Plínio Bortolotti

01.01.10 22:00

O padeiro e o jornalista

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: Comente

Neste primeiro dia do Novo Ano, deixo aos meus colegas jornalistas uma homenagem: O padeiro, crônica de Rubem Braga. O texto foi escrito quando se punha chaleira no fogo para fazer café, o pão era deixado à soleira da porta e casa era chamada de “lar”.

O cronista nos dá uma lição de humildade e, ao contrário de Gilmar Mendes comparando jornalistas e cozinheiros  grosseiramente, de modo a diminuir as duas profissões, Braga eleva a ambas no seu paralelo.

Vamos deixar Rubem Braga falar:

O padeiro
Rubem Braga

Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento – mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.

Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quanto vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas para não incomodar os moradores, avisava gritando:

- Não é ninguém, é o padeiro!

Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo?

“Então você não é ninguém?”

Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes acontecera bater a campainha de uma cada e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém…

Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicara que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina – e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como o pão saindo do forno.

Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque o jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo como o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”

Eu assobiava pelas escadas.

[Maio, 1956] do livro “200 Crônicas escolhidas – As melhores de Rubem Braga”, Record, 1984.

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20.11.09 15:46

Cesare Battisti: “Decisão do STF é chocante e ilógica”, diz o jurista Bandeira de Mello

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 3 Comentários

Reproduzo abaixo entrevista do professor Celso Antônio Bandeira de Mello à revista eletrônica Carta Maior, assinada porMarco Aurélio Weissheimer.

Decisão do STF foi chocante e ilógica, diz Celso Bandeira de Mello

O voto do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, desempatando a votação no caso Battisti a favor da extradição e defendendo que o presidente da República deveria se curvar a ela abriu uma polêmica no meio jurídico. Na avaliação de Pedro Estevam Serrano, professor de Direitos Constitucional da PUC-SP, caso o STF tivesse decidido pela não extradição de Cesare Battisti, essa decisão sim seria vinculativa, uma vez que, neste caso, não estariam cumpridos os requisitos legais para o ato. “Ao decidir pela extradição, além da decisão judicial, coloca-se a necessidade de uma decisão política sobre o assunto por parte do chefe do Executivo. Se a proposta de obrigar o presidente da República a cumprir a decisão do STF fosse aprovada (acabou derrotada por 5 votos a 4), o Judiciário estaria ingressando indevidamente na esfera do poder Executivo”.

Serrano respeita a decisão da maioria do Supremo que optou pela extradição, mas diverge dela. “A definição do que vem a ser um crime político tem uma dimensão de discricionariedade, que cabe ao ministro da Justiça decidir. Há um espaço intangível aí. Neste sentido concordo com o parecer do professor Celso Antonio Bandeira de Mello, para quem o Judiciário foi além de seu papel, ingressando na esfera própria da discricionariedade”. Celso Bandeira de Mello divulgou um parecer sobre o caso Battisti após seu nome ter sido citado pelo relator do caso, o ministro Cezar Peluso. Em seu voto, Peluso citou o trecho de um livro do jurista na tentativa de fundamentar a tese de que o ato de concessão de refúgio pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, poderia ser modificado pelo STF. Neste parecer, ele defende o contrário do que disse Peluso, ou seja que o ato de concessão de refúgio não poderia ser avaliado pelo Supremo.

Em entrevista à Carta Maior, o professor Celso Antonio Bandeira de Mello avalia a decisão do STF e defende a correção da decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, que concedeu refúgio a Cesare Battisti. O jurista classificou como “chocante e ilógico” o voto proferido pelo presidente do Supremo, Gilmar Mendes.

Leia a entrevista. Continuar lendo

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09.11.09 19:23

No vestibular da UFC tem mais gente querendo ser cozinheiro do que jornalista

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 11 Comentários

Mesmo com a decisão do STF [Supremo Tribunal Federal], que extinguiu a necessidade do diploma de graduação para o exercício da profissão de jornalista, a concorrência para o curso continua alta na UFC [Universidade Federal do Ceará].

A graduação em Jornalismo está em 8º lugar entre os cursos mais concorridos da UFC, sendo cada vaga disputada por 16,5 estudantes. São 824 inscritos concorrendo às 50 vagas para 2010.

É interessante observar que cursos, até pouco tempo considerados “menos nobres”, estão com concorrência bastante alta, como é o caso de Gastronomia, com 17,6 candidatos para uma vaga – o quarto mais procurado – disputa maior do que para o curso de jornalismo.

Ou seja, tem mais gente querendo ser cozinheiro do que jornalista. Ponto para o presidente do STF, Gilmar Mendes.

O curso menos procurado é o de Engenharia de Materiais [Cariri], com 0,9 candidato por vaga. Ou seja, cumprindo a exigência mínima, todos os inscritos serão aprovados – e ainda vai sobrar vaga.

Os mais procurados

1. Medicina [Barbalha] – Concorrência: 26,1 – Inscritos: 1,568 – Vagas: 60
2. Psicologia [Fortaleza] – Concorrência:  20,1 – Inscritos: 1.606 – Vagas: 80
3. Fisioterapia [Fortaleza] – Concorrência:  18,0 – Inscritos: 719 – Vagas: 40
4. Gastronomia – Concorrência: 17,6 – Inscritos: 705 – Vagas: 40
5. Direito [Fortaleza - Diurno] – Concorrência:  17,4 – Inscritos: 1.737  – Vagas: 100
6. Comunicação  Social [Publicidade e Propaganda] – Concorrência:  17,2 – Inscritos:  861 – Vagas: 50
7. Medicina [Sobral] – Concorrência: 16,8  – Inscritos: 1.009  – Vagas: 60
8. Comunicação Social [Jornalismo]- Concorrência:  16,5  – Inscritos:  824 – Vagas: 50
9. Enfermagem- Concorrência: 15,8  – Inscritos: 1.261  – Vagas: 80
10. Educação Física/ Licenciatura [Fortaleza] – Concorrência:  15,6  – Inscritos: 782  – Vagas: 50.
10. Medicina [Fortaleza]- Concorrência: 15,6  – Inscritos: 2.499  – Vagas: 160

Os menos procurados

1. Engenharia de Materiais [Cariri]- Concorrência: 0,9  – Inscritos: 45  – Vagas: 50
2. Letras/Espanhol [Fortaleza] – Concorrência: 1,6  – Inscritos: 82  – Vagas: 50
3. Física/Licenciatura [Fortaleza - Noturno]- Concorrência: 2,1  – Inscritos: 105  – Vagas: 50
4. Letras [Português-Alemão - Fortaleza/- Concorrência: 2,4  - Inscritos: 47  - Vagas: 20
5. Matemática/Bacharelado [Fortaleza]- Concorrência: 2,5  – Inscritos: 113  – Vagas: 45

Observem como poucos estudantes buscam o bacharelado, como física e matemática, isso mostra a desvalorização da profissão e se  reflete na falta de professores dessas disciplinas nos ensino fundamental e médio.

Veja a lista completa dos cursos aqui.

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28.08.09 05:11

"Cozinhando notícias, escrevendo receitas de jornal"

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 1 Comentário

gilmotr

A turma 2009.1 do Curso de Jornalismo da Faculdade Integrada do Ceará (FIC), a primeira a graduar-se depois que o STF (Supremo Tribunal Federal) acabou com a exigência do diploma para o exercício da profissão, resolveu inovar, nas “homenagens” de fim de curso.

Ou melhor, optou por ironizar a situação, tendo como alvo o presidente do STF, Gilmar Mendes, considerado o principal responsável por desregulamentar a profissão de jornalista.

Os jovens resolveram escrever na tradicioinal placa de conclusão, que fica afixada nos corredores das faculdades:

“Diploma ao molho Gilmar Mendes: Cozinhando notícia, escrevendo receitas de jornal”.

Suiany Araújo, aluna responsável pela organização da formatura, disse que “todos ficaram frustrados” com o fim da exigência do diploma. E que outro estudante, Diego Lage,  sugeriu a “homenagem”, aprovada pela turma por unanimidade.

Diego Lage, o autor da idéia, disse que  foi “uma forma de protesto”, para chamar a atenção de quem ler a placa. [Com informações do Sindicato dos Jornalistas.]

[Charge de Clayton para o jornal O POVO, reproduzida do Blog do Eliomar.]

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22.05.09 18:05

Gilmar Mendes e Heraldo Pereira [1]

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 4 Comentários

Aparecem novos fatos na relação do presidente do Supremo Tribunal Federal [STF], Gilmar Mendes e o repórter Heraldo Pereira, da Rede Globo.

O jornalista integra o “Conselho Estratégico” da TV Justiça, caracterizado como “um órgão consultivo de assessoramento ao presidente do Supremo Tribunal Federal para assuntos que se referem à TV Justiça”.

Se o conselho é “estratégico” e faz “assessoramento” direto a Gilmar Mendes, como está escrito, supõe-se uma relação muito próxima dos conselheiros com o ministro.

Mas, a rigor, esses conselhos raramente funcionam, são meramente formais. Se os seus integrantes forem pagos, caracteriza-se como sinecura.

Os sete integrantes do “Conselho Estratégico” são os seguintes:

Ministro Gilmar Mendes
Presidente do STF (Presidente do Conselho)

Ministro. Cezar Peluso
Vice-Presidente do STF

Ministro Carlos Britto
Ministro do STF na linha de sucessão do Vice-Presidente

Alcides Diniz da Silva
Diretor-Geral do STF

Heraldo Pereira
Jornalista e advogado

Marilena Chiarelli
Jornalista

Renato Parente
Secretário de Comunicação Social do STF (Secretário do Conselho)

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22.05.09 17:16

Gilmar Mendes e Heraldo Pereira

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: 1 Comentário

No Twitter, sob indicação de Fabiano Angélico, cheguei ao blog Cloaca News, que dá a informação [aqui e aqui] que Heraldo Pereira, repórter e comentarista da Rede Globo, é professor no Instituto Brasiliense de Direito Público [IDP], que seria “propriedade” do presidente do Supremo Tribunal Federal [STF], Gilmar Mendes.

No dia 16/5, fiz uma postagem neste blog mostrando que, nos  Estados Unidos, o colunista do New York Times, Thomas Friedman, estava sob questionamento ético por ter recebido US$ 75 mil por uma palestra, caso que poderia ser equivalente ao brasileiro [guardadas as proporções].

Dar aulas é uma das poucas atividades aceitas, sem questionamento, que pode ser exercida como “dupla função”. Juízes, por exemplo, são proibidos de exercer qualquer outra atividade,  à exceção do magistério.

Vejamos

1. Um jornalistas pode dar aulas sem que isso fira a ética? A meu ver, não há conflito ético em exercer as duas atividades. Pelo contrário, estudo acadêmico e prática jornalística são complementares. No período em que fui ombudsman, dava aula em um instituição universitária. O Estatuto do Ombudsman do O POVO ressalva o magistério como a única atividade que um ombudsman pode exercer fora do jornal.

2. No caso de Heraldo Pereira, o caso toma outra feição pois o IDP seria “propriedade” do ministro Gilmar Mendes e, entre as atribuições do repórter, ele precisa cobrir o Poder Judiciário em Brasília. Se assim for, fica caracterizado o conflito de interesses.

3. Ainda há outra questão ética: pode um ministro do Supremo Tribunal Federal ser ”proprietário” de uma instituição desse tipo? Não parece muito compatível. No site do IDP Mendes aparece como “fundador” [aqui], mas não consta entre os diretores.

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Plínio Bortolotti

Plínio Bortolotti

Jornalista. Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O POVO, jornal, rádios […]

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