A proposta de um novo olhar sobre a cidade através da geografia

O Blog Educação tem o prazer de apresentar mais uma edição do espaço: “Professor, você que faz!”. Nesse mês de agosto, a professora Adriana Martins e o professor Tadeu Mendes, que atuam na escola Jociê Caminha de Menezes, no Bom Jardim, trazem a experiência de uma aula de campo realizada na linha sul do metrô de Fortaleza, saindo da Estação Parangaba em direção a Estação Maracanaú.

Com o tema “Metropolização – eixo de expansão sul de Fortaleza”, os geógrafos desafiaram os educandos a olharem a cidade criticamente, analisando o espaço geográfico e seus problemas ambientais, assim como as construções que tanto influenciam a vida da sociedade e muitas vezes passa despercebido pelo cidadão.  A aula foi realizada no último dia 05 de agosto com os alunos do terceiro ano do ensino médio.

Segue abaixo o relato da educadora sobre a aula:

Ao contrário do que é dito correntemente, a Geografia pouco tem a ver com enumerar e decorar extensas listas contendo nomes de lugares. Mas é bem verdade também, que essa subjetividade acerca dessa disciplina encontra fundamento numa geografia escolar aplicada pelo menos até os anos de 1980 no Brasil. Até esse período, ela cumpria um papel ideológico importante no sentido de tudo nomear e nada conhecer por suas razões profundas históricas e sociais. Foi a Geografia que serviu aos vencedores, sem muitos elementos de crítica que ajudassem uma pessoa comum a entender a natureza daquilo que se vê e vivencia no espaço. Era também a Geografia que nos dizia que esse espaço era um palco, portanto, onde a sociedade atuava, mas sem nunca dizer a autoria de tais papeis.

Um novo olhar sobre o espaço

Acho importante apresentar esse aspecto histórico do fazer geográfico para justificar a escolha do tema e da abordagem. A Geografia escolar de hoje se pretende crítica e mobilizadora do interesse dos jovens acerca do entendimento da conformação das cidades, das estruturas fundiárias, dos problemas ambientais, entre outros. Diferente daquela Geografia antiga (que chamamos de tradicional) a pretensão do professor de Geografia do séc. XXI é justamente desvendar os “autores” (que chamamos de agentes) e mostrar que o espaço não é um mero palco, já que é ao mesmo tempo meio, produto e determinante dos processos sociais. Mas essa Geografia com menos nomes pra decorar é também mais complexa que a tradicional e exige do estudante que ele correlacione formas a conteúdos.

Construindo novos caminhos

Nesse sentido, o professor de Geografia deve ter disposição para transportar, sempre que possível, o estudante para os lugares importantes à análise feita em sala de aula, mesmo que esses lugares estejam numa tela com Google Maps, num filme de João Batista de Andrade ou no próprio bairro.

Analisando os mapas

Foi pensando nisso e percebendo a dificuldade de compreensão dos estudantes do terceiro ano acerca dos conceitos relativos a urbanização que lancei a proposta de uma aula fora do ambiente escolar. O objetivo era a de um estudo das transformações urbanas a partir da visualização da paisagem metropolitana, mas especificamente o eixo sul acompanhado pelo metrô de Fortaleza. O ponto de partida seria a Estação Parangaba, um dos pontos elevados do metrô localizado nas proximidades da antiga rede ferroviária. O nosso ponto de partida também estava fincando num dos bairros mais emblemáticos da Capital, possuidor de diversas rugosidades[1] e contendo na paisagem uma série de marcas da modernização nacional das ultimas décadas.

Os estudantes demonstraram enorme curiosidade acerca do metrô, pois, apesar do modal funcionar desde o ano de 2012, a maioria nunca havia utilizado o equipamento.

A educação se faz no cotidiano da vida

A estrutura do metro, uma estação elevada, possibilitou uma visão panorâmica daquela porção da Cidade, foi possível debater com isso os contrastes envolvendo o velho e novo, a pobreza e a especulação imobiliária, o formal e o informal, entre outras coisas. O bairro de partida, a Parangaba, também foi um mote para se transitar no conteúdo de história e explicar a formação territorial de um dos principais nodais da Fortaleza.

Com a visão panorâmica permitida pela estação elevada, lancei questionamentos para que vissem o espaço urbano de um modo diferente daquele comum ao cotidiano, em geral naturalizante das formas e dos conteúdos. As descobertas a partir da conexão de conhecimentos que eles já possuíam os estimularam a elencar novas questões, gerando assim um rico debate.

Educadora Adriana Martins, Coordenadora Enedite e a turma do Jociê

No embarque, solicitei aos alunos que identificassem elementos da paisagem, ao longo do trajeto, que iria compor aspectos como: variação do perfil residencial, vazios urbanos e, no município de Maracanaú, concentração industrial significativa. Eles demonstraram perceber vários conceitos trabalhados em sala de aula ao longo da viagem.

Na última parada programada, já no município de Maracanaú, os estudantes relataram o que viram e se mostraram impressionados com a mudança do perfil socioespacial dos dois municípios vizinhos. Conseguiram inclusive chegar a conclusões sobre a especulação imobiliária e o preço da terra que determinava a variação do perfil residencial, descreveram a concentração industrial e a sua proximidade com os conjuntos habitacionais e apontaram empreendimentos novos e que destoavam na paisagem de Maracanaú como um grande hotel ali instalado, alguns prédios e um shopping center.

A geografia passa por esse trilho

Ainda empolgados com o passeio, pediram para refazer o caminho de volta até o centro. Queriam ver a parte subterrânea do metrô, um trecho que se inicia já nas proximidades das últimas paradas ao norte da linha.

Na minha avaliação, o resultado foi absolutamente positivo e permitiu maior aprendizado em torno de um tema que apesar de familiar é bastante complexo.

[1] Estruturas antigas que permanecem na paisagem, frequentemente com novas funções.

Texto: Adriana Martins (doutoranda em Geografia)

Professor, esse espaço é todo seu! Envie também seu relato de aula. Conte a sua história, experiências, divida conosco seus momentos!Alunos, comentem e divulguem esse espaço que é todo de vocês também! Já estou recebendo as homenagens para o dia do professor, viu? Caprichem nos poemas e declarações de amor!

Para envio dos textos: valeskinha.andrade@hotmail.com

Abraços, Valeska.

 

Valeska Andrade

Sobre Valeska Andrade

Formada em História pela Universidade Federal do Ceará e em Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará. Especialista em Cultura Brasileira e Arte Educação. Coordenou o Programa O POVO na Educação até agosto de 2010. Pesquisadora e orientadora do POVO na Educação de 2003 a 2010, desenvolveu, entre outras atividades, a leitura crítica e a educomunicação nas salas de aula, utilizando o jornal como principal ferramenta pedagógica. Atualmente, é professora de história da rede estadual de ensino. Pesquisadora do Maracatu Cearense e das práticas educacionais inovadoras. Sempre curiosa!!!

One thought on “A proposta de um novo olhar sobre a cidade através da geografia

  1. Parabéns a Professora Adriana Martins e ao Professor Tadeu que realizaram uma geografia escolar do movimento, uma aula que ultrapassa os muros da escola e sala de aula. Isso demonstra também uma preocupação em tornar próximo a prática docente acadêmica e escolar através do estudo do meio, metodologia tão utilizada nas disciplinas da graduação em geografia. Sabemos de todas as dificuldades que é realizar uma aula de campo, sobretudo nas escolas, essa experiência fortalece sim o espírito da pesquisa nos estudantes e professores.

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