Coluna Artesã das Palavras: O desafio de criar um personagem complexo

Ilustração: Jéssica Gabrielle Lima

Por Vanessa Passos *

Não existem regras absolutas sobre como construir uma boa história. No entanto, se observarmos atentamente, a grande maioria das histórias que pertencem ao cânone e que tiveram uma boa aceitação dos leitores, possuem um personagem bem construído. 

O protagonista é quem carrega o público através da história. É relevante que seja construída uma conexão entre o ser ficcional e o ser real. Para isso, é necessário gerar empatia por seu protagonista.

Empatia é a capacidade de ver e compreender a realidade através dos olhos de outra pessoa, de se colocar no lugar do outro. É isso que almejamos como escritores. Primeiramente, necessitamos de uma empatia com nossos próprios personagens. Só assim seremos capazes de criar a conexão com o público, quando nós mesmos somos capazes de estabelecer esse elo. É muito comum que um personagem mal desenvolvido gere apenas simpatia.

Simpatia é o sentimento de apreço e admiração pelo outro. Uma pré-disposição de querer agradar e estar com o outro. Traduzindo para o roteiro, é como se interessar por um personagem, mas não compartilhar da mesma visão que ele em suas ações. Para evitar que seu personagem gere apenas simpatia, é necessário criar um personagem complexo, com conflitos internos universais. Isto quer dizer que, qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo ou de uma sociedade específica, é capaz de se identificar com o que se passa dentro do personagem mesmo que nunca tenha vivenciado as mesmas circunstâncias. O sentimento é tão verdadeiro e tão inerente a raça humana que se torna impossível não se conectar com o protagonista.

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 No romance O filho eterno (2007), de Cristóvão Tezza, o pai, um dos protagonistas da narrativa, rejeita o filho pela fato de ele ter síndrome de down. Sabemos que, apesar de ele viver com a mulher e com o filho, a rejeição é um fato na história. Ele, inclusive, chega a ficar feliz ao saber que crianças com a doença têm uma baixa expectativa de vida. De início, ficamos espantados com tamanha crueldade. Mas, pouco a pouco, à medida que vamos entrando no universo narrativo, começamos a entender o drama que o personagem vive e a compreender, nestas circunstâncias, como ele pensa e se sente.

Em Cabeça do santo (2013), de Socorro Acioli, o protagonista Samuel tem ódio do pai Manoel. Após a morte da mãe, Samuel parte em busca dele devido à promessa que fez à mãe Mariinha. Ele sente ódio do pai. Nunca o conheceu, ele abandonou a mãe ainda grávida, além disso, ouviu falar que a mãe morreu por causa de doença de homem, que ele imagina ter sido causada pelo pai. Samuel parte em busca do pai com o desejo de matá-lo. Suas vontades são aceitáveis e muito embora nenhum de nós venhamos a ter instinto assassino, compreendemos perfeitamente sua condição e o que ele está sentindo.

Conheça o personagem

Citamos apenas dois exemplos de personagens que possuem características efetivamente humanas, são pessoas com qualidades e defeitos, talentos e fraquezas que permitem os leitores terem empatia pelo personagem, e conseguirem se colocar no lugar deles. Segundo Tzvetan Todorov, a literatura é a arte que possibilita o ser humano a capacidade de outridade, ou seja, colocar-se no lugar do outro, entender suas circunstâncias e seus motivos. Nisso consiste também a beleza da literatura.

Quem tiver curiosidade de conhecer a obra de Tzvetan Todorov que mencionei no texto, intitula-se: Literatura em perigo.

*Vanessa Passos é escritora, professora de Língua Portuguesa, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLetras-UFC) e pesquisadora do Grupo de Pesquisa – Espaços de Leituras: Cânones e Bibliotecas. Gosta de viajar, de ler histórias para a filha, de visitar bibliotecas e de criar coreografias. Ela assina, semanalmente, a coluna Artesã das Palavras no blog Leituras da Bel.

Isabel Costa

Sobre Isabel Costa

Repórter do Vida&Arte, eterna estudante de Letras da UFC, especialista em Semiótica e Literatura pela Uece. É apaixonada por literatura brasileira, novos autores, publicações artesanais e cultura pop. Abriu o blog para compartilhar leituras e afetos. Para falar comigo: leiturasdabel@gmail.com

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