A parcela mais vulnerável da população está sendo a mais castigada pelos três anos de estagnação e recessão seguidos

A parcela mais vulnerável da população, as crianças e os adolescentes, está sendo a mais castigada pelos três anos de estagnação e recessão seguidos. Mais pobres, desempregados e com a ameaça crescente da violência urbana, que mata mais os jovens, o futuro dessa geração está em risco. Pesquisa inédita da economista Sonia Rocha, do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets), constatou que a pobreza entre crianças e adolescentes de até 14 anos aumentou mais entre 2014 e 2015. Era de 25,8% em 2014 e passou para 29%. O avanço foi ainda maior quando se observa a faixa de pessoas de 15 a 19 anos, que agora tem 22,3% na pobreza, acima dos 17,9% do ano anterior:

— A conjuntura econômica piorou. Famílias com crianças dependem essencialmente do mercado de trabalho, que está muito ruim. E os benefícios voltados para as crianças são mais restritos e mais baixos que os para idosos — afirma Sonia.

As escolas — o caminho para ter uma chance de vida melhor — são pouco atraentes e acabam afastando os adolescentes, na avaliação do movimento Todos pela Educação. Dos 2,8 milhões de crianças e jovens que estavam fora da escola em 2015, 60,8% tinham entre 14 e 17 anos. E a taxa de frequência de quem tem 17 anos é de 74,3%. Inferior à presença de crianças de 4 anos (77,3%).

Quando deixam a escola para enfrentar o mercado de trabalho, a dificuldade aumenta. Na faixa de 14 a 24 anos, a taxa de desemprego já ultrapassou os 30%, o dobro da taxa média da força de trabalho, de 13,7%, no primeiro trimestre do ano. Há 1,265 milhão de adolescentes de 14 a 17 anos procurando trabalho, quase 10% do total de 14 milhões de desempregados. Uma faixa etária que deveria estar apenas nos bancos escolares e não na fila do desemprego. A taxa de desocupação para eles é de 45,2%, o dobro de antes do início da recessão, nos primeiros meses de 2014.

Especialistas em mercado de trabalho apontam duas razões para essa explosão nas taxas: o desemprego dos pais acaba empurrando os jovens para o mercado e a falta de experiência e de capacitação dificulta ainda mais a contratação.

— Quando vão dispensar, os escolhidos são os jovens, que têm menos experiência e vão fazer menos falta no processo produtivo. Se for estagiário ou aprendiz, os custos de demissão também são menores. O problema é que, ao mesmo tempo em que as portas se fecham, muitos precisam se lançar no mercado para ajudar a família. É uma minoria que pode, em tempos de crise, aproveitar a falta de oportunidades para investir em formação — afirma Maria Andreia Parente Lameiras, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

E a violência fecha o cerco em torno dessa população. Na média, há 29 homicídios para cada cem mil habitantes. Em países desenvolvidos, ficam entre 0,5 e 1 por cem mil. Na população de 15 a 29 anos, a taxa é de 60 por cem mil. Se forem homens, quase dobra: 113 mortes por cem mil.

— Em todo o mundo, os homicídios são maiores nessa faixa etária. O jovem é o ator principal sofrendo e cometendo crimes. O que difere no Brasil é o patamar. E o pico da taxa era aos 25 anos, hoje é aos 21. Estamos matando nossos jovens cada vez mais jovens — afirma Daniel Cerqueira, economista e especialista em segurança pública do Ipea.

Em busca de uma vaga desde os 14 anos

Morreram assassinados 318 mil jovens de15 a 29 anos entre 2005 e 2015, de acordo com os dados do Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde. Somente em 2015, houve 31.269 mortos. Apesar de significar cerca de 86 homicídios por dia, é um número menor que os 32.436 mil de 2014.

A família de Sabrina Graziele Coelho, de 35 anos, está sofrendo todos os efeitos da crise. Casada com Francinei Lopes da Silva, e mãe de Davi, de 15 anos, Beattriz, de 14 anos, e Cauã, de 9 anos, Sabrina perdeu o emprego em abril. O marido, em outubro. A renda minguou. Só sobrou o Bolsa Família, de R$ 202, que não dá para alimentar a família de cinco pessoas.

— Minha filha fica na escola o dia inteiro e agora está dormindo na casa da minha mãe. Davi está na casa da minha irmã. Eu só almoço. Pulo o café da manhã e o jantar. Muitas vezes, venho para a casa da minha mãe, que reúne toda a família. Aqui sempre tem comida — diz Sabrina na casa da mãe numa comunidade na Zona Norte.

Logo que saiu do emprego de cuidadora de um idoso, que morreu em abril, Sabrina comprou bijuterias para revender e conseguir comprar uma coisa ou outra que falta para os filhos e remédios. O cabelo do marido e do filho, ela mesmo corta:

— A escola não dá uniforme, e Davi só tem uma camisa. O frio vai aumentar, e preciso comprar outra camisa de manga comprida. Também falta material escolar. A escola não tem dado. Mas minha família ajuda muito. Um sempre dá apoio ao outro.

Produtividade ainda menor

Thamires Oliveira de Souza, de 18 anos, cresceu sonhando em cursar enfermagem, mas procura emprego desde os 14 anos. O pai é um pedreiro desempregado há dois anos e a mãe, empregada doméstica. Aluna do 3º ano do ensino médio de uma escola pública, procura estágio para tentar ajudar a pagar os cursos que vem fazendo para entrar em uma universidade pública. O pai faz bicos para custear um curso pré-vestibular e um básico de administração para a filha:

— É difícil não ter experiência, ter de estudar e procurar um trabalho ao mesmo tempo. Estou tentando vaga de estágio porque o dinheiro dos meus pais já está acabando e preciso me manter nesses cursos. Além de as vagas serem escassas, quando aparece algo, não casa com o horário das minhas aulas, é muito longe de onde moro ou pede inglês intermediário, que não tenho. Enquanto isso, cortamos qualquer luxo. Nada de comprar roupa ou calçado. Não podemos fazer dívida.

Para Maria Andreia, portas fechadas para jovens que precisam custear os próprios estudos podem comprometer a formação.

— Vai afetar a especialização de muitos adolescentes que têm como condição para a entrada na universidade ter um emprego — avalia.

Os impactos negativos na economia e na própria trajetória profissional desses jovens são inevitáveis, observa Bruno Ottoni, pesquisador na área de mercado de trabalho do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV):

— Quanto mais tempo uma pessoa fica sem emprego, mais ela demora para se inserir novamente no mercado. Quando falamos do primeiro emprego, isso é ainda mais grave. Atrasa a aquisição de experiência. Os anos vão passando, eles ficam mais velhos e sem experiência. Fases de desemprego alto e longos, como o que vivemos hoje, tornam mais precário o capital humano e fazem a produtividade média do trabalhador brasileiro, que já é baixa, cair ainda mais.

Ottoni avalia que a falta de formação dos recursos humanos pode atrasar a reação da atividade econômica.

— Vamos nos tornando menos produtivos, e a retomada da economia demora ainda mais. É uma condição que cria um círculo vicioso — afirma.

A educação para Sabrina é imprescindível. Os filhos nunca repetiram de ano na escola, e a filha Beattriz é medalhista de ouro de xadrez.

— Aqui em casa, ninguém pode tirar menos de 7. Davi está estudando à noite para tentar uma vaga de aprendiz durante o dia, mas ninguém contrata antes dos 16 anos — diz Sabrina.

Davi engrossa o universo de adolescentes desempregados, mas a formação está encaminhada. Não foi o caso de Sabrina. Trabalhando desde os 14 anos, concluiu o ensino médio e chegou a conseguir bolsa para cursar Gestão Ambiental:

— Mas não consegui cursar.

Na sala da casa da mãe, LPs antigos do irmão de Sabrina enfeitam a parede. É uma lembrança, pois ele morreu há 27 anos, assassinado aos 17:

— Meu filho mais velho fica na casa da minha irmã, onde há mais atividades oferecidas pela igreja. Ele faz luta, computação, toca teclado. Não está ocioso. Às vezes, os meninos veem que está faltando coisa dentro de casa, e o dinheiro é fácil lá fora.

Fonte: O Globo

Valeska Andrade

Sobre Valeska Andrade

Formada em História pela Universidade Federal do Ceará e em Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará. Especialista em Cultura Brasileira e Arte Educação. Coordenou o Programa O POVO na Educação até agosto de 2010. Pesquisadora e orientadora do POVO na Educação de 2003 a 2010, desenvolveu, entre outras atividades, a leitura crítica e a educomunicação nas salas de aula, utilizando o jornal como principal ferramenta pedagógica. Atualmente, é professora de história da rede estadual de ensino. Pesquisadora do Maracatu Cearense e das práticas educacionais inovadoras. Sempre curiosa!!!

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