Dúvidas no Divã

29.09.10 10:23

ANTONIN ARTAUD: O ARTESÃO DO CORPO SEM ÓRGÃOS

Por: Flávia Vieira | Comentários: Comente

LINS, Daniel. Antonin Artaud: O artesão do Corpo Sem Órgãos. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1999.

Daniel Lins conta a vida de Antonin Artaud e reproduz também, neste livro, algumas passagens preciosas dos escritos de Artaud, como o famoso “Suicidado pela sociedade”, em que descreve a morte de Van Gogh. “GULOSEIMAS ENVENENADAS” Sobrevivente de uma grave meningite na infância, Antonin Artaud (1896 Marselha, 1948 Ivry) lembra que, para que aceitasse os remédios, estes eram administrados com açúcar. Doces drogas…  Talvez por causa dessa enfermidade precoce, ou talvez por causa da morte de duas irmãs ainda bebês (“tive três filhas, um dia estranguladas”…), sua relação com a mãe foi muito importante, tanto de amor quanto de ódio. Crises de cólera, autoritarismo, agressões mútuas, fazem parte de sua biografia em uma infância entremeada por convulsões, dor e sonambulismo.

Sobre o pai, Antonio-Rey, Artaud disse: “Vivi até os vinte e sete anos com ódio obscuro do Pai, do Meu pai particular. Até o dia em que o vi falecer. Então esse rigor desumano, com que eu o acusava, me oprimia, cedeu. Deste corpo saiu outro ser. E, pela primeira vez na vida, esse pai me estendeu os braços. E eu, que estou atormentado por meu corpo, compreendi que ele havia estado toda vida atormentado por seu corpo e que há uma mentira do ser contra a qual nascemos para protestar”. Édipo acorrentado…

Inventor do Teatro da Crueldade, Artaud era poeta e artista surrealista. Muitas vezes adorado, aplaudido, outras tantas odiado, vaiado. Via o mundo com olhos de E.T. Este distanciamento que permite estranhar as coisas já estabelecidas como “normais”. (Como seria bom se todos conseguissem manter este dom…).

Em 1932, fez uma adaptação do “Atreu e Trieste”, de Sêneca, que intitulou “O suplício de Tântalo”. Seria esta, segundo ele mesmo, a primeira tentativa teatral de uma ordem nova e revolucionária.

É emocionante a clareza que tinha Artaud sobre a questão do poder médico e a relação médico-paciente nas instituições psiquiátricas. O artigo de Artaud sobre os tratamentos que sofreu continuada e infrutiferamente é chocante. Neste, ele relata como foi submetido a dezenas de eletro-choques e como foi esquecido durante os anos da segunda grande guerra mundial: “No hospital de Rodez eu vivia sob o terror de escutar uma frase: – O senhor Artaud não comerá hoje, vai para o eletro-choque”. Sei que existem torturas mais abomináveis… O que é atroz é que em pleno século XX um médico possa se apoderar de um homem e, com o pretexto de que está louco ou débil, fazer com ele o que lhe apraz. Eu padeci cinqüenta eletro-choques, quer dizer, cinqüenta estados de coma. Durante muito tempo, estive amnésico. Tinha esquecido inclusive de meus amigos… Já não reconhecia nem Jean Louis Barrault… Estou com asco da psicanálise, deste freudismo que sabe tudo!”.

Daniel Lins conta-nos, também, que Artaud previu sua morte com exatidão. “Sei que tenho câncer. O que quero dizer antes de morrer é que odeio os psiquiatras.” Antes de morrer, de câncer, segundo consta em sua biografia, ingeria Cloral (hipnótico) para encontrar alívio das dores do corpo e da alma.

Sobre sua morte, escreveu Jean Marabini1: “Habitava um quarto isolado, no que fora o antigo pavilhão de caça de algum Orleães. Estava estendido ao pé de uma imensa lareira sobre um xergão. Na parede, uns desenhos fulgurantes seus, que recordavam os esboços de Van Gogh, lia-se: “Até que tom de sangue iremos juntos?” “O tom de sangue irá até o negro”, ele mesmo respondeu.

 Ligia Gomes Victora

 1 Marabini, J. Artaud. In : http://www.lamaquinadeltiempo.com/Artaud/artacron.htm

FONTE:  C. da APPOA, Porto Alegre, n. 149, agosto 2006.

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Flávia Vieira

Flávia Vieira

Psicóloga clínica e psicanalista, com CRP 11/02004. Graduada pela Unifor em […]

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