Plínio Bortolotti

11.05.10 18:24

“Jamais deve haver restrição à divulgação de pesquisas; por que privar o eleitor desse direito?”

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: Comente

José Roberto de Toledo estará este mês em Fortaleza para ministrar curso aos jornalistas do O POVO sobre RAC (Reportagem Assistida por Computador) e leitura de pesquisas. Haverá ênfase na análise das pesquisas eleitorais.

Toledo é colunista do jornal O Estado de S. Paulo e mantém dois blogs em que analisa pesquisas e dá orientações sobre como usar planilhas e internet para levantar dados para reportagens. Os blogs são Vox Populi (Estadão) e Toledol, o blog sobre RAC.

O jornalista também é coordenador da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), tendo ministrado cursos de RAC em vários jornais do país.

Fiz-lhe três perguntas sobre pesquisas eleitoras.

1. Há pessoas que dizem que “acreditam” em pesquisas e outras dizem não acreditar. Como deve ser vista uma pesquisa eleitoral?

As pesquisas de opinião têm base científica e, no caso das eleitorais, comprovação empírica, pois no confronto da sondagem de véspera com o resultado das urnas a taxa de acerto ao longo dos últimos pleitos ficou em 98%, segundo estudo do professor Marcus Figueiredo (Iuperj). As pessoas que não acreditam dizem que nunca foram entrevistadas nem conhecem alguém que tenha sido. E provavelmente nunca serão: é 10 vezes mais provável morrer assassinado em São Paulo do que ser entrevistado por Ibope, Datafolha etc. As amostras são muito pequenas em relação ao universo, mas suficientes. Talvez as pessoas não gostem de admitir que, em conjunto, somos tão parecidos uns com os outros.

2. Pesquisa faz alguém perder ou ganhar eleição? Muda o voto de alguém?

Na imensa maioria dos casos, não. Mas há situações especiais em que a pesquisa pode mudar o voto do eleitor, induzi-lo a um “voto útil”, e alterar o resultado. Mas, em geral, isso se deve mais a erros de divulgação por parte da imprensa do que pelos números das pesquisas. Lembro o caso de Marta Suplicy na disputa do governo paulista em 1998. Paulo Maluf estava garantido no primeiro lugar, e a segunda vaga era disputada entre Marta, Mario Covas e Francisco Rossi. Na última pesquisa, Marta apareceu tecnicamente empatada com os dois rivais, mas numericamente atrás. Mas, ao divulgar o resultado, alguns veículos de comunicação só mencionaram o empate entre Covas e Rossi. Marta deixou de ir ao segundo turno por 50 mil votos, o que dá menos de meio ponto percentual dos votos válidos. E muito gente diz que deixou de votar nela para votar em Covas com medo de um segundo turno entre Maluf e Rossi. A culpa, se houve, não foi das pesquisas, mas dos erros de divulgação. Na verdade, nessa mesma eleição, as pesquisas ajudaram a mostrar como 12% dos eleitores de Rossi (muito mais do que os eleitores dos outros candidatos) não conseguiram transformar sua intenção em voto de fato, no primeiro teste universal da urna eletrônica.

3. Você acha que deveria haver restrições mais severas para divulgação de pesquisas? Acha razoável que elas possam ser divulgada até o dia da eleição?

Restrição à informação é censura. Jamais deve haver restrição à divulgação das pesquisas. Se os políticos, o mercado financeiro, os partidos, os candidatos, os marqueteiros podem ter acesso à informação da pesquisa, por que privar apenas o público, o eleitor desse direito? O voto é resultado de um processo mental no qual a informação é fundamental. Privar o eleitor da informação é limitar sua capacidade de decidir conscientemente o voto. Esse tipo de proposta restritiva vem de pessoas que julgam que o eleitor é incapaz de tomar decisões conscientes, que ele precisa ser tutelado. Isso fere o princípio básico da democracia.

Veja texto de Toledo falando sobre a importância da formação profissional, no portal da Abraji.

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12.04.10 00:00

Dilma Roussef e José Serra: o discurso que se volta contra eles

Por: Plínio Bortolotti | Comentários: Comente

Que a disputa presidencial vai ser cruenta, pouca gente duvida, mas creio que há argumentos, que um candidato usa para atingir o outro, que se transformam em verdadeiro tiro no pé.

O lançamento da candidatura de José Serra, do PSDB – e o “contra-ato” promovido pelo PT e sua candidata, Dilma Roussef, é um exemplo disso.

Dilma discursou: “Eu não fujo quando a situação fica difícil. Não tenho medo da luta. [...] Nunca abandonei o barco”, segundo o jornal Folha de S. Paulo [11/4/2010] foi referência ao período da ditadura militar, quando ela militou clandestinamente no Brasil, enquanto Serra exilou-se no Chile.

Por seu lado, Serra: “Às falanges do ódio que insistem em dividir a nação vamos responder com nosso trabalho presente e nossa crença no futuro. [...] Quanto mais mentiras eles disserem sobre nós, mais verdades falaremos sobre eles”. Também segundo a Folha, referência ao PT. Antes Serra criticara o governo Lula pelo apoio ao governo de Cuba.

Comentário

Argumentos desse tipo, me perdoem os marqueteiros – se forem eles os culpados -, depõem conta quem os evoca. Dilma criticar Serra por ter ele se exilado no período da ditadura, equivale a crucificar quem falou sob tortura, ainda que se louve quem suportou o suplício.

Dilma, mais do que ninguém, sabe o que se passou no período da ditadura militar; e sabe que existem diversas formas de luta e vários modos de mostrar coragem política, intelectual ou física.

Por seu lado, José Serra, chamar o PT e seus militantes de “falanges” não foi de graça. Serra é um sujeito instruído; ele sabe que “falange” remete ao fascismo, à intolerância, ao autoritarismo, à ditadura. A Falange Espanhola era um partido fascista, o único reconhecido na Espanha do “generalíssimo” Franco.

Assim, Serra quer fazer crer que o PT é uma espécie de partido “comuno-fascista”, se é que isso é possível. E, olhando-se o PT sob qualquer ângulo – histórico ou conjuntural -, um despropósito. O partido já tem defeitos suficientes para serem explorados, sem que seja necessário inventar outros.

Esse tipo de argumento – de Dilma e de Serra – desqualifica a ambos. É um sermão para convertidos: assanha os “radicais” de ambos os lados – sem nenhum efeito prático; ou pior, tem efeito negativo para aquelas pessoas com um mínimo de informação e que costumam refletir sobre aquilo que ouvem.

Dilma diz que não criticou exilados
[da assessoria de Imprensa da pré-candidata do PT]

Ao discursar sábado, em encontro no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, a ex-ministra Dilma Rousseff, ao enumerar os princípios que norteiam sua conduta ética e política, disse, textualmente:

“Eu não fujo quando a situação fica difícil. Eu não tenho medo da luta. Posso apanhar, sofrer, ser maltratada, como já fui, mas estou sempre firme com minhas convicções. Em cada época da minha vida, fiz o que fiz por acreditar no que fazia. Só segui o que a minha alma e o meu coração mandavam. Nunca me submeti, nunca abandonei o barco”.

É, portanto, totalmente equivocada a interpretação, difundida hoje [ontem] por vários veículos de comunicação, de que ela tenha feito qualquer referência a brasileiros que tiveram que se exilar do país durante a ditadura militar. Hoje pela manhã, Dilma mencionou o assunto em seu recém-criado twitter (@dilmabr): “De onde tiraram que fugir da luta é se exilar? O exílio significou a diferença entre a vida e a morte para os exilados brasileiros. Grandes amigos meus corajosos e valorosos só tiveram uma saída na ditadura, se exilar.Querer dizer que eu os critiquei só pode ser má fé”.
O áudio desta fala está no site mulherescomdilma.com.br.

Assessoria de Imprensa de Dilma Rousseff
Brasília, 12/4/2010

[Acrescentado ao post em 13/4/2010, às 9h43min]

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Plínio Bortolotti

Plínio Bortolotti

Jornalista. Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O POVO, jornal, rádios […]

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