16.07.10 15:20
Psicossomática, olhar integrador sobre o homem
O desejo de compreender cada vez melhor as questões do paciente e o processo de adoecimento do homem conduziu a psicóloga Maria Rosa Spinelli para a Psicossomática, método que ela julga humanizador e afirma: “somos todos uma verdadeira integração corpo, mente, espÃrito e ambiente”
Por Rose Campos
Foi na década de 1980 que Maria Rosa Spinelli conheceu a Psicossomática. Participava de um congresso no Centro de Convenções Rebouças e se apaixonou pela abordagem. Já havia feito curso de calatonia com o professor Sandor, no Instituto Sedes Sapientiae, estudado Análise Transacional pela ALAT-Argentina, onde se qualificara como clÃnica. Fizera também análise corporal e trabalho em grupo com a Gestalt, mas foi na Psicossomática que encontrou a resposta que buscava na Psicologia.
Esses múltiplos interesses demonstram sua busca constante por atualização e conhecimento. Após a graduação, em 1976, pela Universidade Metodista de São Paulo, três especializações na Faculdade de Educação de São Caetano do Sul (SP) e mestrado em Psicologia ClÃnica pelo Núcleo de Psicossomática e Psicologia Hospitalar da PUC-SP, acaba de conquistar o tÃtulo de Doutora pela mesma instituição. Em 1992 foi convidada a integrar a diretoria da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, Regional São Paulo – ABMP-SP, onde foi secretária, diretora cientÃfica por duas gestões e diretora editorial do Jornal Paulistano de Psicossomática antes de se tornar presidente da instituição. Também ajudou a fundar a Associação Brasileira de Psicoterapia.
Hoje continua afiliada a várias associações de caráter cientÃfico e é membro do Conselho Administrativo de uma ONG em Ribeirão Bonito (SP) que combate a corrupção (www.amarribo.org). É professora e supervisora dos cursos de Psicologia e Psicossomática da ABMP-SP e da APM, professora no curso de Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho na FIA-USP, de Psicologia Hospitalar na PUC-Cogeae e de Psicossomática no NEPPHO e Instituto de Terapia Cognitiva-ITC. Lançou recentemente o livro Introdução à Psicossomática (Editora Atheneu, 2010, 286 páginas), como organizadora, cuja temática e discussões nortearam em grande parte a entrevista a seguir.
Psique: Qual definição de Psicossomática a senhora adota?
Maria Rosa: PsicanalÃtica winnicotiana, segundo a qual todo ser é psicossomático e toda atitude é psicossomática, pois somos uma verdadeira integração de corpo, mente, espÃrito e ambiente. Não existe, a não ser didaticamente, esta divisão em partes distintas do indivÃduo.
Psique: A Psicanálise está na base do conhecimento da Psicossomática. Continua sendo um saber imprescindÃvel ao seu exercÃcio?
Maria Rosa: Não. A Psicanálise praticamente iniciou o campo de estudo da Psicossomática, pois se buscava a compreensão do psiquismo e do inconsciente agindo em qualquer patologia fÃsica. Hoje, porém, são várias as abordagens da Psicologia que praticam a Psicossomática com muita propriedade. Em 1948, um livro sobre Patologia Psicossomática editado pela Asociacion Psicoanalitica Argentina já trazia vários artigos de abordagem junguiana sobre o tema; atualmente no Medline (site de busca para artigos cientÃficos), se buscarmos artigos de revisão de literatura sobre Psicossomática, encontraremos várias abordagens, como cognitiva, junguina, psicanalÃtica e também estudos da neurociência. Por outro lado, devo dizer que a visão geral do inconsciente sempre foi psicanalÃtica.
Psique: O movimento psicossomático surgiu em São Paulo, na década de 1960, para depois se disseminar por quase todo o paÃs. Como este conhecimento evoluiu no Brasil?
Maria Rosa: Com certeza São Paulo foi um dos grandes centros da Psicossomática e ainda o é. Porém, hoje temos outros locais em que se desenvolvem grandes trabalhos, como Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR) e Belo Horizonte (MG). Os primeiros a divulgar esse conhecimento foram os gastroenterologistas Prof. Dr. Helladio Francisco Capisano e Dr. Fernando Pontes, o endocrinologista Dr. Luiz Miller de Paiva e a psicóloga Noemi da Silveira Rudolfer, em São Paulo; no Rio de Janeiro tivemos Dr. Danillo Perestrello e Dr. Abram Ekterman, ao lado de associações da Argentina e Europa. Ao mesmo tempo, a Dra. Mathilde Neder iniciava (com alcance mundial) seu trabalho com a Psicologia Hospitalar, no Hospital das ClÃnicas de São Paulo, no setor de Ortopedia. Hoje a Psicossomática é campo de estudo em várias universidades do Brasil e possui cursos exemplares também em instituições como a ABMP-SP, o Instituto Sedes Sapientiae e o primeiro Núcleo de Psicossomática e Psicologia Hospitalar de pós-graduação strictu sensu da PUC-SP. O interesse na atua- lidade vem não apenas de médicos e psicólogos, mas também de outros profissionais de saúde e até de outras áreas, como Direito e Pedagogia.
Psique: Consegue vislumbrar se a Psicossomática está hoje mais presente na clÃnica médica ou psicológica?
Maria Rosa: DifÃcil dizer. A Psicossomática está tomando rumos descuidados, pois muitos se intitulam psicossomáticos sem ao menos saberem a verdadeira definição da palavra: ela é acima de tudo atitude, requer ação, resiliência, muito estudo, muita pesquisa, muito cuidado, a capacidade de ouvir a linguagem do paciente e de outros profissionais. Hoje a urgência das coisas, a liquidez das inter-relações, a massificação da mÃdia que determina atitudes modelo etc. estão confundindo as pessoas entre o que consiste ter expertise, serem profissionais bem preparados e éticos, e apenas usar o certificado para enganar o saber. São raros os profissionais da saúde que se dão ao trabalho de discutir e esclarecer com os pacientes as dificuldades levadas ao consultório e o melhor tratamento para os sintomas. Cada um age em seu espaço, sem ouvir o paciente e muito menos outro profissional. Isto é lamentável, e vejo acontecer tanto no âmbito da Psicologia como no da Medicina, assim como da Fisioterapia, da Odontologia, enfim, em todas as áreas da saúde.
Psique: Como define a tendência de aplicação dessa disciplina hoje?
Maria Rosa: A tendência é a integração de saberes, que deveria ser mais bem estudada e deve ser repensada. Creio que nem todas as universidades tenham condições de ministrar este curso, pois a formação exige, além de teoria, supervisões, discussões em grupo interdisciplinar e mente aberta para o novo, com o cuidado de não perder o foco cientÃfico. Não basta admitir que a relação corpo-mente existe ou mesmo a simples crença de que a mente controla o corpo. Argumentar que a pessoa faz a doença, por sua vez, só promove a culpa e ainda dificulta o tratamento. Em minha opinião os estudos têm de abranger a evolução humana desde o princÃpio, quando o homem era visto de modo mais integrado à natureza, e talvez a Antropologia possa colaborar neste aspecto.
Psique: A senhora enfatiza a questão da interdisciplinaridade. Qual a importância para a abordagem psicossomática e de que modo ela se aplica na prática?
Maria Rosa: A interdisciplinaridade é considerada hoje, pelos estudiosos da área, uma evolução no campo da saúde. Na prática este princÃpio começa pelo conceito de eu. Afinal, somos uma série de sistemas que se compõem como intersistemas. Mas nossa cultura nos molda a pensar o indivÃduo de modo sectário. Adotar um pensamento integrativo requer, então, muito treino e o contato com estudos que validem esta abordagem. Uma técnica conhecida e que ajuda bastante é a Grupos Balint. Costumo utilizá-la em supervisões de grupos multiprofissionais. Um rápido exemplo prático do uso da interdisciplinaridade: recebi uma paciente de 18 anos com a queixa de retocolite ulcerativa, o que a impedia de sair de casa e até da cama, devido ao quadro de diarreia sanguinolenta. Um médico, muito ético, acompanhava o caso. A paciente chegou, ao consultório, fraca e pálida, amparada pela mãe. O tratamento evoluiu para a melhora, porém a paciente começou a apresentar pânico em relação aos exames, questão também bastante trabalhada em terapia. Num dado momento, resolvida esta questão, a cliente começou a ficar deprimida, por questões que emergiam na psicoterapia. O médico então me ligou informando que a moça deveria tomar um antidepressivo, pois a retocolite poderia piorar diante deste quadro emocional. Minha opinião, no entanto, era que o uso do medicamento poderia bloquear os sentimentos contidos, provavelmente desencadeantes da doença. “Você assume a responsabilidade?”, o médico perguntou. “Não. Nós assumiremos a responsabilidade”, respondi, sugerindo que também a cliente tomasse parte da decisão, pois tinha plena consciência de seu estado emocional e fÃsico. Assim, sentamos eu, o gastroenterologista e a cliente, cada um expondo seu ponto de vista e ouvindo o outro com atenção. Ela nos ouviu e optou por não tomar medicamentos naquele momento. As sessões semanais de psicoterapia foram aumentadas e felizmente a paciente superou muito bem a crise. Este é um exemplo claro da importância da interdisciplinaridade e é evidente que se eu percebesse que a paciente não aguentaria o estado depressivo, com certeza sinalizaria a necessidade de medicação.
Psique: Existem doenças ou grupos de doenças que podem ser identificados como psicossomáticos?
Maria Rosa: Absolutamente todo processo de enfermidade pode ser abordado sob o referencial da Psicossomática, quando consideramos que o indivÃduo é integrado e não separado em partes.
Psique: De que forma o estilo de vida atual contribui para o fenômeno da dissociação mente-corpo e qual o impacto disso na formação das doenças?
Maria Rosa: Nossa! Isto daria um artigo… (risos). Bem, vou tentar resumir. Estamos neste momento passando por transformações sociais, éticas, morais, educacionais e poderia te dizer que existe mais de um modelo para a famÃlia, que é a base da sociedade e das instituições. Da religião ao molho de tomate na prateleira no supermercado, para tudo as opções disponÃveis são inúmeras e não temos mais certeza do que escolher. Do mesmo modo, uma avalanche de informações chega até nós de maneira tempestuosa e contÃnua, pelas mais variadas mÃdias, das mais tradicionais à modernidade dos blogs. Se ficou mais fácil estar informado do que saber escolher, pensar e refletir, então é melhor copiar? A mÃdia dita a moda e determina que corpo devemos ter. E nosso maior medo é o de perder poder aquisitivo, pois dinheiro é o que nos permite ter. Comprar nos torna bonitos e temporariamente felizes. Só não podemos envelhecer e perder a identidade social. Aà o que sobra é o vazio, a depressão, a angústia, porque o interno, composto pela identificação apaixonada do existir se esvaiu. Diante disto acontece o que se chama de psicossomatose, são patologias mentais que derivaram deste ambiente atual. A violência se tornou banal e as drogas se vulgarizaram. O indivÃduo pode frequentar academia, consumir apenas alimentos integrais ou seguir uma dieta vegetariana, praticar yoga, esportes, mas ainda que aparentemente cuide-se bem, esboça reações desproporcionais se, por exemplo, alguém encosta acidentalmente em seu carro no estacionamento do shopping, e talvez parta para a ameaça ou mesmo para a agressão. Isto é patologia, falta de identidade humana, dissociação e doença.
Psique: Como podemos definir resiliência e o que explica, grosso modo, que alguns indivÃduos tenham essa capacidade mais desenvolvida que outros?
Maria Rosa: Quem melhor explica este conceito no livro é a psicóloga e analista junguiana Ceres de Araújo. Segundo suas próprias palavras: “Resiliência, do ponto de vista das ciências humanas, é a capacidade para enfrentar e superar as adversidades da vida e sair fortalecido desta experiência. É um potencial humano universal, presente em indivÃduos de todas as culturas e em todas as épocas e é parte do processo evolutivo do desenvolvimento, podendo ser promovida desde o nascimento. Alguns indivÃduos têm tal capacidade mais desenvolvida, talvez por terem tido a oportunidade de experimentar enfrentamentos de adversidades exitosos desde o inÃcio da vida, o que lhes deu mais confiança em suas competências, ou talvez por terem tido uma forma de criação em que foram vistos e reafirmados como pessoas de valor. Assim, a superproteção é o que menos favorece o desenvolvimento desta capacidade.”
Psique: Como é possÃvel desenvolver a resiliência por meio do processo terapêutico?
Maria Rosa: Novamente recorro à fala da Ceres para definir que se trata de diminuir a estruturação defensiva e favorecer a estruturação criativa do sujeito. Fortalecer o ego é fortalecer a capacidade de resiliência. A terapia ajuda a regular as emoções, controlar adequadamente os impulsos, ganhar uma noção de si mesmo mais realista: conhecer as próprias competências e limitações, incentivar movimentos de afirmação no mundo, abraçar o otimismo e a esperança, lidar melhor com frustrações e tensões.
Psique: Já no prefácio do seu livro a Prof. Dra. Maria Margarida Moreira Jorge Carvalho, personalidade iminente na Psicooncologia brasileira, elogia seu desempenho como primeira mulher e psicóloga à frente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática – SP. Qual foi seu principal desafio?
Maria Rosa: A Magui, como a chamamos, foi e é uma grande amiga e colaboradora e sempre prestigiou meu trabalho, pelo que sou muito grata. Quanto à escolha da minha candidatura à presidente da Regional São Paulo, ela foi feita pelos próprios médicos e psicólogos que compunham então a diretoria a ABMP-SP. A princÃpio foi difÃcil, pois a Associação tinha uma dÃvida imensa decorrente da realização do congresso nacional anterior e quando fiz a proposta de pagá-la, honrando a nossa identidade institucional, metade da diretoria se afastou. Ficamos então com quatro elementos diretos na gestão, responsáveis por discutir e fazer tudo. Minha gestão foi transparente. Conseguimos montar a sede e registrar todos os associados e seus cursos. Fizemos o site da ABMP-SP (www.psicossomatica-sp.org.br), que permaneceu na primeira página do Google (mecanismo de busca) durante anos. Montamos uma biblioteca e uma videoteca, realizamos o III Congresso Paulista de Psicossomática, o simpósio As Várias Faces da Cura, quatro encontros de Estudos Avançados em Psicossomática, participamos como instituição de vários congressos nacionais e internacionais de Medicina e Psicologia. O principal desafio foi montar nossa sede dando a ela uma identidade autônoma. Houve reveses, como a saÃda de associados (mas muitos deles retornaram, quando viram a seriedade do trabalho), até chantagem e recebimento de carta anônima. Meu maior orgulho é ter colocado a ABMP-SP entre as melhores associações de São Paulo, com o respeito que ela sempre mereceu e creio que a maior marca que deixei foi a identidade organizacional da ABMP-SP, desvinculada de nomes, algo que também agradeço muito à diretoria que esteve comigo até o fim, contribuindo para a seriedade e a transparência da gestão.
Psique: As neurociências têm evoluÃdo muito, notadamente a partir da chamada Década do Cérebro (1980). Essa evolução se reflete na Psicossomática?
Maria Rosa: Sem dúvida, no entendimento de processos mentais e compreensão fisiológica daquilo que já se percebia na Psicologia e que a Psicossomática aceitava e denunciava, baseada, porém, principalmente em pesquisas qualitativas, não muito aceitas pela ciência. A neurociência passou a ser um dos campos de estudo em Psicossomática, mas é importante salientar que ela apenas descreve aquilo que já era observado, agora com respaldo da Fisiologia. Um exemplo é a descoberta dos neurônios-espelho, o que traz novas maneiras de se estudar a reverberação usada por Freud, a simpatia, a empatia, uma nova maneira de tratar o autista e de considerar a importância do meio ambiente.
Psique: De que modo a Psicossomática pode ser explorada preventivamente?
Maria Rosa: A prevenção a doenças pode ser feita primeiro pela retirada do preconceito quanto à emoção. O indivÃduo ainda comete o erro de resistir a ela. O equilÃbrio, no entanto, vem de sabermos contrapor o lado racional ao afetivo, conhecer o que nos afeta e de que modo, sabermos regular este processo de bem e mal e sermos menos influenciados pela defesa emocional do outro. Deixar de nos considerar como vÃtimas e perceber que adoecer não é culpa nem punição, mas é nosso pior mecanismo de defesa, algo porém que faz parte do processo de vida: saúde/doença. Enfim, aprender a sentir corpo/mente deveria ser uma disciplina escolar, afinal, conhecendo-nos melhor não precisarÃamos nos enlutar tanto.
Psique: E o maior desafio para o desenvolvimento da Psicossomática na atualidade?
Maria Rosa: Colocar a Psicossomática como um curso de formação e não apenas acadêmico; e num futuro próximo tentar estabelecer com ela uma nova maneira de ver a ciência. No aspecto pessoal, podemos saber antes se vamos enfartar (risos). A verdade é que se crescermos mais como pessoas, poderemos fazer muito mais por nossos pacientes. Eles passam a ser vistos como um todo e poderemos compreendê-los sem a contaminação da intelectualidade. Por fim, poderemos descobrir com mais facilidade que muitas vezes a maior ajuda poderá não vir de nós, mas de algum colega de outra área da saúde.
FONTE: http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/55/artigo177929-4.asp
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