O turbante e os excessos do “politicamente correto”

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 26/2/2017 do O POVO.

O turbante e os excessos do “politicamente correto”

Entre os excessos do “politicamente correto”, ignorava os que acometiam a chamada “apropriação cultural”. Já vi gente pedindo censura de livros de Monteiro Lobato; avocando o “lugar da fala” para impedir quem não pertence a determinado grupo a opinar sobre certos assuntos; alguns querendo tirar de circulação músicas “preconceituosas” ou a banir determinadas palavras do dicionário. Mas, confesso, desconhecia até mesmo o conceito de apropriação cultural.

Observem que me refiro aos “excessos” do politicamente correto. Por óbvio, reconheço a existência de palavras e comportamentos agressivos e preconceituosos, que têm de ser combatidos. A mais, defender o direito de circulação de palavras, músicas, livros, filmes e outras obras de arte considerados desrespeitosos por quaisquer grupos não representa concordância com o seu conteúdo.

Pois bem, mas fiquei sabendo o significado de “apropriação cultural” depois que foi noticiada a postagem no Facebook de Thuane Cordeiro, uma jovem curitibana, repreendida por usar um turbante. Nas palavras dela, reproduzidas literalmente: Continue lendo

Governo Temer: A linguagem da truculência

Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião, edição de 23/2/2017 do O POVO.

A linguagem da truculência

Cada governo se define por um tipo de linguagem, não apenas em termos de palavras, mas também no sentido mais amplo. O governo Temer inaugurou a linguagem da truculência, pois, apesar dos salamaleques linguageiros (“exata e precisamente”) do chefe, seus auxiliares mantêm o sestro dos velhos coronéis, habituados a dar ordens, sem permitir o diálogo.

Para ficar em casos mais recentes, lembremos Geddel Vieira Lima, usando a sua condição de (ex)poderoso secretário de Governo como gazua para pressionar o ministro da Cultura a liberar a construção de um edifício de seu interesse em Salvador, em área tombada pelo Iphan.

O afoito senador Romero Jucá, defenestrado do Ministério do Planejamento depois de exposto o seu objetivo de “estancar a sangria” da Lava Jato, volta agora ao noticiário por outra de suas artes, ao equiparar o foro privilegiado para autoridades a uma “suruba”. Na casta verbalização de Jucá: “Se acabar o foro é para todo mundo. Suruba é suruba. Aí é todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada”. Pressionado por ter apresentado uma PEC visando proteger de processos os presidentes do Senado e da Câmara, o bravo senador culpou a imprensa, comprando-a ao “nazismo e ao fascismo”.

No mesmo tom, Alexandre de Moraes, ministro licenciado da Justiça, acusou a imprensa de mentir: “A imprensa às vezes inventa o que bem entender”. Respondia – durante a sabatina na postulação ao cargo de ministro do STF – se teria recebido dinheiro de uma empresa investigada na operação Acrônimo, da Polícia Federal.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o nomeado secretário-geral da Presidência, Moreira Franco, também mostrou sua face autoritária. À pergunta se, em nome combate à crise econômica, estaria defendendo “amenizar” as investigações da Lava Jato, advertiu o repórter “exaltado e de dedo em riste”: “Você me respeite”. Quando perguntado porque achava que Lula continuava com a popularidade alta, repreende o jornalista: “Olha aqui, rapaz, você é muito novo, olhe aqui…”

(Alguém precisa explicar ao ministro e a esse governo de macróbios que juventude não é sinônimo de estultice e nem velhice, necessariamente, sinal de sabedoria.)

Curso: jornalismo em 360 graus

O Centro Knight está com inscrições aberta para o curso “Introdução ao jornalismo imersivo: realidade virtual e vídeos 360º”, no sistema MOOC (sigla em inglês para curso online massivo aberto).

A coordenação é do professor Robert Hernandez, que vai utilizar algumas das mesmas ferramentas ensinadas no curso, que será ministrado em inglês.

Dividido em cinco módulos, o curso começa em 6 de março e vai até o dia 9 de abril de 2017.

Mais informações e inscrição.

(Clique no ícone acima e à esquerda na tela para fazer girar em 360º)

Prêmio MPT de Jornalismo

Estão abertas as inscrições para a 4ª edição do Prêmio MPT de Jornalismo, até o dia 5 de maio. O tema são matérias e imagens que destacam a investigação e a denúncia de irregularidades trabalhistas. (MPT = Ministério Público do Trabalho)

São oito as categorias em disputa: jornal impresso, revista impressa, radiojornalismo, telejornalismo, webjornalismo, fotojornalismo, universitário e repórter cinematográfico. Serão consideradas válidas reportagens veiculadas entre 2 de maio de 2016 e de 5 maio de 2017.

Serão distribuídos R$ 400 mil em prêmios (R$ 5 mil para cada categoria regional), nacionais (R$ 10 mil e R$ 15 mil, conforme a categoria), além de dois prêmios especiais – Fraudes Trabalhistas e MPT de Jornalismo (R$ 45 mil cada).

Mais informações e inscrição.

Movimento “devagar” chega às notícias

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição do O POVO de 19/2/2017.

Movimento “devagar” chega às notícias

Há dez anos um livro chamou-me a atenção enquanto flanava por uma livraria existente no subsolo do Shopping Aldeota. A capa, de amarelo chamativo, trazia o desenho de um triângulo vermelho (imitando a placa de trânsito) e dentro dele o título “DEVAGAR – Como um movimento mundial está desafiando o culto da velocidade”, finalizando com o desenho de uma tartaruga. O título em inglês é “In praise of slow” (algo como “elogio à lentidão”), livro do jornalista escocês Carl Honoré.

Honoré, que achava curto o dia de 24 horas, incapaz de ficar sem fazer nada por alguns minutos – correndo pra cima e pra baixo como exige a profissão -, esperava impaciente na fila de um aeroporto, quando lhe pareceu haver encontrado a solução para recuperar o tempo que o filho lhe tomava antes de dormir. Divisou em um jornal exposto no saguão o título: “A história para fazer dormir em um minuto”, a respeito de um livro que prometia entregar a pais desesperados o resumo de contos de fada clássicos para leitura em 60 segundos, garantindo o efeito soporífero para crianças insones.

Antevendo os “benefícios”, o jornalista se preparou para comprar os volumes disponíveis, quando o seu pisca-alerta disparou: estava tentando se livrar do filho para ter mais tempo para cumprir mais e mais tarefas a cada hora do dia.

Foi quando resolveu fazer uma revisão de suas prioridades e voltou-se à pesquisa do movimento “slow” (devagar). Quando se fala desse movimento, a maioria lembra-se do “slow food”, um modo de preparar e comer as refeições de forma tranquila. No entanto, Honoré viajou a vários países para mostrar que o movimento “slow” alcança várias outras áreas, como medicina, trabalho, lazer e sexo, este de modo a fruí-lo com menos pressa e mais intensidade, quem sabe, subjetivamente. Continue lendo

Vivendo a vida como dá

Dona Sandra, seus dois amigos e a cachorra Nega. Arranchados na rua Joaquim Deodato (Centro/Fortaleza). Cozinham e dormem por ali. Vivem da cata de material reciclável, que “carroceiros” despejam nas proximidades. Dona Sandra se queixa de dor nas pernas.

A “Madonna do mundo das leis”

Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião do O POVO, edição de 16/2/2017.

A “Madonna do mundo das leis”

Sempre alertei para os excessos de promotores, delegados e do juiz Sérgio Moro nas investigações da Lava Jato. Era acusado de “petista” ou “psolista” (referente ao Psol), mesmo com a ressalva que denunciar abusos era diferente de ficar contra a operação. É o preço que se paga por afrontar o senso comum e os heróis da mídia – mas ao jornalista é proibida a covardia intelectual.

Em sua edição de 14/2/2017, o jornal Folha de S. Paulo entrevistou o jornalista peruano Gustavo Gorriti, que investigou os malfeitos da Odebrecht em seu país. O trabalho de Gorriti levou ao processo que poderá culminar com a prisão o ex-presidente Alejandro Toledo.

Pois bem, vejam o que ele diz a respeito da viagem que fez a Curitiba, em 2015, para conhecer a Lava Jato: “Naquela primeira visita, eles me pareciam um grupo de magistrados jovens, fazendo um trabalho altamente técnico, sério e profundo, e que naquele momento ainda trabalhavam sem o furor midiático que depois se montou em torno deles”.

Respondendo a esta pergunta: “E o sr. acha que o juiz Sérgio Moro e o grupo de investigadores da Lava Jato que o sr. conheceu naquela ocasião mudaram muito?” A resposta: “Creio apenas que agora seu trabalho é mais difícil por terem se tornado essas estrelas da mídia. Não é o mesmo o entusiasmo de um juiz principiante que está começando com um caso desses na mão, do que o dessa pessoa depois que se transforma na Madonna do mundo das leis. Acho que eles precisam continuar a fazer o trabalho com seriedade e tomar cuidado com o que essa atenção midiática pode causar em termos de vaidades políticas e tudo o mais”.

De forma elegante, porém não sem ironia – “Madonna do mundo das leis” -, Gorriti fez análise precisa da forma de atuação de Moro e sua turma. Apreciação que os “colunistas de grife” brasileiros nunca tiveram coragem de fazer, mas talvez o façam agora, para “estancar a sangria”, pois o tsunami ameaça arrastar o PMDB e o PSDB.

A propósito, Gorriti acaba de receber a comenda Maria Moors Cabot, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo, concedido pela Universidade de Columbia, reconhecendo jornalistas que contribuem para o “entendimento interamericano”.

A ilusão da vigilância eletrônica para aumentar a segurança

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 12/2/2017 do O POVO

A ilusão da vigilância eletrônica para aumentar a segurança

Tenho a forte impressão de que a imprensa em parte é responsável pelo sucesso de figuras como João Doria prefeito de São Paulo, não porque esteja “a serviço da burguesia”, como quer certa esquerda, mas pelo hábito de deixar-se atrair loucamente por factoides: agora mais do que nunca, em busca de cliques, “curtidas” e “compartilhamentos” nas redes sociais.

Que importância tem, por exemplo, um cara habituado a transitar com uma blusinha de cashmere “casualmente” jogada às costas e, de repente, aparecer fantasiado de gari, simulando a varrição de uma praça? O negócio devia ir lá para o cantinho das variedades, miudezas, mas ganha destaque nos jornais e portais, porque “as pessoas querem ver”, e nas TVs, sempre ávidas por “personagens” para “dar cor” à notícia.

Agora, na sua guerra contra as pichações, Doria diz que vai instalar 10 mil câmeras para flagrar pichadores em plena ação para multá-los. Duas coisas: 1) ele corre o risco de sair derrotado da peleja, pois os pichadores podem se sentir desafiados, sendo precisamente isso que move o trabalho deles; 2) mais câmeras resultarão em nada: quem vai vigiar os 10 mil olhos eletrônicos? Continue lendo

“Solução Michel”

Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião, edição de 9/2/2017 do O POVO.

“Solução Michel”

No artigo da semana passada, escrevi o seguinte: “A esperança do presidente (Michel Temer) é que depois de nomeado o novo relator (da Lava Jato, no STF), a temperatura baixe alguns graus e ele possa indicar um ministro um pouco mais sensível às dificuldades que fatalmente terá de encarar quando vier a público a delação dos 77 executivos da construtora Odebrecht”. A indicação do titular da Justiça, Alexandre de Moraes, tucano de carteirinha, confirma a análise do artigo anterior.

O tema surgira a propósito da fala de um advogado no programa Debates do Povo (que apresento na rádio O POVO/CBN) classificando Temer de “grande jurista”, por ter abdicado de indicar o novo integrante do Supremo Tribunal Federal enquanto a ministra Cármen Lúcia, presidente do STF, não nomeasse o relator da operação Lava Jato.

Essa indicação política ao STF (melhor seria dizer politiqueira) casa-se perfeitamente com o que confessou o senador Romero Jucá na gravação em que Sérgio Machado flagrou – em plena nudez – figuras do atual governo: qual seja, a proposta da “solução Michel” para “estancar a sangria” da Lava Jato.

A fórmula do golpe que afastou Dilma Rousseff da Presidência – a “solução Michel” – foi citada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no pedido de instauração de inquérito que ele enviou, no início desta semana, ao STF contra o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP), os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e Romero Jucá (PMDB-RR) e o ex-diretor da Transpetro Sérgio Machado, por obstrução à Lava Jato.

Ao tempo em que mandou seu indicado preservar-se (quando ele abre a boca é um perigo), Temer orientou correligionários a destamparem a caixa de louvores a Alexandre de Moraes. O próprio presidente saiu a campo para declarar que “não houve críticas, só elogios” a Moraes. Críticas houve (muitas), mas temer só ouve o que lhe interessa.

Com a esmagadora maioria de senadores à sua disposição, Temer não terá problema para impor o nome de Moraes.Talvez lhe fique uma nódoa no currículo, mas quem se importa com um respingo quando já está todo borrado?

Sobre imprensa e democracia

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 5/2/2017 do O POVO.

Sobre imprensa e democracia
Plínio Bortolotti

Com o PT no poder, uma das críticas mais contundentes da esquerda era dirigido à imprensa, considerada “um partido de oposição”. Nos Estados Unidos, Stephen Bannon, um dos principais assessores do presidente Donald Trump também comparou a mídia a um “partido de oposição” e aconselhou a imprensa a “calar a boca”. Como se observa, a crítica que a esquerda e a direita mais extrema fazem à mídia é a mesma.

Mas por que a direita e a esquerda se igualam em críticas exacerbadas aos meios de comunicação? Possivelmente porque alguns setores da esquerda têm o mesmo viés autoritário que a pior direita – ambos querem um mundo à sua imagem e semelhança.

Já escrevi, mais de uma vez, que os jornais merecem boa parte das críticas que lhes fazem, porém, existe um limite da crítica à imprensa. Esse limite é o mesmo que vale para as críticas à democracia, que não pode chegar ao paroxismo de pedir a sua destruição ou considerá-la imprestável. Nos regimes autoritários – à esquerda e à direita -, não existe liberdade de imprensa, porque esta só existe na democracia. De outro modo, somente onde existe democracia é possível a liberdade de imprensa. São duas coisas indissociáveis. Continue lendo