06.10.11 23:59
Associação Brasileira de Imprensa vai apurar denúncia de Dirceu contra Veja
Notícia publicada no portal da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) informa que a entidade decidiu “apurar a denúncia formulada pelo ex-deputado José Dirceu (PT-SP) contra a revista Veja, que é acusada pelo ex-chefe da Casa Civil de tratá-lo sem respeito às normas éticas da atividade jornalística na matéria publicada na edição 2232, ano 44, número 35, data de capa 31 de agosto de 2011″.
Matéria
A matéria, assinada pelos jornalistas Daniel Pereira e Gustavo Ribeiro, apresenta José Dirceu como “O Poderoso”, título da reportagem, e diz que o ex-ministro José Dirceu mantém um “gabinete” em um hotel em Brasília, onde despacha com “graúdos da República e conspira contra o governo da presidente Dilma”.
Queixa
A diretoria da ABI decidiu encaminhar a queixa do ex-deputado à Comissão de Ética dos Meios de Comunicação, órgão do Conselho Deliberativo a que responde por questões do gênero. Segundo a ABI “a Comissão é raramente convocada para se manifestar sobre aspectos éticos do exercício profissional, indicação de que sob esse aspecto o comportamento de jornalistas e veículos não tem motivado queixas ou reparos”.
Comissão
A Comissão de Ética é integrada pelos associados Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti.
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15.08.11 12:27
“Princípios editoriais das Organizações Globo”: um passo (ainda pequeno) adiante
Somente agora, 15 de agosto, graças ao feriado de N. S. da Assunção, padroeira de Fortaleza (e também Dia de Iemanjá por essas bandas) é que pude ler com atenção o documento “Princípios editoriais das Organizações Globo”, divulgado no início do mês por todos os seus veículos.
Espera
Houve aqueles que atacaram, como atacam tudo proveniente da Rede Globo; houve os que tiveram optaram pela expectativa do que virá na era pós-compromisso público que as Organizações Globo fazem com seus leitores, espectadores e ouvintes. Eu vou tentar fazer uma análise, que submeto aos eventuais leitores.
Contas
Primeiro, parece óbvio que a mais importante rede de comunicação do país percebeu que não poderia mais continuar agindo como sempre agiu. Ou seja, abster-se de prestar contas de como conduz o seu jornalismo.
Isso, segundo o próprio documento deu-se pela “consolidação da Era Digital”: ou seja, antes o jornalismo era uma via de mão única, uma espécie de “eu falo, você escuta e estamos conversados”. Hoje, o jornalismo tornou-se um diálogo: o receptor tornou-se também um emissor. Por isso, as coisas nunca mais serão como antes.
A Globo tem plena consciência de que é preciso adaptar-se à nova era.
Autorregulamentação
Em segundo lugar, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ), depois de um debate interno, resolveu incluir em seu estatuto um capítulo denominado Do código de ética e autorregulamentação, incentivando os seus associados a estabelecerem mecanismos desse tipo. Nesse capítulo, um “parágrafo único” estabelece: “As associadas deverão adotar, de forma transparente, mecanismos e critérios próprios de autorregulamentação, e que sejam de conhecimento do público leitor”.
Portanto, a meu ver, à parte em se ver obrigada a dar respostas a seus críticos que pululam na Internet, as Organizações Globo também quiseram dar o exemplo, como um integrante da ANJ, da qual seu jornal é um dos filiados mais influentes.
Debate
Porém, o máximo a que a ANJ conseguiu chegar foi a essa leve sugestão aos seus associados. Observem que o “parágrafo único” soa como um mero conselho e não como uma obrigação. Assim, ficará a cargo de jornais – que, até hoje, não se preocuparam em adotar nem mesmo um ombudsman ou Conselho de Leitores -, a decisão de estabelecerem “mecanismos de autorregulação”.
A proposta da ANJ é muito débil para responder ao movimento, cada vez mais crescente, que exige um estatuto de regulagem para os meios de comunicação do país.
Conselho
O teto será, portanto, documentos como esse da Globo, que são cartas de intenções. A ANJ deve ao público leitor algo mais firme nesse sentido, estabelecendo, por exemplo, algo como o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária). Mecanismo que já existe em vários países do mundo, que é um conselho ao qual, quem se sentir ofendido por algum veículo de comunicação possa recorrer, sem precisar apelar para um processo judicial.
Princípios
Dito isso, não resta a menor dúvida de que o fato de as Organização Globo se sentirem no dever de emitir um documento desse tipo é algo de importância, um pequeno passo, é verdade, mas relevante.
Eu li o documento todo, e é uma boa peça de como se deve fazer jornalismo – e de como os jornalistas devem se comportar em diversas situações. Eu recomendo a sua leitura a todos os estudantes e também a profissionais. Há o que aprender no texto.
Queixas
E, a partir de agora, os leitores, ouvintes e telespectadores das Organizações Globo terão algo a que se apegar quando quiserem fazer alguma crítica. O documento oferece uma boa base para se cobrar que a Globo faça jornalismo com isenção e de interesse público.
♦ [Obs. O POVO criou o cargo de Ombudsman em 1994, função que existe em apenas dois jornais do país (o outro, a Folha de S. Paulo); desde de 1998, funciona um Conselho de Leitores, com 15 integrantes, eleitos pela Redação do jornal. Sua Carta de Princípios e seu Código de Ética datam de 1989.]
Veja o documento: “Princípios editoriais das Organizações Globo”. Continuar lendo
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22.07.11 12:21
Larry Flynt: o velho pornógrafo nos dá uma lição sobre a liberdade de imprensa
O negócio que aconteceu com o News of the World foi tão escabroso que até o velho pornógrafo, Larry Flint, editor da revista Hustler – que não é assim, digamos, um exemplo de politicamente correto no tratamento que dá à mulher -, resolveu intervir no assunto. E o fez de modo severamente crítico ao método como Rupert Murdoch dirigia o seu tabloide britânico.
Artigo
No artigo que escreveu para The Washington Post, reproduzido pelo O Estado de S. Paulo, Flint mostra a importância que dá à liberdade de imprensa, mas observa que devem existir limites quando se trata de buscar a notícia. No entanto, para ele, o remédio para o que aconteceu não é restringir a liberdade de imprensa, mas aumentá-la.
Cascudos
Depois de dar alguns cascudos simbólicos em Murdoch, Flynt termina seu artigo em grande estilo:
“A liberdade de imprensa e o direito à privacidade não devem ser beligerantes. As pessoas conferiram aos membros da mídia o dever e a responsabilidade de prestar informação. Como editores, precisamos saber qual é o limite, ampliá-lo, mas jamais ultrapassá-lo. Se as alegações forem verdadeiras, Murdoch não só ultrapassou esse limite – ele o deletou. E ao fazer isso, colocou todos nós que desfrutamos da liberdade de expressão em grave risco. Somente quando os leitores acreditarem que o material publicado foi obtido honestamente é que uma imprensa livre poderá continuar sendo a força propulsora na preservação da nossa democracia.”
Nesse aspecto, quem ousaria discordar do velho pornógrafo?
[A propósito, quem não assistiu a O povo contra Larry Flint, em que a sua história é contada, não sabe o que está perdendo. Ele aproveitou o título do filme para dar uma "chamada" em Murdoch]
Leia o artigo
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21.07.11 11:22
Rebekah Brooks recebeu US$ 5,6 milhões ao sair do News of the World, segundo a Pro Publica
A Pro Pública (agência de notícias americana sem fins lucrativos) fez o levantamento estatístico das consequencias das escutas ilegais de telefones, promovidas pelo News of the World, o tabloide de Rupert Murdoch, fechado depois que o escândalo foi revelado. Rebekah Brooks (ex-editora do jornal), por exemplo, recebeu 5,6 milhões de dólares no seu acordo de demissão.
Veja alguns números
♦ Número de pessoas que foram presas no inquérito em curso: 10.
♦ Número de pessoas que se demitiu por causa do escândalo : 7 (incluindo quatro executivos do jornal e dois oficiais da Scotland Yard)
♦ Valor estimado que Rebekah Brooks (ex-editora do News of th World) teria recebido no pacote de demissão : 3,5 milhões de libras (equivalente a 5,6 milhões de dólares ou cerca de R$ 10,6 milhões).
♦ Número de de policias Scotland Yard que costumava trabalhar para a News of the World: 10.
♦ Número estimado de pessoas que tiveram os seus telefones grampeados ilegalmente: cerca de 4.000.
♦ Número de vítimas que já foram notificadas que seus telefones estavam grampeados: 170.
♦ Valor que o News of the World teria pago, até agora, para encerrar os processos de pessoas que sofreram as escutais ilegais: pelo menos 2 milhões de libras (3,2 milhões de dólares). O acordo prevê confidencialidade.
♦ A quantidade de dinheiro que a News of the World supostamente ousou para subornar oficiais da Scotland Yard : 100,000 mil libras (161,130 mil dólares), pagos para até a cinco oficiais.
♦ Número de pessoas trabalhando no News of the World quando foi fechada: 200.
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14.07.10 18:55
Trecho de artigo do jornalista Nelson Hoineff, com o mesmo título acima, publicado no Observatório da Imprensa (12/7/2010), O texto comenta o afastamento de dois jornalistas da TV Cultura: Heródoto Barbeiro, por ter feito perguntas ao candidato a presidente do PSDB, José Serra – no programa Roda Viva – sobre o suposto preço alto de pedágios em São Paulo – e Gabriel Priolli por pautar matéria sobre o assunto.
«A sociedade tem que saber imediatamente se Heródoto Barbeiro e Gabriel Priolli foram de fato demitidos por ordem de José Serra. Se não, por que o foram, que tipo de erros contundentes ambos cometeram – até porque são nomes conhecidos pelo público e respeitados no ambiente profissional.
A sociedade tem também que saber quem está ganhando dinheiro público nas emissoras públicas para não lutar por sua independência e, pelo contrário, torná-las mais e mais subservientes aos interesses dos políticos.
Relações promíscuas com vários setores estão no DNA de muitos políticos – não refiro a qualquer um em especial – e isso talvez não possa ser combatido com tanta facilidade. Mas “laranjas” que são postos nas televisões públicas que o povo está pagando – e que as colocam a serviço do atraso, que as lançam ostensivamente no descrédito público –, estes devem ser combatidos e denunciados por quem quer que defenda a possibilidade de uma imprensa equilibrada, de uma televisão pública independente e voltada para o interesse público.
Ser conivente com isso é jogar a televisão brasileira no fundo do poço, é trair os mais elementares ideais libertários.»
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14.07.10 16:18
Goleiro Bruno/Eliza Samúdio: o que é relevante no caso?
O que é mais relevante no caso do goleiro Bruno, suspeito de matar Eliza Samúdio, sua ex-namorada. Os aspecto moral envolvido na qauestão ou as “perdas” materiais que o goleiro terá pela “burrada” que o acusam de ter feito?
Esse é o questionamento da professora Sandra Helena de Souza no artigo que publicou na edição de hoje (14/7/2010) no O POVO.
Para ela, em vez de se debater as razões que levam a hediondez de um crime, “todas as conversas, entrevistas, editoriais, giram em torno do que o assassino, suspeito vá lá, vai deixar de ganhar, no montante de seu prejuízo econômico, na sua burrada, na sua estupidez, por assim dizer”.
Outro trecho: “Mas continuo curiosa: gostaria de ver o olhar do ‘menor’ que entregou o caso. Consta que ele está aterrorizado com o que viu, chora copiosamente nos depoimentos, vê o fantasma de Eliza. Não consegue conviver com o que fez. Também gostaria de saber se ele acredita em Deus. Se não, e sua confissão não é uma armação da quadrilha, estamos diante do único sujeito moral dessa estória. Ele sofre e não porque não vai estar na Copa de 2014.”
Escândalo
Quem também está tendo um comportamento “moral” é a produtora Brasileirinhas, de filmes pornôs, um deles realizado com Eliza Samúdio em 2006. A produtora vai processar camelôs do Rio de Janeiro que estão vendendo o filme.
Veja o que disse à revista Terra Magazine a representante da Brasileirinhas, Patrícia Soares:
“Nós, que temos os direitos dos filmes, simplesmente decidimos não comercializá-lo mais. Muita gente liga, consumidor final, querendo os filmes, sabendo que são nossos. Infelizmente, a procura aumentou muito, uma procura sem nexo. Cada um que liga, perguntando pelas produções, eu falo que gosto mais ainda do meu cachorro. Tivemos também o problema da Leila Lopes (ex-atriz global), que fez alguns filmes para a Brasileirinhas e depois acabou se suicidando. Foi uma tragédia, uma coisa muito chata. E nós também retiramos o filme dela. Agora, com a Eliza está sendo a mesma coisa. Não vamos ganhar dinheiro com uma atrocidade dessa.”
07.07.10 17:58
SportTV zomba do Paraguai e país protesta
A ministra de Turismo do Paraguai, Liz Rosanna Cramer Campos, escreveu carta à SporTV criticando a matéria divulgada pelo canal no dia 1º/07/2010. Ela afirma que pedir desculpa “não é o suficiente”, pois a reportagem sobre o Paraguai foi “patética e ofensiva”.
“Com o poderio de sua rede e imensa audiência que possuem, vocês saberão entender que o pedido de desculpas não é suficiente. O impacto dessas imagens é muito superior ao impacto de um pedido de desculpas com uma nota positiva”, afirmou Liz.
A reportagem falava sobre a participação do Paraguai na Copa do Mundo, mas, com texto irônico, zombou vários aspectos da cultura e da sociedade do país vizinho. Depois da repercussão negativa, o canal se desculpou e exibiu reportagem positiva sobre o Paraguai.
Convite para visita
Com o intuito de acabar com “os preconceitos” por parte da emissora brasileira, Liz convidou a equipe do SporTV para uma visita ao Paraguai. “Venham nos conhecer, para se surpreenderem e derrubarem preconceitos, e depois produzirem uma reportagem justa sobre os que vivem aqui”, diz a carta.
A direção do SporTV, por meio de sua assessoria, informa já ter respondido a carta enviada por Liz e reafirmou o pedido de desculpas. “A direção do SporTV já respondeu à Ministra, reiterou o pedido de desculpas do canal e está conversando para agendar um possível encontro pós Copa do Mundo”, diz a nota. [Texto do portal Comunique-se, com adaptações]
29.06.10 11:08
Vereador de cidade matogrossense dá tapa no rosto de repórter da TV Centro Oeste
A jornalista Márcia Pache, da TV Centro-Oeste, retransmissora do SBT em Pontes e Lacerda (448 km de Cuiabá, Mato Grosso), disse estar indignada por ter sido agredida, com um tapa no rosto pelo vereador Lorivaldo Rodrigues de Moraes (DEM), o “Kirrarinha”. A agressão aconteceu na segunda-feira (28/6) quando a repórter tentava entrevistá-lo.
Márcia Pache vem fazendo uma série de denúncias contra o vereador Kirrarinha, que está sendo investigado pela Polícia Civil. Segundo a jornalista, ele é acusado de obter procuração para receber aposentadoria de uma idosa e de ficar com o dinheiro dela. A outra acusação é de ter autorizado a invasão de um imóvel, no conjunto habitacional Tuiuiú, construído pelo Governo do Estado na cidade.
Márcia diz que agora teme por sua vida e de suas filhas. “É um absurdo o que aconteceu. Estava trabalhando, não tem justificativa para essa atitude”, declarou. [Informações do portal Mídia News]
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04.05.10 18:14
Antropólogo diz que Veja lhe atribui “mentirosamente” declaração sobre índios
Devido a esta matéria: A farra da antropologia oportunista, publicada na revista Veja, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro (do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro) acusa a publicação de ter-lhe atribuído “mentirosamente” uma afirmação – que ele não teria feito.
A carta de Viveiros
«Ao Editores da revista Veja:
Na matéria “A farra da antropologia oportunista” (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), seus autores colocam em minha boca a seguinte afirmação: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original” . Gostaria de saber quando e a quem eu disse isso, uma vez que (1) nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma. Na verdade, a frase a mim mentirosamente atribuída contradiz o espírito de todas declarações que já tive ocasião de fazer sobre o tema. Assim sendo, cabe perguntar o que mais existiria de “montado” ou de simplesmente inventado na matéria. A qual, se me permitem a opinião, achei repugnante.» [Grifei]
A carta não foi publicada na revista, mas circulou na internet. Veja respondeu reconhecendo que não falara diretamente com Viveiros, mas que baseara a afirmativa em artigos que ele publicara. Veja aqui a resposta da revista.
Viveiros voltou à carga, com uma longa carta, que está publicada abaixo:
«Aos Editores da revista Veja:
Em resposta à mensagem que enviei à revista Veja no dia 01/05, denunciando a imputação fraudulenta de declarações que me é feita na matéria “A farra da antropologia oportunista”, o site Veja.com traz ontem uma resposta com o título “No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é”. Ali, os responsáveis pela revista, ou pela resposta, ou, pelo jeito, por coisa nenhuma, reincidem na manipulação e na mentira; pior, confessam cinicamente que fabricaram a declaração a mim atribuída.
Em minha carta de protesto inicial, sublinhei dois pontos: “(1) que nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) que não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma”.
Veja contesta estes pontos com os seguintes argumentos:
(1) “Sua primeira afirmação não condiz com a verdade. No início de março, VEJA fez contato com Viveiros de Castro por intermédio da assessoria de imprensa do Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde ele trabalha. Por meio da assessoria, Viveiros de Castro recomendou a leitura de um artigo seu intitulado “No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é”, que expressaria sua opinião de forma sistematizada e autorizou VEJA a usar o texto na reportagem de uma maneira sintética.”
Respondo: é falso. A Assessoria de Imprensa do Museu Nacional telefonou-me, talvez no início de março (não acredito mais em nada do que a Veja afirma), perguntando se receberia repórteres da mal-conceituada revista, a propósito de uma matéria que estariam preparando sobre a situação dos índios no Brasil. Respondi que não pretendia sofrer qualquer espécie de contato com esses profissionais, visto que tenho a revista em baixíssima estima e péssima consideração. Esclareci à Assessoria do Museu que eu tinha diversos textos publicados sobre o assunto, cuja consulta e citação é, portanto, livre, e que assim os repórteres, com o perdão da expressão, que se virassem. Não “recomendei a leitura” de nada em particular; e mesmo que o tivesse feito, não poderia ter “autorizado Veja” a usar o texto, simplesmente porque um autor não tem tal poder sobre trabalhos seus já publicados. Quanto à curiosa noção de que eu autorizei a revista, em particular, a “usar de maneira sintética” esse texto, observo que, além de isso “não condizer com a verdade”, certamente não é o caso que esse poder de síntese de que a Veja se acha imbuída inclua a atribuição de sentenças que não só se encontram no texto em questão, como são, ao contrário e justamente, contraditas cabalmente por ele. A matéria de Veja cita, entre aspas, duas frases que formam um argumento único, o qual jamais foi enunciado por mim. Cito, para memória, a atribuição imaginária: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original” . Com isso, a revista induz maliciosamente o leitor a pensar que (1) a declaração foi dada de viva voz aos repórteres; (2) ela reproduz literalmente algo que disse. Duas grosseiras inverdades.
Veja contesta o segundo ponto com o argumento:
(2) “Também não condiz com a verdade a afirmação feita por Viveiros de Castro no item (2) de sua carta. A frase publicada por VEJA espelha opinião escrita mais de uma vez em seu texto (“Não é qualquer um; e não basta achar ou dizer; só é índio, como eu disse, quem se garante” e “pode-se dizer que ser índio é como aquilo que Lacan dizia sobre ser louco: não o é quem quer. Nem quem simplesmente o diz. Pois só é índio quem se garante”).” Ato contínuo, a revista dá o texto na íntegra, repetindo que eu a autorizei a usar o texto “da forma que bem entendesse”.
(Veja o link para meu texto: http://pib.socioambiental.org/files/file/PIB_institucional/No_Brasil_todo_mundo_%C3%A9_%C3%ADndio.pdf).
Pela ordem. Em primeiro lugar, essa resposta da revista fez desaparecer, como num passe de mágica, a frase propriamente afirmativa de minha suposta declaração, a saber, a segunda (“Só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original”), visto que a primeira (Não basta dizer que é índio etc.) permanece uma mera obviedade, se não for completada por um raciocínio substantivo. Ora, o raciocínio substantivo exposto em meu texto está nas antípodas daquele que Veja falsamente me atribui. A afirmação de Veja de que eu a autorizara a “usar” o texto da forma que ela “bem entendesse” parece assim significar, para os responsáveis (ou não) pela revista, que ela poderia fabricar declarações absurdas e depois dizer que “sintetizavam” o texto. Esse arrogamente “da forma que bem entendesse” não pode incluir um fazer-se de desentendido da parte da Veja.
Reitero que a revista fabricou descaradamente a declaração “Só é indio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original”. Se o leitor tiver o trabalho de ler na íntegra a entrevista reproduzida em Veja.com, verá que eu digo exatamente o contrário, a saber, que é impossível de um ponto de vista antropológico (ou qualquer outro) determinar condições necessárias para alguém (uma pessoa ou uma coletivdade) “ser índio”. A frase falsa de Veja põe em minha boca precisamente uma condição necessária, e, ademais, absurda. Em meu texto sustento, ao contrário e positivamente, que é perfeitamente possível especificar diversas condições suficientes para se assumir uma identidade indígena. Talvez os responsáveis pela matéria não conheçam a diferença entre condições necessárias e condições suficientes. Que voltem aos bancos da escola.
A afirmação “só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original” é, repito, grotesca. Nenhum antropólogo que se respeite a pronunciaria. Primeiro, porque ela enuncia uma condição impossível (o contrário de uma condição necessária, portanto!) no mundo humano atual; impossível, na verdade, desde que o mundo é mundo. Não existem “ambientes culturais originais”; as culturas estão constantemente em transformação interna e em comunicação externa, e os dois processos são, via de regra, intimamente correlacionados. Não existe instrumento científico capaz de detectar quando uma cultura deixa de ser “original”, nem quando um povo deixa de ser indígena. (E quando será que uma cultura começa a ser original? E quando é que um povo começa a ser indígena?). Ninguém vive no ambiente cultural onde nasceu. Em segundo lugar, o “ambiente cultural original” dos índios, admitindo-se que tal entidade exista, foi destruido meticulosamente durante cinco séculos, por epidemias, massacres, escravização, catequese e destruição ambiental. A seguirmos essa linha de raciocínio, não haveria mais índios no Brasil. Talvez seja isso que Veja queria dizer. Em terceiro lugar, a revista parte do pressuposto inteiramente injustificado de que “ser índio” é algo que remete ao passado; algo que só se pode ou continuar (a duras penas) a ser, ou deixar de ser. A idéia de que uma coletividade possa voltar a ser índia é propriamente impensável pelos autores da matéria e seus mentores intelectuais. Mas como eu lembro em minha entrevista original deturpada por Veja, os bárbaros europeus da Idade Média voltaram a ser romanos e gregos ali pelo século XIV — só que isso se chamou “Renascimento” e não “farra de antropólogos oportunistas”. Como diz Marshall Sahlins, o antropólogo de onde tirei a analogia, alguns povos têm toda a sorte do mundo.
E o Brasil, será que temos toda a sorte do mundo? Será que o Brasil algum dia vai se tornar mesmo um grande Estados Unidos, como quer a Veja ? Será que teremos de viver em um ambiente cultural que não é aquele onde nascemos e crescemos? (Eu cresci durante a ditadura; Deus me livre desse ambiente cultural). Será que vamos deixar de ser brasileiros? Aliás, qual era mesmo nosso ambiente cultural original?
Grato mais uma vez pela atenção,
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo – UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro]» [Grifei]
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29.09.09 05:13
Texto de assessoria de imprensa tem dono?
Recentemente, o portal Comunique-se, em uma de suas matérias, abordou a possibilidade de que um texto, enviado aos veículos de comunicação como release, poderia ter a proteção de direitos autoriais. [Release, pronuncia-se "relíze", é um informe ou texto de qualquer espécie enviado por assessorias de imprensa aos veículos de comunicação, esperando que seja publicado ou sirva como pauta.]
Ou seja, outro jornalista não poderia assiná-lo, tendo-se de publicá-lo com a autoria original. O descumprimento desse regra deixaria o infrator sujeito a processo por danos morais. Ressalve-se que nem todo release chega assinado às redações.
A matéria do Comunique-se cita o caso da assessora Claudia Yoscimoto, que trabalhava para a Prefeitura de de Mogi das Cruzes (SP) – e acompanhou o prefeito a uma viagem ao Japão. Como parte de seu trabalho de assessoria ela produziu um texto sobre o assunto e enviou-o aos veículos de comunicação.
Um site reproduziu o texto na íntegra, retirando a assinatura dela e apondo de outro jornalista. O caso aconteceu em 2007, mas ela somente percebeu este ano, quando organizava um portfólio de suas atividades.
Nas redações
Todo mundo que já trabalhou em uma redação de jornal, rádio ou TV sabe que se dá os mais diferentes destinos para os releases. Alguns são usados como sugestão de pauta [o jornalista se interessa pelo assunto e vai, ele mesmo, levantar as informações]; outros são “refundidos” [reescritos para aparar-se os exageros, acrescentar alguma informação, ouvir o "outro lado", etc.]; há os usados para pequenas notas e, também, o que são reproduzidos na íntegra. Sem falar nos que são – a maioria – simplesmente jogados na lata de lixo ou na lixeira virtual.
A mais, eu desconheço caso – pelo menos nos jornais que leio – em que um release tenha sido publicado com a assinatura do assessor de imprensa que o produziu.
Ghost writer
A meu ver o trabalho de assessor de imprensa assemelha-se a de um “ghost writer” [escritor fantasma, em português], um sujeito que é pago para escrever algo que ele sabe que outro vai se apropriar. É o caso, por exemplo, daqueles que escrevem discursos [para políticos, empresários, etc.] ou de alguém que ouve o depoimento de uma pessoa, escreve-lhe uma biografia, que o dono [da vida] assina como se fosse uma autobiografia. [Se alguém quiser ler algo muito interessante sobre os "ghost writer" indico "Budapeste", de Chico Buarque.]
O que eu quero dizer é o seguinte: o assessor de imprensa não pode se queixar quando seu texto é assinado por outra pessoas. Mas, ressalve-se: o jornalista sério, a não ser que façam um trabalho de apuração – usando do release apenas as informações para complementar seu texto -, recusa-se a assinar releases reproduzidos como matéria. [Ainda mais um trabalho bem particular, como parece ser aquele que a assessora Claudia Yoscimoto produziu.]
Mas, os que assinam um texto de assessoria, depõem contra a sua própria credibilidade e cometem infração ética, mas não um crime.
Assessorias
Está na essência das assessorias de imprensa produzir para que outros [os meios de comunicação] utilizem o seu trabalho. Romper com essa lógica significa questionar o próprio papel das assessorias.
A recompensa do assessor de imprensa é ver sua sugestão de pauta aceita ou seu texto publicado. Pois esse é um dos objetivos da sua profissão e o interesse de quem paga o salário do assessor ou contrata uma empresa de assessoria.
Eu imagino que, caso venha a se difundir essa idéia de que um texto de assessoria esteja protegido por direito autoral, as empresas que prestam esse tipo de trabalho terão dificuldade cada vez maiores em ver seu material aproveitado nas redações.
Mesmo os release não-assinados, alguém o escreveu. E, em última análise, seria “propriedade intelectual” da empresa que o produziu.
Exceção
A exceção ao que disse acima são artigos assinados por “mestres”, “doutores”, “economistas”, “especialistas” em qualquer coisa, cujos artigos são enviados pelas assessorias à mancheias. Hoje, o mais modesto professor ou “ista” em alguma coisa tem uma “assessoria” que entope a caixa-postal de qualquer jornalista com artigos “brilhantes” de seus assessorados, que entendem de penico a bomba atômica. Esses, obviamente, não se vai tirar-lhes a assinatura e apor-se outra, pois não é a assessoria que assina o texto.
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