Dúvidas no Divã

14.05.10 17:38

Sexualidade – por Joviane Moura

Por: Flávia Vieira | Comentários: Comente

A concepção psicanalítica da sexualidade embaralha as fronteiras entre o normal e o patológico, bem como prescinde da categoria de instinto sexual. Em Psicanálise a sexualidade está divorciada da sua ligação por demais
estreita com os órgãos genitais, sendo considerada como uma função corpórea mais abrangente, tendo o prazer como a sua meta e só secundariamente vindo a servir às finalidades de reprodução.

Em seu estudo autobiográfico Freud (1935) declara que poucos dos achados da psicanálise tiveram tanta contestação universal ou despertaram tamanha explosão de indignação como a afirmativa de que a função sexual se inicia no começo da vida e revela sua presença por importantes indícios mesmo na infância.

E contudo nenhum outro achado da análise pode ser demonstrado de maneira tão fácil e completa. Freud ainda neste livro declara que quando modificou a teoria do trauma infantil sendo levado a reconhecer que as cenas de sedução jamais tinham ocorrido e que eram apenas fantasias que os pacientes haviam inventado e que os sintomas neuróticos não estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas de desejos; ele abriu o caminho para o entendimento da sexualidade infantil.

Em Freud, a função sexual encontra-se em existência desde o próprio início da vida do indivíduo, embora no começo esteja ligada a outras funções vitais e não se torne independente delas senão depois; ela tem de passar por um longo e complicado processo de desenvolvimento antes de tornar-se aquilo com que estamos familiarizados como sendo a vida sexual normal do adulto. De início a função sexual é não centralizada e predominantemente auto-erótica.

A sexualidade começa por manifestar-se na atividade de todo um grande número de pulsões componentes; estas estão na dependência de zonas erógenas do corpo; atuam independentemente umas das outras numa busca de prazer e encontram seu objetivo, na maior parte, no corpo do próprio indivíduo.

Após a fase do auto-erotismo, o primeiro objeto de amor em ambos os sexos é a mãe, afigurando-se provável que, de início, uma criança não distingue o órgão de nutrição da mãe do seu próprio corpo. A sexualidade está divorciada da sua ligação por demais estreita com os órgãos genitais, sendo considerada como uma função corpórea mais abrangente, tendo o prazer como a sua meta e só secundariamente vindo a servir às finalidades de reprodução.

A homossexualidade pode ser remetida à bissexualidade constitucional de todos os seres humanos e aos efeitos secundários da primazia fálica. A psicanálise não se preocupa em absoluto com julgamentos de valor a respeito da sexualidade.

A maneira como as pulsões sexuais podem ser influenciados e desviados lhes permite ser empregados para atividades culturais de toda espécie, para as quais, realmente, prestam as mais importantes contribuições.

Em psicanálise o conceito do que é sexual abrange bem mais do que seu sentido popular. É reconhecido como pertencente à vida sexual todas as atividades dos sentimentos ternos que têm os impulsos sexuais primitivos como fonte, mesmo quando esses impulsos se tornam inibidos com relação a seu fim sexual original, ou tiveram de trocar esse fim por outro que não é mais sexual. (Freud, 1910)

A ausência mental de satisfação pode existir independente da abstinência de sexo. O coito é apenas uma forma de expressar a sexualidade, mas não a própria sexualidade. (Freud, 1910).

Loureiro (2005) diz que a psicanálise efetua uma verdadeira ruptura naquilo mesmo que até então se considerava sexualidade. Ao contrário dos discursos normativos da sexologia e da criminologia, que priorizavam a explicação com base em teorias da hereditariedade e da degenerescência, a concepção psicanalítica da sexualidade embaralha as fronteiras entre o normal e o patológico, bem como prescinde da categoria de instinto sexual (impulso pré-formado, comum à espécie como um todo, dotado de objeto e finalidade fixos), Freud usa o termo Trieb (impulso ou pulsão). A pulsao não implica nem comportamento pré-formado, nem objeto específico. O conceito de pulsão
demonstra as múltiplas, contingentes e mutantes feições que pode assumir a sexualidade humana.

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Flávia Vieira

Flávia Vieira

Psicóloga clínica e psicanalista, com CRP 11/02004. Graduada pela Unifor em […]

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