“Todo mundo comenta, né? É uma mulher no comando”

Essas são palavras de Flávia Pazzini, única treinadora da Liga OURO de Futsal do Intercolegial 2016.

Flavia Pazzini comanda a equipe masculina de futsal do Jenny Gomes há 16 anos.
Flávia Pazzini comanda a equipe masculina de futsal do Jenny Gomes há 16 anos.

Professora de educação física e funcionária pública, Flávia é apontada como uma das melhores treinadoras de futsal do Ceará. Natural de São Paulo, capital, e em meio aos seus 55 anos, acumula títulos na modalidade e dedica sua vida ao esporte. Atualmente, ela comanda os treinos da equipe masculina do colégio Jenny Gomes.

A equipe do Intercolegial O POVO foi atrás da Flávia e produziu uma entrevista exclusiva com essa treinadora que consegue provar que o lugar da mulher é também dentro de quadra. Ficou curioso? Leia a nossa entrevista abaixo.

ENTREVISTA

CEARÁ COLEGIAL: Como foi o seu início no futebol de salão?

FLÁVIA PAZZINI: Eu comecei no futebol de salão, porque o meu ex-marido, o Pança, foi jogador de futebol de salão. Ele foi bicampeão mundial e defendeu a Seleção Brasileira por 12 anos, ou seja, estou em contato com o esporte a minha vida inteira, acho que já vai fazer uns 30 anos que estou nisso. O meu filho foi campeão cearense também, jogou com Vinicius, Salmito, então é um esporte que eu me identifico muito e desde que me conheço por gente que eu vivencio o futebol de salão e o futsal.

CEARÁ COLEGIAL: Como é a sua relação com os atletas do Jenny Gomes?

FLÁVIA PAZZINI: Eu tenho um carinho muito grande pelos meninos, além de gostar muito dessa parte de quadra e esporte. De repente você pode tirar um menino e desviar ele de um caminho ruim através do esporte. As pessoas brincam muito comigo dizendo que sou uma mãezona, porque sou técnica, mãe, professora, de tudo um pouco. Me identifico muito com eles e sei da reciprocidade, da necessidade deles de ter isso também na vida.

CEARÁ COLEGIAL: Qual a sua parcela de responsabilidade nas vitórias do Jenny Gomes? 

FLÁVIA PAZZINI: Nós fomos o único colégio estadual que ganhou títulos. Isso foi graças ao esforço deles, pois não temos muito estrutura na escola e o fato de treinarmos só 1 ou 2 vezes na semana atrapalha. Por conta disso tudo, sempre entrego a vitória pra eles. Sei que tem a minha parte, mas 80% foi pela vontade e gana que os meus jogadores possuem.

CEARÁ COLEGIAL: Qual a importância do Intercolegial para a sua escola?

FLÁVIA PAZZINI: Bom, é só você ver o Samuel. A chance que ele teve de vivenciar outro país, conhecer novas pessoas e guardar aquilo para o resto da vida dele foi devido o Intercolegial. Eu já participei de vários campeonatos que tiveram aqui no Estado e o Intercolegial é um torneio que, além da estrutura, é muito organizado. A maior importância do campeonato é porque eles (jogadores) estão participando mais. Por exemplo, em outras competições eles jogavam 4 vezes ao ano e aqui eles têm a possibilidade de participar e jogar o ano inteiro e isso é uma motivação muito grande pra eles. Não é um campeonato de 1 mês, e sim de 7, 8 meses e isso faz com que eles continuem treinando, permanecendo dentro do esporte, que é o objetivo da gente. Assim, podemos afastar eles das coisas ruins que a vida proporciona, principalmente, para os alunos do Estado.

CEARÁ COLEGIAL: Você se acha um exemplo por ser a única mulher que está à frente de um grupo de homens na Liga OURO de Futsal do Intercolegial?

FLÁVIA PAZZINI: Todo mundo comenta, né? É uma mulher no comando. Os árbitros já me conhecem, porque eu sempre ia nos jogos de futebol de salão com o Pança. Eu até brinco aqui, porque no ano retrasado eu ganhei um dos destaques e eram 8 prêmios, e eu ganhei no futebol de salão, mesmo sendo uma mulher e isso tira aquele paradigma de que a mulher não entende de salão ou de campo e que esses esportes são somente de homens. Mas assim, os árbitros e demais professores sempre me respeitaram muito aqui e acho que sou tratado de igual pra igual com eles e isso é legal, porque a mulher tem que mostrar que também tem condição de tá no esporte, mesmo que digam que isso é só pro público masculino.

Em 2013, a professora foi homenageada pela Ceará Colegial por ser uma das destaques do Intercolegial O POVO.
Em 2013, a professora foi homenageada pela Ceará Colegial por ser uma das destaques do Intercolegial O POVO.

CEARÁ COLEGIAL: Você acha importante que outras mulheres possam ocupar esse espaço no esporte? 

FLÁVIA PAZZINI: Acho muito importante que outras professoras também entrem e participem do Intercolegial, porque imagina quantas professoras não tem as mesmas condições que eu e poderiam está realizando o mesmo trabalho em outros colégios, podendo ajudar os seus alunos. Só que as vezes, elas não fazem por se intimidarem por conta da sociedade mesmo. Tem muito colégio estadual que só tem mulher e, praticamente, só uns dois homens, então precisamos nos unir e ter iniciativa de começar a trabalhar o esporte nessas escolas, porque podemos está perdendo talento nesse espaço.   

Samuel, 17, foi revelado na escola Jenny Gomes, pela treinador Flávia Pazzini. Em 2016, ele defendeu o Brasil no Mundial de Futebol de Salão AMF C17, no Paraguai.
Samuel, 17, foi revelado na escola Jenny Gomes, pela treinador Flávia Pazzini. Em 2016, ele defendeu o Brasil no Mundial de Futebol de Salão AMF C17, no Paraguai.
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