[LITERATURA] Novo conto do livro de Ronaldo Correia de Brito

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Veja abaixo o primeiro conto do novo livro de Ronaldo Correia de Brito, O amor das sombras, da editora Alfaguara.
O nome do conto é Noite

Não acharam os corpos.
Mariana decidiu ficar surda a qualquer notícia do afogamento.
— O que você falou?
— Os dois ainda não foram encontrados.
— O barulho de caminhões não me deixa ouvir nada. Quando acaba essa obra?
— Acho que nunca. Faltou dinheiro e reduziram os serviços à metade. Também, o que roubam!
— Ah! Na seca de 32 foi a mesma coisa. Vinha comida pros retirantes e o administrador vendia. Nosso pai falava que muita gente ficou rica e outros morreram de fome.
Não são apenas os caminhões e tratores, percorrendo a estrada de barro, que fazem alvoroço e levantam pó vermelho. As motos também zunem em suas idas e vindas, deixando uma nuvem escura atrás delas.
— Evandro está inconsolável e culpa Rosário.
— Pobrezinha.
— Deixou de vigiar a filha um minuto. Um minuto, ela repete chorando. Distraiu-se com a televisão. Quando correu pra janela, só escutou a moto. Os dois já iam longe.
— São os cavalos do cão essas motos.
Mariana faz desenhos com os dedos na poeira sobre o tampo da mesa de jantar.
— Não se chateie comigo, limpo dez vezes por dia e está sempre suja. É como as rolhas de cera dos seus ouvidos, o médico remove e cria novamente.
— Ah! Pensa que eu ligo pra mouquice? Em velho aparece tudo o que não presta. Olhe a casa. Não adianta consertar, qualquer dia vai cair em cima de nós duas.
Otília resmunga e caminha a esmo pela sala.

Chega-se à casa erguida há quase duzentos anos, subindo uma fileira de degraus. A cal branca das paredes, os arcos amarelos em torno de portas e janelas, a pintura azul nas madeiras, tudo adquiriu o mesmo tom barrento, parecendo sujeira. De nada adianta mantê-la fechada, o pó desce pelas telhas, cobrindo o assoalho e os móveis. Foi Evandro quem sugeriu transformar a casa num museu, logo após a morte do avô. Em Mariana, os anos não gastaram a jocosidade. Ironiza que os visitantes, além de examinarem as tralhas inúteis, arrumadas aleatoriamente sem nenhuma catalogação museográfica, também podem conhecer duas velhas dinossauras: ela e a irmã Otília.
— Venha comigo ao terraço!
— Pra quê?
— Vão abrir as comportas da barragem.
— Evandro mandou fazer isso?
— Mandou.
— Se papai estivesse vivo, não deixava.
— É a filha do nosso sobrinho, coitada. Todo mundo acredita que os dois ficaram presos na lama.
— Eu duvido que estejam lá.
— Como tem certeza? Mariana desconversa.
— Só vi a barragem sem água na seca de 58. Você lembra?
— Não dá pra esquecer.
— Mamãe chorava muito, como se o corpo dela também secasse. Um útero que carregou e alimentou vinte e três filhos. Sempre achei que mamãe comparava a barriga crescendo com o açude ganhando água. Ela sentava numa cadeira, ali no terraço, e contemplava o espelho d’água. De tardezinha, na hora mais triste do dia. Por que ficamos melancólicos quando o sol vai embora?
— Nunca pensei nisso.
— Você é jovem, não pensa muita coisa.
— Eu, jovem?
Otília ri.

As duas sentam num banco de ferro e assistem quando os trabalhadores abrem as comportas. Evandro comanda os homens, dando ordens aos gritos. Várias motos param, os motoristas dos caminhões diminuem a marcha. Olham os jorros d’água e não compreendem o desperdício em plena seca.
As caçambas carregam barro, areia, brita, piçarra e cimento. Tubos gigantes chegam em carretas, quebrando galhos de árvores, atropelando raposas e cães.
Construída num tempo em que o transporte se fazia em lombo de animais, carroças e automóveis pequenos, sem calçamento de pedra ou asfalto, a estrada não suporta o peso dos caminhões e afunda em diversos lugares. Alguns buracos se transformam em crateras, provocando acidentes. As obras recomeçam e param, os trabalhadores chegam e vão embora, deixando as marcas de sua passagem. Os vales e a floresta em torno parecem ter sido bombardeados, não havendo esperança de que a guerra termine algum dia. Fazem a transposição do São Francisco, o Velho Chico, um rio a cada ano mais doente e fragilizado, já não dando conta de tantas usinas e projetos de irrigação.
— Não é só o homem que adoece. Os rios também sofrem mazelas.
— Você diz cada uma. Papai admirava suas pilhérias e me pedia: Otília, seja inteligente como sua irmã. Ora, ora. Inteligência se nasce com ela. É ou não é?
— Criei-me no meio de homens. Depois de mim, nasceram sete machinhos. Se eu não fosse esperta, eles acabavam comigo.
— Duvido.
— Quando saíam pra caçar, eu ia junto. Atirava melhor do que eles. Nunca perdi um tiro. Amansava cavalo igual a qualquer homem. Só nunca me deixavam frequentar os cabarés, mas sabia o nome das putas, quem era a paixão de cada um dos manos. Alcides fez loucuras por uma tal de Lindalva. Nosso pai mandou ele servir ao Exército, em Fortaleza, pra ver se arrancava a mulher da cabeça. Ficou tão bonito na farda. Lembra? Sempre esqueço, você é a mais nova, nasceu depois das tragédias. Não consenti que Evandro exibisse a fotografia no museu, onde nos expõe junto com as tralhas sem utilidade. A casa perdeu a função de morada. Evandro podia ter esperado que nós duas morrêssemos. Pelo menos isso.
— Pare de reclamar do nosso sobrinho!
— Ah! Você não esconde sua preferência.

Começa a anoitecer e nem metade das águas foi drenada. Os trabalhos com as máquinas foram suspensos, como se todos dependessem do que irão encontrar na lama do açude. O jovem que conduzia Rafaela na moto operava guindastes. As escavadeiras se movimentam sem trégua nos últimos dias. Tentam recuperar os meses perdidos. Uma sucessão de embargos atrasou as obras. Os jornais e a tv não param de denunciar a corrupção praticada por políticos, empreiteiras, diretores de ministérios e burocratas. A polícia federal invade apartamentos, prende acusados, algema, coloca em carros e leva às prisões. No dia seguinte surgem novos escândalos, outros nomes de governadores, senadores, deputados, empresários, e até de juízes.
Com as máquinas desligadas, o silêncio é quebrado apenas pelos gritos de Evandro e o estrondo da água escorrendo. Mal se escuta o vento agitando a copa das árvores e uma voz perdida, aqui e acolá. Todos esperam o desfecho da busca. E se não estiverem ali? Há quem jure ter visto quando os dois se precipitaram em alta velocidade, como se uma força sobrenatural os empurrasse para dentro do açude. Quem faria isso? O fiscal da empreiteira ameaça descontar as horas paradas dos funcionários. Ninguém liga para ele, os olhos vidrados nas águas, que baixam lentamente. Alguém manobra um trator, levando-o até a parede da barragem. Num ponto estratégico, acende os faróis e ilumina o cenário.
Um jorro escapa pelo sangradouro e cai de grande altura sobre lajedos.
— Vamos entrar. Se os dois estiverem aí, só serão encontrados de manhã.
— Bem antes disso.
— Não podemos ajudar em nada. Somos duas inúteis.

Mariana retoma o fio partido das lembranças. As tragédias familiares se repetem em ciclos, sazonais como as chuvas e os verões. É normal que seja assim numa família numerosa, com repetidos casamentos entre primos, tios e sobrinhas. Numa mesma cama, dois corpos engendraram vinte e três descendentes, machos e fêmeas, que também se deitaram noutras alcovas ou moitas obscuras, gerando dezenas de outros filhos legítimos ou bastardos. O pênis miraculoso de Benedito Limaverde Pinheiro e o útero inesgotável de Margarida Limaverde Pinheiro não descansavam nunca. Os primeiros filhos, Mariana e Alcides, nasceram no mesmo ano, com a diferença de apenas onze meses. Os dois se consideravam gêmeos alimentados em placentas diferentes. Um tempo mínimo os havia separado, por sorte, por azar, nunca sabiam, desejavam apenas reaver esse tempo, ficarem juntos todas as horas.
— Alcides morreu no acidente de trem, quando vinha de férias do quartel. Antes papai tivesse deixado ele se casar com a rapariga. Dizem que ela sempre foi uma boa moça, ainda não tinha completado quinze anos quando se perdeu. O pai levou a pobrezinha pela mão e entregou a Edênia. Falou que lugar de moça perdida só podia ser o cabaré. Horácio trouxe um retrato de Lindalva com outras catorze meninas, todas vestidas de branco, arrumadas como se fossem desfilar numa festa de debutantes. Dava pena ver. Podia ser qualquer uma de nós.
— Felizmente essas coisas não existem mais.
— Ainda existem, só mudaram os nomes.

Alguém apaga os faróis do trator, durante poucos minutos, mas volta a acendê-los. Evandro se enerva, fala alto. O motorista ameaça ir embora. Assustadas, as duas mulheres silenciam e escutam.

— Alcides era tão bonito, a pele branca sem um sinal. Montava cavalo e corria no meio do mato. Os garranchos e espinhos tinham receio de ferir tanta perfeição e não arranhavam seu corpo. No Exército, obrigaram que raspasse a cabeleira preta e lisa, que eu tanto amava. Se não lavasse os cabelos com sabão amarelo, de dois em dois dias, eles ficavam ensebados como o das mulheres que usam óleo de coco. Quando trouxeram o corpo, ajudei mamãe a banhá-lo e vesti-lo. Não havia ferimentos graves, nem sei de que ele morreu, talvez com o impacto dos vagões, ninguém conseguiu explicar direito. Mamãe chorava, mas eu não derramei uma lágrima naquele dia. Choro desde então. Quis me despedir do corpo que vi nu tantas vezes, quando tomávamos banho nos riachos e nas nascentes, como duas irmãs ou dois irmãos.
Ri tristonha e pensa um instante.
— Mentira, nós sabíamos que um era homem e o outro mulher, e essa diferença nos aproximava.
— Vamos entrar, Mariana. Esfriou.
— Espere um pouco. Acabo de compreender por que não desejo ouvir a história de minha sobrinha-neta. Sinto inveja de Rafaela. Ela foi mais corajosa do que eu, embora tenha se arrependido de sua coragem, quando já estavam fugindo.
— Se for verdade o que as pessoas falam.
— Existem tantos caminhos pra escapar da Santa Fé. Tinham de escolher a estrada da barragem?
Alguém grita, surge um alvoroço, mas todos retornam aos seus observatórios.
— Também sentia inveja dessa menina.
— Otília…
— Você morava no Recife. Aconteceram coisas estranhas, nunca lhe falei.
— Eu imagino.

O açude foi construído pelo braço de muitos trabalhadores. Benedito Limaverde Pinheiro se orgulhava da engenharia perfeita, ele mesmo desenhara os croquis da obra. Anos levantando as paredes, preparando o sangradouro, desviando o curso de riachos. A propriedade sempre tivera nascentes, mas Benedito percebia uma diminuição no jorro das fontes, a cada ano. As primeiras engenhocas de espremer a cana eram movidas a água ou tracionadas por bois. Mais tarde, foram substituídas pelos motores a diesel. Quando chegou a energia elétrica, os engenhos já estavam quase todos de fogo morto. A cultura da rapadura, da cachaça e do açúcar entrou em decadência. A população cresceu, desmataram os pés de serra, os brejos e a chapada. O planeta ficou quente. As pequenas nascentes secaram, as grandes diminuíram a vazão em mais da metade. Os recursos que pareciam inesgotáveis entraram em colapso. Benedito se queixava de que havia gente demais no planeta, esquecia de quanto ele contribuíra para o aumento da população. Sua descendência já ultrapassava uma centena de pessoas, quase todas vivendo da mesma terra.

— Ah! Vamos entrar. Não quero assistir o espetáculo deplorável. Olho pro açude se esvaziando e é como se eu mesma sangrasse. E se todo esse desperdício for inútil?

Entram na casa e fecham a porta. As duas vivem trancadas a maior parte do tempo. Otília confessa seu medo de ladrões e malfeitores, Mariana alega proteger-se da poeira. Nos horários em que o museu abre, dois sobrinhos recebem as raríssimas visitas, sempre com agenda marcada. Otília e Mariana aproveitam o intervalo de tempo em que se sentem protegidas e caminham pelo jardim, olham a levada d’água descendo a serra, inspecionam as obras da adutora como se fossem engenheiras. Os sobrinhos fazem um relatório da família e dos acontecimentos na cidade. Repetem o que elas já ouviram no noticiário da rádio local e na televisão. Otília é esperta e bisbilhoteira. A mãe comentava que os vinte e dois filhos nascidos antes dela consumiram as substâncias do útero materno, sobrando quase nada para a filha mais nova crescer e engordar, compensando-se a falta com um excesso de energia. Nas famílias numerosas, os irmãos mais velhos tornam-se padrinhos dos menores, às vezes assumem o lugar do pai ou da mãe. Isto acontecera entre as duas irmãs separadas por uma diferença de vinte e cinco anos.
Otília prepara um mingau de aveia, enquanto Mariana caminha pela casa. O sobrinho Evandro tornara-se dono de boa parte das terras no sítio Santa Fé, permitindo que as duas tias velhas continuassem morando no lugar onde nasceram, confinadas a um quarto, à sala de jantar e à cozinha. Nos finais de semana, quando a família se reúne para churrascos e banhos de piscina — outra novidade de Evandro —, as duas sentem-se acuadas. Preferem o barulho dos tratores escavando e plantando tubulações aos meninos se atirando na água clorada, às vozes gritando nos celulares, e ao som de carros, numa convivência obrigatória com irmãos, irmãs, cunhados, cunhadas, sobrinhos de primeiro, segundo e terceiro graus, todos a subir e descer as escadas de madeira que levam ao sótão, trazendo quinquilharias das salas improvisadas em museu, perguntando para que servem.
— Não sei, esqueci, despacha-se Mariana.
Bonachona, Otília brinca com as crianças, monta os bebês em selas arrumadas sobre cavaletes, dá gritinhos, acode alguém na cozinha para ensinar uma receita da mãe. No final da tarde, os que moram longe vão embora, os de perto ajudam a arrumar a bagunça deixada pelos visitantes e depois se recolhem. Sozinhas, as duas irmãs se movimentam entre as paredes que enxergaram sem nitidez ao abandonarem o útero materno, trocando-o por um mundo que agora lhes parece incompreensível.

Os membros da família evoluem em idade e número nas fotos expostas por corredores e salas. Jovem, solteiro e sem bigode, o pai foi retratado sozinho. Casado, segurando a esposa Margarida pela mão, contempla sem timidez a máquina à frente deles. De pé, com as mãos sobre o espaldar de uma cadeira, parece ignorar a primogênita Mariana, no colo materno, com os bracinhos erguidos para cima. Tornam-se quatro na fotografia com o bebê Alcides, vestindo um timão de batizado. Benedito tem sempre o mesmo olhar firme para a máquina, a expressão igualzinha à da filha Mariana. A família cresce em filhos e mais filhos, uma sucessão deles com roupas extravagantes, chupetas na boca, cordões de ouro no pescoço, cueiros, rendas, bicos, bordados, chapéus masculinos e femininos, poses, olhos abertos e fechados, cadeiras, bancos, mais gente, a primeira geração de netos, os bisnetos, a foto em que Margarida já não aparece e, por último, a grande panorâmica em que se exibem os tataranetos e o centenário Benedito Limaverde Pinheiro. Evandro mandou desenhar no computador uma silhueta com números e, logo abaixo, os nomes da imensa prole. No futuro, todos poderão se reconhecer, enquanto permanecerem vivos.
Mariana empertiga o corpo magro e alto, ajusta os óculos e procura em cada um dos retratos o rosto mais amado: o de seu irmão Alcides. Até os dezenove anos ele fez parte da família, quando foi arrancado do convívio dos pais e irmãos como um corpo estranho. Os partos de Margarida Limaverde eram normais, nenhum a fórceps, mas alguns de seus filhos sofreram uma sucção pela morte, igualzinho faziam agora as retroescavadeiras, arrancando rochas plantadas no chão. Primeiro Alcides, de olhar firme e vasta cabeleira negra. Como dói vê-lo repetir-se a cada ano mais belo, numa sequência aparentemente ló- gica, se não fosse a interrupção arbitrária. Alcides desaparece, quando Otília ainda nem havia nascido. O choro nunca consolou Mariana, nem as rezas da mãe, nem as tentativas de Horácio ocupar o lugar vazio em torno da mesa. A casa já ficara silenciosa no dia em que ele viajou a Fortaleza e de lá retornou apenas para morrer no caminho. Um silêncio que as outras vozes da família jamais conseguiram preencher, deixando Mariana com a surdez dos sonâmbulos. Nem a voz doce de Jaime, Jaiminho, sétimo na sucessão de homens até que a mãe parisse outra menina, nem a fala cantada do rapaz conseguia penetrar seus ouvidos. Mariana também ficou cega à tristeza do irmãozinho feminino e frágil, que decidira ser padre e foi morar em Fortaleza, num seminário com janelas interditadas ao mar. Após três anos de reclusão, seu confessor aconselhou-o a passar um tempo em casa, avaliando a vocação para a vida religiosa. Um fogo interior consumia a vitalidade e as carnes do pequeno seminarista. Seria paixão? Por qual objeto? Chegou deprimido, usando uma batina preta que jamais despia, mesmo no calor intenso. A mãe supôs que estivesse tuberculoso e obrigou-o a uma dieta de gemadas, leite fresco, banhos de sol pela manhã e ambientes arejados. Jaime preferia ficar recluso num sobrado ao lado da capela da Santa Fé, onde um tio padre vivera seus últimos anos de velhice. Tornou-se cada dia mais silencioso, praticando jejum, penitências e rezando sem parar. O pai temeu pelo seu juízo, eram comuns os casos de loucura na família, por conta de casamentos consanguíneos. Benedito era primo legítimo de Margarida e seu genitor fora casado com uma sobrinha. Num meio- -dia de sol forte, quando os pássaros não cantam e o gado busca a sombra das árvores, Jaime pegou uma garrafa de querosene, o mesmo que usava para acender o candeeiro em suas leituras noturnas, e se dirigiu a um riacho seco. Preparou um leito de areia, a mesma usada para levantar a casa dos pais e dar os acabamentos, molhou o corpo com o querosene, deitou na cama improvisada e ateou-se fogo. As pessoas que o encontraram carbonizado disseram que sua determinação em morrer era tamanha que seu corpo nem revolvera a areia em torno dele, permanecendo firme no suicídio martirizado.
Aproximando os olhos das fotografias, Mariana procura distinguir o infeliz Jaime. Só agora ela percebe a opacidade no rosto do irmão, uma sombra envolvendo sua minguada pessoa, parecendo que desde sempre ele estivera morto. Arrepia-se com a descoberta, recua e se ampara num consolo enfeitado com jarros de louça. Por bem pouco não quebra uma das peças, o que certamente provocaria o furor do sobrinho Evandro. Pensa em gritar pela irmã, ocupada com a janta na cozinha. Mas Otília viveu sempre tão alheia aos fantasmas, feliz no seu mundinho de moça velha sem memória. Só conheceu tempos difíceis na família, a divisão da propriedade após a morte da mãe, a falência do engenho, a venda das terras para saldar dívidas contraídas por filhos degenerados. É melhor deixá-la em paz com sua felicidade aparente. Com certeza ela se esmera no jantar, cozinha bem, não aceita um simples mingau por refeição da noite. Mariana apura o ouvido. Lá fora continua a busca pelos corpos.

Rafaela fugiu com Felipe um dia depois que teve alta do hospital, onde ficara internada uma semana. Rosário encontrara a filha desacordada no banheiro, com um leve ferimento na face. Em cima da mesinha de cabeceira, achou seis cartelas de ansiolíticos, vazias. Rafaela tentara se matar ingerindo sessenta comprimidos. O remédio era usado pela mãe desde que fizera um tratamento cirúrgico para câncer de mama. Ficara com a sequela de um braço edemaciado, e com limitação dos movimentos e da for- ça. Rosário não conseguiu levantar a filha. Morava numa casa grande e velha, construída acima do sobrado museu, num terreno cheio de fruteiras improdutivas, que o marido não aceitava podar, nem derrubar. Apesar de serem os principais donos da Santa Fé, a morada deprimia pelo aspecto soturno. Os únicos tons de alegria eram dados por uma fonte correndo barulhenta e pelo curral de ovelhas. Ao entardecer, quando os urubus pousavam nos eucaliptos do quintal, lembravam agentes funerários em fraques pretos. Rafaela estudava na cidade e não morava com os pais. Envergonhava-se por ser filha temporã, nascida quando Evandro e Rosário já passavam dos quarenta, parecendo seus avós, agora que completara vinte e dois anos.
Depois de lavarem o estômago de Rafaela por meio de uma sonda nasogástrica, ela foi internada três dias na uti e mais cinco num quarto. O ex-noivo largou o escritório de advogado, permanecendo a maior parte do tempo no hospital. Garantiu a Evandro e a Rosário que ainda amava a filha deles com a mesma devoção de antes. Era como se nada houvesse acontecido. Os pais adoravam o futuro genro e confiavam que a filha trabalharia ao seu lado, quando se formasse. Rafaela não respondeu sim ou não à proposta de reatar o noivado e regressou à casa no sítio, como se tivesse morrido. Uma prima solidária ao sofrimento de Evandro e Rosário desvendou a trama amorosa em que a moça se envolvera. Aproveitando-se do isolamento na uti, ela pediu o smartphone da garota e mostrou aos pais a troca de mensagens e fotos pelo WhatsApp entre Rafaela e um tratorista da adutora, chamado Felipe.
Junto a uma foto no pôr do sol, tendo a serra ao fundo, os dizeres incompreensíveis: meninos à beira da estrada são anjos que agitam espadas de luz. Depois uma foto de capacete, numa motocicleta, e outra com a camisa erguida e presa aos dentes, deixando o abdome à mostra, numa pose grosseira em que a mão direita segura os genitais por cima da calça jeans. E a frase: tudo isto é seu. Noutra imagem aparece de olhar suave e jeito de menino abandonado. Abaixo, a postagem: eu ultimamente só tenho pensado em você. Por último, a fotografia onde ele surge deitado numa cama, vestindo apenas cueca, em pose sensual e com o corpo inteiramente depilado, até mesmo nos pés e nas mãos. As sobrancelhas também foram aparadas e desenhadas. Antes de arremessar o smartphone contra o chão, Evandro jurou que acabaria com o tratorista. Culpou a esposa por não educar a filha de forma decente. Não entendia como ela largara um noivo de futuro por um peão de estrada e ameaçou mantê-la em cárcere privado até que o rapazinho tivesse desaparecido de sua vida.
O engenheiro chefe das obras de transposição não soube informar o paradeiro de Felipe e garantiu que ele era um excelente funcionário. Tinha vinte e um anos, aos quinze se juntara com uma garota de treze, com quem tivera um filho. Viera de Pernambuco atrás de emprego. Todos os peões sabiam do namoro e davam força ao rapaz, porque achavam excitante um cara pobre e sem estudo ganhar uma garota rica, bonita e instruída. Evandro exigiu a demissão sumária do tratorista, ameaçando embargar a obra ou fazer coisas piores. Conhecia gente que por uns trocados acabava com a vida de qualquer bandidozinho. De nada adiantou o chefe de obras argumentar que não se tratava de um bandido, mas de um trabalhador responsável e qualificado como tratorista. O engenheiro prometeu que se Felipe ainda aparecesse — do que ele duvidava —, seria imediatamente transferido para outro estado.

— Mariana, atenda à porta!
— Estão chamando? Juro que não ouvi.
— Faz tempo que batem.
— Fiquei surda de vez. Preciso voltar ao otorrino.
— Antes disso, veja quem é.
Mariana se dirige a uma porta lateral, por onde os da família costumam entrar.
— Quem é?
— Sou eu, tia, Noemi.
— Ah, Noemita.
Grita para dentro.
— É Noemita, Otília.
— E o que está esperando? Abra a porta e mande ela entrar.
— Paciência, já vai.
Com dificuldade, retira duas travas, destranca alguns ferrolhos e por último dá voltas na chave.
— Tia, boa noite! Já estão dormindo essa hora? Vão perder a novela?
— Ah! Boa noite. Estava distraída, olhando os cacarecos. Não sei por que as pessoas guardam tanta coisa. Entre. E seu marido?
— Lá no açude.
Noemi pertence à segunda geração de sobrinhos, que herdaram quase nada, talvez um lote de terra para erguer uma casa. Trabalha num cartório da vila, casou com um primo e os dois dão assistência às velhas.
— Tia Otília, ainda na beira do fogo?
— Chegou em boa hora. Coma com a gente.
— Já jantei.
— Janta de novo. Aposto que não comeu bolinho de milho.
— Os da senhora eu não recuso.
As três sentam em torno da mesa empoeirada, ocupando apenas a cabeceira. Otília serve os pratos. Mariana pergunta pelo mingau e a irmã diz que ficou para antes de se deitarem. A noite é longa, muitas vezes acordam com fome e esperam o dia raiar para se levantarem e comer alguma coisa.
— Acharam os dois corpos agarrados. Rafaela enforcava o rapaz.
As irmãs suspendem as colheres que levam à boca e só agora percebem o alvoroço lá fora, quebrando o silêncio da noite. Otília afasta o prato para longe e não contém o choro.
— Pobrezinha da Rosário, ela agora morre de vez, lamenta Mariana.
— E tio Evandro? Parece um louco, correndo de um lado para outro. Eu sei que a senhora não gosta dele, porque tomou a casa de seu pai, mas dá pena. Ainda tinha esperança que fosse mentira. O homem jurou ter visto quando os dois se arremessaram nas águas. Também garante que foi Rafaela quem puxou a moto pro açude.
Otília não se contém e grita.
— Tia, calma.
— Calma, calma, é só o que pedem a gente. Não sabem falar outra coisa. Se fosse seu marido você ficava calma?
— Otília, cuidado com o que diz.
— Rafaela podia ser minha filha.
Mariana olha a irmã com severidade.
— Mas não é. Mesmo que você tenha desejado.
Noemi não compreende a conversa entre as duas mulheres. Imagina estarem caducando. Do lado de fora chegam mais vozes, gritos, choro. Cachorros ladram quando passa uma ambulância com a sirene ligada. Os faróis acesos de motos, caminhões e tratores atravessam as frestas das portas e janelas, os telhados altos.
— Querem ir ver?
— Não, responde Otília chorosa.
Mariana contempla os retratos nas paredes, antes de falar.
— Já enterrei mortos em excesso. Rafaela escapou do suicídio para morrer afogada. Que destino.
Noemi relata que os dois foram resgatados na parte mais funda do açude. Mesmo recobertos de lama, percebia-se a inchação e a cor arroxeada dos corpos. Rafaela se entrançara em Felipe como os cipós nas árvores, os braços enovelados em torno de seu pescoço.
— Ele era tão bonito, parecia um príncipe. Moreno claro e sorridente. Um dia pediu água em nossa casa. Sem camisa eu pude ver que se depilava. Por que os homens fazem isso, tia? Eu não gosto. Homem é homem.

Mariana já não escuta uma única palavra da sobrinha. Lembra que, numa das secas no Ceará, criaram campos de concentração para isolar os retirantes, homens, mulheres e crianças famintos, as cabeças raspadas contra os piolhos, alguns vestidos em sacos de farinha com buracos para enfiar o pescoço. A ordem do governo e dos cidadãos ricos era segregar os miseráveis em currais cercados de varas e arame farpado, próximos às estradas de ferro. Havia sete campos no Ceará. O do Crato fora programado para receber cinco mil pessoas, mas chegou a isolar cerca de vinte mil. Quase todos morriam de fome ou doença e eram enterrados em covas rasas, até quarenta corpos no mesmo valado, sobrepostos de quatro em quatro. Os cachorros e os urubus revolviam a terra e devoravam a carniça. Os agricultores e pecuaristas percorriam os isolamentos e contratavam os homens mais fortes a troco de uma refeição por dia. Os de sorte levavam a mulher e os filhos junto. Chegaram a ser três vezes mais numerosos que o restante da população do estado. Encurralavam sete mil retirantes em quadriláteros de quinhentos metros e davam a eles um pequeno farnel de rapadura, charque, farinha e café, quase sempre estragado.
Quando Benedito Limaverde Pinheiro trouxe as cinco famílias para a Santa Fé, a esposa Margarida elogiou sua generosidade cristã. Mariana demorou a compreender que o seu estimado pai não passava de um coronel latifundiário como tantos outros do cariri cearense. Lembrava-se agora de uma menina magricela e de olhos grandes. A mãe permitia que circulasse pela casa e brincasse de pedrinhas com a filha. Ao servirem alguma comida, os olhos da criança se tornavam ainda maiores e se enchiam de lágrimas. Um dia elas foram ver o açude secando, os peixes morrendo na lama. A menina perguntou a Mariana por que ela não pescava os peixes, cozinhava e comia. Mariana sorriu da pergunta e esqueceu-a até encontrarem a menina afogada no resto de água e lama do açude, entre os peixes apodrecidos.
Três anos depois choveu.
— Um dia nós seremos apenas retratos nas paredes.
— É sobre Rafaela que a senhora fala?
— É sobre tudo o que essa casa esconde. Há pouco eu olhava os tachos, as conchas de mexer a garapa e o mel, as formas de moldar as rapaduras, as malas de couro em que eram transportadas para a feira, constatando que tudo isso não vale mais nada. Benedito e Margarida trabalharam para encher nossas vidas de luxo, pouco se importando com o sacrifício dos trabalhadores, dos seus filhos e netos, deles próprios. Valeu a pena o esforço?
— Nunca pensei nisso minha irmã, só trabalho. E dou trabalho aos outros.
— Às vezes eu penso: se tio Evandro aceitasse que o tempo mudou, teria deixado Rafaela namorar com Felipe. E os dois estariam vivos.
— Não é tão simples assim. Se fosse, Alcides também não teria morrido, nem Jaime, nem tantos outros da família. Por que não ateamos fogo na casa? Dessa maneira nos livramos do passado. Todos acham melhor transformá-la num museu, guardar o que não faz sentido.
— Tia!
— Ah!
— A senhora está amargurada. Foram as mortes.
— Pode ser.
Quando tudo parece terminado, Otília se lembra de acender o fogo.
— Vou passar um café.

A ambulância passa de volta, a sirene ligada. Certamente leva os corpos ao Instituto de Medicina Legal. O barulho recrudesce, escutam-se gritos, alguém dá ordens para os homens voltarem ao trabalho. Haverá serão noturno.

Noemi sente pena das tias e resolve contar alguma histó- ria que as deixe alegres.
— Lembram que a avó Margarida sonhava casar um filho com alguma moça da família Nunes?
— Isso é antigo demais, nem sei de onde você arrancou essa história.
— O casamento aconteceu.
— Foi? Ninguém me contou, reclama Otília.
— Disseram que as tias são antiquadas para certas coisas.
— Antiquadas, nós duas? Escute, Otília.
— Casou-se Geraldo, um bisneto.
— Geraldo? Desde quando ele gosta de mulher?
— Casou com Leandro, um bisneto de dona Dália.
As duas velhas se espantam, depois riem às gargalhadas, esquecendo os que choram.
— Assinaram a união civil estável, com direito a festa, aliança e beijo no final. Querem ver as fotos? Publicaram no Facebook.
— Quero ver, sim.
— Otília, se contenha!
A sobrinha não consegue acessar a Internet, mas promete copiar algum retrato para as tias. Chamam à porta, é o marido de Noemi. Ela se despede apressada e sai para o tumulto.

Enquanto Otília lava a louça do jantar, Mariana confere se os ferrolhos, as fechaduras e as traves das portas e janelas se encontram fechados. Lê num calendário que se trata de uma noite sem lua. Depois das gargalhadas com a fofoca do casamento, sente uma profunda tristeza. Pressente que não conseguirá dormir naquela noite. Mentiu para Otília e Noemi, conhecia a história da infeliz Rafaela, recebeu-a mais de uma vez para conversarem e aconselhou-a a seguir o coração. Nunca imaginou que a jovem não teria coragem de enfrentar os pais. A morte pesa em sua alma como a fotografia dos irmãos ausentes. Olha os armários abarrotados de louças, cristais e pratarias, tudo velho e sem utilidade como ela própria. Pela primeira vez nas recentes horas de angústia confessa que preferia ter morrido no lugar de Rafaela. Assim, não agonizaria duas vezes. E se atear fogo na casa, deixando-se queimar dentro dela, igualzinho ao que fez seu irmão Jaime? E Otília? Pediria que ela sentasse lá fora, embaixo de um oitizeiro, assistindo as labaredas e a fumaça subirem ao céu baixo da serra.
— Levo seu mingau para a cama?
— Ah! Leve. E um copo d’água, também.
Sempre Otília a arrancá-la das cismas.

Mariana caminha à frente até o quarto, o mesmo que os pais ocupavam, onde fizeram amor e geraram filhos, trazidos ao mundo em meio ao cheiro de alfazema e à fartura dos velhos tempos. Caminhando um pouco atrás, Otília apaga as luzes no trajeto, semelhante a um guardião das almas que seguem ao inferno. Sobre a cômoda, ela arrumou as tigelas com o mingau, colheres, uma quartinha d’água e dois copos. Mariana fica indecisa em entrar no quarto. Otília pergunta o que ela tem. Nada, responde, e pensa na longa jornada noite adentro.
Afasta o mosquiteiro empoeirado de uma cama de casal, onde sempre dormiu sozinha, e se deita sem fazer a última refeição e sem trocar de roupa. Otília se acomoda numa cama estreita, bem próxima à da irmã. Filetes de luz atravessam o escuro, aleatoriamente. As trajetórias dos raios brilhantes dependem de como se deslocam os caminhões e os tratores, com seus faróis acesos. Um barulho contínuo nega a existência do silêncio, o bem mais precioso daquelas paragens, num passado distante.

O tempo escorre vagaroso para as duas mulheres.

— Otília, você está dormindo?
— Não.
— Se importa de vir pra minha cama?
— Está com medo?
— Sinto coisa bem pior.
— Pode me dizer o que é?
— Venha pra junto de mim. Com esse barulho, não vai me escutar de longe.
Otília apanha o travesseiro, o lençol, afasta o véu sujo e se deita ao lado da irmã.
— O que deu em você?
— Remorso. Aconselhei Rafaela a fugir com Felipe. Ela não amava o advogado velho e rico.
— Nem precisa dizer, eu já desconfiava.
Otília começa a chorar.
— E em você, o que deu?
— Rafaela podia ser minha filha.
— Pare de falar tolice, somos duas solteironas.
— Eu sei, você sempre me lembra disso.
Um trator cava o terreno bem próximo ao terraço, remove pedras, dá a impressão de que irá entrar na casa. Uma claridade forte ilumina as duas mulheres.
— Tive a minha chance quando era jovem e deixei fugir. Não sou tão corajosa como o pai falava. Nem você.
— Eu?
— Pensa que não sei das coisas? Sou quase surda, mas enxergo dobrado. Não lamente, sua chance também passou.
Otília procura conter os soluços, cobrindo o rosto com o lençol. Os homens desligam as máquinas, fazem uma trégua para o café. No silêncio repentino, escutam- -se o vento e os pios de uma coruja.
Otília aconchega-se à irmã.
— Não fazia um mês que vestíamos luto fechado por Alcides, quando decidi conhecer Lindalva. Ela era a única mulher do mundo de quem eu sentia inveja. Está me ouvindo?
— Estou.
— Quase não acho a casa alugada por um comerciante rico de outra cidade. Ele vinha de quinze em quinze dias. Aproveitei uma ausência do amante pra fazer minha visita. Achei a casinha mais limpa do que o nosso sobrado, tudo bonito e no lugar. Não menti, disse quem eu era. Lindalva percebeu o meu luto e achou-me parecida com Alcides. Vestia uma roupa discreta, usava os cabelos longos soltos. Achei-a bem mais bonita do que no retrato. Lembrei-me do nosso irmão. Ele cantava uma guarânia com os versos “índia seus cabelos nos ombros caídos, negros como a noite que não tem luar”. Caí no choro ao me recordar da música. Faltou força em minhas pernas e eu me sentei. Lindalva foi à cozinha e trouxe água com açúcar. Sentia-se envergonhada por receber uma moça de família ilustre, temia que as pessoas falassem mal de mim. Disse que não me importava com essas besteiras, sempre fora livre para fazer o que tinha vontade. Ela não compreendeu que uma mulher pudesse ser livre e não ser prostituta. Falei o quanto desejava conhecê-la, descobrir por que meu irmão se apaixonara tão perdidamente, a ponto de ser mandado para outra cidade, o que resultou na sua morte. Lindalva começou a chorar e pediu que eu não a culpasse, sempre achara que só trazia infelicidade às pessoas. Num impulso me abracei com ela, apertei-a contra meu peito e comecei a cheirar seu pescoço, os cabelos, o busto, as axilas, buscando o perfume de Alcides, uma lembrança física do irmão tão desejado. Lindalva não compreendeu meu comportamento, deve ter pensado coisas horríveis de mim. Caí numa poltrona e chorei sem controle. A pobrezinha tentava me acalmar, fechou a porta e a janela da rua, temia que os vizinhos bisbilhotassem. Trouxe gotas de aguardente alemã numa taça com água, mas não bebi. Ficamos um tempo em silêncio, eu sentada com a cabeça entre as coxas e ela de pé à minha frente, sem saber o próximo passo a dar. De repente, entrou num quarto e voltou com um retrato de Alcides, o último que ele havia tirado no Exército. O irmão sorria tranquilo, o cabelo cortado baixo, o alto da cabeça escondido por um quepe. Eu não despregava os olhos da foto, parecia ter reavido Alcides.
— Tome, ela disse. Você amou esse homem bem mais do que eu.
— Depois tirou do pescoço um cordão fino de ouro, com uma medalhinha de porcelana, esse que uso sempre. Pôs o trancelim em minha mão e sentou ao lado. Ganhara o presente de Alcides, no dia em que se despediram. Senti uma grande ternura pela menina expulsa de casa, encostei a cabeça em seu peito e solucei até me acalmar.
Mariana termina a história e se abraça à irmã. Otília não se contém e chora. Alguns trabalhadores param junto aos degraus do sobrado, acendem cigarros e se afastam conversando. Um deles assobia alto.

Os homens ligam novamente os tratores e os caminhões. Um som infernal abafa as vozes das mulheres, restaurando a paz do barulho, aquela em que nada se escuta.
Mudas, as irmãs acompanham os filetes de luz dançando no telhado.

 

Com informações do Suplemento Pernambuco

Eduardo Sousa

Sobre Eduardo Sousa

Eduardo Sousa é jornalista por formação, mas também adora e estuda moda. Faz serviços de assessoria de imprensa, gerenciamento de mídias digitais, figurino e personal stylist. Adora ler e escrever uma boa crônica, um simples retrato do cotidiano. "Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores".

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