Coluna À procura da poesia: Quando vieres ver um banzo cor de fogo, da poeta Nina Rizzi

Por Talles Azigon*

Poemas são bichos selvagens. Aparentemente difíceis de entender. Aparentemente estranhos. Aparentemente impenetráveis. Porém, poemas são fáceis de comer. É possível lamber um poema. É fácil. Você precisa a boca dos olhos, e ler em voz alta com os olhos da boca, nessa pequena receita abstrata está uma das possíveis chaves para ler poemas.  Recomendo que você faça esse exercício utilizando o livro Quando vieres ver um banzo com de fogo, da poeta Nina Rizzi.

um livro na cabeceira que teimava
não ser escrito ser incêndio a bordo
quando vieres ver um banzo cor de fogo

Para leitura de qualquer uma das poemas desse livro (você não leu errado, é uma poema) seria bom estar munido de uma lista de emoções:

1. A emoção de ter um corpo livre, um corpo com a possibilidade de ser beijado, chupado, lambido, comido, esfregado, mordido – entre outras boas coisas que só se pode fazer com o corpo.

o que vou fazer
quando não restar sequer
as paredes de te me esfregar?

2. A emoção de saber e sentir a emoção de ter no sangue, nas linhas do rosto, nos cabelos, nos dentes, no jeito de comer, falar, transar, amar, lutar, dormir, cantar. Traços genéticos de povos das Américas pré-colombiana, do mesmo modo, traços genéticos de povos da África.

Umas horas y listo
quedas para o alto
um rio para nasciso

uns lugares sem olhos y
me exorbita toda sangre
– – até pura água negra

fios brancos encarnados esparramados
pela casaoca – y canta a casaoca óóca
o coyote ri! É um selvagem y uiva y ri

3. A emoção de que toda vida humana é explosão, imponência, força e possibilidade, incluindo nossa própria.

é préciso cuidar bem do coração
te mando um salve enquanto
os manos incendeiam uma viatura aqui na rua
– é preciso politizar a ferida
com a mão inteira acariñar a chispa
que arde fundo cá dentro. dá-me tua mão
– é preciso cuidar bem do coração

Sabendo disso, podemos avançar nas entranhas desse livro. A Nina Rizzi, assim como sua xará, Nina Simone, sente o jazz do ritmo e do som de suas palavras – de modo que recomendo a leitura em voz alta desse livro.

Nina Rizzi

Durante esse percurso você vai se deparar com a utilização da palavra poema no gênero feminino, “A poema”, “da poema”, “na poema”. O motivo, eu diviso, mas não tenho certeza, por isso prefiro deixar com vocês essa resposta, quando vocês terminarem a leitura do mesmo.

Nina, a poeta

Esse livro vai funcionar melhor para as pessoas partidas. Sim, aquelas pessoas saudosas de amores, pessoas perdidas no meio da cidade grande, cheia de polícia, violência, mas também cheia de poesia e possibilidades de prazeres.

Sendo uma pessoa partida, esse livro, cheio de dicções, cheio de diferentes formas e idiomas no uso da linguagem, é ainda mais compreensível. Após a leitura de Quando vieres ver um banzo com de fogo, é possível perceber: para compreender um livro de poemas precisamos apenas de um corpo e de um coração (sejam eles naturais ou artificiais).

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Para adquirir o livro – essa pergunta pode surgir após você jogar no google e não achá-lo nas livrarias – você pode entrar na página da escritora Nina Rizzi na loja virtual da Editora Patuá, que publicou Quando vieres ver um banzo cor de fogo. Veja aqui!

**Talles Azigon é poeta, editor e produtor cultura. Já publicou os livros Três Golpes D’Água e MarOriginal. Gosta de assistir Hora da Aventura, de passear na Floresta do Curió e do banho na Sabiaguaba. À procura da poesia é uma coluna semanal com comentários e indicações de livros, autores e poemas. Leia mais poetas.

Isabel Costa

Sobre Isabel Costa

Repórter do Vida&Arte, eterna estudante de Letras da UFC, especialista em Semiótica e Literatura pela Uece. É apaixonada por literatura brasileira, novos autores, publicações artesanais e cultura pop. Abriu o blog para compartilhar leituras e afetos. Para falar comigo: leiturasdabel@gmail.com

2 thoughts on “Coluna À procura da poesia: Quando vieres ver um banzo cor de fogo, da poeta Nina Rizzi

  1. Poesião > poesia de paixão e tesão. É ler e parar e olhar para os lados procurando um alguém que também nos provoque essas delícias luxurientas; é carne latejando por sob poros abertos ao sentir – um mergulho todo entregue à paixão – pelo outro, pela vida, pelo se sentir, pelo se saber, pelos pelos (como quis dizer Ana C.).
    Livro que recomendaria a quem deseja e tem a audácia de abrir uma lacuna coração para o que der e parir existir.
    Sensações: convite a se (re)descobrir ser sensual e consensual.
    Sibilantes sonoridades simulando sensibilidades sutis.
    LASCÍVIA. Delícia de te deixar banzo de querências.

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