Idosos e os riscos domésticos

 

Foto: Emanuel Amaral

 

Isaac Ribeiro
repórter

Se para a maioria das pessoas o lar é o lugar mais seguro do mundo, para os idosos ele pode representar risco constante. Segundo dados do Sistema Único de Saúde (SUS), cerca de 75% dos acidentes sofridos por pessoas com mais de 65 anos acontecem dentro de casa, sendo as quedas mais constantes. No Brasil, 30% delas caem pelo menos uma vez por ano. Isso sem contar com as queimaduras, cortes com faca de cozinha e intoxicações.  

Cerca de 75% dos acidentes sofridos por pessoas acima dos 65 anos de idade acontecem dentro da própria casa, sendo as quedas mais frequentes, de acordo com dados do Sistema único de Saúde (SUS)

O acidentes com quedas, porém, são os  maiores causadores de óbitos na faixa etária dos 75 anos em diante, representando 70% dos casos. Por isso, as famílias que têm idosos em casa devem redobrar os cuidados, adaptando os cômodos – banheiro e quarto, principalmente – com a  instalação de barras de sustentação, pisos antiderrapantes, rampas, além de evitar móveis com quinas pontiagudas, deslocáveis com facilidade e outros detalhes (veja box na página 3).

Ainda de acordo com dados do SUS, 46% das fraturas provocadas por quedas domésticas acontecem no trajeto quarto-banheiro, principalmente durante a noite.

Se não for dada a devida atenção a esse tipo de problema agora, o que esperar do futuro quando o Brasil deverá ter cerca de 31,8% milhões de habitantes acima dos 60 anos, tornando-se o o 6º país com mais idosos no mundo?

As principais causas de quedas entre idosos são limitações físicas como enfraquecimento de músculos e ossos, problemas de visão e audição, uso e reações de determinados medicamentos, ingestão de bebidas alcoólicas e ainda doenças com osteoporose, artroses, pneumonia, infecções, infarto.

As mulheres sofrem mais fraturas do que os homens, embora eles morram mais com as consequências das quedas, como indica a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

A gaúcha Eloá Fagundes Néri, 91 anos, reside em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos – denominação politicamente correta para o que se convencionou chamar de asilo -, com todas adaptações e cuidados necessários; mas mesmo assim não escapou de um acidente. Ela conta que caiu da cama enquanto dormia, há cerca de um mês, e ainda sente dores no ombro. “Mas aqui é muito seguro, sem dúvida.”

Já Geralda Gurgel de Carvalho, 86 anos vizinha de quarto de Dona Eloá, afirma nunca ter caído, mas  diz ter uma amiga que já caiu e quebrou o fêmur. “Tomo muito cuidado para não cair, embora aqui tenha prevenção completa.”

Famílias com idosos devem providenciar adequação de cômodos

Quem tem idosos em casa deve adaptar ambientes e móveis afim de evitar acidentes, principalmente quedas e tombos. Chega a ser uma questão de sobrevivência para muitos… Além de retirar obstáculos como banquinhas de cabeceira, vaso de plantas e tapetes, é preciso instalar alguns equipamentos e acessórios, como barras de sustentação no banheiro, grades de proteção nas camas, rampas, piso antiderrapante, entre outros (veja box).

Porém, ainda falta uma conscientização maior por parte da maioria das família, na avaliação da assistente social Sônia Tinôco, que coordena e administra o Solar Residencial Geriátrico, pioneiro em Natal na área de hospedagem e cuidado para idosos, com onze anos de funcionamento.

“A família quase nunca se preocupa. Algumas pessoas acham que vão ter sempre cinquenta anos e quando vão comprar um apartamento só pensam na área de lazer para tomar cerveja com amigos”, comenta Sônia.

A situação piora ainda mais para o idoso que mora em apartamento, devido às próprias limitações arquitetônicas. Com os novos modelos de família, cada vez mais reduzidas, e para atender à crescente demanda do mercado imobiliário, os cômodos parecem estar cada vez menores. “Os banheiros são muito pequenos e estreitos, sem condições de uma cadeira de rodas girar”, avalia a assistente social.

Ela também vê negligência por parte dos governos, que não se preocupam em fiscalizar alguns itens presentes no Estatuto do Idoso. “Qual a cidade que tem calçadas adaptadas para o idoso caminhar? Não cobram dos hospitais públicos, por exemplo, a instalação de rampas e banheiros adaptados”, indigna-se Sônia Tinôco.

Para ela, algumas pessoas não fazem as adaptações necessárias por puro capricho e vaidade, achando que vai prejudicar a aparência da casa.

Apesar de todas as unidades do Solar Residencial Geriátrico serem adaptadas de acordo com as normas da Anvisa para as Instituições de Longa Permanência para Idosos, mesmo assim acidentes já foram registrados.

“Lembro do caso de uma senhora que levantou bruscamente, sem ninguém esperar, e caiu. Outra caiu na presença do médico e sofreu uma isquemia. Em cada quarto tem uma campanhia para avisar em caso de acidentes.” 

Redução de reflexos no idoso aumenta riscos de quedas

A velhice reduz os reflexos e a sensibilidade periférica dos membros, além de gerar instabilidade postural, vertigens, síncopes, problemas osteoarticulares, neurológicos, visuais e nutrucionais, sem falar nas doenças crônicas como hipertensão, diabetes e problemas cardíacos. Tudo isso aumenta os riscos e a incidência de acidentes domésticos com idosos, principalmente quedas, segundo o cardiogeriatra João Mariano Sepúlveda, que considera o fato um verdadeiro problema de saúde pública mundial.
A maioria das quedas ocorre dentro de casa, e cerca de 70% dos idosos que caem, voltam a cair, de acordo com o médico. “As consequências, quase que em sua totalidade, são traumas e fraturas vertebrais, em fêmur, braços e costelas, pela ordem. Entre trita e trinta e cinco por cento dos idosos sofrem quedas ao menos uma vez. A mulher cai mais que o homem”, comenta Sepúlveda, enfatizando ainda a necessidade de controle ambiental e adaptação da residência.

As quedas podem trazer várias sequelas que, dependendo da extensão do trauma, vão desde uma simples contusão até sérias restrições motoras. Segundo com o cardiogeriatra, tanto os idosos ativos ou não estão suscetíveis aos tombos; o primeiro por uma maior exposição, o segundo pela fragilidade.

Alguns se recuperam muito bem após sofrerem uma queda; outros acabam sucubindo à depressão, dificultando as tentativas de se reestabelecer. “Pneumonia, tromboembolismo pulmunar e infarto do miocárdio são as causas mais comuns de óbito nos idosos que caem. As quedas reduzem a mobilidade e a independência, traz insegurança, pode levar à depressão e aumenta o risco de morte”, explica o médico.

Como medidas preventivas ele recomenda hidroterapia, RPG, atividade física regular, musculação, correção e tratamento da osteoporose com suplementação de cálcio e vitamina D. “O tai chi chuan é muito pertinente na manutenção do equilíbrio”, diz.
   
Fisioterapia é fundamental

A fisioterapeuta Aline Brito, especialista em traumatologia e reabilitação, alerta que quanto mais a idade avança, mais aumentam os riscos de fraturas; isso por que a qualidade do osso cai bastante, tornando-o enfraquecido, e a musculatura perde força, dificultando a sustentação em movimentos mais bruscos. A osteoporose é outro fator complicador, pois qualquer impacto pode gerar fraturas.

Não são raros os casos de fratura de fêmur em idosos; e ela pode acontecer de duas formas, segundo Aline Brito. “Pode fraturar e fazer com que o idoso caia, ou o contrário, ele cair e fraturar o osso.” Os deficits de equilíbrio também aumentam a probabilidade de quedas. 

Para uma recuperação plena e rápida, é fundamental fazer fisioterapia, explorando exercícios de fortalecimento e alongamento. “Temos que treinar marcha, sentar, andar. Em torno de um mês, sessenta dias, o idoso volta a caminhar normalmente”, diz a fisioterapeuta. Se for necessária a colocação de prótese, através de procedimento cirúrgico, é necessário um acompanhamento posterior afim de monitorar o posicionamento do membro, no sentar e deitar, afim de evitar luxações.

Fonte: Tribuna do Norte

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