Uma longa estadia no purgatório

Sinal dos tempos: no lusco-fusco do ano de 2016, Camilo Santana, do PT, emplacou a aprovação de uma série de medidas impopulares na Assembleia Legislativa. Teve aumento da contribuição previdenciária dos servidores e aumento de impostos. Tudo tramitando vapt-vupt, com discussão rasa. Um rolo compressor como poucas vezes se viu nos últimos anos.

 
Antigamente, a nossa honorável esquerda chamaria o conjunto de medidas de austeridade de “pacote de maldades”. Os sindicatos rangeriam os dentes. Levas de mobilizados tentariam invadir a Assembleia. Por muito menos, em 2011, ocorreu uma invasão de professores grevistas quando Roberto Cláudio era presidente da Casa. Acabou em pancadaria.

 
Agora, por muito mais, nenhuma mobilização. Sem ranger de dentes. Sem protestos. Os sindicatos de servidores, calados estavam calados ficaram. Aqui e acolá, apenas uma ou outra reclamação isolada. Qual a explicação para que os acontecimentos tenham se dado dessa forma?

 
Muito provavelmente, o estado de prostração é uma das consequências da terrível e longa ressaca política e moral que acomete as forças que tradicionalmente controlam os sindicatos e os partidos de esquerda. Não é à toa.

 

Talvez seja por sentimento de culpa. Afinal, a crise que impõe os pacotes de maldades foi a herança maldita legada ao País pelo PT e adjacências.

 
Já escrevi outras vezes: uma das mais importantes novidades em nossa política foi o fim da hegemonia que a esquerda mantinha sobre os atos e mobilizações de rua no Brasil. Milhões e milhões foram às ruas sem as bandeiras do PT, do PCdoB, da CUT, do MST. Sem foice e sem martelo. Um imenso tsunami verde e amarelo que tomou conta do País em 2013, 2015 e 2016.

 
Os efeitos dessas novas circunstâncias começam a aparecer agora. Notem que Michel Temer, o impopular, tem conseguido emplacar propostas que, não faz muito tempo, seriam inimagináveis. Até a sacrossanta CLT, esse dinossauro ideológico, deverá passar por mudanças. Até aqui, apenas muxoxos e reações localizadas.

 
Camilo, o governador que ainda se mantém no PT, não foi importunado por ninguém quando apresentou seu pacote de cortes nos gastos, aumento de impostos e aumento na alíquota previdenciária da mais organizada e mobilizada das categorias, o funcionalismo. Creiam, não há nenhum ânimo para contestações. Para as multidões, manter o emprego passou a ser a tarefa número um.

 
Parece prevalecer na sociedade a percepção do quanto é grandiosa a crise em que o País foi enfiado. Sendo assim, as mudanças, mesmo as mais duras, passam a ser toleradas. Afinal, é preciso tirar o País do buraco. É por isso que o impopular passa feito um trem bala.

 
Tudo conspira a favor das mudanças. Sem referências dotadas de altivez moral, a esquerda vê suas narrativas se esfarelarem no cotidiano dos acontecimentos.

 

Sempre que se aponta um erro do presente, o passado mais recente volta avassalador a mostrar quem fez pior ou igual.

 
Certamente, esse clima ainda vai perdurar por algum tempo. Quanto mais a esquerda renegar a possibilidade de autocrítica, mais tempo vai permanecer no purgatório. Porém, é histórico: a esquerda não costuma se dedicar a fazer autocríticas. Prefere sempre apontar culpados externos e colocar-se como vítima.

O problema é que já não cola.

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