15.09.09 05:13
Americanos confiam cada vez menos na precisão das notícias
A avaliação dos americanos sobre a precisão das notícias está em seu nível mais baixo, segundo pesquisa divulgada no fim de semana pelo Pew Research.
Somente 29% dos americanos acham quem os veículos noticiam os fatos de maneira correta, enquanto que 63% pensam que as notícias são frequentemente imprecisas.
Na primeira pesquisa do gênero, em 1985, os índices eram de 55% para os que viam as notícias apresentadas com precisão e de 34% para os que achavam os noticiários imprecisos. O estudo diz ainda que só 26% acreditam que os veículos estão preocupados em não ter viés político.
Também chegando ao patamar mais baixo de todos os tempos estão os índices dos que pensam que as empresas jornalísticas são independentes de pessoas e organizações poderosas (20%) e dos que acham que os jornais estão dispostos a admitir seus erros (21%).
No gráfico abaixo, a linha em azul escuro indica a avaliação da precisão das noticias e a linha em azul claro mostra a evolução da avaliação da imparcialidade. [Reproduzido do Blue Bus, em post de Elisa Araujo.]

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11.09.09 05:13
Globo e Folha de S. Paulo estabelecem regras restrititivas para uso do Twitter, blog e redes sociais
O blog Radar Online divulgou que a Globo emitiu, ontem à noite, comunicado restringndo o uso das mídias sociais – blog, Twitter, facebook, orkut e outros – por seus contratados.
Ficaram proibidas “a divulgação ou comentários sobre temas direta ou indiretamente relacionados às atividades ligadas à Globo; ao mercado de mídia ou qualquer outra informação e conteúdo obtidos em razão do relacionamento com a Globo”.
A emissora também informou que essas ferramentas somente poderão ser mantidas em veículos do grupo. Se algum contrata quiser ter, por exemplo, um blog, sem estar vinculado à emissora, terá de pedir autorização. Na prática, os contratados da Globo ficam proibidos de usar o microblog Twitter ou blogs que não estejam no guarda-chuva dos veículos da emissora.
Segundo o comunicado da Globo, o objetivo é proteger seus “conteúdos da exploração indevida por terceiros, assim como preservar seus princípios e valores”.
Folha de S. Paulo
A Globo é o segundo grande meio de comunicação a tomar tal atitude. O blog Toledol, de José Roberto Toledo, já divulgara na quinta-feira [10/9/2009], que circular do jornal Folha de S. Paulo estabelecera regras bastante rígidas para jornalistas da casa que mantêm blogs, participam de redes sociais na internet, ou do Twitter.
A íntegra do comunicado da Folha, assinado pela editora-executiva Eleonora de Lucena, é o seguinte:
«Os profissionais que mantêm blogs ou são participantes de redes sociais e/ou do twitter devem lembrar que: a) representam a Folha nessas plataformas, portanto devem sempre seguir os princípios do projeto editorial, evitando assumir campanhas e posicionamentos partidários; b) não devem colocar na rede os conteúdos de colunas e reportagens exclusivas. Esses são reservados apenas para os leitores da Folha e assinantes do UOL. Eventualmente blogs podem fazer rápida menção para texto publicado no jornal, com remissão para a versão eletrônica da Folha.»
Ou seja, os jornalistas ficam proibidos de publicar “furos”, aparentemente, mesmo depois que o jornal os tenha divulgado, podendo, no máximo fazer a remissão ao texto original. [Aqui o jogo é perdido; será impossível controlar a divulgação de um conteúdo exclusivo – se o jornalista da Folha não o fizer, alguém fará.]
Como anota Toledo, a possibilidade de o jornalista escrever e publicar com rapidez em outro veículo [a internet] e não exclusivamente naquele no qual é empregado, “criou uma situação inédita e um potencial conflito de interesses entre o jornalista e o veículo para o qual trabalha. Ambos competem, de certo modo, pela atenção do público e pela primazia de informá-lo”.
Toledo levanta outras questões bastante pertinentes:
1. Onde termina a pessoa jurídica e onde começa a pessoa física do jornalista?
2. O repórter deve tuitar em caráter pessoal durante uma cobertura para seu veículo?
3. Se um jornalista apura informação exclusiva fora do seu horário de trabalho, essa notícia pertence a ele ou ao veículo para o qual trabalha?
4. Teria sido possível ao jornalista obter esse “furo” sem ter o respaldo institucional e o prestígio do veículo para o qual trabalha?
5. Os editores devem editar os posts dos repórteres?
6. Ao pagar o salário do jornalista, o veículo é dono de toda a sua produção intelectual e pode dispor sobre sua veiculação?
No blog Toledol, há uma enquete sobre o assunto.
E você, que é jornalista, aceitaria as regras determinadas pela Folha; aceitaria submeter seus posts em redes sociais, blog ou Twitter ao seu editor?
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31.08.09 05:13
Móveis Coloniais de Acaju faz imprensa cair em pegadinha
É muito mais frequente do que se imagina a imprensa publicar, confiando nas fontes, informações que depois se revelam falsas.
A mais recente é a que envolve a banda “Móveis Coloniais de Acaju” [muito prazer, soube da existência devido à polêmica], cujos integrantes inventaram uma história para justificar o nome do grupo musical.
Algumas vezes o informante o faz de propósito, para auferir algum tipo de benefício; de outras, por desconhecer o assunto de que fala; e há os que fazem apenas com o objetivo de se divertir à custa da credulidade [e desconhecimento] dos jornalistas, que deveriam ser céticos [e verificadores] por natureza. Se serve de consolo, mesmo os jornalistas mais experientes, já repassaram alguma informação incorreta.
Antes de entrar no caso do “Móveis”, relembremos alguns casos recentes: a) um internacional, b) um nacional [que virou internacional] e c) um “cearense” [que virou nacional]:
1. “Quando eu morrer, haverá uma valsa de despedida tocando em minha cabeça, que só eu poderei ouvir”, a frase atribuída ao compositor Maurice Jarre, morto em março deste ano, foi reproduzida pelos meios de comunicação em vários países do mundo, mesmo os mais qualificados, como The Guardian e o portal da BBC. A frase, no entanto, fora inventada por um estudante irlandês, que a postou na Wikipedia, para mostrar como os jornais divulgavam, sem checar, informações colhidas na rede mundial de compuradores. Shane Fitzgerald, de 22 anos, disse que esperava que blogs e alguns jornais utilizassem a frase, mas achou que as grandes publicações não confiariam na Wikipedia, sem verificar as informações nela divulgadas. [Já havia comentado o assunto neste blog.]
2. A partir de uma notícia, com fotos, publicada no início do ano no Blog do Noblat, jornais, TVs e rádios reproduziram que a advogada brasileira Paula Oliveira, grávida de três meses, havia sido atacada por neonazistas ao sair de uma estação do metrô, na Suíça. Nas fotos podia-se ver várias marcas no corpo da advogada, incluindo a sigla de um partido suíço considerado de extrema-direita. A divulgação provocou uma onda da revolta na imprensa brasileira acusando a “xenofobia” do país europeu. Em pouco tempo revelou-se a farsa: a moça não estava grávida e, ao que tudo indica, ela se automutilou. [A propósito, como andará esse caso? De acusadora, a advogada passou a suspeita e está respondendo à Justiça suíça, mas não se tem informação sobre o desenrolar do processo.]
3. A imprensa cearense, no início de 2006, foi sacudida pela exposição que faria na cidade, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, um dos mais importantes artistas plásticos japoneses da atualidade: Souzareta Geijutsuka. Os jornais publicaram resenhas, informaram sobre as característas do artista, fizeram entrevistas. Tudo a que tem direito uma personalidade. Acontece que Souzareta era uma invenção do jovem artista plástico [este real] Yuri Firmeza. A imprensa nacional deu destaque ao caso. Na ocasião, era ombudsman do O POVO e escrevi a coluna que poderá ser vista abaixo.
Móveis Coloniais de Acaju
Quanto ao caso da banda brasiliense, seus integrantes inventaram uma história, publicada no site do grupo, dizendo que o nome do grupo era uma homenagem à “Revolta do Acaju”. O “obscuro episódio da história do Brasil”, a “Revolta do Acaju”, teria ocorrido em 1813, quando “os índios javaés, que tradicionalmente usavam a madeira de acaju (cedro) para produzir móveis em estilo colonial, se uniram aos portugueses para expulsar da Ilha do Bananal (no atual estado do Tocantins) invasores ingleses que se apoderaram da região”.
As “explicações” no site da banda prosseguem: “O pior para aqueles homens foi ver a destruição sistemática de suas criações. Calcula-se que mais de meia tonelada de madeira, em forma de móveis coloniais e cachimbos xamanísticos tenham sido destruídos pelos ingleses”.
Mesmo sem ser historiador e nem especialista em pesos e medidas, observam-se duas pistas muito evidentes de que tudo não passava de uma brincadeira:
1. Você já ouviu dizer que alguma tribo indígena brasileira é ou teria sido alguma vez na história do Brasil produtora de móveis?
2. Meia tonelada [500 quilos] não representa nada em termos de quantidade de madeira beneficiada. Somente para se ter uma idéia, um caminhão pode carregar mais de 10 toneladas de madeira. Se você juntar o guarda-roupa, a cama e a penteadeira da sua avó, já deve dar os 500 quilos.
Apesar disso, vários jornais e revistas reproduziram a balela – segundo a matéria da revista Época -, que também caiu na pegadinha, e escreveu matéria para se explicar aos leitores.
A Época fez o que deve ser ser feito – e tem de ser louvada por corrigir seu erro em matéria de destaque -, mas podia ter passado sem as ironias [dizendo que o texto do site da banda é "cheio de erros de pontuação"] e também sem a lição de moral, dando um pito n os integrantes da banda, pois “muitos jovens estão acostumados a tomar como verdade tudo o que leem na internet”. [Pelo jeito, muitos jornalistas também.]
Pois é o seguinte: a arte não tem compromisso com a realidade; o jornalismo sim. Ninguém vai ao portal de uma banda de música para aprender história do Brasil; mas à imprensa, muito gente recorre para entender fatos atuais e históricos.
Veja a seguir coluna do ombudsman de fevereiro de 2006: “A arte de enganar”. Continuar lendo
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25.08.09 12:02
Ovni, "golpe da casa" e lição de jornalismo
Enviada à cidade de Mulungu (CE) para verificar a suposta aparição de um Ovni em um bananal – que estava provocando medo nos moradores – , a repórter Daniela Nogueira, do O POVO, viu algo, digamos assim, muito mais terreno.
Começou a ouvir aqui e ali algo sobre um “golpe da casa”, interessou-se, perguntou, foi atrás – e fez aquilo que se chama jornalismo de interesse público.
Daniela começou a puxar o fio da meada. Descobriu que uma tal de Federação de Pescadores e Trabalhadores na Agricultura Familiar do Estado do Ceará (Fetraace), presidida por Franscisco Eraque Roque, havia lesado cerca de 1.500 famílias em várias cidades do interior, prometendo-lhes construir casas por meio de um projeto chamado Nossa Morada. Cada interessado, para se “cadastrar” no projeto, precisava pagar entre R$ 150 a R$ 300.
A repórter continuou o trabalho. Descobriu que Francisco Eraque Roque, o presidente da Fretraace, respondia a 35 processos na Justiça (estadual e federal), a maioria por estelionato, o famoso artigo 171 do Código Penal. Os processos se espalham por várias cidades do interior.
E ainda mais, que Eraque Roque já fora condenado em um dos processos e cumpre pena em regime semiaberto desde 2007. Em outro processo, movido pela prórpia sogra, ele também já tem sentença condenatória.
Eraque Roque é tão esperto e atrevido – ou bem relacionado – que chegou a receber uma homenagem à entidade em “sessão solenene” na Assembléia Legislativa, em setembro do ano passado.
Na edição de hoje [25/8/2009], O POVO informa que o BNB – depois de já ter liberado R$ 12 mil – cancelou o restante do repasse referente a convênio que mantinha com a Fetraace para “capacitar líderes na agricultura familiar”. [O BNB cancelar repasse de dinheiro era o esperável; a surpresa é o banco ter feito convênio com uma associação presidida por um sujeito com uma folha corrida dessas.]
Duas lições
1. Um repórter não pode somente “cumprir a pauta” indicada pelo editor. Tem de ficar de olhos e ouvidos bem abertos. Fosse um repórter desinteressado, aqueles que gostam da zona de conforto, Daniela teria se restringido a fazer apenas o que lhe havia mandado o editor.
2. Hoje muitos afirmam que a internet e os blogs substituiem o jornalismo “tradicional”. Este exemplo mostra que – pelo menos por enquanto – isso não é possível. Quantos blogs teriam condições de fazer essa reportagem, de inegável interesse público? Quantos sites – pelo menos no Ceará – poderiam destacar um repórter para ficar várias dias levantando uma única história: creio que nenhum.
Portanto, sem negar a importância dos blogs – agora mesmo estou escrevendo em um – é preciso observar que a “imprensa tradicional” ainda – e creio que será por um bom tempo – é imprescindível.
…….
[Tinha posto o número 3 no item anterior, pelo que me chamou a atenção, de forma bem-humorada, o leitor Márcio Dorneles: veja nos comentários.]
? A propósito, ao informar no Twitter sobre esta postagem, pus um título que talvez ficasse mais chamativo neste post: “Repórter vai atrás de Ovni e descobre ‘golpe da casa’”.
22.08.09 17:24
"A paranóia sobre a mídia" em debate
Minha postagem A paranóia sobre a mídia, em resposta ao artigo “As entranhas da mídia”, do professor e psicanalista Valton Miranda (que poderá ser visto no mesmo link), tem propiciado um bom debate sobre o tema.
Primeiro foi jornalista Marcelo Soares, comentarista político da MTV, que fez um comentário e enviou o texto A mídia e o triunfo da cultura idiota, do jornalista americano Carl Berstein (que, junto com Bob Woodward, desvendou o caso Watergate).
Depois, o próprio professor Valton treplicou, trecho:
«O outro aspecto imediatamente conexo da minha reflexão crítica é que na contemporaneidade não é possível separar mídia, prática política e mercado consumológico. Dessa maneira, se o Capital Global está na sua fase de produção destrutiva, conforme nos ensina Marx, a mídia como estrutura comunicacional universal está inserida no mesmo processo. Não creio que a mídia constitua um campo destacado do conjunto.»
Intevieram também os leitores:
Marcos Quezado: “No intuito de destruir o verme, não podemos matar o indivíduo. (…) O Jornalismo, por mais falho que seja, obviamente se põe como ponto crítico à construção e não fomentador da destruição em si.”
Eduardo Arraes: “Tenho acompanhado o debate sobre as comunicações no Brasil e não creio que se queira ‘jogar a criança fora junto com a água do banho’. O que nós, críticos da mídia, queremos é que a criança tome o banho direito. Ou melhor, que todas as crianças tenham direito à ele”. (Seguem-se algumas medidas que ele propõe para democratizar a propriedade dos meios de comunicação.)
Os comentários, na íntegra, podem ser vistos no primeiro link, acima.
17.08.09 06:01
Secretário da Segurança volta hoje; corregedor acusado de envolvimento com tortura fica?
Roberto Monteiro, secretário da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará, está de volta a Fortaleza, onde chegou no sábado. Afastado do cargo desde o início de julho, ele estava em Curitiba – onde mora sua família -, para para se submeter a uma cirurgia. Hoje, ele retoma a rotina da pasta, com uma reunião com o Conselho Superior das Polícias.
Uma das coisas que o secretário terá de decidir é se mantém José Armando Costa como corregedor-geral dos Órgãos de Segurança Pública do Ceará.
Como Roberto Monteiro, Costa também foi delegado da Polícia Federal.
O secretário não estava em Fortaleza no período em que O POVO publicou reportagens mostrando uma série de irregularidades cometidas por policiais do projeto Ronda do Quarteirão, criado pelo governo Cid Gomes como modelo de uma “nova polícia”.
As faltas graves dos policiais vão desde o uso de viatura para encontros “amorosos”, passando por destruição deliberada do equipamento dos carros, abuso de autoridade e espancamento de civis.
Durante as reportagens revelou-se uma faceta do corregedor-geral, José Armando Costa, que, a princípio, pareceu folclórica. Respondendo a uma das perguntas quando foi entrevistado saiu-se com esta: “Rapaz, disseram que eu fiquei de ‘saia justa’. Rapaz, quem usa saia justa é viado (sic). O que mais posso usar é calça justa. Pode dizer aí, Armando Costa nunca usou saia; nem justa nem apertada”.
Mas, depois, revelou-se um pouco mais tenebrosa. Com a divulgação da entrevista, o jornal começou a receber documentos que ligavam o corregedor a práticas de tortura durante a ditadura miliar.
Um deles, um deles o jornal Campus, dos estudantes da Universidade de Brasília que, em matéria sobre os 30 anos da Lei de Anistia, levantou a ficha de José Armando Costa, que fora secretário da Segurança da capital federal.
Na matéria, mostra-se que Costa é citado no livro “Brasil Nunca Mais” que relaciona aqueles que participaram de torturas entre 1964 e 1979. O corregedor não é acusado de ter supliciado diretamento os presos. Segundo o relatório, ele os interrogava após as sessões e ameaçava entregar novamente aos torturadores os presos que não falassem. Veja aqui.
O secretário Roberto Monteiro ganhou o respeito das entidades de direitos humanos de Fortaleza pela sua defesa da estrita legalidade na atividade policial, manifestando-se firmemente, sempre, contra qualquer tipo de abuso. Por esse modo de agir, ele ganhou a antipatia da “bancada da bala” da Assembléia Legislativa, pois proibiu delegados de expor presos de maneira vexatória.
Pois agora é ver como vai agir o secretário em relação ao corregedor-geral José Aramando Costa, o homem resposável por vigiar e punir os policiais que cometem abusos.
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16.08.09 05:59
A mídia e o triunfo da cultura idiota
Marcelo Soares, comentarista político da MTV, e que mantém o interessante blog E você com isso?, deixou comentário, que reproduzo abaixo, na postagem “A paranóia sobre a mídia”.
Ele indica o artigo “A mídia e o triunfo da cultura idiota”, do jornalista americano Carl Bernstein (parceiro de Bob Woodward na investigação do escândalo de Watergate). O texto, orginalmente publicado no The Guardian (Londres), em 1992, foi traduzido por Marcelo e divulgado no Observatório da Imprensa.
Escreveu Marcelo a respeito da minha postagem “A paranóia sobre a mídia”:
“O que eu acho mais engraçado, ao ver que a paranóia antimídia foi encampada pela esquerda, é lembrar que os patronos da técnica são ninguém menos do que Richard Nixon e Ronald Reagan. Recomendo vivamente a leitura de “A mídia e o triunfo da cultura idiota”, artigo de Carl Bernstein traduzido por mim, que conta a gênese disso.”
O artigo a que se refere Marcelo está na sequência. Continuar lendo
15.08.09 06:01

A artigo que segue abaixo, de minha autoria, será publicado na edição deste domingo no O POVO, na editoria de Opinião. Respondo a um artigo do psicanalista Valton Miranda [aqui] publicado na edição de 9/8/2009.
A paranóia sobre a mídia
Virou esporte nacional atacar a “mídia”. Exerci a função de crítico, em período integral, durante três anos, como ombudsman deste jornal. Considero importante manter os meios de comunicação sob escrutínio, mas rejeito os “críticos” que costumam jogar a criança junto com a água do banho.
Se tomamos “mídia” como sinônimo do conjunto dos meios de comunicação ou de “indústria cultural”, será preciso separar o jornalismo das manifestações artísticas (cinema, música), publicidade, etc. O jornalismo tem compromisso com a realidade; o papel do jornalismo é produzir notícias, fornecer informações para ajudar as pessoas a se situarem no mundo.
Sobre esse aspecto vou responder ao artigo do psicanalista Valton Miranda – “As entranhas da mídia” -, publicado nesta editoria, no domingo passado. Faço-o por respeitar o autor de “A paranóia do Soberano – Uma incursão na alma da política”, livro no qual obtive subsídios para compreender a fixação persecutória da esquerda e sua desmedida violência contra militantes congêneres, maior, por vezes, do que o dedicado ao “inimigo de classe”.
Escreve Valton Miranda em seu artigo: “O campo midiático é, na verdade, um sistema ideológico da classe dominante capitalista que Habermas, na sua vacilação filosófica não definiu claramente, colocando-o no espaço potencial do argumento democrático”. Considerado herdeiro da “Escola de Frankfurt”, Jürgen Habermas procurou superar os conceitos dos fundadores, mas Valton parece preferir a ortodoxia que envenenou gerações de estudantes – ensinando que a “indústria cultural” produzia pessoas incapazes de fazer julgamentos conscientes.
Quanto à primeira parte da afirmação costumo dizer, meio por chiste (os chistes podem ser sérios, como sabe o dr. Valton e sabia o dr. Freud), que tudo e todos estamos submetidos ao “sistema capitalista”, inclusive a academia, inclusive a psicanálise – e nem por isso podemos condená-los no tribunal da totalidade.
Esta semana li artigo de Lúcio Flávio Pinto, no Observatório da Imprensa, que traz luz ao debate. O jornalista paraense é “dissidente” da grande imprensa, na qual trabalhou por longos anos. Desde 1987 publica, sozinho, o “Jornal Pessoal”, experiência única no jornalismo brasileiro, que lhe custou, inclusive a agressão física de um dos donos de “O Liberal”, de Belém.
Ele teria todos os motivos para se lamentar, para vilipendiar a “grande imprensa”, mas vejam o que escreve: “Os jornalões passaram a ser o Judas da malhação. É fácil desnudar seus compromissos políticos e comerciais, suas limitações tácitas, seus arranjos corporativos. Mas o que colocar em seu lugar?” E continua: “Esta é uma preocupação que precisa ser partilhada e desenvolvida no lugar da mera e pronta rejeição”.
Lúcio Flávio vai ao ponto. Nada ainda se inventou melhor do que a imprensa livre, por maiores que sejam os seus defeitos, pois é um espaço de confronto democrático. E, a exemplo da democracia: temos o direito e o dever de criticá-la; mas seria um tiro no pé demandar pelo seu fim ou propor-lhe censura.
04.08.09 05:59
Chorão, ombudsman e jornalismo
A matéria no O POVO “Chorão: acordem a vizinhança’”, sobre o show da banda Charlie Brown Jr., no Parque do Cocó em Fortaleza, rendeu este comentário da ombudsman, Rita Célia Faheina: “Palavrões e frases chulas”.
E o artigo que escrevi para a edição de hoje do jornal. A íntegra abaixo:
O show business e o jornalismo
Plínio Bortolotti
A ombudsman Rita Célia Faheina, em sua coluna de domingo, reproduz trecho de uma crítica interna que faço aos editores e que, a rigor, não deveria ir a público, pois a distribuo para uma lista restrita.
Eu comentei matéria sobre show do grupo Charlie Brown Jr. (edição de 27/7), em que o líder da banda, um indivíduo apelidado “Chorão”, xinga a vizinhança do Parque do Cocó e incentiva seus “fãs” à violência por meio de palavrões. Segundo a matéria, ao comando de Chorão, o público se agitava, arremessando garrafas no meio da multidão.
O trecho reproduzido do meu comentário foi este: “Os leitores do O POVO merecem um texto decente, a vizinhança tem o direito de, no mínimo, não ser xingada”. (Deve bastar a agressão do barulho e a imundície que os jovens bem nascidos deixam no parque do Cocó a cada show que lá acontece.)
O centro da crítica não eram os palavrões, reproduzidos por extenso (que também considerei indevido), mas a forma acrítica – a meu ver – como os acontecimentos foram relatados.
A ombudsman consultou o professor Gilmar de Carvalho, que fez preleção sobre o “show business”, dizendo ser este o mundo “dos estados alterados de consciência”; que “público e artistas bebem e usam drogas”; que cabe ao jornal dizer o que aconteceu “sem censuras” – e conclui: ” [Temos] liberdade, inclusive, para vermos shows idiotas e sermos agredidos de graça pelo lixo da indústria do entretenimento”.
Ok, mas, tirante o que ele fala sobre o relato jornalístico, o restante nada tem a ver, diretamente, com a matéria, objeto da discussão.
O professor, pelo menos na reprodução da ombudsman, parece confundir censura e edição. Há vários modos de dizer a mesma coisa, com veracidade, sem que seja preciso descer ao nível da sarjeta.
Existe diferença entre a reprodução gratuita de palavrões ditos em um show, com incentivo à violência, e um texto crítico sobre o assunto – sem ser moralista. Se o “show business” tem a consciência alterada; o jornalismo tem de ser o esforço de manter a cabeça no lugar.
PS. O show foi patrocinado pelo governo do Estado.
02.08.09 05:01
Daniel Lins: "Não sei se os intelectuais estão muito preocupados com a exigência da mídia"
Daniel Lins, professor da UFC [Universidade Federal do Ceará] e colunista convidado do O POVO, foi entrevistado da revista Cult, edição n° 137, de julho.
À pergunta: O que você pensa da aproximação entre os intelectuais e a mídia? Você acha que esse diálogo é possível no Brasil?
Respondeu:
« [...] Acredito no diálogo, mas não sei se os intelectuais, consagrados ou não, estão muito preocupados com a exigência da mídia a seu respeito. Frequento uma “elite intelectual” bastante ampliada, nunca ouvi nenhum desejo de mídia. Diálogo sim, pretensão e imposição nunca! Sinceramente, esse problema diz respeito muito mais à mídia que aos intelectuais. Eu dialogo bem com a mídia, gosto desse ambiente, sinto-me gratificado e, raramente, “censurado”. »
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