Coluna À procura da poesia: No tempo dividido e outros mares de Sophia

Sophia de Mello Breyner

Por Talles Azigon*

“Meu desejo é o rastro que ficou das aves”
Sophia de Mello Breyner Andersen

Em 2006, Maria Bethânia oferece ao mundo uma obra dupla, composta por Mar de Sohpia e Pirata. A mesma cantora, declaradamente fã de Sophia de Mello Breyner, que tantas vezes cantou o Mar da Bahia utilizando os versos da poeta exaltadora do mar de Portugal, já era uma das maiores divulgadoras da obra poética de Mello Breyner no Brasil.

Graças a Bethânia, eu e tantas outras gentes tivemos interesse e acesso a uma obra tão profunda quanto os setes mares reunidos, a obra de Sophia.

A minha indicação de leitura parte do livro No Tempo Dividido, republicado em 2013 pela editora portuguesa Assírio & Alvim. Porém, infelizmente, como não temos um grande mercado de poesia em nosso País, não vamos ter o prazer de ler as obras de Sophia em publicações individuais, como nas edições belíssimas da Assírio & Alvim. Mas é possível encontrar, em algumas livrarias brasileiras, obras importadas de Sophia, como a Antologia MAR, da Editora Portuguesa Caminho.

Leia a poesia:

O POETA

O poeta é igual ao jardim das estátuas
Ao perfume do Verão que se perde no vento
Veio sem que os outros nunca o vissem
E a suas palavras devoraram o tempo

Para ler os poemas desse – ou de qualquer livro da poetas e poetisas portuguesas – é preciso diminuir um pouco o ritmo de cidade tão entranhado na gente. E permitir-se um pouco adentrar um outro movimento mais cadenciado, um movimento de onda.

Mar, vento, e chuva são, sobretudo, os ingredientes principais dos poemas de Sophia. Os elementos em si, todos eles, de modo a ter, as palavras, textura de pedra, textura de água, textura de ar, textura de fogo. Neles, como tantas vezes tenho repetido aqui nessa coluna, o principal sentido do poema não é significar, mas é rebentar. Do mesmo modo que rebenta as ondas nas pedras.

Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

As distâncias, os silêncios. A quanto tempo você, leitora ou leitor, não para e se debruça diante dos mistérios magníficos da existência sólida? Talvez, caso você já leia poetas e poetisas nossas – tais como Cecília Meireles ou Manoel de Barros – você já tenha esse costume de ter contato com uma palavra engajada que mostra as composições da natureza. Contudo, não se engane, temos mais a ver com pedra, mar, árvore e bicho do que imaginamos. Mesmo, tantas vezes estando tão longe, e nos deparando apenas com fumaça, carros e muito asfalto.

No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente.

Tudo resvala sensação ao ler Sophia de Mello Breyner. Um convite para diminuir significâncias e, para quem tem o prazer/privilégio, sentar-se à beira dágua e deixar simplesmente as palavras escorrerem pelos dedos.

TARDE

O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória a luz o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Sophia de Mello Breyner

PS: Um outra excelente dica para quem ficou com vontade de conhecer mais a Sophia, a Biblioteca Nacional de Portugal fez um site imenso, cheio de poemas, fotografias e informações sobre a poeta, inclusive é possível ver a mesma recitando seus versos.

**Talles Azigon é poeta, editor e produtor cultura. Já publicou os livros Três Golpes D’Água e MarOriginal. Gosta de assistir Hora da Aventura, de passear na Floresta do Curió e do banho na Sabiaguaba. À procura da poesia é uma coluna semanal com comentários e indicações de livros, autores e poemas. Leia mais poetas.

 

Isabel Costa

Sobre Isabel Costa

Repórter do Vida&Arte, eterna estudante de Letras da UFC, especialista em Semiótica e Literatura pela Uece. É apaixonada por literatura brasileira, novos autores, publicações artesanais e cultura pop. Abriu o blog para compartilhar leituras e afetos. Para falar comigo: leiturasdabel@gmail.com

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