Leituras da Bel entrevista: Nina Rizzi e Ayla Andrade

Ayla Andrade, integrante do Leituras Públicas

A Praça dos Leões, no Centro de Fortaleza, vai viver dois dias de literatura. Sábado e domingo, 22 e 23 de julho, acontece a Fresta Literária – evento que reunirá escritores, poetas, cronistas, fotógrafos e produtores culturais. A entrada é gratuita! O Leituras da Bel conversou com as escritoras Nina Rizzi e Ayla Andrade, que participam da programação de sábado. Ao lado de Tetê Macambira, Talles Azigon e Sara Síntique, elas formam o grupo Leituras Públicas. Na entrevistas, as duas refletem sobre a literatura, os espaços da cidade, a leitura e as formas de ocupação das letras. Confira entrevista:

Leituras da Bel – Como a literatura pode encontrar a cidade em espaços como a Praça dos Leões?

Ayla Andrade – A princípio, a Fresta Literária se propõe a descobrir espaços na cidade, frestas mesmo, que nos possibilite enxergar outras maneiras de viver a própria cidade que não as estabelecidas. Ás vezes o buraco da fechadura, o vão, a ranhura, são espaços para perceber os objetos, os desejos, o que se mira de outra forma. E assim também outras formas para a literatura na cidade. Não sabemos se encontraremos, mas o fato é que estamos olhando pelas frestas ou no escuro, ou na Praça dos Leões, sentidos outros para a palavra, para a cidade e com aqueles que julgamos também ter esse interesse pela palavra, pela literatura e pela construção de uma cidade outra.
A Praça dos Leões tem sido um espaço de organização de alguns grupos da cidade, seja de música, de festas, de intervenções urbanas, além de ser um espaço primoroso no centro e contar ainda com a presença da ilustre Rachel de Queiroz. Então, porque não começar de lá essa busca por frestas literárias para a cidade?

Nina Rizzi – A literatura está em todos os lugares, inclusive na praça dos leões, onde, aliás, tem tantos boxes de livros não apenas didáticos. É equivocado pensar a literatura como uma instância distante das pessoas comuns, restrita às escolas, universidades, bibliotecas… a literatura é coisa viva que se se faz e acontece todos os dias, quando os pais contam histórias para os filhos em casa, quando as pessoas inventam histórias ao sentar ao lado da estátua da Rachel de Queiroz – ou quando contam histórias verdadeiras, como o fato dela, Rachel, ter apoiado a ditadura… a literatura é coisa viva e temos, todos nós, as pessoas em situação de rua que vivem e moram ali, os passantes todos; o direito de vivenciá-la em todos lugares e sentidos que se abre. A literatura é o infinito, e é pra lá que vamos.

Da esquerda para direita: Tetê Macambira, Nina Rizzi, Sara Sintíque, Ayla Andrade e Talles Azigon

Leituras da Bel – Como nasceu o grupo Leituras Públicas e como será a participação no evento?

Ayla Andrade – O grupo de leituras públicas nasceu de uma vontade de ler. De ler para nós mesmas e para os outros, aqueles que desejem ouvir.
Somo amigas e um amigo e compartilhamos esse furor pela leitura e pelo livro. Além disso, somos escritoras e temos nesse exercício da palavra um grande aliado.
Nossas primeiras leituras iniciaram na maravilhosa Livraria Lua Nova e desde então já visitamos outros lugares como o Espaço O Povo de Cultura e Arte e a Bienal do Livro desse ano.

Nina Rizzi – Nasceu de uma ideia do Talles Azigon, que lembrou que leituras públicas aconteciam desde a antiguidade, quando pessoas se encontravam para ler e ouvir a literatura, sem qualquer outro intermédio, como a música ou o a dramatização, a literatura simplesmente, como fazemos quando estamos sozinhos e lemos e a história vai se nos contanto dentro da cabeça, sugerindo imagens e sons muito próprios. Então ele nos convidou – eu, Ayla, Sara e Tetê para nos permitir, experimentar, vivenciar momentos assim, de imersão no texto e na voz que salta das leituras.
A cada vez que lemos publicamente, cada um de nós de maneira muito independente e autônoma escolhemos o que vamos ler, compartilhamos entre nós e uma linha de leitura se constrói pelos próprios textos. No evento, escolhemos de antemão uma linha textual mais específica: a literatura feita por mulheres, sobretudo negras, indígenas, e de comunidades; tanto porque pessoalmente todas gostamos, como pela importância de se deixar ouvir essas vozes que tem tanto a nos dizer, e têm dito.

Saiba mais
Veja a programação completa da Fresta Literária

Leituras da Bel – Quais estratégias nós podemos adotar para ocupar espaços públicos – como as praças e os parques – quando não há eventos específicos no calendário?

Ayla Andrade – Correria, sangue no olho, peito aberto e parcerias diversas (risos). Infelizmente é notório que as políticas públicas de cultura cada vez mais se afastam do que seria o óbvio: promover a cultura de forma democrática e alcançando espaços da cidade que contumazmente são relegados a meros espectadores, mas que também executam muito bem seus papéis de representantes da cultura local, como no caso das periferias ou dos coletivos que possuem todas essas estratégias de cultura de guerrilha para desenvolver o básico.
Afora isso é preciso cobrar dos gestores (vários de nós, em Fortaleza, estamos especialistas nisso) mais e melhores políticas públicas na área da cultura e um calendário mais sólido voltado para a literatura. Poucos são os editais ou ainda programas e projetos voltados para a literatura, há poucos equipamentos da cidade que se interessam em promover a leitura ou os escritores e seus escritos. Mas, as estratégias, as frestas, estão aí pra gente enxergar, se esgueirar e entrar na roda.

Nina Rizzi – Os espaços de um modo ou outro já são ocupados, quando penso ‘vamos ocupar as ruas’, não posso deixar de me pensar numa condição de privilégio e pretensão, porque as ruas já estão ocupadas por pessoas que não se veem, ou que fingimos não ver: pessoas em situação de rua, trabalhadores que mesmo apressados ora e outra param, ambulantes, gente que lê nos bancos em seu silêncio gritante, e tantas outras as vidas que estão pulsando nas ruas e fazem da rua a “rua” em si, e não só estrada.
A nossa estratégia é se aproximar dessas pessoas e fazer o que elas já fazem, compartilhar a rua, fazer da rua o lugar da política, da arte, da beleza, do feio (porquê não?), da vida, porque sim, ela é de todas e todos.

Nina Rizzi, integrante do Leituras Públicas

Leituras da Bel – Qual a importância de criar eventos que saiam do calendário de ações do poder público e ultrapassem os espaços?

Ayla Andrade – Acho que a maior importância é de burlar o óbvio, os mesmos ou a mesmice que encontramos nos equipamentos, projetos e editais da cidade. Construir na cena local o interesse diverso e democrático com aqueles e para aqueles que se interessam, desenvolvem, criam e inovam a cultura e arte da cidade, sem isso, a cidade é morta, estática e dominada por grupelhos que se apropriam da cultura e da arte como se essas fossem meros projetos de governo.

Penso que criar eventos, se organizar em coletivos é uma forma e uma força de apropriação da cidade, do fazer e até das divergências entre nós, mas somo nós, aqueles que construímos, que levantamos o debate e que criamos as frestas para essas e outras ocupações. Veja que não descarto o poder público e as políticas públicas, mas mais do que nunca é necessário empoderar-se de fazeres e saberes outros, para além da desgovernança que existe hoje na política cultural da cidade.
No mais, é estar atento ao que olho e o coração se habituaram a não ver, buscar a estranheza, o outro, os espaços, o “porque não?” e construir o porvir.

Nina Rizzi – Cada evento tem uma curadoria que sempre vai trazer um olhar muito específico, segundo escolhas pessoais e políticas. Todo evento é importante, toda curadoria é importante porque traz justamente essa pluralidade de olhares; daí a máxima importância de eventos que nasçam de todos os lugares. A Fresta é um deles, mas já há bastante tempo existem muitos outros com uma pulsão criadora muito forte em Fortaleza, e em todo país, tanto na música, dança e teatro, quanto especificamente na literatura: pipocam saraus, todas as semanas, em diversas periferias da cidade sem qualquer apoio do Estado ou quaisquer órgãos, o povo sozinho se articulando e fazendo a ‘curadoria’ de arte da sua rua, da sua praça, da sua casa que se abre para falar e ouvir as diversas vozes e olhares da cidade. Todo mundo pode fazer literatura, e faz.

Serviço
Fresta Literária
Onde: Praça dos Leões (Centro)
Quando: sábado e domingo, 22 e 23 de julho, a partir das 14 horas
Outras informações: https://www.facebook.com/LiterariaFresta/

 

Isabel Costa

Sobre Isabel Costa

Repórter do O POVO, eterna estudante de Letras da UFC, especialista em Semiótica pela Uece e apaixonada por literatura brasileira. Abriu o blog para compartilhar leituras, afetos e autores.

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