Coluna Artesã das Palavras: Carpintaria das palavras

Ilustração: Jéssica Gabrielle Lima

Por Vanessa Passos*

Em 2016 durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), conduzida pelo meu fascínio por artesanato, comprei uma escultura de madeira. É uma pequena estatueta em forma de onça. Sempre que passo os dedos por sua superfície, pergunto-me quanto tempo durou para a produção do objeto, e mesmo que o tempo tenha sido curto pela prática advinda dos anos de treino e repetição, não se pode negar o trabalho técnico de feitura da estátua.

Selecionar um pequeno pedaço de madeira, desenhar o traço do objeto, cortar a madeira no formato do animal, lixar até que cada parte ganhe forma (orelhas, cabeça, focinho, patas, corpo e rabo), perfurar, com instrumento pontiagudo, os traços do pelo, olhos, bigode e unhas do animal, depois, pintar com pigmento preto, tudo isso requer muito trabalho de carpintaria.

Pensemos em outra atividade artística: a dança. A beleza que nos deparamos ao assistir a uma bailarina no palco, a leveza dos rodopios, a precisão dos saltos, a graça no movimento das mãos são algumas das ações que requerem horas de treino intenso. Recordo-me de minhas aulas de ballet. Antes de uma apresentação, ensaiávamos durante seis horas seguidas a mesma coreografia. Voltávamos a cada sutil movimento para “limpar a dança”, como culturalmente chamamos o ato de revisão de movimentos, ou seja, a ação de adequação de movimentos para uma melhor forma, que estão sendo executados de maneira inadequada aos padrões da dança clássica.

Não questionamos as horas de trabalho do artesão ou artesã, ou ainda, do bailarino ou bailarina. Não obstante, partindo de uma tradição forte em relação ao ato de escrever, na antiguidade, a escrita considerou como padrão estabelecido a invocação das musas no período de Homero, Hesíodo e Píndaro. Neste caso, o poeta era considerado um mero canal para o registro do texto literário em pleno estado de passividade, tendo de esperar pela ação das musas.

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Ainda hoje, cultiva-se uma ideia a respeito da escrita ligada à noção de passividade. É justo onde entra a questão da inspiração. Neste processo, o poeta não pode ser considerado como um artesão e artífice. O poeta passa a escrever apenas em estado de possessão. Este viés romântico e narcisista elegeu o poeta a uma figura quase sobre-humana. Será mesmo? Será a escrita a única arte dentre tantas, como: o artesanato e a dança (já citados), a música, o teatro, que não necessita de treino ou trabalho técnico?

As palavras

O escritor mineiro Autran Dourado vê a escrita como um ofício. Segundo ele, o poeta deve ser visto “[…] como mestre e senhor do seu instrumento (técnica, como diríamos hoje).” Acredito que o autor se refere ao vocábulo poeta no sentido amplo, equivalente a escritor. Portanto, crer nesta noção é também humanizar a figura de quem escreve, de modo que prepondera uma mudança de uma postura passiva para ativa. O escritor não é uma figura escolhida pelos deuses ou pelas musas, nem muito menos fica receptivo à espera de uma força mágica chamada inspiração para poder escrever, ele (com vontade ou sem vontade, com ideias ou sem ideias) trabalha diariamente com as palavras – sua matéria de carpintaria.

Quem tiver curiosidade de conhecer a obra de Autran Dourado que mencionei no texto, intitula-se: Uma poética de romance: matéria de carpintaria.

*Vanessa Passos é escritora, professora de Língua Portuguesa e mestranda da Universidade Federal do Ceará (UFC). Gosta de viajar, de ler histórias para a filha, de visitar bibliotecas e de criar coreografias. Ela assina, semanalmente, a coluna Artesã das Palavras no blog Leituras da Bel.

Isabel Costa

Sobre Isabel Costa

Repórter do Vida&Arte, eterna estudante de Letras da UFC, especialista em Semiótica e Literatura pela Uece. É apaixonada por literatura brasileira, novos autores, publicações artesanais e cultura pop. Abriu o blog para compartilhar leituras e afetos. Para falar comigo: leiturasdabel@gmail.com

3 thoughts on “Coluna Artesã das Palavras: Carpintaria das palavras

  1. “Sou uma artesã, não uma intelectual”, disse Lygia Bojunga. A escritora está certa na em que, apesar de trabalhar com ideias, o escritor trabalha sobretudo com a criação de imagens (das mais realistas às mais delirantes). Ficou muito lindo o texto, amor, e verdadeiro.

  2. “Sou uma artesã, não uma intelectual”, disse Lygia Bojunga. A escritora está certa na medida em que, apesar de trabalhar com ideias, o escritor trabalha sobretudo com a criação de imagens (das mais realistas às mais delirantes). Ficou muito lindo o texto, amor, e verdadeiro.

  3. Muito boa essa abordagem da escritora Vanessa Passos quando equaciona as artes manuais (criação de objetos de arte), de movimento (representações teatrais ou danças) e de estruturação de ideias pelas palavras (poesia ou outras criações literárias), como sendo necessário a seu desenvolvimento, um exercício de criação que vem do ser, requerendo entretanto uma elaboração que envolve conhecimento, técnica e importante componente emocional ou de simples sensibilidade pessoal ou, quem sabe, coletiva. Parabéns pela clareza e elegância do seu texto. Entendi que escrever bem é uma arte que deve ser bem burilada. Márcia Alcântara

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