15.11.09 00:01
Publico a sétima história sobre o cangaço, reproduzida do livro “No tempo de Lampião”, de Leonardo Mota [1891-1948 ], cearense de Pedra Branca que dedicou-se a pesquisar as coisas do sertão nordestino.
Estou editando as publicações aos domingos, tendo já publicado:
O príncipe
Para tirar a raça
O castiçal
Quem escreveu a patente de Lampião
A morte do Jararaca
O troféu
Fique agora com:
“Brincadeira de homem”
Antônio Silvino fazia-se respeitado de seus satélites. Disciplinava-os. Sabia assegurar a conveniente distância que deve existir entre comandante e comandados. Jamais permitiu atrocidades que não houvesse, em pessoa, determinado.
Chegara ele com a sua récua a uma fazenda. À hora do improvisado almoço, um cabra, o Tempestade, deu-se ao luxo de reclamar:
- Ô arroz insosso de todos os diabos!
Um relâmpago de cólera fulgiu nos olhos de Silvino, que, findo o repasto, foi falar à mulher do fazendeiro:
- Dona, a senhora tem sal em casa?
- Tenho, seu Capitão. Eu vi aquele homem não gostar… Vossenhoria me discurpe, me perdoe o arroz sair insosso: foi coisa do avexame, do aperreio do perparo…
… – Nhóra não, não é por isso, não: eu quero saber se a senhora me pode vender meio litro de seu sal.
- Posso lhe ceder; vender não. O Capitão leve o sal, que não lhe custa nada e é dado de gosto!
- Nhóra não, não é pra carregar, não. É um ensinamento que eu quero dar naquele cabrocha, que falou do arroz. Me vá ver meio litro, por bondade!
Atendido, Silvino pediu uma bacia, derramou dentro o sal, dissolveu com uma porção de água e, voltando ao terreiro, onde o Tempestade esgravatava a dentuça, obrigou-o, de punhal à mão, a beber toda aquela água, horrivelmente salgada:
- Isso é pra você, seu bruto, perder o costume de botar defeito no que lhe dão, de graça! Engula! Ou engole, ou morre! Comeu insosso, beba salgado, que é pra carga não ficar torta… Cabra sem criação!
Daí a pouco o Tempestade padecia sob a ação do purgante mais que enérgico… Continuar lendo
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