20.07.10 11:33
“Sofro ataques de pânico desde os 11 anos”
Olá pessoal, achei muito interessante este depoimento de uma leitora da revista Marie Claire sobre medo e pânico. Compartilho com vocês.
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Por Letícia GonzálezEu tinha apenas 11 anos quando senti pânico pela primeira vez. Estava em viagem com a minha família e, não poderia imaginar, mas aquela seria a primeira de uma série interminável de crises. Aconteceu durante a travessia do Canal da Mancha, entre a França e a Inglaterra. Por azar, chovia no dia e a embarcação balançou muito. Isso despertou um medo que até então era discreto em mim: o de me sentir enjoada e vomitar a qualquer momento.
Comecei a sentir dor de cabeça e só pensava se ia vomitar ou não. O medo era muito forte. Comecei a chorar e me agarrei à minha mãe. Fiquei chorando durante todo o trajeto e só comecei a me acalmar quando vi que estávamos chegando. As pessoas do grupo que nos acompanhava na viagem me olhavam sem entender e eu tive um pouco de vergonha, mas não podia controlar o meu nervosismo.
A partir desse dia, passei a estar alerta todo o tempo. Tentava descobrir o que faríamos durante o dia, em que local comeríamos e se teríamos outros passeios de barco, tudo para calcular as chances de me sentir mal. Tive crises de pânico quase todos os dias da viagem. Elas começavam nos hotéis, quando ainda não havíamos saído, e seguiam uma mesma sequência difícil de compreender: eu começava a chorar e pedia ajuda. Dizia apenas “Mãe, tenho medo”.
Meus pais e minha irmã não entendiam o que estava acontecendo e, a cada nova crise que eu tinha, ficavam um pouco impacientes. Meu comportamento estava atrapalhando as férias de todos e eu me sentia envergonhada, agindo como uma criança mimada. Mas era inevitável. O medo começava aos poucos e ia ganhando amplitude até me paralisar. O engraçado é pensar que o problema não tinha uma conexão direta com a realidade, pois eu não me sentia enjoada com frequência. Mesmo na travessia, não cheguei a vomitar. Ainda assim, o medo de fazê-lo me dominava.
Hoje sei que ele está relacionado a uma virose que contrai poucos meses antes da viagem. Na ocasião, fiquei doente e vomitei muito. Essa lembrança me acompanhou durante todos esses anos e, mesmo depois de fazer terapia e saber que o nome dado ao meu problema é “pânico”, eu, se pudesse, catalogaria simplesmente por “medo de vomitar”.
Na volta ao Brasil, comecei a fazer terapia e, pouco tempo depois, mudei de colégio, o que me trouxe mais ansiedade. Nunca me senti conectada com o mundo e, desde pequena, ficava muito em casa, sendo a escola minha única atividade. Ir a um lugar longe de meus pais e da segurança da minha casa sempre foi um sofrimento.
Uma manhã, o meu pior pesadelo ocorreu. Uma das meninas da minha classe teve um mal-estar e vomitou no cesto de lixo que estava à minha frente. Eu estava sentada na primeira fila e ela tentara em vão chegar à porta da sala, então presenciei a cena a centímetros de distância. Na época, eu já entendia que aquilo poderia se transformar em mais uma crise. Fiz de tudo para me distrair pois ainda tinha uma longa manhã pela frente. Me concentrei nos exercícios, mantive a mente ocupada e consegui voltar para casa calma, apesar de a cena se repetir inúmeras vezes em minha mente. Achei que tivesse vencido a ansiedade mas, no fim da tarde, inesperadamente, entrei em pânico. Chorei por mais de uma hora, sem conseguir me acalmar.
Tive crises frequentes até a 8ª série. No 1º ano do ensino fundamental, as coisas começaram a mudar em minha vida. Me aproximei de uma colega de classe e ficamos muito amigas. Ao mesmo tempo, me desliguei dos estudos e minhas notas, que sempre foram excelentes, despencaram. Vivi um período de rebeldia, mesmo sem sair à noite ou cabular as aulas. Aos poucos, a culpa por estar decepcionando meus pais foi ficando grande demais e, sem perceber, entrei em depressão. Quando os professores começaram a mencionar o vestibular, imediatamente senti uma pressão enorme. Eu não me sentia preparada para as responsabilidades da vida adulta: era completamente dependente dos meus pais, não saía sozinha, não andava de ônibus, não sabia nomes de rua e não comprava nada sem ajuda.
No ano seguinte, a situação se agravou. Eu estava cada vez mais ausente dos estudos e comecei a não ver sentido nas coisas ao meu redor. Cheguei ao limite quando, em uma tarde, peguei uma faca da cozinha e levei para meu quarto. Comecei a fazer cortes no antebraço direito pois me sentia culpada por não ter sido uma boa aluna, uma boa filha. Fiz isso também porque a dor dos cortes me distraía da dor que estava sentindo dentro de mim. Já estava bastante machucada quando vi que tinha ido longe demais. Eu não queria morrer: apesar do sofrimento, algo me prendia com muita força à vida. foi então que chamei minha mãe e mostrei a ela os meus cortes. Ela me ajudou com os curativos e me deu um banho. Depois desse momento, vi que ela entendeu que o meu problema era real e não uma questão de rebeldia. Eu precisava de ajuda.
Nessa época eu já estava em recuperação no colégio e perigava perder o ano. Minha mãe disse que eu poderia fazer os exames que restavam, mas que não deveria me preocupar com os resultados. Depois desse episódio, minha doença ganhou outra dimensão dentro de casa. Pedi aos meus pais que me deixassem ter um ano sabático, sem frequentar as aulas ou ter qualquer atividade, e eles concordaram. Durante todo o ano seguinte, minha rotina se resumia a ficar em casa assistindo a séries de televisão. Eu acordava mais tarde que o resto da família, por volta das 10h, tomava café da manhã e voltava para o meu quarto. Saía para almoçar e, de vez em quando, acompanhava minha mãe ao supermercado. Como ela é dona de casa, estava sempre presente e eu não me sentia sozinha em nenhum momento. Nesse período, eu não pensava na vida, não pensava no futuro e não fazia planos. Queria aproveitar o ano que meus pais me haviam concedido e não sentir pressão alguma. Vivi em uma bolha superprotetora, sem ter consciência de que a independência é algo que se constrói.
Não só o medo de vomitar me acompanhou durante todos esses anos. Desde 2001, quando minha irmã teve um problema renal, cólicas nessa região do corpo entraram para a minha lista de medos. Há três anos, esse temor me levou a uma noite de muito sofrimento. Tive uma dor nas costas e, como acontecia quase sempre nessa situação, entrei em pânico. Tomei dois comprimidos de Valium, que costumava me tirar das crises, mas não funcionou. Minha mãe me deu um banho quente por indicação do meu psiquiatra e mesmo assim o meu pavor persistia. Meus músculos estavam tão contraídos que enrijeceram. Senti câimbras nos braços. Finalmente, após três horas - que mais me pareceram uma eternidade - meus pais me levaram ao hospital. Me lembro de sentir muita vergonha enquanto esperava o remédio que o médico havia me indicado fazer efeito. Ao meu redor havia pessoas com muita dor enquanto eu estava chorando incontrolavelmente por medo. Hoje, depois de anos de terapia, consegui entender que uma crise pode vir disfarçada como um medo banal quando, na realidade, ela é resultado do acúmulo de sentimentos não resolvidos.
Quando meu ano sabático terminou, voltei a estudar e concluí o ensino médio em um curso supletivo. Prestei vestibular e comecei a faculdade de psicologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, mas abandonei no ano passado. Percebi que gostava apenas das teorias e como eu podia relacioná-las com a minha história. Não queria me tornar uma psicóloga.
Hoje, minha rotina envolve aulas de ioga, academia, terapia e tarefas domésticas. O ioga e a academia são momentos que eu dedico a mim mesma, e as tarefas domésticas envolvem minha responsabilidade e minha busca por independência. Ainda é difícil me relacionar com as pessoas, mas comparando com a encruzilhada existencial em que me encontrava no passado, hoje estou bem melhor. Em 2009, tive apenas três crises de pânico.
Em compensação, nunca namorei ninguém. Não me sinto preparada. Já tive curiosidade, mas na adolescência, sempre que os assuntos entre os amigos ficavam mais “adultos”, me esquivava. Eu queria permanecer no meu mundo infantil. Quando comecei o curso pré-vestibular, logo no primeiro dia de aula levei uma cantada. Um menino veio falar comigo no intervalo e, sem pudores, perguntou se eu tinha namorado. Aquilo me assustou. Respondi que não e ainda completei: “não estou pensando nisso no momento”. Eu até gostaria de encontrar alguém, mas preciso amadurecer muito ainda. Tenho essa propensão de querer agradar ao outro, como sempre quis agradar a meus pais, e fico com medo de repetir esse comportamento com um namorado.
Agora, aos 21 anos, passo o meu tempo a construir a minha independência. Então eu não estudo, nem trabalho, nem saio para balada. Mas sou feliz, apesar de sentir medo do julgamento da sociedade e do futuro. Aprendi que eu tenho o meu próprio tempo. E, se cada um tem seu tempo de evolução, não há hora certa para se começar um trabalho sobre si. Não quero encarar meu sofrimento como um vilão. Não quero tampouco extinguir meu medo, afinal ele existe em nós humanos por uma questão de sobrevivência. Ele nos alerta para situações de perigo seja ele físico ou emocional. Quero simplesmente colocá-lo em seu devido lugar. Hoje tenho vontade de viver, apesar do medo de enfrentar situações que possam me machucar. Hoje eu gosto de mim, hoje eu me amo. Esta é uma história de esperança, mas não tem um final feliz. Eu prefiro dizer que ela é a base para um começo feliz.
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Comentários | 8 Comentários
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jessica 27.08.10 | 02:03
incrivel, eu sinto panico mas nao é bem assim.
tenho panico de viajar, sempre antes das viagens eu fico enjoada achando que vou vomitar.
se é com meus pais ou meu namorado dirigindo nao fico preocupada, mas se for com qualquer outra pessoa fico muito mau, variando de 1 dia antes da viagem a 1 semana antes.
onibus eu simplesmente tento evitar o maximo possivel, fico só pensando nas pessoas que vao vomitar ou se eu ficar mau aonde eu vou, pq nao me imagino indo no banheiro que é extremamente nojento e me deixa enjoada só de pensar. eu estou fazendo faculdade e tem viagens anuais só que eu tenho medo de perder tudo por medo de viajar. nao faço ideia dooque eu posso fazer pra tratar isso ~;
Flávia Vieira 27.08.10 | 08:29
Olá Jéssica,
Quando nossos medos começam a atrapalhar nossa vida, quer seja no âmbito profissional, social ou afetivo, é importante buscar algum tipo de ajuda profissional. Já pensou em fazer psicoterapia? Penso que seria interessante você pensar sobre isso. Um espaço onde você poderá trabalhar todas essas questões que de infomodam. Busque se informar mais sobre isso. A psicologia possui diversas abordagens, mas todas elas buscam o bem-estar do paciente.
Espero ter ajudado!
Flávia
TATIANE 03.09.10 | 12:20
OLA MEU NOME É TATIANE, EU TBM TENHO SINDROME DO PANICO EU ACHO ESTA FOBIA HORRIVEL EU NÃO GOSTO DE PEGAR ONIBUS POIS ACHO QUE VOU PASSAR MAL, OS MEDICOS JA NÃO AGUENTA MAIS ME VER POR LA RS MAS É VERDADE POIS QUANDO ENTRO EM CRISE PENSO QUE VOU MORRER OU ENLOUQUEÇER É HORRIVEL TENHO MEDO DE ANDAR SOZINHA E AS VEZES DO NADA FICO TONTA NOSSA NÃO DESE JO ISTO A NINGUÉM BOM ESTOU TOMANDO PAROXETINA ESPERO MELHORAR LOGO BOM ESTE É MEU DEPOIMENTO NÓS QUE TEMOS ISTA SINDROME TEMOS QUE NOS AJUDAR BEIJO LUZ NO CORAÇÃO.
Flávia Vieira 03.09.10 | 12:40
Muita luz pra você também, Tatiane. Estamos aqui para compartilhar nossas inquietações, angústias e, de repente, nos movimentarmos como sujeitos.
Grande abraço!
Irene 10.06.11 | 00:12
preciso de ajuda,toda vez que estou de férias,gostaria muito de viajar,noentanto eu não consigo o me da vontade de chorar,deixo de comer parece que vou morrer o meu corpo,parece doer tanto,Fico pensando porque comigo todos viajan e eu não consigo me ajude por favor.
Ansiedade e Pânico 13.06.11 | 10:35
Para quem procura tratamento para a síndrome do pânico aqui vai a sugestão http://www.sempanico.com/
o autor é Joe barry ele tem tratamento para qualquer tipo de pânico sem tomar remédios.
to usando a técnica dele há pouco tempo e já to vendo um certo grau de melhora. Pelo menos os sintomas estão diminuindo.
meus pânicos davam em lugares fechados como elevadores e ônibus e também quando eu acordava com o telefone tocando… nossa parecia que o coração ia sair pela boca.
Flávia Vieira 12.07.11 | 11:37
Obrigada por sua colaboração!
Flávia Vieira 25.07.11 | 17:31
Olá, é muito importante que você procure ajuda profissional para te dar suporte necessário para que você enfrente esse sintoma tão difícil. Quando nossos sintomas atrapalham nosso dia-a-dia, é necessário buscar um profissional.
Procure um psicólogo, acredito que será muito produtivo para você.
Conte conosco!
Flávia