A “estratégia” do secretário da Segurança

Reprodução do artigo publicado na edição de 13/7/2017 do O POVO.

A “estratégia” do secretário da Segurança

Suponho que deveríamos agradecer ao secretário da Segurança Pública, André Costa, pelo fato terem sido registradas infamantes 2.299 mortes violentas no Ceará, nos primeiros seis meses deste ano. “Um homicídio a cada uma hora e meia”, como registrou este jornal (8/7/2017), representando crescimento de 31,9% em relação ao mesmo período do ano passado.

Sim, pois o secretário – quando confrontado com os índices -, afirmou que, sem a sua “estratégia” de combate ao crime, a situação estaria “bem pior”. Mas nem nas desculpas André consegue ser original, repetindo o discurso do ex-governador Cid Gomes quando era questionado sobre o desastre de sua política para a segurança pública.

Porém, o secretário pode ter razão. Como se costuma dizer por aí, “não existe nada tão ruim que não possa piorar”. Portanto, se no próximo levantamento o número de assassinatos duplicar, André Costa poderá dizer que, não fosse a sua “estratégia”, o índice teria triplicado. E assim por diante.

Mas os argumentos duvidosos continuam. Ele atribui “muitos eventos” (homicídios) a disputa entre “pessoas que pertencem a grupos criminosos diferentes”. Entretanto, o repórter Thiago Paiva, em artigo na edição de sábado, lembrou ao secretário que o governo do Estado costumava negar a existência do crime organizado no Ceará. Assim, não se pode levar a sério um argumento que nega ou admite a existência das facções criminosas de acordo com a conveniência.

O fato é que André Costa não foi convidado ao cargo por ser estrategista na área da segurança pública, mas devido a um exercício político: fazer frente à crescente liderança do deputado Capitão Vagner, que faz oposição ao governador, fomentando esse conflito dentro da PM. E, reconheça-se, o secretário conseguiu remendar a esgarçada relação da tropa com o governo.

Essa “pacificação” seria louvável caso também houvessem benefícios para a sociedade, em termos redução dos homicídios e da criminalidade. Mas, por esse alívio, ainda se está a esperar.

(Enquanto isso, no meio do tiroteio, Camilo Santana e André Costa trocam elogios nas redes sociais.)

Plínio Bortolotti

Sobre Plínio Bortolotti

Jornalista. Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O POVO, jornal, rádios e TV (Fortaleza, Ceará). No jornal O POVO foi repórter, editor e ombudsman por três mandatos (2005/2007). Integra o Conselho Editorial do jornal e coordenou o Conselho de Leitores (2008/2015). Também é responsável pelo projeto Novos Talentos para estudantes de Jornalismo. Escreve um artigo semanal para a editoria de Opinião e assina a coluna "Menu Político", no caderno People. Na rádio O POVO/CBN é âncora do programa diário "Debates do Povo" e faz comentário diariamente no programa de rádio Revista O POVO/CBN. Diretor da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), entre os anos de 2008/2011. Cidadão Cearense, por título concedido pela Assembleia Legislativa em dezembro de 2010.

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