PSDB: do fora Temer ao fica Temer

Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião, edição de 30/3/2017 do O POVO.

PSDB: do fora Temer ao fica Temer
Plínio Bortolotti

“A eleição presidencial de 2014, das mais acirradas de todos os tempos, revelou-se manchada de forma indelével pelo abuso de poder, tanto político quanto econômico, praticados em proveito dos primeiros réus, Dilma Vana Rousseff e Michel Miguel Elias Temer Lulia, reeleitos presidente e vice-presidente da República, respectivamente.”

“Ao cabo da instrução destes processos não se constatou em nenhum momento o envolvimento do segundo representado (Michel Temer) em qualquer prática ilícita. Já em relação à primeira representada (Dilma Rousseff), há comprovação cabal de sua responsabilidade pelos abusos ocorridos.”

As duas afirmativas, por mais conflitantes que sejam, são ambas da lavra do PSDB. No primeiro parágrafo, os motivos que levaram o partido a pedir a cassação da chapa Dilma/Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No segundo, as “alegações finais” do PSDB no mesmo processo, responsabilizando apenas Dilma.

Depois da entrega do relatório pelo ministro do TSE, Herman Benjamin, o Ministério Público Eleitoral (MPE) expediu parecer pedindo a inelegibilidade de Dilma e a cassação de Michel Temer. Pelo discernimento do MPE é impossível separar a chapa em duas bandas – condenando somente Dilma -, como pretendem os defensores de Temer.

O entendimento do MPE e do próprio PSDB (conforme sua petição inicial) é de uma lógica inquebrantável: se houve vício maculando a eleição foram beneficiados pela fraude ambos os eleitos: a presidente e seu vice. Mas se tucanos e peemedebistas eram adversários, agora dividem a sociedade no governo. Portanto, dane-se a lógica.

Assim, Temer vai jogar com duas possibilidades: 1) tentar apartar-se de sua antiga colega de chapa, como indicou o PSDB; 2) usar todos os recursos para jogar o julgamento para o dia de São Nunca.

E, nos tempos atuais, é difícil prever se os tribunais vão se cingir à objetividade do processo, sem considerar a subjetividade da política.

É preciso salvar a política dos políticos

Reprodução da coluna “Política”, edição de 28/3/2017 do O POVO. (Em substituição ao titular Érico Firmo.)

É preciso salvar a política dos políticos

A ressalva de que é incorreto demonizar a política é importante e deve ser repetida, principalmente em tempos sombrios, nos quais se excitam os salvadores da pátria. Mas é preciso reconhecer que esse argumento está se tornando cada vez mais difícil, quando se observa que os políticos põem na frente do interesse público pelos menos três coisas: eles, eles e eles mesmos.

SALVA-VIDAS
O voto em lista surge agora como um bote salva-vidas. Outra tábua de salvação no mar revolto da Lava Jato, no qual se debatem suas excelências, é o chamado “foro especial por prerrogativa de função”, mais conhecido nas quebradas por “foro privilegiado”. Qual seja, o direito de parlamentares e chefes de Executivos de serem julgados em tribunais superiores.

Vejamos. Continue lendo

Como vivem os pobres na Suíça

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 26/3/2017 do O POVO.

Como vivem os pobres na Suíça

Recentemente comentei nesta coluna o estudo do Banco Mundial propondo aumento dos recursos do Bolsa Família para atender os “novos pobres” gerados pela crise econômica. No Brasil, sãos consideradas em “pobreza extrema” famílias com renda de R$ 77 por pessoa; a categoria “pobre” classifica famílias com renda de R$ 154 por integrante.

Que países do chamado “terceiro mundo” têm nível elevado de pobreza é de conhecimento geral. Menos comum é descobrir que alguns países “insuspeitos” da Europa, considerados ilhas de prosperidade, conhecidos por oferecerem condições de vida ótimas a seus habitantes, também têm os seus pobres – e programas sociais para atendê-los.

Foi com certa surpresa que li no Swissinfo (portal de notícias da Suíça em português) o texto “Supermercado para pobres: um ‘escândalo’ que já dura 25 anos”. A reportagem aborda uma iniciativa da Cáritas, que mantém 24 lojas para atender pessoas de baixa renda em várias cidades da Suíça.

Mas o espanto foi também dos suíços quando a primeira loja da Cáritas foi aberta em 1992, em Basileia, vendendo a preços abaixo do mercado ou mesmo simbólicos. Segundo Christoph Bossart, um dos pioneiros, a abertura da primeira mercearia causou “grande eco midiático”, com alguns jornais propalando que “a presença de uma loja para os pobres, num país rico como a Suíça, era um escândalo”. Continue lendo

Ele não é jornalista

Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião do O POVO, edição de 23/3/2017.

Ele não é jornalista

Já escrevi que a Lava Jato não pode ser salvo conduto para ações desmedidas, mesmo se praticadas por Sérgio Moro.

Mais uma foi cometida na terça-feira, desta vez contra Eduardo Guimarães, editor do Blog da Cidadania. O blog é pró-petista, duro com Lava Jato, contra o governo Temer e crítico do juiz Sérgio Moro. Mas isso não tem importância nenhuma, pois há blogueiros de “grife” – hospedados em portais de grandes veículos de comunicação – que são o contrário de tudo isso. Faz parte do direito de cada um expressar-se livremente, próprio da democracia.

O problema é que a Guimarães foi reservada uma “condução coercitiva” precedida de um varejo em regra em sua casa, na qual policiais federais, a mando de Moro, recolheram todos os equipamentos eletrônicos que puderam encontrar.

Acusação: Guimarães antecipou em seu blog (26/2/2016) que Lula seria conduzido coercitivamente pela PF, como de fato foi (4/3/2016). No interrogatório, queriam saber do blogueiro quem lhe repassara a informação. Acontece que a Constituição atesta (art. 5º/XIV): “É assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”. Guimarães é blogueiro há 12 anos.

O deputado Paulo Teixeira (PT-SP), em audiência com Moro, interpelou-o sobre o assunto. O juiz, segundo o deputado, ter-lhe-ia dito que Guimarães não era jornalista, explicação insuficiente para justificar a operação. A jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, também questionou-o sobre o motivo da ação contra o blogueiro. Resposta da assessoria: “Sem comentários”.

No mínimo – depois de a Lava Jato apresentar vazamentos para todos os lados – o juiz teria de responder por que pesou a mão contra um blogueiro. Existe alguma investigação para saber se há vazamentos proveniente de advogados, do Ministério Público, da Polícia Federal ou da própria Justiça?

No mais, Moro deveria declarar-se impedido de atuar contra Guimarães, pois o blogueiro o aciona no no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o juiz processa Guimarães, por suposta ameaça. Terá Moro imparcialidade para julgar Guimarães?

Vamos estatizar a JBS e a BRF?

Reprodução do artigo publicado na edição de 19/3/2017, seção “Farol”, do O POVO.

Vamos estatizar a JBS e a BRF?

É quase um clichê – expectorado por setores à direita no espectro político – a palavra “privatização”, quando ocorre algum problema nas empresas estatais.

No decorrer da Operação Lava Jato – quando se descobriu a Petrobras no centro de transações pouco republicanas – sobraram vozes preconizando a privatização da empresa. “Vamos deixar a iniciativa privada tomar conta do negócio; eles fazem melhor do que o Estado e sem corrupção”. Com pequenas variações era esse o trinado entoado pelos neoliberais.

Por desconhecimento histórico eles acham que a privatização é remédio para curar de bicho-de-pé a tumor na cabeça.

O fato é que a corrupção não surge por ser uma empresa estatal ou privada. A persistência dessa prática têm razões históricas, culturais e políticas, fincadas no “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda. E, ainda na falta de controle, transparência e punição para quem atravessar a linha da honestidade.

Na Lava Jato, a responsabilidade das empresas privadas ficou obscurecida, atribuindo-se o protagonismo da vilania aos políticos. Agora, no caso dessas duas gigantes privadas, não há como ver os políticos atores principais – ainda que tenham participação -, pois as empresas estão no centro indutor do malfeito.

Então, vamos estatizar a JBS e a RBF?

Covardia intelectual é pior do que postar depois de beber

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 19/3/2017 do O POVO.

Covardia intelectual é pior do que postar depois de beber

Algumas das “polêmicas” típicas das redes sociais que surgem na minha linha do tempo do Twitter, eu nem clico para ver. A maioria delas são como cometas, que brilham muito, mas passam rápido e eu – por dever de ofício ou por gosto – tenho coisas mais interessantes para ler.

Também não adiro ao apedrejamento, aos tribunais do ódio da internet, seja a vítima de direita ou de esquerda. Esse tipo de coisa me lembra aqueles filmes de faroeste em que a turba se reúne na frente da delegacia, todos excitados para enforcar o suspeito, antes de qualquer julgamento.

Mesmo menino (bom, confesso que continuo vendo bangue-bangue :)), eu torcia por aqueles xerifes que, munidos de coragem, segurando uma Winchester, faziam os “cidadãos de bem” voltarem para casa, com o rabo entre as pernas. Tenho rejeição física ao espírito de manada, por ser uma coisa estúpida e perigosa, que pode levar ao fascismo ou ao comunismo de tipo stalinista.

“O ignorante se descontrola na multidão, não porque tenha sido inoculado por ela com o vírus da violência, mas porque sua própria violência tem ali a única chance de se exprimir em segurança. Em outras palavras, o ignorante é perverso, porém covarde.” (H.L. Mencken) Continue lendo

PT e PSDB: quando a paralelas se encontram

Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião, edição de 16/3/2017 do O POVO.

PT e PSDB: quando a paralelas se encontram

Dois dos mais ferrenhos adversários, que se confrontaram em refregas políticas memoráveis, enfim, acharam uma clareira na qual podem sentar ao redor de uma fogueira e concordar em alguma coisa: a forma de ver o caixa 2 concilia PT e PSDB.

Recuando no tempo, quem levantou a tese de que o caixa 2 era era um mero tropeço foi Lula, quando exercia a Presidência da República e viu seu partido enrolado no caso do “mensalão”. Na época, partidos adversários, travestindo-se de cândidos, jogaram lenha na fogueira onde ardiam os petistas.

Hoje, com todo mundo com a água no pescoço, o argumento original está em processo de reciclagem. A começar pelo pelo mais emplumado dos tucanos, o também ex-presidente e ex-ateu, Fernando Henrique Cardoso, que comparou o caixa 2 a um, digamos assim, pecado venial: “Há diferença entre quem recebeu recursos de caixa dois para financiamento de atividades político-eleitorais, erro que precisa ser reconhecido, reparado ou punido, daquele que obteve recursos para enriquecimento pessoal, crime puro e simples de corrupção”. Esse argumento, com pequenas variações, é abraçado por quase todos os partidos.

Se o situacionista FHC deu a senha para absolver os praticantes do malfeito, o oposicionista PT não deixou a bola cair. Fiquemos com a declaração do cearense José Guimarães: “Temos que mudar as regras, fazer alguma coisa. Do jeito que está não se salva ninguém. Acho que algumas figuras da República poderiam sentar com FHC e Lula para discutir uma saída”.

Para fechar o círculo, entrou em campo o indefectível ministro do STF Gilmar Mendes: “Caixa 2 nem sempre é corrupção”.

Mas nesse terreno ele terá de enfrentar a presidente do STF, Cármen Lúcia, para quem “caixa 2 é crime e agressão contra a sociedade”. Para infelicidade de alguns, a ministra resolveu seguir a carreira jurídica, em vez de ficar em casa, conferindo preços de supermercados.

(E a lista de Janot vai fazer aumentar a pressão pela impunidade.)

Prêmio de Jornalismo Massey Ferguson

Até o dia 04/09/2017 estão abertas as inscrições para a 16ª edição do Prêmio de Jornalismo, organizado pela Massey Ferguson.

O concurso visa a premiar trabalhos que que divulguem temas do agronegócio, que envolvam aspectos relacionados à produção, desenvolvimento e tecnologia, além de questões que promovam desenvolvimento econômico.

Categorias: Impresso (jornal e revista), Multimídia, Fotojornalismo (R$ 15 mil para o primeiro lugar), Estudante (R$ 7 mil) e América do Sul, Central e caribe (viagem para o Brasil).

Mais informações e inscrição.

Concurso de vídeos para jovens até 25 anos

A Plural+, com patrocínio da United Nations Alliance of Civilizations (UNAOC) e International Organization for Migration (IOM) abriu competição para jovens cineastas.

Pessoas com até 25 anos de idade podem apresentar filmes sobre migração, diversidade e inclusão social. Há três categorias com base na idade. O vencedor de cada categoria receberá US$1.000 e terá seu vídeo amplamente distribuído.

Todos os vencedores receberão uma viagem até Nova York com despesas pagas para participar a cerimônia de premiação e participar  do Festival Plural+ 2017.

Os vídeos devem ter entre um e cinco minutos de duração e incluir legendas em inglês.

Mais informações (inglês, francês e espanhol). Inscrição, até 4 de junho 2017.

Jornalista, vítima de notícia falsa, diz que vai revelar o nome do autor da “canalhice”: um “publicitário de uma grande agência brasileira”

O jornalista Gilberto Dimenstein, coordenador do Catraca Livre, foi vítima de uma notícia falsa que o dava como dono de um “boteco” na Vila Madalena (bairro de São Paulo). Em texto no portal Comunique-se ele conta que passou a investigar o caso, a partir da disseminação da falsidade pelo Movimento Brasil Livre, o MBL, uma das principais organizações que trabalharam pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Dimenstein falou então com líder do MBL, Fernando Holiday. Em uma conversa por telefone (que o jornalista gravou), Holiday lhe disse que o texto não era de sua autoria, mas que “concordava” com seu conteúdo. À pergunta qual era a fonte de informação, Holiday revelou: o site “Jornalivre”.

Em sua pesquisa, Dimenstein verificou que o site não é registrado no Brasil, não tem expediente e nem contato para falar com os responsáveis. Porém, ele diz ter colhido “fortes indícios” de que a fonte original é um publicitário “de uma grande agência de publicidade brasileira” e que havia “comunicação, via redes sociais, entre esse publicitário e dirigentes do MBL”.

Dimenstein assevera que divulgará o nome do publicitária responsável pelo site: “Quando tiver as provas materiais”. “Vocês vão ficar surpresos em saber que alguém assim ocupa um cargo tão importante numa agência tão importante”.

Ele termina o texto alertando que essa “canalhice digital”, a divulgação de notícias falsas, ocorre à direita e à esquerda.

Veja o texto de Dimenstein na íntegra, no portal Comunique-se.