Posturas de Fortaleza e Ceará fortalecem ameaças aos elencos e enfraquecem marcas

Muito mais grave do que os trabalhos ruins que Ceará e Fortaleza têm feito neste início de 2017 são as manifestações violentas de alguns torcedores e as reações desproporcionais dos clubes. Além de terem muito em comum, tricolor e alvinegro reforçam nesta sucessão de protestos ameaçadores contra comissões técnicas, elencos e os próprios dirigentes, a chamada “passada de pano”.

Os clubes não tomam qualquer atitude prática para tentar coibir as ações. No máximo, quando muito, notas oficias que não dizem absolutamente nada e se tornam constrangedoras, até porque elaboradas por quem não é do ramo. Em diversos casos fazem justamente o oposto, ao se mostrarem compreensivos diante de atitudes lamentáveis, como muros pichados, invasão de treinos, ameaças gravíssimas a treinadores e a jogadores.

Nesta semana, o presidente do Fortaleza, Jorge Mota, afirmou que a invasão (mais uma entre tantas) de torcedores ao Pici pulando o muro para “conversar” com os atletas foi civilizada. Ou seja, para ele, está tudo bem. Não há dúvida que Jorge defende um modelo de civilização da qual eu discordo frontalmente. Os jogadores e membros da comissão também discordam, porque deixaram claro para jornalistas, pedindo para não serem identificados, medo que estão sentindo, por eles e pelas famílias. Entretanto, também não têm os atletas coragem de tomar atitude. O Fortaleza também se omitiu em relação aos torcedores que ameaçaram o jogador Jefferson no estacionamento do Castelão, na saída da partida contra o Altos, empate por 1 a 1. Nenhuma palavra de apoio público ao seu atleta sob contrato, nada.

No Ceará, a demissão de Dal Pozzo momentos depois de ser gravemente ameaçado por torcedores no Aeroporto Pinto Martins é emblemática. Apenas depois da péssima repercussão nacional, com receio, o clube resolveu cunhar uma nota oficial protocolar. Apoio ao profissional e aos jogadores ficou distante. Apenas em entrevista coletiva posterior o presidente Robinson de Castro admitiu que parte do elenco repensou sua situação no clube depois do ocorrido. Ficaram com medo.

Neste cenário lamentável os clubes, e também a omissa Federação Cearense de Futebol, colaboram como atores principais para que as ameaças sigam perenes. Fechar os portões de vez, providenciar seguranças, serem contundentes nas manifestações, buscarem estratégias outras de proteção aos seus empregados, relatarem para a polícia o que sabem dos responsáveis para que processos judiciais cabíveis sejam abertos são atitudes que não passam pela cabeça de ninguém.

Na mesma proporção, as marcas Fortaleza e Ceará vão se desvalorizando, se já não bastassem os resultados ruins em campo. Jogadores certamente vão pensar duas vezes antes de assinar contrato com instituições que não agem para protegê-los. Patrocinadores também não ficam ausentes do processo e não vão querer emprestar seu nome a um ambiente com tanto potencial explosivo. Torcedores de bem deixam de ir aos jogos, de acompanhar o time. As rendas despencam e os programas de sócio diminuem.

É a equação perfeita para a decadência de um futebol que teima em não se profissionalizar e crescer.

Fernando Graziani

Sobre Fernando Graziani

Fernando Graziani é jornalista. Já cobriu duas Copas do Mundo, Copa das Confederações, duas Olimpíadas e mais centenas de campeonatos. No Blog, privilegia análise do futebol cearense e nordestino.

11 thoughts on “Posturas de Fortaleza e Ceará fortalecem ameaças aos elencos e enfraquecem marcas

  1. Torcida organizada é problema policial, são organizados para vender drogas, é uma unanimidade em todo o brasil, os grupos de traficantes já estão infiltrados nas torcidas organizadas faz tempo, a policia e MP fecha os olhos….

    Acho um problema generalizar, porque há torcedores organizados que são tranquilos e trabalham por um futebol mais bacana e não organizados que cometem crimes.
    FG

  2. Isso é um problema da maioria dos clubes nacionais, pois existem facções criminosas infiltradas em torcidas organizadas, dirigentes em conluio com esses “torcedores”, muitos dos quais se tornam até dirigentes do próprio clube, falta de punição por parte das autoridades, etc.

    E não estamos falando de grandes marcas de clubes no futebol do país. Essas marcas (Fortaleza e Ceará) são fracas no âmbito nacional, sem conquistas relevantes e nenhuma representatividade no cenário sul americano. O que ainda faz esses clubes sobreviverem são a força da torcida (de bem).

    Em suma: são clubes pequenos de grandes torcidas.

  3. Graziani como sempre cirúrgico. Perfeita a análise da situação.

    Infelizmente nosso futebol local já faz tempo vem sentindo o enfraquecimento, sendo que os dirigentes fazem-se de cegos e/ou surdos. Incompetência a gente até entende, sempre digo na empresa que uma pessoa não tem culpa de ser incompetente para alguma função, porém ela deve ter o discernimento para reconhecer isso e tentar buscar uma mudança ou solução.

    O caso do Del Pozzo foi ridículo. A falta de um apoio por parte do clube foi de certa forma irresponsável. No mínimo algum dirigente vir a Tv ou Rádio e Jornais repudiar. Já do outro lado (colorido), os caras “pulam” o muro e tem uma conversa pacífica. Rapaz, toda conversa é pacífica até o 1o palavrão e tenho minhas dúvidas se não saiu algum.

    Bom….segue nossa sina de torcedor do futebol local. Times de baixa qualidade, estádios vazios e provavelmente mais um ano em que a “alegria” vai ser um lado torcer pela “desgraça” do outro.

    Saudações Alvinegras

  4. PODE FAZER UMA COMPARAÇÃO , DESDE QUANDO AS ORGANIZADAS GANHARAM FORÇA QUE A MÉDIA DE PÚBLICO CAIU NO NOSSO FUTEBOL..ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS ESTÃO DENTRO DESSAS ORGANIZADAS E NADA SE PODE FAZER POIS FALTA LEI NESSE PAÍS , NOS RESTA ASSISTIR PELA TV POIS AMO MINHA FAMÍLIA E SE EU ME FOR PELO MENOS PRA ELES FAREI FALTA.

  5. Perfeitas colocações, Graziani! Ultimamente eu tenho visto as notícias sobre violência nos estádios (por parte de torcidas, jogadores etc) tanto quanto as notícias sobre os resultados dos jogos. Permita-me concluir com a sua frase: “é a equação perfeita para a decadência de um futebol que teima em não se profissionalizar e crescer.”. Muito preciso.

  6. Muito mais grave ainda, o fato dos dois presidentes dos times de segunda e terceira, já serem experientes o bastante, para tanta lambança na formação de elencos medíocres e resultados tão pífios…

  7. Sou torcedor do Ceará. O que vi nos grupos do clube em redes sociais foi silêncio da maioria dos torcedores. Um espécie de corporativismo burro diante desta violência simbólica que pode vir a se tornar presencial. Um torcedor me chamou de burro porque mencionei a má repercussão da atitude dos torcedores com relação a Dal Pozzo. Segundo ele “vergonhoso era o que time andava fazendo”. Cada vez mais acho utópico o desejo de acabar com a violência que envolve o futebol. Todos os que ficam em cima do muro reproduzem indiretamente o que os hooligans propagam.

  8. Não gosto de tá discutindo “bastidores”, mas nesse caso, o termo POSTURA vou encarar como POSTURA DE JOGO e meter meu bedelho nessa conversa em alguns pontos do POST.

    1. “Posturas de Fortaleza e Ceará fortalecem ameaças aos elencos e enfraquecem marcas.”

    – Marcas estas que nos últimos DOIS ANOS aumentaram mais ainda(Eles LÁ quase caindo e LEÃO DE AÇO batendo mais uma vez na trave).

    2. “Além de terem muito em comum, tricolor e alvinegro reforçam nesta sucessão de protestos ameaçadores contra comissões técnicas, elencos e os próprios dirigentes, a chamada “passada de pano”. Os clubes não tomam qualquer atitude prática para tentar coibir as ações.”

    – CASO pra “imprensa” explorar mais insistentemente e a POLÍCIA cumprir o seu papel.

    3. “torcedores ao Pici pulando o muro para “conversar” com os atletas foi civilizada.”

    – Só na cabeça de quem tá admitindo uma CARAPUÇA diz que “pular muro” é civilizado.

    4. “clubes, e também a omissa Federação Cearense de Futebol, colaboram como atores principais para que as ameaças sigam perenes.”

    – cada qual com o seu cada qual, e nenhuma das partes sabem como encarar de frente a situação. Se por medo ou omissão, isso só fortalece cada vez mais o quão são omisso e frouxos nossos dirigentes.

    5. “relatarem para a polícia o que sabem dos responsáveis para que processos judiciais cabíveis sejam abertos são atitudes que não passam pela cabeça de ninguém.”

    – E juntarem IMAGENS DE CÂMERAS como provas deve ser a primeira providência a ser tomada. Imagens A CORES nas Tv’s tão ai pra quem quiser ver, e só não enxergam se estiverem cegos de bengala.

    6. “Na mesma proporção, as marcas Fortaleza e Ceará vão se desvalorizando, se já não bastassem os resultados ruins em campo. Torcedores de bem deixam de ir aos jogos, de acompanhar o time. As rendas despencam e os programas de sócio diminuem. É a equação perfeita para a decadência de um futebol que teima em não se profissionalizar e crescer.”

    – Precisa mais que essa observação pra ILUSTRAR o nosso maravilhoso FUTEBOL local. Isso por si só FECHA A CONTA E PASSA A RÉGUA no assunto. Discutir isso, vai ser mais uma LENGA LENGA sem futuro pois quem pode fazer algo TÁ NEM AÍ.

    Posso falar por mim: A CONTINUAR ASSIM, VAI CHEGAR UMA HORA QUE VOU DESISTIR DE IR PRAS ARQUIBANCADAS E FECHO MEU SÓCIO TORCEDOR DE VEZ. POSSO ATÉ NÃO FAZER FALTA LÁ. MAS COMPUTAR O VALOR DO INGRESSO E MULTIPLICÁ-LO PELO NÚMERO DE JOGOS DO LEÃO DE AÇO, PODE ATÉ NÃO FAZER FALTA… MAS, SE MAIS “UMA RUMA DE GENTE” CISMAR DE FAZER A MESMA COISA, AÍ EU QUERO VER.

  9. Concordo,

    Acho que o torcedor tem todo o direito de protestar, desde que de forma pacífica, e na arquibancada, de minha preferência depois do jogo, pois a vaia, durante, só ajuda o adversário.
    Não dá pra entender a conivência das diretorias com a violência.Pois não é normal invadir treino e falar com elenco, embora seja usual aqui no país.
    Enfim…

  10. Torcida organizada deixou de ser problema desportivo e passou a ser assunto de policia. Duvido que um torcedor de verdade disponha de seu tempo e disposição para sair de seu trabalho em pleno horário de expediente e invadir propriedade privada para fazer ameaças a trabalhadores.

    Violação de domicilio é crime tipificado no código penal, ameaça também. As ditas organizadas podem ser enquadradas nos termos da lei de organização criminosa para responsabilização de seus membros.

    Como se vê, o que não falta são mecanismos legais para enfrentar esse tipo de banditismo recorrente (falar em falta de leis em um país com quase 200 mil leis diferentes é muita desinformação), o que falta é vontade dos envolvidos em levar adiante a persecução penal e responsabilização desses criminosos.

    Porém, quem se omite, também pode ser responsabilizado. Seria bom que nossos dirigentes lembrassem disso.

    Saudações Tricolores.

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