A arte de envelhecer em um só dia

Meu artigo no O POVO deste domingo

Da maneira como se deu, a disputa pela presidência da Assembleia Legislativa do Ceará foi um evento político com diversos significados. O primeiro deles confirma uma tradição: a imensa influência do Poder Executivo sobre o Legislativo. No fim das contas, a força política e administrativa da máquina definiu o resultado final.

Há 31 anos que não havia uma disputa pelo comando da Casa. Desde então, todos os presidentes foram eleitos quase que por aclamação, em chapa única. Um consenso formado ou forçado e uma oposição diminuta. Parecia já ser um formato já consagrado.

É fato que, ao longo dessas três décadas, em pelo menos duas oportunidades o comando do Legislativo abriu divergências com o chefe do Executivo. Foi assim no primeiro governo de Tasso Jereissati, quando a gestão perdeu a maioria da Casa e entrou em conflito com o governador.

Anos depois, novamente com Tasso, o então presidente Welington Landim entrou em rota de colisão com o tucano. Foi no ano de 2002. O deputado comandou uma série de votações contra os interesses do “Cambeba”, deixou o PSDB e trabalhou para se credenciar como candidato a governador.

Aquele momento já apresentava as primeiras fissuras do bloco de poder que há anos dominava a política do Ceará. É clássico: os sinais de decadência de toda hegemonia começam a se expor a partir de divergências no âmbito do próprio bloco hegemônico.

Precisamente, foi o que aconteceu na disputa de quinta-feira passada. O deputado Sérgio Aguiar era um confiável morador do condomínio político administrado por Cid e Ciro Gomes. Sim, era. Mas, José Albuquerque é um fiel depositário deste projeto político. Mora na Casa Grande.

Sim, é fato que Aguiar recebeu o aval para prosseguir em sua articulação. Porém, os avalistas tinham em mente outra coisa. O roteiro usual previa que o desafiante abrisse mão de sua candidatura em troca de uma benesse política e administrativa. É assim que funciona.

Mas, Sérgio Aguiar rasgou o roteiro. Agiu de forma semelhante a Domingos Filho em 2014, quando permaneceu como vice-governador e atrapalhou o plano perfeito que previa uma candidatura de Ciro Gomes ao Senado.

O condomínio governista tinha bem mais moradores do que há hoje. Luizianne Lins, Tasso Jereissati, Eunício Oliveira, Domingos Filho e Sérgio Aguiar chegaram a dividir a mesma área de lazer. Agora, cada um está em seu quadrado, trabalhando com ardor em seus próprios projetos.

Capítulo à parte na eleição da Assembleia foi protagonizado por parte vistosa da oposição. A derrota de José Albuquerque seria um duro golpe a ser desferido na hegemonia. Afinal, não há espaço mais generoso para fustigar governantes do que o palco do Legislativo. Tirar a maioria parlamentar do Governo é um passo para encurtar a temporada no poder.

E o que fizeram alguns opositores? Não agiram como opositores. É o caso de Heitor Férrer. São os casos de João Jaime Marinho, Audic Mota e Agenor Filho. Os três últimos se dedicaram ao balcão, largaram a oposição e ganharam ingresso para frequentar a sauna do condomínio.

São quatro votos. Quatro pra lá, quatro pra cá e o Governo teria perdido a eleição. O caso de Audic chama a atenção. O jovem advogado em primeiro mandato já mostra a que veio envelhecendo décadas em um só dia.

Por sua vez, o Governo e Albuquerque mostraram com quantos paus se faz uma canoa.

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