Thiago Pethit e seu rock em Fortaleza

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Ao ouvir os poucos mais de 30 minutos do disco Rock’n’roll sugar darling, você pode imaginar que já conhece aquilo tudo. É uma percussão que lembra Simpathy for the devil dos Rolling Stones; um figurino que parece Ramones; um toque de guitarra bem próximo de Velvet Underground; um refrão que copia os Stooges. Plágio? Cópia deslavada? Homenagem? De fato, tudo isso foi planejado por Thiago Pethit para seu terceiro disco, que apresenta amanhã (20) em Fortaleza, no Órbita Bar.
O cantor paulistano (que parece muito com Nick Cave) quis trazer em seu novo trabalho um espírito há tempos adormecido do rock lascivo, provocador e politicamente incorreto. “Estou repetindo um chavão de sexo, drogas e rock’n’roll, e fico pensando no que teria me levado a querer falar nesse assunto. O mundo se voltou para assuntos moralistas com roqueiros pedindo a ditadura militar. Esse rock que eu faço volta a levantar uma bandeira de liberdade”, explica Pethit, em entrevista por telefone.

Em diferentes tons, o ritmo que deu vida a Elvis e Chuck Berry já faz parte da carreira deste artista de 29 anos desde o início. Acústico, suave e sem guitarras, a estreia em 2010 com Berlim-Texas foi feita seguindo o lema punk do “faça-você-mesmo”. Na superfície, nada ali era rock, a não ser a postura. “Em 2010, um homem cantor que pudesse se mostrar na frente de uma banda, falando de sentimentos como uma menina diria, foi muito rock’n’roll. Quando falo rock, acredito que não seja só um gênero musical. É uma linguagem. O funk carioca carrega algo de rock’n’roll”, comenta Pethit que acabou sendo posto da prateleira da nova MPB ao lado de Tulipa ou Jeneci.

Dois anos depois, veio Estrela decadente que botou mais peso na mistura e se aproximou de figuras como Cazuza e The Cure. “Meus discos nascem muito do meu processo pessoal. Berlim-Texas não tinha nenhum processo ainda. Eu era só um garoto bem naif, ingênuo. Durante a turnê, entrei em contato com mercado, público e tive que entender o que é ser produto. Entrei em depressão. Estrela decadente já é algo de quem tomou algumas lambanças. Foi um disco resultado dessa aprendizagem, querendo ser mais claro, mais consciente dessas escolhas”, remonta o artista.
O próximo passo foi ousar mais em busca do que chama de “rock açucarado e querido”. A carta de intensões de Rock’n’roll Sugar Darling é entregue logo na abertura, com a presença de Joe Dallesandro, sex symbol underground dos anos 1970, ligado ao guru pop Andy Warhol. A carrada de símbolos trazida na voz amorfa do ator norte-americano, hoje com 66 anos, sintetiza as ideias de Pethit em resgatar uma época mais agressiva – sonora, sexual e discursiva – do rock. Para lapidar a proposta, o paulistano convidou os produtores Kassin, de olho no seu conhecimento sobre sons e instrumentos vintage, e Adriano Cintra, pelo olhar mais contemporâneo.

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O resultado é uma empolgante massa sonora, feita basicamente de bateria, riffs econômicos de guitarra e baixo marcado. As letras misturam inglês e português em situações fortes e sem meias palavras. “Baby, quando eu te vi eu não soube dizer se queria matar ou se queria meter”, diz Romeo, parceria com Hélio Flanders (Vanguart). “Eu sei que, assim como eu, você faz do escuro seu lugar seguro”, continua em 1992. “Doce como açúcar, explode na sua boca, vem chupar meu rock’n’roll”, convida a faixa-título.

Pela primeira vez em Fortaleza, Thiago Pethit comemora que esteja vindo com seu trabalho mais maduro até o momento. Ele conta que a vontade de tocar no Ceará já vem desde o tempo que trabalhava com Yuri Kalil e conviveu com Fernando Catatau e Régis Damasceno, todos do Cidadão Instigado. Certo de que o rock não morreu, apenas encaretou, ele pretende mostrar por aqui como é que se faz rock de verdade. “O rock ficou na mão de homens brancos e heterossexuais. Nos anos 1950 e 60, a ideia era ser uma voz das minorias. Essa é a grande questão. Se ele é dominado por homens brancos, só fala para esse público. Agora, se o rock for de fato transgressor, libertador, não tenho dúvida que ele volta a ser um gênero que mobilize as pessoas”, encerra.

Serviço:
Quando: sexta-feira (20), às 21h
Onde: Órbita Bar (Rua Dragão do Mar 207 – Praia de Iracema)
Quanto: R$ 30. À venda no local
Outras info.: 3453.1421

 

 

Texto: Jornal O POVO (Matéria Vida & Arte 19.03.15) Imagens: Internet

Eduardo Sousa

Sobre Eduardo Sousa

Eduardo Sousa é jornalista por formação, mas também adora e estuda moda. Faz serviços de assessoria de imprensa, gerenciamento de mídias digitais, figurino e personal stylist. Adora ler e escrever uma boa crônica, um simples retrato do cotidiano. "Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores".

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