Cartas as poetas do nosso tempo: Bárbara Costa Ribeiro

Bárbara!

Por Nina Rizzi*

quem tem medo da mulheralegria?

bárbara, clichê: és bárbara. mesmo quando leio uma legenda numa foto “melancolia nos trópicos”, não vejo senão uma melancolia bonita, um chiste: és a mulheralegria.

gostava de te escrever uma carta tão bonita quanto a sua presença. fotografias rodeadas das gentes mais alegres, porque é assim o mundo à sua volta.

barbarella, sonhei que te ouvia e te escrevo.

tive um sonho, sim: sonhei com a palavra que a faz mulher: mulheraurora, mulhertempestade, mulheralegria.

sim, eu tive um sonho: e no sonho eu caminhava por tuas palavras –

teus olhos, teus lábios, tuas roupas listradas, por teu joelho meio escondido sob a saia, por tuas memórias, por tuas poemas.

Bárbara

sim, gostava de percorrer teus suores, teus odores, teus desejos febris de poesia. umidadepoesia.

(:

eu tive um sonho, sim – e no sonho eu caminhava sobre a poesia. você me disse: ‘la poesia eres tú’. de repente, percebo que o sonho está aqui: na leitura silenciosa de suas palavras escritas em letrinhas pequeninas, na sua voz de boneca russa que é a boneca mais singela e alegre.

percebo que teu peito não é inatingível. que o amor não é inatingível. e que as fotos que ainda enviarás para mim e para o mundo que ainda pode ver a beleza não serão dias inatingíveis.

e fico a imaginar a vida docemente nua docemente desvairada de alegria. não sem ser a nudez misteriosa.

sei, sei: sempre a verei de perto. na memória capaz de viajar por mundos ancestrais. na memória que lambe a umidade pulsante da alegria contagiante.

o sonho é lindo, delirante. com um sorriso doce, bastante doce. como quando se lambe uma jardim de calêndulas.

tocarei o sonho todos os dias, ao te ler e mais que memoriar: viver a vidalegria com a sensação incrível de “poeticidade amorosa”. E mesmo nos dias tristes, tem razão, haverá ainda:

alegria

nem tudo estará perdido

haverá ainda fogos de artifício

anunciação

 

nem tudo será pão com presunto e margarina

embora isso também, à sua maneira, seja tão bom

 

haverá ainda

umas novidades

passeios

banhos de mar

recompensas

honrarias

 

haverá

refrigerante

teu bolo preferido

alguém que mate a barata

um abraço tranquilo, inesperado

 

haverá ainda o impossível possível

tartarugas mínimas

um suspiro na noite

um sussurro

uma beleza sufocante e toda tua

uma beleza inusitada

 

não será para sempre este mar de angústia premente

de incerta paisagem

neblina rasgante

 

haverá um cheiro bom de tempero

de fritura

ranhura amável na janela

no vidro de uma casa que range bem

e aconchega

 

haverá violetinhas no parapeito

ninguém varrerá as buganvílias que caírem no chão

nem a purpurina intoxicante dos jambeiros

nem o ipê amarelo

nem as folhas secas solenes

 

estarão todas na convenção da tarde quente

te assistindo a envelhecer, sorrindo

será macio o dia

como o cheiro de roupa limpa nos lençóis

 

haverá café

haverá fumaça de castanhas tostadas

debaixo do pé mais alto de cajueiro

haverá risos de crianças

e sonhos que passam sobre o telhado da casa

nas asas de um casal perdido e ímpar de araras azuis

fugidas

sabe-se lá de que gaiola

e agora ziguezagueando fora, livres

pela mata da tua casa

 

e terás ao lado de ti

alguém para quem

preparar um banho

com água quente

quentinha

esquentada em fogão

e umas folhinhas cheirosas

que fossem talvez

alecrim

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[Bárbara Costa Ribeiro nasceu em 1994, fazia um tanto de sol, a cidade era Macapá. Na infância, gostava de ler, sentia falta de mar. Mudou-se então para Fortaleza, onde cursou Letras e vive hoje. Publicou recentemente Arara Azul, zine de poemas e memórias pelo coletivo A Literação/ UFC, além de outros poemas e contos por aí, inclusive em guardanapos que se perderam na bagunça. Pesquisa Literatura e sua cor favorita é o listrado. Também tira umas fotos incríveis, saídas de um outro tempespaço, talvez de filmes do Tarkóvsky.]

*Nina Rizzi é escritora, tradutora e poeta. Tem textos publicados em revistas, jornais, suplementos e antologias. É também integrante do grupo Leituras Públicas. Gosta de saraus, de periferia, do Centro de Fortaleza e de eventos literários. Ela escreve mensalmente no blog Leituras da Bel sobre mulher e poesia.

**As iniciais minúsculas predominantes ao longo do texto são uma opção da colunista Nina Rizzi.

Isabel Costa

Sobre Isabel Costa

Repórter do Vida&Arte, eterna estudante de Letras da UFC, especialista em Semiótica e Literatura pela Uece. É apaixonada por literatura brasileira, novos autores, publicações artesanais e cultura pop. Abriu o blog para compartilhar leituras e afetos. Para falar comigo: leiturasdabel@gmail.com

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