortar as duas árvores. Dona Glória, incontinenti, comprou uma carreta de pólvora e disse que caso suas tamarineiras fossem cortadas, ela explodiria a casa do Barão. Conhecendo o gênio forte da mulher, o Barão recuou.
Don Glória doou a carreta à Igreja do Senhor do Bonfim e a pólvora foi utilizada na festa comemorativa da padroeira – e a tradição de soltar fogos na data é mantida até hoje.
Amor
No entanto, o caso do Barão com a sua própria irmã foi a mais fantástica história de amor que eu já ouvi. Ainda jovem o barão vai à Europa para complementar seus estudos; quando viaja, sua irmã ainda é uma criança.
Quando volta, ela transformou-se em uma linda moça. O barão apaixona-se por ela, é correspondido – e ele quer conhecê-la, digamos, no sentido bíblico. Ele move céus e infernos para casar-se com a irmã; vai até o Vaticano falar com o papa, mas nada consegue.
Volta derrotado e frustrado – resolve nunca se casar, no que é seguido pela irmã: morrem os dois solteiros.
Afonso compara a história com “Romeu e Julieta”, e diz que o romance inventado por Willian Shakespeare, tornou Verona, na Itália, a cidade mais procurada pelos amantes – e pergunta por que a história do Barão com a irmã é tão pouco conhecida.
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