Leituras da Bel entrevista: Eduardo Luz, professor e pesquisador

Machado de Assis

O entendimento romântico que foi perpetuado sobre Helena ao longo da história sempre pareceu insatisfatório para Eduardo Luz, professor e pesquisador da Universidade Federal do Ceará (UFC). Nesta quarta-feira, 13, ele lança o livro O romance que não foi lido: Helena, de Machado de Assis, publicação das Edições UFC, resultado de pesquisa que desenvolve desde 2001. Na entrevista, Eduardo fala sobre as perspectiva para o estudo de Helena e de outras obras machadianas, as leituras atuais e os planos para o futuro. 

Leia a entrevista com Eduardo Luz

Leituras da Bel – Em qual momento da vida surgiu seu interesse por Helena? Quanto tempo demorou a pesquisa e quais as principais fases?
Eduardo Luz – Em 2001, eu trabalhava no querido Colégio Espaço Aberto, preparando os alunos para o vestibular. Helena foi um dos livros que ficaram sob meus cuidados. Mesmo antes dessa época, o consensual entendimento romântico desse romance já me parecia insatisfatório. Embora soubesse que seria dentro desse padrão que as perguntas do concurso seriam formuladas – como de fato foram –, eu procurava orientar meus alunos para novas perspectivas de leitura que se impunham a mim e que, por responsabilidade intelectual, eu deveria apontar-lhes. Naquele ambiente tão pragmático, isso não foi tranquilo. E já faz longos dezesseis anos… Durante todo esse período, sempre esteve transitando por minhas ideias a de escrever o livro aqui em questão, que propõe e pretende explicar uma nova recepção para o romance, emancipando-a daquela que se arrasta penosamente há 141 anos.

Leituras da Bel – Qual o papel dos colegas de departamento e dos alunos do curso de Letras dentro da pesquisa?
Eduardo Luz – A partir de 2012, na UFC, mantive um grupo de estudos sobre Helena e ofereci, pontualmente, a disciplina optativa Leituras do cânone ocidental, na qual os alunos e eu procedíamos exclusivamente à leitura atenta, densa, à leitura linha a linha desse romance. O resultado da experiência foi extraordinário: pouco a pouco, compreendemos haver em Helena uma estrutura narrativa extremamente complexa, e alguns aspectos logo se projetaram, à espera de uma análise mais acurada. Um livro como o que fiz não se escreveria sem a contribuição das ideias dos alunos com quem trabalhei; seus insigths, resultantes de uma pressão interpretativa extrema, foram absolutamente imprescindíveis para que fosse alcançado o texto machadiano em palimpsesto. No livro, agradeço a eles, e não gostaria de perder esta oportunidade de lhes agradecer mais esta vez.

Leituras da Bel – Falta leitura “corpo a corpo” com os textos literários na academia e na vida?
Eduardo Luz – Fico tentado a lhe responder com outra pergunta: será que ainda é possível, nestes tempos de interconectividade generalizada, lermos “corpo a corpo”? Sabemos que o homem evoluiu para a lentidão, com seus “neurônios da demora”, cuja função é melhorar a sintetização das informações. Também sabemos que o estado natural da mente humana é de desatenção; é preciso um grande esforço para não processarmos o estímulo da desatenção. Estudos de psicólogos, neurocientistas e educadores têm revelado que, quando estamos on-line, ingressamos num ambiente que promove a leitura descuidada, o pensamento acelerado e o aprendizado inconsistente; ou seja, a vida internética não estimula nem recompensa a imersão, a pausa e a contemplação, que habilitam a inteligência da sensibilidade. Aguardemos um pouco mais, no entanto, a reação do “slow movement”, dentro do qual está a “slow reading”, que nos reensina a perder tempo, a alcançar sentimentos estéticos e a explorar cadeias lógicas mais complexas, a partir da sua orientação de leitura voluntariamente lenta.

Leituras da Bel – O título do livro é “O romance que não foi lido”. Por qual razão ou razões isso aconteceu? Nós, leitores, tendemos a cair em leituras simplistas?
Eduardo Luz – O título, reconheço, pode soar presunçoso. O que se pretendeu com ele, no entanto, foi repostar a ressonância das apreciações de críticos atuais e remotos, prestigiosos ou nem tento, que em nenhum momento imaginaram que a leitura de Helena, empreendida por eles, pudesse não ser a mais… machadiana. Essa “presunção” é inaceitável, porque rendeu censuras à obra como estas: “trabalho de passagem”, com “enredo rocambolesco”; obra-prima “do estilo não-me-toques”; “súmula dos defeitos da primeira fase do romancista”. Sobre este, a propósito, cravaram esses críticos que “ainda não estava seguro de seus recursos” e que, à época em que escreveu a obra, “[tateava] recursos expressivos e processos de estruturação”. Muitos machadianos de merecimento, portanto, desqualificaram Helena como se seu autor fosse o que jamais foi: descuidado, inconsistente, menor. Parece-nos que o desmerecimento desse romance se deve, em grande medida, a ele não ter sido lido com todos os cuidados que um texto de Machado exige.

Le Blanc Seing, datado de 1965, de Magritte, estampa a capa do livro

Leituras da Bel – Como professores de nível fundamental ou médio poderiam utilizar o livro na sala de aula?
Eduardo Luz – Em Helena, Machado pilhou três tragédias gregas e as torceu para compor um romance moderno, usando a técnica da emulação. Ao longo desse processo, explorou negociações intertextuais complexas e reciclou peças do cânone. Para entendermos o processo compositivo de Machado, portanto, é necessário um aparato literário de que só costumam dispor alunos mais amadurecidos.

Leituras da Bel – Como incentivar e abrir caminhos para que os novos leitores façam leituras mais profundas e detalhadas?
Eduardo Luz – Há várias entradas para a literatura, todas legítimas, todas válidas. Antes de tudo, porém, é preciso respeitar o jovem leitor no seu processo de amadurecimento. Isso é indispensável para inseri-lo no circuito de leituras mais profundas e mais detalhadas, como você disse. Os livros de Machado de Assis, por exemplo, são pacientes, não têm pressa de se mostrarem aos novos leitores; mas muitos professores, ainda que bem-intencionados, esses sim têm mostrado pressa em apresentar Machado a seus alunos. Essa precipitação faz perder tanto o novo leitor quanto o velho escritor. A vida é curta (tão curta que, ao longo dela, talvez não consigamos ler 5.000 livros), mas é preciso ter paciência, sobretudo em relação aos escritores matrizes.

Leituras da Bel – Quais os próximos passos? Pretende estudar outros aspectos da obra ou outras obras machadianas?
Eduardo Luz – Inicialmente, é preciso deixar esse trabalho agir. Vamos ficar atentos às respostas que lhe serão dadas. Depois, a tendência é retomarmos os três outros romances da chamada “primeira maneira” de Machado (Ressurreição, A mão e a luva e Iaiá Garcia) e buscarmos as constantes neles disponíveis, com o fim de, assim, estarmos mais aparelhados para a descrição do Sistema Literário Machado de Assis.

Serviço
Lançamento O romance que não foi lido: Helena, de Machado de Assis
Autor: Eduardo Luz
Quando: quarta-feira, 13, às 18 horas
Onde: Auditório José Albano (Centro de Humanidades – Área I – Benfica)
Entrada gratuita. Haverá sorteio de exemplares

 

Isabel Costa

Sobre Isabel Costa

Repórter do Vida&Arte, eterna estudante de Letras da UFC, especialista em Semiótica e Literatura pela Uece. É apaixonada por literatura brasileira, novos autores, publicações artesanais e cultura pop. Abriu o blog para compartilhar leituras e afetos. Para falar comigo: leiturasdabel@gmail.com

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