O lindo ofício de restaurar livros ou uma tarde na Unifor

Restauração de livros (Foto: Mariana Parente/ Especial para O POVO)

O processo de restauração de livros é artesanal. Cada peça é examinada cuidadosamente por mãos leves e olhos atentos. Tudo começa na higienização das páginas, buscando qualquer sinal de praga. É uma espécie de triagem que identifica qual serviço será empregado em cada livro: remendos, remontagem, costura, reforços, velaturas, encadernação. Na última semana, estive no Setor de Conservação e Restauro da Universidade de Fortaleza (Unifor). É por lá que chegam os volumes que integram o setor de Acervos Especiais da biblioteca da instituição.

A sala, onde geralmente trabalham quatro restauradores, recebeu o reforço de mais duas pessoas desde a chegada do acervo da escritora cearense Rachel de Queiroz, doado pelo Instituto Moreira Salles (IMS) para a universidade. Por todos os lados haviam publicações da própria autora, obras traduzidas, livros com dedicatórias de escritores renomados.
O conjunto, que chegou ao Ceará em janeiro, será aberto para visitação do público na próxima sexta-feira, 26. Por isso, a equipe trabalhava sem descanso e sem interrupções. Durante as horas que fiquei no setor, talvez eu tenha mais atrapalhado que ajudado no processo. Atrevida, sentei diante de um livro para realizar a higienização com um pincel. “Mas, calma”, graceja Francisco Gomes, restaurador com mais de 30 anos de experiência. Era necessário ainda calçar as luvas e colocar uma máscara antes de começar.

Cada gotícula de saliva pode ser prejudicial para o livro, dependendo do estado da obra. Ou uma gota de suor, por exemplo, pode transformar-se em uma mancha no futuro. Por isso, as folhas devem ser resguardadas de qualquer fluído ou corpo estranho. Luvas postas, iniciei o trabalho. Passei o pincel página por página, com calma. O ombro dói e o pulso sofre uma dormência. Se engana você, leitor, ao pensar que o trabalho é monótono. Não é! Pois exige atenção renovada a cada virada de página. Um pó, uma mancha, um rasgão ou um inseto não podem passar despercebidos. Há ainda um medo ao manipular o livro. Afinal, são peças únicas e provocar um dano nessas preciosidades é “imperdoável”.
O material utilizado pelos é majoritariamente importado de São Paulo.

Processo de higienização. (Foto: Mariana Parente/ Especial para O POVO)

Linhas, cordões, papéis, fibras, tecidos. Cada item vai servir para uma tarefa específica – “dependendo do estado do livro, do reparo necessário”, explica Luís Gerônimo Pereira, 59 anos de vida e 30 trabalhando como restaurador. Alguns itens – como a água especial para preparação de soluções – são feitos nos laboratórios da Unifor.

Além de artesanais, os procedimentos de restauro são químicos e físicos. Gomes e Gerônimo sabem identificar – de imediato -qual inseto assola o livro, qual material pode ser utilizado para estancar o problema, qual o tipo de linha deve ser usado para costurar. Os dois puxam os itens das estantes abarrotadas com muita naturalidade. Eu, nas poucas horas que passei no Setor de Conservação e Restauro, gravei apenas alguns nomes. São tantas técnicas e produtos que parece ser necessário uma vida inteira até dar conta de tudo.

As luvas! Manchas na blusa foram ocasionadas por um pó branco usado para facilitar o calçar das luvas. (Foto: Mariana Parente/ Especial para O POVO)

Saiba mais
O oficio de restaurar
No Ceará, não existem cursos específicos de restauração. Os restauradores da Unifor aprenderam os procedimentos através da experiência e em cursos realizados fora do Estado, principalmente na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

O Setor de Conservação e Restauro da Unifor é formado por quatro pessoas: Luís Gerônimo Pereira, 59 anos de vida e 30 de restauração; Francisco Gomes, 51 anos de idade, 30 deles dedicados à restauração; Maria Juçara da Siva, 33, oito deles trabalhando como restauradora; e Rogério Guedes, 45 anos de idade e 25 dedicados à restauração. Para reforçar a equipe e conseguir entregar o acervo de Rachel de Queiroz em tempo hábil, foram chamados Jerlane Souza, 37, que há 8 anos se dedica à restauração e Isa Lessa Mendes, 31 anos, 10 no ofício
de restauradora.

Os principais serviços executados ao restaurar uma obra são higienização, remendos, aplicação de lombadas, remoção de fungos e ferrugens, reestruturação de suportes, remontagem, costura, reforços, velaturas e encadernação.

Gerônimo Pereira e Francisco Gomes, restauradores de livros da Unifor. (Foto: Mariana Parente/ Especial para O POVO)

Serviço
Biblioteca Unifor – Acervos Especiais
Os livros restaurados podem ser visitados gratuitamente. Além do acervo de Rachel, há centenas de obras raras no setor
Onde: Unifor (Av. Washington Soares, 1321. Prédio da reitoria, 1º andar)
Horário: das 8h às 12 horas e das 14h às 18 horas (segunda a sexta-feira) e 9h às 11h30min (sábados)
Telefone: 3477 3823
Entrada gratuita
Outras informações: acervosespeciais@unifor.br

Isabel Costa

Sobre Isabel Costa

Repórter do Vida&Arte, eterna estudante de Letras da UFC, especialista em Semiótica e Literatura pela Uece. É apaixonada por literatura brasileira, novos autores, publicações artesanais e cultura pop. Abriu o blog para compartilhar leituras e afetos. Para falar comigo: leiturasdabel@gmail.com

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