“Não há saída à vista para o Brasil”, afirma fundação alemã

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 2/7/2017 do O POVO.

“Não há saída à vista para o Brasil”, afirma fundação alemã

Relatório da Fundação Konrad Adenauer (FKA) analisa a situação brasileira de forma parecida como fazem os analistas mais argutos, ou nem tanto, pois a debacle é por demais evidente para passar despercebida mesmo ao mais distraído dos viventes. Mas causa certa estranheza a maneira como é escrito o documento, de modo técnico, neutro, objetivo, como se fosse relato de uma dissecação, por isso impactante. A propósito, a Fundação Konrad Adenauer é ligada à União Democrata-Cristã (CDU), partido da primeira-ministra alemã, Angela Merkel, portanto não pode ser acusada de “esquerdista”.

Escrita antes da vexatória viagem de Michel Temer e sua entourage à Rússia e à Noruega – onde o presidente levou um puxão de orelhas e seu ministro do Meio Ambiente, um cascudo -, a análise já anotava que o Brasil, antes um “global player”, desperdiçava seu potencial geopolítico. “Este é um passo que o Brasil não deveria arriscar, pondo a perder conquistas políticas e econômicas”. Como exemplo da perda de importância no cenário internacional, é lembrada a decisão de Merkel de excluir o Brasil da viagem que fez pela América Latina em junho, visitando a Argentina e o México. E, ainda, o cancelamento de um convite que seria feito para Temer visitar a Alemanha.

O documento faz crítica contundente à Justiça brasileira, chamando de “farsa” o julgamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que votou contra a cassação da chapa Dilma-Temer. Para a FKA, o resultado mostra que “até mesmo a Justiça vem sendo mais e mais politizada”, ao não considerar as irregularidades suficientes para cassar a chapa. O relatório cita ainda o ministro Gilmar Mendes como alguém que “há muitos anos é pessoa de confiança de Michel Temer”.

Para a FKA, a situação de Temer é insustentável, mantendo o mandato por meio de “manobras políticas questionáveis”, enquanto as reformas estruturais “urgentemente necessárias” estão paradas. A Fundação lista, entre os fatores de insustentabilidade de Temer, seu baixíssimo índice de avaliação positiva (7% segundo o último levantamento Instituto Datafolha) e por ter sido abandonado pelo “Grupo Globo, império de mídia, que vinha se mantendo fiel ao presidente Temer (…), passou a exigir sua renúncia”. A Globo ficou contra o presidente, narra o documento, depois de Joesley Batista, dono da JBS, ter gravado uma conversa com Temer, relatando “pagamento de propinas”, sem que o presidente reagisse.

O relatório aborda ainda a dificuldade de o Brasil sair da crise, devido às regras constitucionais “possivelmente aplicáveis”. A saída de Temer implicaria sucessor escolhido por um colégio “com três quintos dos 594 congressistas” sob investigação do Ministério Público. Além disso, assumiria interinamente a chefia do Executivo o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), “que responde a três inquéritos no STF por corrupção e lavagem de dinheiro”.

Feitas as contas, os autores do documento não veem saída para o Brasil, pois, “em hipótese alguma”, na visão deles, o afastamento do presidente significaria o “desfecho da crise brasileira”.

Restam as diretas, que também não têm poderes mágicos para resolver o problema, mas avança o consenso de que, entre as alternativas, essa aparece como a menos pior.

NOTAS

ESPANTO
O relatório faz um relato didático da evolução da crise, notando-se o espanto de seus formuladores com a corrupção no Brasil, que alcança “até os mais altos círculos do governo e do empresariado”, como neste trecho: “Até o momento, já foram descobertos pagamentos ilegais no montante de R$ 16,7 bilhões – isto significa que, de cada mil reais produzidos no Brasil, R$ 1,50 foi para o bolso dos membros dessa rede de corrupção”.

PRIMEIRO
O texto da FKA foi escrito antes de Temer tornar-se o primeiro presidente brasileiro a responder por crime comum no exercício do mandato. Situação a que chegou depois de ser denunciado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pelo crime corrupção passiva.

CRÉDITO
Fundação Konrad Adenauer: Brasil – Sem saída para a crise?

Plínio Bortolotti

Sobre Plínio Bortolotti

Jornalista. Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O POVO, jornal, rádios e TV (Fortaleza, Ceará). No jornal O POVO foi repórter, editor e ombudsman por três mandatos (2005/2007). Integra o Conselho Editorial do jornal e coordenou o Conselho de Leitores (2008/2015). Também é responsável pelo projeto Novos Talentos para estudantes de Jornalismo. Escreve um artigo semanal para a editoria de Opinião e assina a coluna "Menu Político", no caderno People. Na rádio O POVO/CBN é âncora do programa diário "Debates do Povo" e faz comentário diariamente no programa de rádio Revista O POVO/CBN. Diretor da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), entre os anos de 2008/2011. Cidadão Cearense, por título concedido pela Assembleia Legislativa em dezembro de 2010.

2 thoughts on ““Não há saída à vista para o Brasil”, afirma fundação alemã

  1. O Brasil vai entrar na onda liberal… tentando virar USA… vai conseguir no máximo se “mexicanizar”… vamos virar um país merda de terceiro mundo sem cultura, sem expressão, sem tecnologia… plantando soja pra virar fast-food americano… doando minério e importando aço… doando petróleo e importando gasolina… pagando imposto que vira juros para o Itaú e o Bradesco…

    Se já eramos atrasados… com essa guinada para o fundo do poço… pode colocar mais algumas décadas de subdesenvolvimento.

    Estamos pior do que na época da ditadura… naquela época tínhamos líderes e soluções… só faltava tirar a maldita ditadura da frente… agora não temos nada… a nação fracassou como um todo… décadas para formar uma nova geração de líderes e criar soluções.

    O Brasil cometeu suicídio sócio-econômico nunca visto na história de um povo… em 3 anos jogaram um país no chão sem plano B… esperando que algo venha tomar o lugar…

  2. As diretas que já foram sonho , se tornaram pesadelo.Pilhas de candidatos investigados e com raríssimas exceções julgados e presos , sem partidos, sem programas, apoiados por grandes empresas, igrejas e sindicatos ( laranjas em profusão!). O discurso da grande maioria é o do ódio, seja de classes ou às minorias .Os extremos se exaltam a propagar extremas tolices , ideias populistas irresponsáveis e fracassadas que retornam preguiçosamente às estantes por falta de bom senso , patriotismo e intelectuais que não estejam presos nos anos 60.

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