01.11.10 09:04
Meu artigo publicado na edição de hoje (1º/11/2010) no O POVO:
Como será o governo Dilma?
Plínio Bortolotti
Discordo da tese de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será o titereiro de Dilma Roussef, eleita para sucedê-lo –sendo a primeira mulher a assumir a chefia do Executivo da República Federativa do Brasil.
Primeiro, porque Lula deverá se entregar a outros afazeres. O presidente tornou-se personalidade internacional e, creio, a imagem que ele quer cultivar se aproxima mais de um Nelson Mandela ou de um Jimmy um Carter: ou seja alguém que paira acima das circunstâncias políticas.
Se Dilma, na campanha, se apresentava como parceira e, ao mesmo tempo, como dedicada discípula de Lula – ela não demonstra nenhuma vocação para marionete. Óbvio que Lula poderá ser um conselheiro privilegiado, pela experiência que adquiriu ao longo de sua vida, principalmente, nos oito anos que governou o país.
Mas, como governará Dilma? É uma questão em aberto. O que se pode dizer é o seguinte.
1) Dilma não tem a mesma popularidade de Lula, portanto terá de mostrar resultados rapidamente. Como a campanha foi de um acirramento inaudito – dança na qual até a imprensa entrou – é bem possível que ela não tenha nem os seis meses regulamentares de “lua de mel”.
2) A candidata eleita não tem o mesmo controle do PT que Lula detém. O presidente tem relação bonapartista com o seu partido: as suas vontades são acatadas sem muita dificuldade. Portanto, as propostas do partido podem ganhar mais visibilidade.
3) Diferentemente de Lula, que formou-se na área sindical, por isso sua habilidade em negociar, a presidente eleita tem a sua formação em grupos clandestinos, que implica em receber e dar ordens, pois disso depende a segurança pessoal e da organização. Além disso, Dilma tem um perfil de executiva que também pressupõe “autoridade” em vez da flexibilidade exigida na política.
4) A seu favor, ela terá um Senado mais amigável do que aquele que enfrentou Lula e lhe deu tantas dores de cabeça.
No mais é saudar a democracia, reafirmada mais uma vez nestas eleições.
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28.10.10 00:01
Senador Cristovam Buarque defende o “decrescimento feliz”

*Foto de Drawlio Joca, da série "Periferia do Círio". Veja mais em http://www.flickr.com/photos/drawliojoca
Meu artigo semanal publicado na edição de 28/10/2010, no O POVO.
Decrescimento feliz
Plínio Bortolotti
É interessante ser surpreendido por argumentos sobre o quais nunca se havia pensado. Aconteceu quando ouvi, pela Rádio Senado, um discurso do senador Cristovam Buarque (PDT-DF).
Ele disse que estava na hora de se começar a debater o “decrescimento”, pois, disse o senador, os maiores problemas que o mundo enfrenta hoje advêm do crescimento da economia. Segundo ele, nos círculos intelectuais europeus já se espalha o conceito do “decrescimento feliz”. “A ideia de que é possível, e até necessário, reduzir o crescimento da produção material para que as pessoas possam viver mais felizes”.
Cristovam diz que o problema ambiental, o endividamento das pessoas, o aumento exagerado dos gastos públicos são conseqüência do crescimento da economia a qualquer preço. E que essa “bolha” vai estourar.
Para ele, a grande pergunta não é mais “como crescer”, mas “qual (tipo) de crescimento” queremos. Cristovam diz que a ânsia por crescimento tem de ser contestada, “pelo menos no nível do debate”. O senador diz que “a Europa inteira” e os Estados Unidos estão em crise, o que demonstraria não apenas uma crise “no modelo” , mas a crise de “um modelo” de desenvolvimento.
Ele dá um exemplo para mostrar o “absurdo da irracionalidade”, o fato de que toda vez que há um engarrafamento, aumenta o PIB. “Cada litro queimado de gasolina, mesmo que não o leve de um lugar a outro, aumenta o PIB. Quanto mais desperdício, mais aumenta o PIB. Há alguma coisa errada nisso. E ninguém vê.”
Cristovam levanta o assunto para dar um puxão de orelha (ele tem autoridade para isso) nos candidatos a presidente, que se abstiveram do debate sobre questões essências para o país.
Quanto ao mérito do que propõe Cristovam, sobre o “decrescimento feliz”, confesso não saber como isso seria possível, e nem ele disse no discurso. Mas que é um debate estimulante, isso é.]
[*Até o dia 30/10/10/2010, 21h23min, por um equivoco cometido por mim mantive uma foto de Guga Pimentel como se fosse de Drawlio Joca, pelo que peço desculpas ao autor. O próprio Drawlio alertou-me do equívoco.]
Veja o discurso completo do senador Cristovam Buarque. Continuar lendo
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25.10.10 12:16
Hélio Rôla opina sobre o Conselho Estadual de Comunicação Social
Do artista plástico Hélio Rôla, que dispara suas Rolanets da Lagoa Redonda, recebi mais uma, com ilustração e texto, que segue abaixo.
Arte, mereces a mordaça que te cala?
«Nossa história mostra que o poder, à direita ou à esquerda, quando lhe interessa, logo cassa, cala ou exila, ou mesmo mata, quem pensa, dança, escreve, desenha, pinta ou fala ( E o que mais?)… E, se “necessário” e para atender sua ideologia, ele também proíbe que os artistas pintem o mundo em suas próprias cores e formas vivas…Quem não sabe disso? Enfim, neste clima de intolerância político-ideológica que nos anima, é inaceitável e inoportuna essa “Mordaça da Raquel”, [uma infeliz idéia da Deputada Raquel Marques (PT)]… que foi aprovada na Assembléia Estadual do Ceará pelos deputados cearenses…Alguma surpresa? Nenhuma. Alguma salvação?
Agora só nos falta o Governador se pronunciar e eu, data venia, ouso perguntar-lhe: se toda arte merece a mordaça que lhe cala?»
Mais
Veja nota oficial da deputada Rachel Marques sobre o assunto.
Leia artigo que escrevi sobre o tema.
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24.10.10 23:11
Deputada Rachel Marques (PT) fala sobre Conselho Estadual de Comunicação Social
Neste sábado [23/10/2010] a deputada Rachel Marques (PT) publicou em sua página da internet uma “nota oficial” em que defende o seu projeto de indicação para a criação do Conselho Estadual de Comunicação Social do Ceará.
O tema foi objeto de um artigo que publiquei no O POVO, Comunicação e conselhos. Veja abaixo a nota da deputada e, a seguir, alguns comentários meus.
Nota oficial da deputada Rachel Marques
«Como comunicado à imprensa, que nos últimos dias vem solicitando depoimentos e entrevistas para os seus veículos, encontro-me atualmente em licença médica. A publicação de que estou me distanciando do debate, é falsa e leviana. Solicito que seja, por isso, divulgado sobre meu estado de saúde. O departamento legislativo da Assembleia recebeu atestado que comprova essa situação.
Venho a público reafirmar a importância do projeto de indicação Nº 72/2010, que prevê a criação do Conselho Estadual de Comunicação Social do Ceará. A proposta de Conselho de Comunicação não é um ataque a liberdade de expressão e um mecanismo de censura. Longe disso, os conselhos são mecanismos democráticos, que integram os interesses de determinado setor, a exemplo dos conselhos de educação, saúde e assistência social, que têm como finalidade principal servir de instrumento para garantir a participação popular na construção das políticas e dos serviços públicos, envolvendo o planejamento e o acompanhamento da execução, no caso específico, uma política pública estadual de comunicação.
O projeto foi uma das propostas aprovadas na Conferência Nacional de Comunicação, realizada em 2009, com a participação de empresários, como a ABRA – Associação Brasileira de Radiodifusão, capitaneada pela TV Bandeirantes e a Rede TV e a TELEBRASIL – Associação Brasileira de Telecomunicações e redigido em conjunto com a Rede Cearense pela Comunicação (RedCom), organização composta por 30 entidades estaduais que publicaram manifesto de apoio ao projeto aprovado pela Assembleia.
O Conselho de Comunicação é uma demanda antiga das organizações sociais, movimentos sociais, jornalistas e empresários, para promover a participação social na comunicação no Brasil. Inclusive há a previsão de tal órgão na Constituição, no Artigo 224, que diz “Para os efeitos do disposto neste capítulo, o Congresso Nacional instituirá, como seu órgão auxiliar, o Conselho de Comunicação Social, na forma da lei”, com direito a constituição de organismos similares nos estados. » [Rachel Marques - Deputada Estadual – PT]
Comentário
1. Há diferença substancial entre o que diz o artigo 224 da Constituição, que prevê a criação de um Conselho como “órgão auxiliar do Congresso Nacional”, e a proposta da deputada Rachel Marques. O que foi proposta pelo deputada não é um órgão auxiliar da Assembleia Legislativa, mas um conselho com funções executivas, ligada à Casa Civil do governo do Estado. Portanto, o primeiro passo para fazer um bom debate e não confundir propostas diferentes.
2. Não falo oficialmente em nome da editoria de Política do O POVO, mas posso assegurar que todos os procedimentos para encontrar a deputada para falar sobre o assunto, nas matérias que o jornal produziu, foram seguidos.
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21.10.10 00:01
Meu artigo semanal, publicado na edição de hoje (21/10/2010) do O POVO:
Comunicação e conselhos
Plínio Bortolotti
A Assembleia Legislativa aprovou projeto de indicação propondo a Criação do Conselho Estadual de Comunicação Social do Ceará, por iniciativa da deputada Rachel Marques (PT).
Antes do mérito, uma explicação. Existem assuntos sobre as quais o parlamento não pode legislar por iniciativa própria, como a criação de impostos e leis que aumentem os gastos dos governos, por exemplo. A criação de conselhos também é de competência exclusiva dos Executivos.
Sobre esses temas, o Legislativo pode aprovar “projetos de indicação”, meras sugestões que o governo pode aceitá-las ou rejeitá-las. Acatando, o chefe do Executivo tem de mandar um projeto de lei para ser aprovado na Assembleia Legislativa.
Feitas às explicações aos argumentos: sou favorável à criação de conselhos nas mais diversas áreas. Mas não se pode equiparar a produção jornalística a qualquer outro serviço que é oferecido ao público. Por isso é preciso estabelecer com bastante cuidado as atribuições que se dará a um conselho desses.
Existe ou existia (pois deixou de funcionar) o Conselho (federal) de Comunicação Social, mas funcionava como um órgão auxiliar do Congresso Nacional. No momento, me parece mais adequado que a proposta cearense tivesse a mesma natureza em relação à Assembleia Legislativa.
No entanto, a pretensão do Conselho Estadual é “formular e acompanhar a política estadual de comunicação, exercendo funções consultivas, normativas fiscalizadores e deliberativas ”, ressalvando o respeito ao “capítulo V” Constituição (houve confusão com art. 5º, que trata das liberdades individuais). Ou seja, o conselho atribui-se prerrogativas executivas, o que soa equivocado, pelo menos no momento.
O debate sobre os meios de comunicação é necessário e tem de florescer. Mas, do jeito proposto, o mais provável será a rejeição por parte do Palácio Iracema, pois o conselho toma para si algumas prerrogativas das quais o governo não gostaria de perdê-las.
Veja íntegra do projeto. Continuar lendo
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14.10.10 08:10
Eleições, religião e o peixe na água
Meu artigo semanal publicado na edição de hoje (14/10/2010) do O POVO.
Eleições, religião e o peixe na água
Plínio Bortolotti
Chegou a nível inaceitável o tom de religiosidade da campanha à Presidência da República. José Serra (PSDB) parece candidato a papa; Dilma Rousseff (PT) se esforça para parecer uma beata.
Quem trouxe o tema à arena foi o PSDB, ainda que Serra diga que o assunto surgiu “naturalmente”; o argumento dele convencerá quem acredita em trololó, para ficar na linguagem do próprio candidato.
O tom fundamentalista da gritaria passa longe do modo pacífico como o brasileiro convive com as mais diversas crenças – tirante alguns arroubos dos neopentecontais que, de vez em quando, gostam de chutar a santa ou de agredir gratuitamente religiões de origem africana.
O que se precisa saber dos candidatos são suas propostas para o país e não suas convicções sobre temas que cada um deve resolver com sua própria consciência, apegando-se a seus valores, espirituais ou não – pois ninguém deve ser obrigado a crer.
Os ateus e agnósticos não têm defeito congênito que os faz menos humanos ou menos bondosos do que os crentes. Há muitos ateus muito mais próximos dos ensinamentos de Jesus do que certos hipócritas que se preocupam com a forma e se esquecem da essência dos ensinamentos do Cristo.
No meu blog [veja aqui] comento o livro “Peixe na água”, de Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura este ano. Ele aborda os dias de campanha quando foi candidato a presidente do Peru (em 1990), uma parte menos comentada de sua biografia.
Vargas Llosa relata como temas religiosos e pessoais ganharam precedência sobre o debate de propostas. Acusavam-no de ateu (ele é autodeclarado agnóstico) de “pornógrafo” por seu livro “Elogio da Madrasta” e de “incestuoso”, por ter-se casado, na juventude, com a irmã da mulher de um tio, história que ele conta ficcionalmente no livro “Tia Júlia e o escrevinhador”.
Quem ganhou aquelas eleições peruanas foi o engenheiro foi Alberto Fujimori. Quem quiser saber alguma coisa mais dessa triste figura, basta pôr o nome dele no Google.
07.10.10 07:01
Previsões jornalísticas e o piloto da patrol
Meu artigo semanal, publicado na edição de hoje (7/10/2010) do O POVO:
Previsões
Plínio Bortolotti
Jornalista, quando se metamorfoseia em comentarista, costuma agir com lógica parecida com do ex-ministro Rubens Ricúpero (“O que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”). No caso, trata-se do seguinte: articulistas e colunistas, que têm a tarefa de comentar a conjuntura, costumam fazer conjecturas sobre o que pode acontecer.
Mais erram do que acertam. Porém, as conjecturas equivocadas costumam ser esquecidas e aquelas que terminam por bater com a realidade são resgatadas com destaque em outras colunas, normalmente com exortação do tipo “eu falei”. Por isso, muitas vezes, tem-se a impressão de que alguns jornalistas são craques em fazer análises corretas.
Digo isso, pois, na edição desta segunda-feira publiquei um artigo mostrando que havia destacado, com um ano de antecedência, o tamanho do problema que seria a verde Marina Silva seria para o PT.
Como gosto de equilíbrio, conto-lhes outra história. A todos que me perguntavam (muita gente ainda pensa que jornalista tem opinião definitiva – e certa – sobre tudo) a respeito da campanha para o Senado, a minha resposta era: “Tasso tem a eleição garantida; a briga será pela segunda vaga”. Falhei miseravelmente: o senador Tasso Jereissati não conseguiu a reeleição.
Isso não quer dizer, como comentam por aí, que a carreira política de Tasso esteja encerrada. Políticos têm uma estranha capacidade de regeneração. E a do senador, se ele quiser, nem será tão demorada, pela sua importância política – e, mais ainda, assim se José Serra (PSDB) sair-se vencedor do 2º turno contra Dilma Rousseff (PT).
O que me soou um tanto deslocada, partindo do senador, foi a explicação que ele deu para a sua derrota. Queixou-se o rolo compressor governista. Claro que isso não é um negócio bonito de se ver, mas o engraçado é que ninguém ouviu Tasso Jereissati reclamar quando era ele quem pilotava a patrol.
Para quem quiser ver mais do ensaio de Drawlio Joca Sertões [Gênero Humano]
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04.10.10 00:01
Segunto turno: “O efeito Marina”
Meu artigo publicado na edição de hoje (3/10/2010) do O POVO.
O efeito Marina
Plínio Bortolotti
Em agosto de 2009, quando Marina Silva anunciava a sua saída do PT para concorrer à Presidência pelo PV, escrevi um post em meu blog dizendo que ela – diferentemente de Ciro Gomes, também pretendente, à época – é que poderia causar estragos à candidatura de Dilma Rousseff (PT), a escolhida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Dizia que ela seria um “osso duro de roer”, tanto pela sua trajetória pessoal, como pela leva de petistas desencantados com Lula que ela poderia atrair (tem gente sempre em busca de um herói). Um leitor deixou então um comentário perguntando se eu estava dando uma de “irmã Jurema” (conhecida “vidente” de Fortaleza). Respondi-lhe não se tratar de adivinhação, mas de análise.
Marina começou com 9% da preferência do eleitor, obtendo mais de 19% dos votos. A performance da candidata verde foi jogando água fria na fervura na qual Lula pretendias cozinhar as eleições, transformando-as em plebiscito comparativo com os oitos anos de governo de seu antecessor Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
Obviamente, os petistas prefeririam liquidar a fatura no primeiro turno. Mas, talvez, o pior pesadelo seria enfrentar a própria Marina, de quem ainda não se sabe que candidato apoiará – ou se vai dar o seu apoio a um deles – talvez prefira não declarar o voto, deixando de oferecer um indicativo aos seus seguidores.
Mas, se a tática lulista de transformar as eleições em um plebiscito não funcionou plenamente no primeiro turno, agora ele terá condições de testá-la em sua plenitude. Se o PSDB topar o jogo, escalando FHC de atacante, o negócio poderá ficar animado.
O que parece certo é que a “inteligêcia coletiva” do eleitorado, ao tempo em que dá a Lula índices inéditos de aprovação, vem se recusando a lhe entregar um cheque em branco, tendo imposto a ele – e agora à sua candidata – o desconforto de enfrentar um segundo turno.
“Estamos atentos” parece querer dizer o eleitor. Será isso um avanço na consciência política?
(Escrevi o texto com 98% dos votos apurados. No blog dou indicação dos posts a que me referi neste artigo.)
Os posts que citei no artigo
• Marina Silva é quem poderá provocar abalo na candidatura de Dilma Rousseff
• Marina Silva, uma floresta no meio do caminho
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30.09.10 00:01
Mídia versus Lula: “Liberdade de expressão”
Meu artigo semanal publicado na edição de hoje (30/9/2010) do O POVO.
Liberdade de expressão
Plínio Bortolotti
O acirrado confronto eleitoral entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) fez intensificar uma falsa premissa que, vez ou outra, já era aventada: a de que a liberdade de expressão no Brasil correria risco. Se o negócio ficasse na acusação entre candidatos, ainda se poderia creditar aos excessos de campanha.
O problema é que a questão transbordou, contaminando parte da imprensa. Esta começou a agitar o fantasma de que o presidente estaria prestes a desferir um golpe mortal na Constituição para agredir a liberdade de expressão nela consagrada.
Lendo-se algumas publicações tem-se a impressão que se está na iminência de uma desgraça; que o braço da censura desabará sobre o país: um faz “advertências” para que não se mexa nas “cláusulas pétreas” da Constituição; outro chama do presidente de “chefão” de uma facção.
Mas, se todas as instituições funcionam em sua plenitude – se o presidente, objetivamente, nunca fez nenhum gesto que apontasse para o controle do noticiário – de onde viria tal perigo?
Se Lula exacerba-se indevidamente ao dizer que vai “derrotar a imprensa”, os que pretendem dar-lhe lições não podem tratá-lo por menos do que um chefe de Estado. Quem pede respeito às instituições não pode desrespeitar uma delas, a Presidência da República – à qual, goste-se ou não do presidente, ele nunca a desqualificou.
Até mesmo militares de pijama (quem diria) resolveram fazer um ato em favor da liberdade de imprensa. Bem-vindos aqueles que a suprimiram na negra noite da ditadura.
Do mesmo modo, não se pode cobrar que os meios de comunicação ajam como extensão da Assessoria de Imprensa da Presidência da República, nem de candidatos. E deve ser combatida a tese do “abuso” da liberdade imprensa, pois não se pode aceitar o controle do que vai ser publicado. No mais, esse é um confronto que só levará prejuízos aos contendores e à democracia.
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23.09.10 09:00
Comunidade do Trilho: “Não é justo perder tudo assim”, diz dona Maria, 82 anos

Foto de Drawlio Joca, da série "Centro invisível", de Fortaleza (exclusivo para os leitores do blog)
Meu artigo semanal, publicado na edição de hoje (23/9/2010) do O POVO:
“Não é justo perder tudo assim”
Plínio Bortolotti
No domingo este jornal trouxe matéria mostrando o temor das pessoas que moram ao longo da Via Expressa (do Mucuripe à Parangaba), com a prevista instalação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), uma das obras prometidas para melhorar a trafegabilidade durante a Copa do Mundo de 2014.
São moradores pobres que ocuparam a área ao longo dos últimos 50 anos, constituindo-se um enclave – cercado por bairros “nobres”, em alguns trechos. A construção da Via Expressa ajudou a revelar a situação precária desses viventes, esquecidos pelo poder público.
O que eles temem? Temem aquilo que sempre foi regra nesse Brasil cabôco de Mãe-Preta e Pai João. Quando o “progresso” chega, os de baixo são deslocados para as periferias distantes, depois de receberem uma “indenização” pelos seus bens – sempre pequena, pois só se paga o valor material de suas modestíssimas moradias.
É fato que, quando se vive em sociedade, os interesses individuais – ainda que envolvam um grande número de pessoas – não podem se sobrepor aos interesses coletivos. Mas existem dezenas de formas de se resolver um problema: e a melhor saída – e não a aparentemente mais fácil – é a que deve ser procurada.
Pagar uma indenização e mandar que cada um se vire é romper a teia social e de solidariedade que os humildes sabem tecê-las tão bem. É negar-lhes o direito de viver em um lugar hoje cobiçado, mas que era inóspito e desprezado quando chegaram.
Uma das possibilidades, honesta e humana, é mantê-los próximos do lugar onde moram hoje. Se eles podem ser desapropriados, por que o Estado não pode desapropriar terrenos próximos para oferecer-lhes novas moradias?
“Construímos tudo, não é justo perder assim”, foi o que disse ao jornal dona Maria Jorge da Silva, 82 anos, uma das primeiras moradores a chegar à comunidade do Trilho, em 1958. Não lhes parece que ela tem razão?
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