O POVO Online – Dúvidas no Divã

Sobre a morte e o morrer – por Rubem Alves

Postado em 29 de julho de 2010 às 14:13 por Flávia Vieira

Imagem extraída de google images


O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define?

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora…

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar…” Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto…”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa…”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados “recursos heróicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei…”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.

Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12/10/03. fls 3.

FONTE: http://www.releituras.com/rubemalves_menu.asp

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Como afastar os jovens do mundo das drogas

Postado em 28 de julho de 2010 às 15:14 por Flávia Vieira

O crack – a droga mais perigosa da atualidade – invadiu a classe média. Uma pesquisa inédita mostra que as famílias não sabem onde obter ajuda. O que fazer para salvar os dependentes
Rodrigo Turrer e Humberto Maia Junior
Imagem de www.revistaepoca.globo.com

www.revistaepoca.globo.com

 
DEGRADAÇÃO
A montagem sobre a foto de um modelo simula os efeitos de alguns anos de uso de drogas

Foram quatro anos sob os efeitos de maconha, cocaína, ácido lisérgico, ecstasy, crack e até chá de fita cassete – uma “droga” a que os dependentes recorrem para suportar crises de abstinência. A triste viagem de Renan começou na casa da família, num bairro de classe média em São Paulo, e o levou ATÉ a favela Paraisópolis, a segunda maior da capital paulista.

“Lá eu estava onde eu queria, com a galera, e me drogava direto”, diz. Seus pais, Alda e Eli, haviam tentado impor limites para afastá-lo da dependência. Primeiro, conversaram. Depois, proibiram o filho de usar o carro, cortaram a mesada, estabeleceram horário para que ele chegasse em casa. Eles não eram novatos no assunto. Antes de Renan, o caçula da família Larizzatti, outros dois filhos do casal haviam passado por problemas semelhantes. “Com três filhos usando drogas, vi que era o fundo do poço”, diz Alda. O casal decidiu internar o mais novo, então com 22 anos. Antes de ser levado para uma clínica de desintoxicação, Renan fez uma ameaça aos pais: “Quando sair, eu mato vocês”. Três anos e dois meses depois do último contato com as drogas, Renan ajuda a família na casa lotérica que os sustenta. “Hoje, se eu matar meus pais, só se for de amor”, afirma.

Histórias como a dos Larizzattis ocorrem em muitas famílias. Às vezes, porém, o desfecho é trágico. Em 2009, a consultora aposentada Flávia Costa Hahn, de 60 anos, moradora de um bairro nobre de Porto Alegre, matou seu único filho, Tobias Hahn, de 24 anos. O rapaz consumia crack desde os 18 anos. Em abril do ano passado, depois de passar três noites em claro fumando crack, Tobias voltou para casa para pedir dinheiro. Flávia conta que discutiu com o filho, foi agredida e, para tentar se defender, pegou um revólver da coleção de armas do marido. A arma disparou e atingiu Tobias no pescoço. Ele morreu na hora. Em outro caso dramático, o músico Bruno Kligierman, de 26 anos, um jovem de classe média alta morador da Zona Sul do Rio de Janeiro, sufocou até a morte a amiga Bárbara Calazans, de 16. Ele havia consumido crack a noite toda. Seu pai, o poeta Luiz Fernando Prôa, o entregou à polícia.

Para dependentes de drogas, raramente há uma saída fácil. Internar o filho drogado, como fizeram os pais de Renan, é um recurso extremo, que até pouco tempo atrás era definido como exagerado. Para os Larizzattis, a decisão provou ser correta. Não só porque ele venceu a dependência. “Os pais de hoje têm medo de agir, estabelecer regras ou proibir”, afirma Luiz Fernando Cauduro, vice-presidente da ONG Amor Exigente, que ajuda famílias nessa situação. “Esse medo tem de ser rompido. Ele leva a família a não tomar uma atitude – e isso pode tornar o caso crônico.”

Medidas exageradas podem levar o usuário de
drogas a ficar mais tempo nesse universo

Mas o que fazer quando mesmo uma atitude mais dura da família não basta? Em 2005, a funcionária pública Sônia (nome fictício) descobriu que seu filho mais novo, então com 13 anos, era usuário de drogas. Sônia, o marido e outros dois filhos viviam num condomínio de classe média alta no interior paulista. O caçula havia começado a fumar maconha aos 11 anos, com amigos. Seu rendimento escolar despencou, ele trocou de amizades e se distanciou dos irmãos. “Achei que era um problema da idade, da adolescência”, diz Sônia. “Só percebi que eram as drogas quando antigos amigos dele me falaram que ele estava andando com uma turma barra-pesada.” Sônia procurou ajuda onde pôde. “Pesquisei na internet, em serviços públicos, paguei psicólogos, terapias, até a igreja eu procurei”, diz. A família decidiu tirar o filho da escola para distanciá-lo das amizades e vigiá-lo de perto. Ficava sob os cuidados do pai, vendedor de joias, que o levava até nas viagens de negócios. Em 2007, Sônia internou o filho em uma clínica para dependentes ligada a religiosos. O tratamento era baseado mais em ações espirituais do que terapêuticas, e não teve resultado. “Foi um tiro no pé, havia gente mais velha, e ali ele aprendeu tudo sobre as drogas.” Sônia decidiu então mudar de cidade. “Queria afastá-lo de tudo o que havia acontecido.” No começo, a estratégia deu certo: o filho passou um ano sem se drogar, começou a trabalhar em um pet shop e pensava em voltar a estudar. Mas houve uma recaída. Hoje, aos 17 anos, o caçula de Sônia está internado. Pela segunda vez, ele tenta largar o vício.

Os resultados distintos das experiências de Sônia e da família Larizzatti no combate às drogas mostram que não existe um método infalível. A internação numa clínica só deve ser considerada quando outras abordagens falham. “Os pais devem saber conversar com os filhos”, diz a psicóloga Lulli Milman, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), autora do livro Cresceram!!!: um guia para pais de adolescentes (Editora Nova Fronteira). “Quando descobrem que o filho fumou maconha na festa de sábado, alguns pais amplificam a questão e tratam o garoto como se fosse um traficante”, diz. Para ela, uma medida exagerada pode levar o filho a ficar por muito mais tempo no universo das drogas. Rejeitado em casa, ele pode buscar lugares onde seja mais aceito – ainda que esses locais coloquem sua vida em risco. “Pais que adotam esse discurso dogmático, sem muita relação com a realidade, tendem a se afastar dos filhos e ficar desacreditados por eles”, diz Lulli.

Foto extraída de www.revistaepoca.globo.com

“A maior parte das pessoas faz uso consciente de drogas ilícitas da mesma forma que muitas pessoas usam álcool”, diz o antropólogo Edward MacRae, que também é pesquisador do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Eu frequento lugares em que vão jovens. Vejo que usam maconha, e isso não afeta seu desempenho de forma tão perceptível como ocorre com o álcool.” Nem todo usuário esporádico, porém, é capaz de abrir mão do consumo quando bem entender. “O uso recreacional é como uma roleta-russa”, diz Ruben Baler, pesquisador do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (Nida, na sigla em inglês), dos Estados Unidos. Para ele, é impossível saber de antemão se alguém se tornará dependente ou não. O uso de drogas como válvula de escape aumenta na proporção da incapacidade dos jovens de aceitar a frustração. Mas muitos usuários não percebem quanto a droga se tornou parte de sua rotina até que tenham se tornado dependentes.

A melhor estratégia para afastar os jovens das drogas envolve uma abordagem múltipla. Primeiro, a intervenção da família, que não pode se acanhar ante o problema. Em seguida, vem o tratamento contra a dependência química, a busca de alternativas à droga – que pode ser pela fé ou por um novo propósito na vida – e o apoio comunitário (da igreja, dos amigos, dos grupos especializados como o Narcóticos Anônimos) para manter a pessoa longe do mundo das drogas.

Uma máxima da medicina preconiza que quanto mais precoce o diagnóstico, mais fácil a cura. O princípio vale também para a dependência química. “Os pais devem se relacionar com os filhos, saber o que pensam, como se divertem”, diz Cláudia de Oliveira Soares, psicóloga e diretora do Grupo Viva, uma rede de clínicas especializadas em tratamento de dependentes de drogas. Para ela, a falta de diálogo é uma constante nas famílias que procuram tratamento. A falha na comunicação pode impedir que os pais percebam o problema nas fases iniciais. Além da incapacidade de fazer um diagnóstico cedo, ela leva a outras dificuldades para agir. Por falta de informação, preconceito ou incapacidade de enxergar a dureza da realidade que está ali, muitas famílias não sabem a quem recorrer. Ou não admitem a ideia de que a dependência seja uma doença crônica. “Eles demoram a procurar tratamento, costumam responsabilizar as companhias dos filhos ou tratar o problema como uma questão moral, de sem-vergonhice ou falta de autoestima do dependente”, diz a psiquiatra Maria de Fátima Rato Padin, especialista em dependência química e diretora clínica da assistência ambulatorial da Unifesp. Maria de Fátima comandou uma pesquisa inédita, feita com 500 famílias em que havia pelo menos um dependente químico, para avaliar o impacto das drogas na vida familiar. Concluiu que, em média, pais e mães buscam ajuda em quatro lugares ao mesmo tempo ao descobrir um familiar usuário. Os auxílios vão desde internação e assistência psicológica até apoio de padres. “A pesquisa mostra que a busca por ajuda especializada fica no mesmo nível da busca de ajuda na religião”, diz Maria de Fátima. “É como se você tivesse diabetes e procurasse um padre para se tratar.” Para piorar o quadro de desnorteamento, a pesquisa mostra que 61,6% delas nunca ouviram falar nos Centros de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas (Caps), o serviço público destinado ao tratamento de usuários de drogas. “São famílias que lutam há pelo menos cinco anos contra a dependência química e desconhecem o principal serviço público de tratamento.”

Isso não quer dizer que os grupos religiosos não ajudem. Eles oferecem apoio às famílias e aos usuários. Usam a fé como alternativa às drogas e insistem na ideia de persistência para superar o problema. “O Narcóticos Anônimos ou os grupos religiosos passam semanas tentando persuadir o dependente a se tratar. Isso não ocorre no sistema público de saúde”, diz Ronaldo Laranjeira, psiquiatra, especialista em dependência e coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Estado de São Paulo.

Para o dependente de drogas, os grupos de autoajuda podem significar, no mínimo, esperança. “Naqueles momentos de maior vontade de usar a droga, de depressão, o apoio do Narcóticos Anônimos, de pessoas que tinham passado por situações como a que eu vivia, foi fundamental para evitar uma recaída mais grave”, diz Maria Eugênia Lara Silva, ex-dependente que frequenta semanalmente as reuniões do NA. Antes de encontrar no grupo uma saída para o vício, Maria Eugênia fazia parte de uma estatística que tem crescido em níveis alarmantes no país – e preocupa não só as famílias, mas também as autoridades. Por 12 anos, ela foi viciada em crack, um subproduto mais barato da cocaína cujo efeito destruidor é bem maior. “Foi amor à primeira baforada. Eu fumava e queria mais”, diz. Há pouco mais de um ano, ela acendeu seu último cachimbo. Até conseguir se livrar da droga, viu sua juventude evaporar de trago em trago. Ela largou a escola, brigou com os pais e foi morar com o namorado que a apresentou ao crack. “Fumávamos todo o nosso dinheiro, tudo o que tínhamos.” Nos anos de consumo irrefreado, Maria Eugênia engravidou três vezes. Morando com os filhos pequenos, consumia crack dentro de casa. Saía de madrugada, às vezes com os filhos, para comprar a droga e matar a vontade de fumar – um efeito incontrolável conhecido na linguagem dos usuários como “fissura”. O drama de Maria Eugênia não é isolado. Ilustra a vertiginosa ascensão do crack na pirâmide social brasileira. Maria Eugênia ainda sente falta do “barato” que a droga proporciona. “Estou de luto, e vou morrer de luto porque não posso fumar crack”, afirma. “Adoro o efeito do crack, mas hoje adoro mais a minha vida.”

Como ela, milhares de jovens nascidos em famílias bem estruturadas, de classe média alta, buscam uma saída para o inferno em que se meteram com o crack. “Antes, prevalecia o consumo de maconha, de drogas sintéticas e de cocaína, mas o crack se infiltrou entre esses jovens”, afirma o psiquiatra Laranjeira. “Há uma epidemia de crack no Brasil, uma epidemia sem barreiras socioeconômicas.”

Nem todos os usuários de crack são
pobres. Mas o crack empobrece a todos

Como chegamos a esse ponto? E o que fazer a partir daqui? A dependência química é uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde. Não tem cura e não há remédios que evitem recaídas. Por isso os dependentes precisam de acompanhamento constante de psiquiatras, psicólogos e, principalmente, da ajuda das famílias (leia o quadro na próxima página). Com o crack parece não haver meio-termo. Até quem sempre se mostrou liberal em relação à descriminalização de outras drogas é contrário à tolerância com o consumo desse derivado da cocaína. O cantor Caetano Veloso afirmou que “deixou os pensamentos sobre legalização para mais tarde”, por acreditar na prioridade do combate ao crack. O deputado Fernando Gabeira, candidato ao governo do Rio de Janeiro e defensor da liberação das drogas, defende uma campanha de combate ao crack. Com razão: a droga já responde pela maioria das internações de dependentes no Brasil. “Há três anos havia mais usuários de cocaína, álcool ou maconha. Hoje, quase 100% são viciados em crack”, diz Cláudia de Oliveira Soares, diretora da Clínica Terapêutica Viva, de Piedade, uma das maiores do interior paulista.

No primeiro simpósio sul-americano sobre o combate às drogas, ocorrido no começo de maio, em Belo Horizonte, secretários de Saúde, políticos e especialistas se reuniram para debater os efeitos do crack nas grandes cidades. A maioria defende a prioridade no combate ao crack. “Ele é diferente de todas as drogas que conhecemos”, diz o sociólogo Flavio Sapori, coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em Segurança Pública da PUC de Minas Gerais. “Profissionais da área de saúde e funcionários de clínicas estão atônitos.”

 A rapidez com que os usuários adotaram a droga ganhou impulso com a estratégia adotada pelos traficantes no fim dos anos 90: a venda casada. Muitos só vendiam maconha se o usuário comprasse junto pedras da nova droga. Essa fórmula conquistou o jovem acostumado apenas à maconha. Por causa da combinação de efeitos nocivos, a expectativa de vida de um usuário de crack não ultrapassava um ano. O fato de a droga matar com rapidez pode parecer um mau negócio para o traficante – mas o que eles perdem em duração da clientela ganham em margem de lucro. “A venda de crack dá mais lucro que a venda de cocaína”, diz Reinaldo Correa, delegado do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) da Polícia Civil de São Paulo. Segundo ele, o grama de cocaína custa até R$ 15, dependendo da pureza. Com essa quantidade, ele pode fazer várias pedras de crack, cada uma vendida por algo entre R$ 3 e R$ 5. Além disso, o crack tem muito maior poder de viciar.

“O aumento do uso de crack reflete o sucesso de uma política mundial de repressão ao tráfico de cocaína”, diz o diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa. Esse sucesso tem um preço: “Surgiu um subproduto tão maléfico, tão doloroso, e as quadrilhas se adequaram a esse mercado”. O aumento pode ser constatado nos números de apreensões feitas pela Polícia Federal de pasta base de cocaína. Em 2009, a PF apreendeu 250% a mais da pasta do que em 2008: 1,4 tonelada em comparação aos 412 quilos. A apreensão de crack pronto aumentou 37% em 2009, enquanto o confisco de cocaína caiu 7%. O maior acesso ao crack facilitou sua escalada na pirâmide social. Nos últimos dois anos, entre os dependentes tratados na rede estadual de saúde de São Paulo, o número de pessoas que ganham acima de 20 salários mínimos cresceu 155%. No Rio de Janeiro, estima-se que quase 40% dos usuários sejam de classe média.

O principal atrativo do crack é a relação custo-benefício: paga-se pouco para ter uma sensação de euforia muito mais potente. Há também o problema do consumo precoce, diz o psiquiatra Sergio Seibel, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo: “Como os jovens estão usando drogas cada vez mais cedo, chegam ao crack antes dos 20 anos, porque não se satisfazem mais com as outras drogas”.

Solange Nappo, pesquisadora que há 20 anos estuda como o crack se espalhou entre a população, afirma que os usuários de classe média evitam comprar a droga diretamente do traficante. Usam serviços de “mula” ou “aviõezinhos”: garotos pobres que compram as pedras em troca de dinheiro para financiar o próprio vício. Também se tornou cada vez mais popular o serviço do disque droga, entregue até por motoboys. “A classe média se autoprotege e se expõe menos que a classe pobre”, diz Solange. A redoma protetora, porém, se quebra conforme o consumo aumenta. “O crack afeta a região frontal do cérebro, responsável pelo pensamento, pelo planejamento, controle dos impulsos”, afirma Ronaldo Laranjeira. “Por isso os usuários ficam violentos e impulsivos.” Em pouco tempo, os viciados passam a viver em função do crack. O dependente se isola e usa todos os seus recursos no consumo. Quando o dinheiro acaba, começam as dívidas e os roubos. A impressão de que os usuários têm origem social pobre é falsa. O crack é que empobrece os usuários. “Rapidamente eles se marginalizam”, diz Solange.

Reinaldo M. caiu nessa armadilha. Aos 38 anos, está na terceira internação. Fuma crack há quase 20 anos. Começou nas drogas aos 14, quando morava com a mãe e dois irmãos numa casa de classe média alta no Butantã, Zona Oeste de São Paulo. Passou para a cocaína aos 17 e descobriu o crack logo que ele despontou no mercado, em 1990. “Eu e meus amigos fabricávamos o crack em casa para fumar”, diz Reinaldo. Técnico em fotografia, ele conciliava o trabalho e o uso progressivo da droga. “Durante um ou dois anos enganei bem, mas daí comecei a faltar dois, três dias no trabalho para fumar.” Desempregado, não quis largar o vício. “Mesmo sem trabalhar você quer fumar, e aí começa a roubar coisas de casa.” Em pouco tempo, Reinaldo se enfiou no ponto de venda. “Virei amigo dos traficantes, vendia e fumava com eles.” Participou de assaltos e quase foi preso. Depois de uma troca de tiros com policiais, se internou pela primeira vez, há dez anos. Antes da última, há pouco mais de dois meses, teve uma crise psicótica. “Tentei cortar os pulsos na banheira, mas fui socorrido a tempo”, diz.

Tanto Reinaldo quanto Maria Eugênia se trataram na única clínica pública de reabilitação de São Paulo equipada para internar dependentes, o Hospital Lacan, em São Bernardo do Campo. Ele tem capacidade para atender apenas 30 pessoas e a fila de espera dura um mês. Tratamentos em clínicas particulares saem por R$ 15 mil por mês. “A classe média gasta todos os recursos que possui, vende os bens, mas uma hora o dinheiro acaba”, diz Alessandra Diehl, psiquiatra especialista em tratamento de dependência química e coordenadora da clínica em São Bernardo do Campo. “Atendi muitos casos de médicos, advogados, profissionais liberais que gastaram seu patrimônio em pedras de crack.”

Os planos de saúde limitam a hospitalização do paciente para 15 a 30 dias por ano. Passado esse limite, restam os Centros de Atenção Psicossocial (Caps). No caso dos dependentes de álcool e drogas há um atendimento específico, o Caps-AD, que soma 223 unidades no país. Nelas, o paciente recebe medicação e acompanhamento semanal, mas não pode ser internado. “Muitas vezes a internação é fundamental para manter o dependente longe das drogas e facilitar a desintoxicação”, diz Alessandra.

O Ministério da Saúde estima que 600 mil pessoas sejam dependentes de crack. Mas alguns estudiosos calculam que o número de viciados seja o dobro. A última pesquisa de abrangência nacional sobre o consumo de drogas no Brasil foi feita em 2005, pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), da Unifesp. Há cinco anos – quando o crack ainda não havia se alastrado – 0,7% da população entre 12 anos e 65 anos dizia ter provado a droga. Para efeito de comparação, segundo critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem uma “epidemia concentrada” de aids. O índice de infecção pelo HIV na população de 15 a 49 anos é de 0,6%.

A recente série de casos violentos relacionados ao crack levou o presidente Lula a anunciar o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack, com investimento de R$ 410 milhões. Trata-se de um incremento ao plano anunciado – e não cumprido – em junho de 2009 pelo Ministério da Saúde. A ideia é dobrar o número de leitos para dependentes químicos em hospitais do SUS para 5 mil. Estão previstos também novos Centros de Atenção Psicossocial e a transformação dos 110 Centros atuais em unidades abertas 24 horas por dia.

Os Estados Unidos viveram uma situação similar à brasileira entre 1984 e 1990. Lá, o crack se disseminou com rapidez. Apenas em Nova York, havia 12 mil pontos de venda no fim dos anos 1980. O consumo elevou o índice de homicídios para 2.200 por ano, quatro vezes o atual. “A situação só começou a melhorar quando as autoridades admitiram que se tratava de uma epidemia”, afirma Robert Bonner, que comandou a Drug Enforcement Administration (DEA), agência antidrogas americana, de 1990 a 1994. “Coibimos com força o tráfico e reforçamos nossas leis antidrogas.” Para ele, além de tratamento para os viciados, é preciso reforçar o número de policiais e ter penas mais rigorosas para os traficantes. “É imperioso evitar a ampliação de usuários. Demoramos demais para atuar, e os danos sociais foram imensos.” O surto da droga dos anos 1980 diminuiu, mas estudos do começo da década avaliam que os americanos consomem cerca de 70% do crack que consumiam há 20 anos. O que aconteceu? A relação do crack com crimes violentos diminuiu e escondeu o consumo. Aos poucos ela escalou a pirâmide social e chegou à classe média.

Uma das provas desse fenômeno é o agente literário americano Bill Clegg, de 39 anos. No começo dos anos 2000, Clegg era responsável pela carreira de grandes nomes da literatura, como a escritora Nicole Krauss, a poeta canadense Anne Carson e o jornalista David Remnick. Em 2005, ele desligou o celular e se trancafiou em um elegante hotel de Nova York por três semanas. Torrou US$ 70 mil em crack, bebidas e garotos de programa. Em 21 dias perdeu os clientes para agentes rivais, sua sócia dissolveu a empresa, os amigos sumiram e o namorado de oito anos rompeu com ele. Só voltou a si no hospital, depois de uma tentativa de suicídio. “Não tinha mais vontade de viver”, disse Clegg a ÉPOCA. “Eu achava que não teria forças para vencer a droga.” Na semana passada, Clegg completou cinco anos limpo. Além de agente, virou escritor: suas memórias dos dias de vício acabam de ser lançadas em livro nos Estados Unidos, Portrait of an addict as a young man (Retrato de um viciado quando jovem).

No livro, que deverá sair no Brasil em 2011, Clegg se concentra nos espasmódicos dias de consumo de crack no hotel. Mas seu vício começou quase dez anos antes. Foi apresentado à droga por um amigo de Connecticut, sua terra natal, “um homem respeitável, de quase 60 anos, rico empresário, casado e com dois filhos”. Antes do crack, Clegg fumava maconha quase diariamente. Entornava algumas doses de vodca ao dia e tomava pílulas para dormir. “Mas o crack foi único. Foi como um reencontro com um amor que nunca conheci.”

O número de dependentes de crack com renda
acima de 20 salários mínimos cresceu 155%

Ele atribui sua ligação com as drogas às inseguranças ao chegar a Nova York. “Tinha medo daquele universo, das possibilidades, era uma ansiedade infindável, e me refugiei nas drogas.” Clegg conseguiu se destacar na profissão rapidamente. Em seis anos, aos 31, abriu sua própria agência literária com a colega Sarah Burnes. “Conheci algumas pessoas que usavam crack, mas eu tinha vergonha de admitir que também fumava”, diz. “Encomendava com meu traficante e fumava sozinho ou com algum desconhecido em quartos de hotel.” No processo de reabilitação, Clegg percebeu como o crack estava espalhado pelos Estados Unidos. “Encontrei advogados, médicos, empresários que tentavam se livrar do vício.”

A história de Clegg, assim com a de outros ex-viciados, mostra que, se há uma saída para a areia movediça que prende os jovens na dependência, ela envolve não apenas desintoxicação e autoajuda. Deve incluir um projeto de vida – algo que falta a quem escolhe viver drogado.

Ilustração: Nilson cardoso

FONTE: www.revistaepoca.globo.com

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“Sofro ataques de pânico desde os 11 anos”

Postado em 20 de julho de 2010 às 11:33 por Flávia Vieira

Olá pessoal, achei muito interessante este depoimento de uma leitora da revista Marie Claire sobre medo e pânico. Compartilho com vocês.

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Por Letícia González

 
“Tive crises quase todos os dias da viagem. Elas começavam nos hotéis, quando ainda não havíamos saído. Eu começava a chorar e dizia ‘Mãe, tenho medo’”

Eu tinha apenas 11 anos quando senti pânico pela primeira vez. Estava em viagem com a minha família e, não poderia imaginar, mas aquela seria a primeira de uma série interminável de crises. Aconteceu durante a travessia do Canal da Mancha, entre a França e a Inglaterra. Por azar, chovia no dia e a embarcação balançou muito. Isso despertou um medo que até então era discreto em mim: o de me sentir enjoada e vomitar a qualquer momento.

Comecei a sentir dor de cabeça e só pensava se ia vomitar ou não. O medo era muito forte. Comecei a chorar e me agarrei à minha mãe. Fiquei chorando durante todo o trajeto e só comecei a me acalmar quando vi que estávamos chegando. As pessoas do grupo que nos acompanhava na viagem me olhavam sem entender e eu tive um pouco de vergonha, mas não podia controlar o meu nervosismo.

A partir desse dia, passei a estar alerta todo o tempo. Tentava descobrir o que faríamos durante o dia, em que local comeríamos e se teríamos outros passeios de barco, tudo para calcular as chances de me sentir mal. Tive crises de pânico quase todos os dias da viagem. Elas começavam nos hotéis, quando ainda não havíamos saído, e seguiam uma mesma sequência difícil de compreender: eu começava a chorar e pedia ajuda. Dizia apenas “Mãe, tenho medo”.

Meus pais e minha irmã não entendiam o que estava acontecendo e, a cada nova crise que eu tinha, ficavam um pouco impacientes. Meu comportamento estava atrapalhando as férias de todos e eu me sentia envergonhada, agindo como uma criança mimada. Mas era inevitável. O medo começava aos poucos e ia ganhando amplitude até me paralisar. O engraçado é pensar que o problema não tinha uma conexão direta com a realidade, pois eu não me sentia enjoada com frequência. Mesmo na travessia, não cheguei a vomitar. Ainda assim, o medo de fazê-lo me dominava.

Hoje sei que ele está relacionado a uma virose que contrai poucos meses antes da viagem. Na ocasião, fiquei doente e vomitei muito. Essa lembrança me acompanhou durante todos esses anos e, mesmo depois de fazer terapia e saber que o nome dado ao meu problema é “pânico”, eu, se pudesse, catalogaria simplesmente por “medo de vomitar”.

Na volta ao Brasil, comecei a fazer terapia e, pouco tempo depois, mudei de colégio, o que me trouxe mais ansiedade. Nunca me senti conectada com o mundo e, desde pequena, ficava muito em casa, sendo a escola minha única atividade. Ir a um lugar longe de meus pais e da segurança da minha casa sempre foi um sofrimento.

Uma manhã, o meu pior pesadelo ocorreu. Uma das meninas da minha classe teve um mal-estar e vomitou no cesto de lixo que estava à minha frente. Eu estava sentada na primeira fila e ela tentara em vão chegar à porta da sala, então presenciei a cena a centímetros de distância. Na época, eu já entendia que aquilo poderia se transformar em mais uma crise. Fiz de tudo para me distrair pois ainda tinha uma longa manhã pela frente. Me concentrei nos exercícios, mantive a mente ocupada e consegui voltar para casa calma, apesar de a cena se repetir inúmeras vezes em minha mente. Achei que tivesse vencido a ansiedade mas, no fim da tarde, inesperadamente, entrei em pânico. Chorei por mais de uma hora, sem conseguir me acalmar.

“Cheguei ao limite quando, em uma tarde, peguei uma faca da cozinha e levei para meu quarto. Comecei a fazer cortes no antebraço direito pois me sentia culpada por não ter sido uma boa aluna, uma boa filha”

Tive crises frequentes até a 8ª série. No 1º ano do ensino fundamental, as coisas começaram a mudar em minha vida. Me aproximei de uma colega de classe e ficamos muito amigas. Ao mesmo tempo, me desliguei dos estudos e minhas notas, que sempre foram excelentes, despencaram. Vivi um período de rebeldia, mesmo sem sair à noite ou cabular as aulas. Aos poucos, a culpa por estar decepcionando meus pais foi ficando grande demais e, sem perceber, entrei em depressão. Quando os professores começaram a mencionar o vestibular, imediatamente senti uma pressão enorme. Eu não me sentia preparada para as responsabilidades da vida adulta: era completamente dependente dos meus pais, não saía sozinha, não andava de ônibus, não sabia nomes de rua e não comprava nada sem ajuda.

No ano seguinte, a situação se agravou. Eu estava cada vez mais ausente dos estudos e comecei a não ver sentido nas coisas ao meu redor. Cheguei ao limite quando, em uma tarde, peguei uma faca da cozinha e levei para meu quarto. Comecei a fazer cortes no antebraço direito pois me sentia culpada por não ter sido uma boa aluna, uma boa filha. Fiz isso também porque a dor dos cortes me distraía da dor que estava sentindo dentro de mim. Já estava bastante machucada quando vi que tinha ido longe demais. Eu não queria morrer: apesar do sofrimento, algo me prendia com muita força à vida. foi então que chamei minha mãe e mostrei a ela os meus cortes. Ela me ajudou com os curativos e me deu um banho. Depois desse momento, vi que ela entendeu que o meu problema era real e não uma questão de rebeldia. Eu precisava de ajuda.

Nessa época eu já estava em recuperação no colégio e perigava perder o ano. Minha mãe disse que eu poderia fazer os exames que restavam, mas que não deveria me preocupar com os resultados. Depois desse episódio, minha doença ganhou outra dimensão dentro de casa. Pedi aos meus pais que me deixassem ter um ano sabático, sem frequentar as aulas ou ter qualquer atividade, e eles concordaram. Durante todo o ano seguinte, minha rotina se resumia a ficar em casa assistindo a séries de televisão. Eu acordava mais tarde que o resto da família, por volta das 10h, tomava café da manhã e voltava para o meu quarto. Saía para almoçar e, de vez em quando, acompanhava minha mãe ao supermercado. Como ela é dona de casa, estava sempre presente e eu não me sentia sozinha em nenhum momento. Nesse período, eu não pensava na vida, não pensava no futuro e não fazia planos. Queria aproveitar o ano que meus pais me haviam concedido e não sentir pressão alguma. Vivi em uma bolha superprotetora, sem ter consciência de que a independência é algo que se constrói.

Não só o medo de vomitar me acompanhou durante todos esses anos. Desde 2001, quando minha irmã teve um problema renal, cólicas nessa região do corpo entraram para a minha lista de medos. Há três anos, esse temor me levou a uma noite de muito sofrimento. Tive uma dor nas costas e, como acontecia quase sempre nessa situação, entrei em pânico. Tomei dois comprimidos de Valium, que costumava me tirar das crises, mas não funcionou. Minha mãe me deu um banho quente por indicação do meu psiquiatra e mesmo assim o meu pavor persistia. Meus músculos estavam tão contraídos que enrijeceram. Senti câimbras nos braços. Finalmente, após três horas - que mais me pareceram uma eternidade - meus pais me levaram ao hospital. Me lembro de sentir muita vergonha enquanto esperava o remédio que o médico havia me indicado fazer efeito. Ao meu redor havia pessoas com muita dor enquanto eu estava chorando incontrolavelmente por medo. Hoje, depois de anos de terapia, consegui entender que uma crise pode vir disfarçada como um medo banal quando, na realidade, ela é resultado do acúmulo de sentimentos não resolvidos.

“Durante todo o ano seguinte, minha rotina se resumia a ficar em casa assistindo a séries de televisão. Eu acordava mais tarde que o resto da família, tomava café da manhã e voltava para o meu quarto”

Quando meu ano sabático terminou, voltei a estudar e concluí o ensino médio em um curso supletivo. Prestei vestibular e comecei a faculdade de psicologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, mas abandonei no ano passado. Percebi que gostava apenas das teorias e como eu podia relacioná-las com a minha história. Não queria me tornar uma psicóloga.

Hoje, minha rotina envolve aulas de ioga, academia, terapia e tarefas domésticas. O ioga e a academia são momentos que eu dedico a mim mesma, e as tarefas domésticas envolvem minha responsabilidade e minha busca por independência. Ainda é difícil me relacionar com as pessoas, mas comparando com a encruzilhada existencial em que me encontrava no passado, hoje estou bem melhor. Em 2009, tive apenas três crises de pânico.

Em compensação, nunca namorei ninguém. Não me sinto preparada. Já tive curiosidade, mas na adolescência, sempre que os assuntos entre os amigos ficavam mais “adultos”, me esquivava. Eu queria permanecer no meu mundo infantil. Quando comecei o curso pré-vestibular, logo no primeiro dia de aula levei uma cantada. Um menino veio falar comigo no intervalo e, sem pudores, perguntou se eu tinha namorado. Aquilo me assustou. Respondi que não e ainda completei: “não estou pensando nisso no momento”. Eu até gostaria de encontrar alguém, mas preciso amadurecer muito ainda. Tenho essa propensão de querer agradar ao outro, como sempre quis agradar a meus pais, e fico com medo de repetir esse comportamento com um namorado.

Agora, aos 21 anos, passo o meu tempo a construir a minha independência. Então eu não estudo, nem trabalho, nem saio para balada. Mas sou feliz, apesar de sentir medo do julgamento da sociedade e do futuro. Aprendi que eu tenho o meu próprio tempo. E, se cada um tem seu tempo de evolução, não há hora certa para se começar um trabalho sobre si. Não quero encarar meu sofrimento como um vilão. Não quero tampouco extinguir meu medo, afinal ele existe em nós humanos por uma questão de sobrevivência. Ele nos alerta para situações de perigo seja ele físico ou emocional. Quero simplesmente colocá-lo em seu devido lugar. Hoje tenho vontade de viver, apesar do medo de enfrentar situações que possam me machucar. Hoje eu gosto de mim, hoje eu me amo. Esta é uma história de esperança, mas não tem um final feliz. Eu prefiro dizer que ela é a base para um começo feliz.

FONTE: http://revistamarieclaire.globo.com/

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Expostos ao risco

Postado em 16 de julho de 2010 às 15:45 por Flávia Vieira

As consequências dos abusos na infância e o estresse pós-traumático

Por Mirian Giannella

Milhares de crianças, por todo o mundo, são vítimas de incesto, de abusos físicos e sexuais e do tráfico para fins de exploração sexual.

As conseqüências para as vítimas são desastrosas, afetando toda a vida desses sujeitos colocados em lugar de objetos passivos ao serviço deles. Sem saída senão a morte, obrigados a vender seu corpo por micharia, a se drogar para aceitar a degradação. Desvalorizados, desmoralizados, humilhados, destituídos da dignidade humana, escravizados, imobilizados, para o prazer e o lucro de uns e outros.

Há milênios, eles usam de estratégias perversas para expropriar os irmãos de seus direitos inalienáveis, portanto, há ruptura de contrato social, dos códigos de ética por parte daqueles que deveriam nos proteger! Sociedade criminosa! Todos omissos confundindo a vítima com o criminoso, para a punição das vítimas. Esta é a estratégia deste jogo perverso em que eles sempre ganham contra indefesos.

Estamos expostos ao risco, ameaçados de morte por quem deveria nos proteger! Não se tem a quem apelar?

Os sintomas do estresse pós-traumático

Tal ruptura intencional é que reitera o estado de estresse pós-traumático que captura a vítima indignada com a desmoralização constante e a recusa da aceitação dos fatos. Não há reparação? Depois dos abusos, o cinismo da sociedade, a omissão, a ignorância. Crianças como presas indefesas do tráfico de todo tipo.

A vítima fica em estado de estupefação, fica siderada, com o trauma atuando no pano de fundo, o que causa dissociação, divisão da psique, paralisia, anestesia, alternando com fases maníacas, de excitação. Possível bipolaridade entre mania e depressão, gerada pela psicopatia ambiente.

O trauma fica se repetindo e toma a forma de sonhos, pesadelos, ansiedade, reações exageradas e até violentas em sua defesa e, às vezes, a necessidade compulsiva da evocação dos fatos traumáticos. Ele precisa ser ouvido, metabolizado, é preciso se separar do crime! Deve-se compreender que o dano fica pedindo reparação.

Lembranças dolorosas retornam e aniquilam a auto-estima do sujeito, com depressão, ideias de suicídio, problemas na vida sexual com ausência de prazer denotam a interdição à vida causada pela ameaça de morte que o trauma significa.

A criança que teve seu corpo violado, fica arrombada, aberta a novas agressões, expondo-se à situações de risco. A vítima fica com o agressor dentro dela, fica identificada com o agressor, o seu desejo se torna o desejo dele, fica dominada, presa na armadilha enquanto objeto passivo, não consegue se desvencilhar. O agressor age por ela, a boicota, a agride, a manipula. Ela fica constrangida em um corpo que não lhe pertence mais.

Por isto, a vítima deve ser tratada e não deixada no abandono e negligência, todos se fazendo de surdos, destituindo-a da sua verdade, da verdade da sua história. A ferida pede tratamento para cicatrizar, o buraco deve ser cheio de amor e carinho para fechar. As artes são um bom caminho para a expressão das dores e feridas profundas, que significam sua morte em vida.

Um caminho para as vítimas

A vítima precisa se separar do agressor de qualquer forma, de todas as formas, separação tanto no simbólico, quanto no imaginário, como no real. As representações simbólicas fazem efeito de separação, colocam distância, assim escrever, desenhar e vivenciar através das terapias e teatro catártico são caminhos.

É preciso ouvir e sancionar o que a vítima, muitas vezes, criança sem os elementos para compreender o vivido, relata do que sente.

É preciso dizer à vítima que ela tem o direito de se defender, de dizer não, direito ao desejo e de escolher o seu projeto de futuro! A gente não nasce sabendo, mas tem uma noção, ainda não nomeada, e a realidade confunde. É preciso nomear os direitos. Precisa que a vítima comece a se defender e para isto basta ela saber que tem direitos! Aí começa a se separar a vítima do criminoso.

A omissão de todos é muito grave

É de importância capital para a vítima que se nomeie o crime e o criminoso e que a interdição seja colocada sobre o ato.

A interdição que deveria recair sobre o ato imundo do abusador recai sobre todos os atos da vítima que fica com seu ser paralisado, fica ela interditada. Para a vítima existe sempre o antes e o depois do trauma.

Ao denunciar, testemunhar, relatar a vítima se desinterdita e volta à vida, basta acompanhar e orientar, pois a sociedade é feita para encobrir a tirania, e é preciso vencer muitas barreiras da opressão ambiente.

É preciso dizer que o ato foi imundo, indevido, que foi invasão de privacidade, desrespeito, que o abusador não tinha esse direito, que todos devem proteger os indefesos, que as relações devem ser consentidas e não com adolescentes e crianças, seres em desenvolvimento.

Propiciar um lugar de sujeito ativo à vítima dando-lhe possibilidade de expressão e ouvindo-a, sancionar a sua verdade.

 Mirian Giannella é socióloga e psicanalista, coordenadora do

Observatório da Clínica

http://giannell.sites.uol.com.br/EGCdoB.htm

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Psicossomática, olhar integrador sobre o homem

Postado em 16 de julho de 2010 às 15:20 por Flávia Vieira

O desejo de compreender cada vez melhor as questões do paciente e o processo de adoecimento do homem conduziu a psicóloga Maria Rosa Spinelli para a Psicossomática, método que ela julga humanizador e afirma: “somos todos uma verdadeira integração corpo, mente, espírito e ambiente”

Por Rose Campos

Foi na década de 1980 que Maria Rosa Spinelli conheceu a Psicossomática. Participava de um congresso no Centro de Convenções Rebouças e se apaixonou pela abordagem. Já havia feito curso de calatonia com o professor Sandor, no Instituto Sedes Sapientiae, estudado Análise Transacional pela ALAT-Argentina, onde se qualificara como clínica. Fizera também análise corporal e trabalho em grupo com a Gestalt, mas foi na Psicossomática que encontrou a resposta que buscava na Psicologia.

Esses múltiplos interesses demonstram sua busca constante por atualização e conhecimento. Após a graduação, em 1976, pela Universidade Metodista de São Paulo, três especializações na Faculdade de Educação de São Caetano do Sul (SP) e mestrado em Psicologia Clínica pelo Núcleo de Psicossomática e Psicologia Hospitalar da PUC-SP, acaba de conquistar o título de Doutora pela mesma instituição. Em 1992 foi convidada a integrar a diretoria da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, Regional São Paulo – ABMP-SP, onde foi secretária, diretora científica por duas gestões e diretora editorial do Jornal Paulistano de Psicossomática antes de se tornar presidente da instituição. Também ajudou a fundar a Associação Brasileira de Psicoterapia.

Hoje continua afiliada a várias associações de caráter científico e é membro do Conselho Administrativo de uma ONG em Ribeirão Bonito (SP) que combate a corrupção (www.amarribo.org). É professora e supervisora dos cursos de Psicologia e Psicossomática da ABMP-SP e da APM, professora no curso de Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho na FIA-USP, de Psicologia Hospitalar na PUC-Cogeae e de Psicossomática no NEPPHO e Instituto de Terapia Cognitiva-ITC. Lançou recentemente o livro Introdução à Psicossomática (Editora Atheneu, 2010, 286 páginas), como organizadora, cuja temática e discussões nortearam em grande parte a entrevista a seguir.

Psique: Qual definição de Psicossomática a senhora adota?

Maria Rosa: Psicanalítica winnicotiana, segundo a qual todo ser é psicossomático e toda atitude é psicossomática, pois somos uma verdadeira integração de corpo, mente, espírito e ambiente. Não existe, a não ser didaticamente, esta divisão em partes distintas do indivíduo.

Psique: A Psicanálise está na base do conhecimento da Psicossomática. Continua sendo um saber imprescindível ao seu exercício?

Maria Rosa: Não. A Psicanálise praticamente iniciou o campo de estudo da Psicossomática, pois se buscava a compreensão do psiquismo e do inconsciente agindo em qualquer patologia física. Hoje, porém, são várias as abordagens da Psicologia que praticam a Psicossomática com muita propriedade. Em 1948, um livro sobre Patologia Psicossomática editado pela Asociacion Psicoanalitica Argentina já trazia vários artigos de abordagem junguiana sobre o tema; atualmente no Medline (site de busca para artigos científicos), se buscarmos artigos de revisão de literatura sobre Psicossomática, encontraremos várias abordagens, como cognitiva, junguina, psicanalítica e também estudos da neurociência. Por outro lado, devo dizer que a visão geral do inconsciente sempre foi psicanalítica.

Psique: O movimento psicossomático surgiu em São Paulo, na década de 1960, para depois se disseminar por quase todo o país. Como este conhecimento evoluiu no Brasil?

Maria Rosa: Com certeza São Paulo foi um dos grandes centros da Psicossomática e ainda o é. Porém, hoje temos outros locais em que se desenvolvem grandes trabalhos, como Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR) e Belo Horizonte (MG). Os primeiros a divulgar esse conhecimento foram os gastroenterologistas Prof. Dr. Helladio Francisco Capisano e Dr. Fernando Pontes, o endocrinologista Dr. Luiz Miller de Paiva e a psicóloga Noemi da Silveira Rudolfer, em São Paulo; no Rio de Janeiro tivemos Dr. Danillo Perestrello e Dr. Abram Ekterman, ao lado de associações da Argentina e Europa. Ao mesmo tempo, a Dra. Mathilde Neder iniciava (com alcance mundial) seu trabalho com a Psicologia Hospitalar, no Hospital das Clínicas de São Paulo, no setor de Ortopedia. Hoje a Psicossomática é campo de estudo em várias universidades do Brasil e possui cursos exemplares também em instituições como a ABMP-SP, o Instituto Sedes Sapientiae e o primeiro Núcleo de Psicossomática e Psicologia Hospitalar de pós-graduação strictu sensu da PUC-SP. O interesse na atua- lidade vem não apenas de médicos e psicólogos, mas também de outros profissionais de saúde e até de outras áreas, como Direito e Pedagogia.

Psique: Consegue vislumbrar se a Psicossomática está hoje mais presente na clínica médica ou psicológica?

Maria Rosa: Difícil dizer. A Psicossomática está tomando rumos descuidados, pois muitos se intitulam psicossomáticos sem ao menos saberem a verdadeira definição da palavra: ela é acima de tudo atitude, requer ação, resiliência, muito estudo, muita pesquisa, muito cuidado, a capacidade de ouvir a linguagem do paciente e de outros profissionais. Hoje a urgência das coisas, a liquidez das inter-relações, a massificação da mídia que determina atitudes modelo etc. estão confundindo as pessoas entre o que consiste ter expertise, serem profissionais bem preparados e éticos, e apenas usar o certificado para enganar o saber. São raros os profissionais da saúde que se dão ao trabalho de discutir e esclarecer com os pacientes as dificuldades levadas ao consultório e o melhor tratamento para os sintomas. Cada um age em seu espaço, sem ouvir o paciente e muito menos outro profissional. Isto é lamentável, e vejo acontecer tanto no âmbito da Psicologia como no da Medicina, assim como da Fisioterapia, da Odontologia, enfim, em todas as áreas da saúde.

Psique: Como define a tendência de aplicação dessa disciplina hoje?

Maria Rosa: A tendência é a integração de saberes, que deveria ser mais bem estudada e deve ser repensada. Creio que nem todas as universidades tenham condições de ministrar este curso, pois a formação exige, além de teoria, supervisões, discussões em grupo interdisciplinar e mente aberta para o novo, com o cuidado de não perder o foco científico. Não basta admitir que a relação corpo-mente existe ou mesmo a simples crença de que a mente controla o corpo. Argumentar que a pessoa faz a doença, por sua vez, só promove a culpa e ainda dificulta o tratamento. Em minha opinião os estudos têm de abranger a evolução humana desde o princípio, quando o homem era visto de modo mais integrado à natureza, e talvez a Antropologia possa colaborar neste aspecto.

Psique: A senhora enfatiza a questão da interdisciplinaridade. Qual a importância para a abordagem psicossomática e de que modo ela se aplica na prática?

Maria Rosa: A interdisciplinaridade é considerada hoje, pelos estudiosos da área, uma evolução no campo da saúde. Na prática este princípio começa pelo conceito de eu. Afinal, somos uma série de sistemas que se compõem como intersistemas. Mas nossa cultura nos molda a pensar o indivíduo de modo sectário. Adotar um pensamento integrativo requer, então, muito treino e o contato com estudos que validem esta abordagem. Uma técnica conhecida e que ajuda bastante é a Grupos Balint. Costumo utilizá-la em supervisões de grupos multiprofissionais. Um rápido exemplo prático do uso da interdisciplinaridade: recebi uma paciente de 18 anos com a queixa de retocolite ulcerativa, o que a impedia de sair de casa e até da cama, devido ao quadro de diarreia sanguinolenta. Um médico, muito ético, acompanhava o caso. A paciente chegou, ao consultório, fraca e pálida, amparada pela mãe. O tratamento evoluiu para a melhora, porém a paciente começou a apresentar pânico em relação aos exames, questão também bastante trabalhada em terapia. Num dado momento, resolvida esta questão, a cliente começou a ficar deprimida, por questões que emergiam na psicoterapia. O médico então me ligou informando que a moça deveria tomar um antidepressivo, pois a retocolite poderia piorar diante deste quadro emocional. Minha opinião, no entanto, era que o uso do medicamento poderia bloquear os sentimentos contidos, provavelmente desencadeantes da doença. “Você assume a responsabilidade?”, o médico perguntou. “Não. Nós assumiremos a responsabilidade”, respondi, sugerindo que também a cliente tomasse parte da decisão, pois tinha plena consciência de seu estado emocional e físico. Assim, sentamos eu, o gastroenterologista e a cliente, cada um expondo seu ponto de vista e ouvindo o outro com atenção. Ela nos ouviu e optou por não tomar medicamentos naquele momento. As sessões semanais de psicoterapia foram aumentadas e felizmente a paciente superou muito bem a crise. Este é um exemplo claro da importância da interdisciplinaridade e é evidente que se eu percebesse que a paciente não aguentaria o estado depressivo, com certeza sinalizaria a necessidade de medicação.

Psique: Existem doenças ou grupos de doenças que podem ser identificados como psicossomáticos?

Maria Rosa: Absolutamente todo processo de enfermidade pode ser abordado sob o referencial da Psicossomática, quando consideramos que o indivíduo é integrado e não separado em partes.

Psique: De que forma o estilo de vida atual contribui para o fenômeno da dissociação mente-corpo e qual o impacto disso na formação das doenças?

Maria Rosa: Nossa! Isto daria um artigo… (risos). Bem, vou tentar resumir. Estamos neste momento passando por transformações sociais, éticas, morais, educacionais e poderia te dizer que existe mais de um modelo para a família, que é a base da sociedade e das instituições. Da religião ao molho de tomate na prateleira no supermercado, para tudo as opções disponíveis são inúmeras e não temos mais certeza do que escolher. Do mesmo modo, uma avalanche de informações chega até nós de maneira tempestuosa e contínua, pelas mais variadas mídias, das mais tradicionais à modernidade dos blogs. Se ficou mais fácil estar informado do que saber escolher, pensar e refletir, então é melhor copiar? A mídia dita a moda e determina que corpo devemos ter. E nosso maior medo é o de perder poder aquisitivo, pois dinheiro é o que nos permite ter. Comprar nos torna bonitos e temporariamente felizes. Só não podemos envelhecer e perder a identidade social. Aí o que sobra é o vazio, a depressão, a angústia, porque o interno, composto pela identificação apaixonada do existir se esvaiu. Diante disto acontece o que se chama de psicossomatose, são patologias mentais que derivaram deste ambiente atual. A violência se tornou banal e as drogas se vulgarizaram. O indivíduo pode frequentar academia, consumir apenas alimentos integrais ou seguir uma dieta vegetariana, praticar yoga, esportes, mas ainda que aparentemente cuide-se bem, esboça reações desproporcionais se, por exemplo, alguém encosta acidentalmente em seu carro no estacionamento do shopping, e talvez parta para a ameaça ou mesmo para a agressão. Isto é patologia, falta de identidade humana, dissociação e doença.

Psique: Como podemos definir resiliência e o que explica, grosso modo, que alguns indivíduos tenham essa capacidade mais desenvolvida que outros?

Maria Rosa: Quem melhor explica este conceito no livro é a psicóloga e analista junguiana Ceres de Araújo. Segundo suas próprias palavras: “Resiliência, do ponto de vista das ciências humanas, é a capacidade para enfrentar e superar as adversidades da vida e sair fortalecido desta experiência. É um potencial humano universal, presente em indivíduos de todas as culturas e em todas as épocas e é parte do processo evolutivo do desenvolvimento, podendo ser promovida desde o nascimento. Alguns indivíduos têm tal capacidade mais desenvolvida, talvez por terem tido a oportunidade de experimentar enfrentamentos de adversidades exitosos desde o início da vida, o que lhes deu mais confiança em suas competências, ou talvez por terem tido uma forma de criação em que foram vistos e reafirmados como pessoas de valor. Assim, a superproteção é o que menos favorece o desenvolvimento desta capacidade.”

Psique: Como é possível desenvolver a resiliência por meio do processo terapêutico?


Maria Rosa: Novamente recorro à fala da Ceres para definir que se trata de diminuir a estruturação defensiva e favorecer a estruturação criativa do sujeito. Fortalecer o ego é fortalecer a capacidade de resiliência. A terapia ajuda a regular as emoções, controlar adequadamente os impulsos, ganhar uma noção de si mesmo mais realista: conhecer as próprias competências e limitações, incentivar movimentos de afirmação no mundo, abraçar o otimismo e a esperança, lidar melhor com frustrações e tensões.

Psique: Já no prefácio do seu livro a Prof. Dra. Maria Margarida Moreira Jorge Carvalho, personalidade iminente na Psicooncologia brasileira, elogia seu desempenho como primeira mulher e psicóloga à frente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática – SP. Qual foi seu principal desafio?

Maria Rosa: A Magui, como a chamamos, foi e é uma grande amiga e colaboradora e sempre prestigiou meu trabalho, pelo que sou muito grata. Quanto à escolha da minha candidatura à presidente da Regional São Paulo, ela foi feita pelos próprios médicos e psicólogos que compunham então a diretoria a ABMP-SP. A princípio foi difícil, pois a Associação tinha uma dívida imensa decorrente da realização do congresso nacional anterior e quando fiz a proposta de pagá-la, honrando a nossa identidade institucional, metade da diretoria se afastou. Ficamos então com quatro elementos diretos na gestão, responsáveis por discutir e fazer tudo. Minha gestão foi transparente. Conseguimos montar a sede e registrar todos os associados e seus cursos. Fizemos o site da ABMP-SP (www.psicossomatica-sp.org.br), que permaneceu na primeira página do Google (mecanismo de busca) durante anos. Montamos uma biblioteca e uma videoteca, realizamos o III Congresso Paulista de Psicossomática, o simpósio As Várias Faces da Cura, quatro encontros de Estudos Avançados em Psicossomática, participamos como instituição de vários congressos nacionais e internacionais de Medicina e Psicologia. O principal desafio foi montar nossa sede dando a ela uma identidade autônoma. Houve reveses, como a saída de associados (mas muitos deles retornaram, quando viram a seriedade do trabalho), até chantagem e recebimento de carta anônima. Meu maior orgulho é ter colocado a ABMP-SP entre as melhores associações de São Paulo, com o respeito que ela sempre mereceu e creio que a maior marca que deixei foi a identidade organizacional da ABMP-SP, desvinculada de nomes, algo que também agradeço muito à diretoria que esteve comigo até o fim, contribuindo para a seriedade e a transparência da gestão.

Psique: As neurociências têm evoluído muito, notadamente a partir da chamada Década do Cérebro (1980). Essa evolução se reflete na Psicossomática?

Maria Rosa: Sem dúvida, no entendimento de processos mentais e compreensão fisiológica daquilo que já se percebia na Psicologia e que a Psicossomática aceitava e denunciava, baseada, porém, principalmente em pesquisas qualitativas, não muito aceitas pela ciência. A neurociência passou a ser um dos campos de estudo em Psicossomática, mas é importante salientar que ela apenas descreve aquilo que já era observado, agora com respaldo da Fisiologia. Um exemplo é a descoberta dos neurônios-espelho, o que traz novas maneiras de se estudar a reverberação usada por Freud, a simpatia, a empatia, uma nova maneira de tratar o autista e de considerar a importância do meio ambiente.

Psique: De que modo a Psicossomática pode ser explorada preventivamente?

Maria Rosa: A prevenção a doenças pode ser feita primeiro pela retirada do preconceito quanto à emoção. O indivíduo ainda comete o erro de resistir a ela. O equilíbrio, no entanto, vem de sabermos contrapor o lado racional ao afetivo, conhecer o que nos afeta e de que modo, sabermos regular este processo de bem e mal e sermos menos influenciados pela defesa emocional do outro. Deixar de nos considerar como vítimas e perceber que adoecer não é culpa nem punição, mas é nosso pior mecanismo de defesa, algo porém que faz parte do processo de vida: saúde/doença. Enfim, aprender a sentir corpo/mente deveria ser uma disciplina escolar, afinal, conhecendo-nos melhor não precisaríamos nos enlutar tanto.

Psique: E o maior desafio para o desenvolvimento da Psicossomática na atualidade?

Maria Rosa: Colocar a Psicossomática como um curso de formação e não apenas acadêmico; e num futuro próximo tentar estabelecer com ela uma nova maneira de ver a ciência. No aspecto pessoal, podemos saber antes se vamos enfartar (risos). A verdade é que se crescermos mais como pessoas, poderemos fazer muito mais por nossos pacientes. Eles passam a ser vistos como um todo e poderemos compreendê-los sem a contaminação da intelectualidade. Por fim, poderemos descobrir com mais facilidade que muitas vezes a maior ajuda poderá não vir de nós, mas de algum colega de outra área da saúde.

FONTE: http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/55/artigo177929-4.asp

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Estresse afeta libido da mulher, aponta levantamento do HC

Postado em 9 de julho de 2010 às 10:13 por Flávia Vieira

São Paulo – O estresse, a preocupação com os filhos e a falta de intimidade com o parceiro são responsáveis pela falta de desejo sexual entre as mulheres. Um levantamento feito a partir do histórico de pacientes do ambulatório de ginecologia do Hospital das Clínicas (HC), em São Paulo, aponta que 70% das mulheres procuraram o departamento para solucionar a falta de libido.

Os dados mostram que 90% dos casos são de origem psicológica. Segundo a coordenadora do ambulatório de sexualidade do HC, Elsa Gay, os problemas sexuais da mulher refletem conflitos de relacionamento e estresse no trabalho. “A perda do lado lúdico do sexo provoca essa falta de libido”, afirma. Ela explica que o toque e o beijo são elementos importantes para uma vida sexual saudável.

“A mulher fica muito cansada. Ela exerce muitos papéis durante o dia e o sexo exige disposição”, explica a coordenadora do projeto Afrodite, Carolina Ambrogini. No projeto, do ambulatório de sexualidade feminina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a falta de desejo sexual também é a principal reclamação. Cerca de 65% das pacientes procuram o ambulatório por esse motivo. Outras queixas frequentes são a dificuldade de atingir o orgasmo e dor durante a relação sexual.

A falta de libido é mais comum em mulheres mais velhas, mas são as mais novas que procuram ajuda. “Mulheres mais velhas acham que isso é natural. Mas muitas vezes pode ser reflexo de um problema físico”, alerta a sexóloga e coordenadora do programa de estudos de sexualidade da Universidade de São Paulo (USP), Carmita Abdo. Para ela, por não terem preconceitos, as mulheres mais novas têm mais facilidade em tratar do assunto.

Carmita explica ainda que, para evitar disfunções sexuais e estimular o desejo, é importante que a mulher se conheça. “Ela deve estar bem informada, conhecer seu próprio corpo e não ter vergonha de dizer ao parceiro como é estimulada.”

As informações são do Jornal da Tarde. (Acesse: www.uol.com.br )

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Um futuro para superdotados carentes

Postado em 9 de julho de 2010 às 7:00 por Flávia Vieira

Como entidades ajudam crianças de baixa renda com inteligência acima da média a desenvolver seu potencial

Wilson Aquino

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COMEÇO
Pedro de Souza, da periferia de São Paulo, aprendeu a ler sozinho aos 4 anos

 A paraibana Gildete Abreu de Souza Alves, 58 anos, moradora do bairro Jardim Conquista, na periferia de São Paulo, vendia cosméticos, em 2005, para reforçar o orçamento familiar de R$ 800, salário do marido metalúrgico. Certo dia, ela se surpreendeu com o neto Pedro, então com 4 anos, lendo algumas palavras do catálogo da Avon. Abandonado pela mãe quando era apenas um bebê, Pedro nunca tinha frequentado jardim de infância ou creche. “Levei o menino ao médico porque pensei que estava doente. Nasci no Nordeste e lá uma criança que faz isso é chamada de doida”, conta, com simplicidade, a avó dedicada, que sentiu muito alívio ao descobrir que, em vez de doente, o neto era uma criança com alta habilidade – ou superdotada. Não importa quanto ela seja pobre e as carências que tenha. O superdotado desenvolve sua inteligência em qualquer situação. O pequeno Pedro comprova a tese.

 Hoje, com 9 anos, ele é uma das crianças atendidas por uma das ONGs brasileiras especializadas em ajudar a expansão desses pequenos gênios carentes. Pedro continua frequentando a escola municipal perto de casa, mas é no turno da manhã, na Associação Paulista para Altas Habilidades/Superdotação (Apahsd), sem fins lucrativos e bancada pela iniciativa privada, que ele está aprendendo a desenvolver o seu enorme potencial para atividades acadêmicas. “Encontrar uma criança superdotada é tão importante quanto descobrir um poço de petróleo ou uma mina de diamante”, afirma a professora Clara Sodré, doutora em educação especial pela Columbia University, de Nova York, e diretora do Instituto Lecca, do Rio de Janeiro. O Lecca prepara alunos carentes superdotados para os concorridos concursos de escolas públicas de excelência, como o Pedro II e o Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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TESTE
Joyce de Oliveira e André dos Santos: aprovados em escola pública de excelência

O instituto testa, todos os anos, em torno de três mil crianças para selecionar apenas as 24 (número de vagas de que dispõe) com maior potencial. “Vivemos de patrocínio, não temos como atender todo mundo” lamenta Clara. Os resultados obtidos com os que passam pelo funil são ótimos: 90% dos alunos que prestaram prova para o Colégio Pedro II foram aprovados. “O 1º, o 2º e o 3º lugares foram nossos”, orgulha-se. São jovens como Joyce Rodrigues de Oliveira, terceira colocada no concurso, e André Pedro Silva dos Santos, maior nota de matemática, ambos com 12 anos. Joyce mora com os pais e dois irmãos no Engenho da Rainha, bairro da zona norte carioca que é dominado por traficantes. O salário de técnico de manutenção do pai, inferior a R$ 1.000, não era suficiente para proporcionar atividades de reforço escolar à filha, que se sentia “agoniada” com o que lhe era oferecido na escola pública. “Era muito fraquinha. O professor faltava muito”, lembra a menina, que sonha em ser arquiteta. André, por sua vez, cujo pai, já falecido, era porteiro, mora com a mãe e o irmão no Centro do Rio, e todos vivem da pensão que não chega a dois salários mínimos. “Sempre que iam ensinar, eu já sabia a matéria”, recorda André, que graças ao complemento acadêmico recebido conseguiu desenvolver seu potencial. “Quanto mais aprendo, mais eu gosto. Matemática é muito divertido”, diz ele.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que entre 3% e 5% da população brasileira seja superdotada. Ou seja, eles estão em todas as salas de aula e classes sociais, independentemente de cor e raça. Mas as crianças carentes perdem, por desigualdade de condições, a oportunidade de desenvolver suas potencialidades. “Estamos desperdiçando gerações e gerações por falta de cuidados, como um olhar mais criterioso do professor”, reclama Erondina Miguel Vieira, presidente da Associação Brasileira para Altas Habilidades/Superdotação do Espírito Santo. Em convênio com a Prefeitura de Vitória, ela cuida de 375 jovens de escolas capixabas com essas características e ainda mantém sob observação mais de 600.

Pela lei, crianças superdotadas têm direito à educação especial. Mas, todos sabemos, nem sempre a lei é cumprida. O Ministério da Educação instituiu em 2005 um Núcleo de Atividades de Altas Habilidades (Naahs) em cada uma das 26 capitais e no Distrito Federal, justamente para oferecer orientações e suporte aos sistemas de ensino com relação às práticas pedagógicas direcionadas a esses alunos excepcionais. Com exceção do Espírito Santo, Distrito Federal e de Mato Grosso do Sul, porém, o programa se restringe ao treinamento de profissionais para a identificação dos talentos. “Registramos, no ano passado, no censo escolar, 5.637 alunos da educação básica, tidos como muito habilidosos. A grande maioria em escola pública”, afirma a diretora de Políticas da Educação Especial do MEC, Martinha Clarete.

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Alunos do Instituto Roberto Seinberg, que atende, no Rio,
superdotados: oportunidade para desenvolver habilidades

 Outro lado da questão refere-se à forma como o superdotado é visto na sociedade. Embora seja uma pessoa absolutamente normal, apenas com habilidades acima da média, a criança chega a ser considerada esquisita e pode ser discriminada pelos colegas e até por mestres. No entanto, o apoio psicológico ainda não está no pacote de ajuda às crianças pobres. “O aluno que se destaca demais é xingado por fazer muitas perguntas e há casos de professores que o mandam calar a boca porque está atrapalhando a aula”, diz a professora Suzana Graciela Pérez, que preside o Conselho Brasileiro de Superdotação (Combras). Gabriel Santana, 16 anos, filho de pai barbeiro e mãe costureira, aprendeu a ler sozinho aos 2 anos e passou a se sentir “um peixe fora d’água”. Ele teve a sorte de ser selecionado para o instituto carioca Rogério Steinberg (IRS) e depois conseguiu uma vaga no renomado Instituto de Tecnologia Ort, instituição judaica tida como uma das maiores ONGs de ensino e treinamento tecnológico do mundo. Porém, apesar de tudo o que se faz, a jornada é muito longa. Como lembra a gestora administrativa da Apahsd, Gabriela Vanini Toscanini: “Marcola (líder da facção criminosa PCC) e Fernandinho Beira-Mar (maior traficante de drogas do Brasil) são exemplos de pessoas que não foram percebidas de maneira adequada e usaram toda a sua inteligência e capacidade de liderança para o crime”. É preciso atenção para não desperdiçar o futuro de milhares de crianças brasileiras.

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 FONTE: http://www.istoe.com.br/reportagens/85016_UM+FUTURO+PARA+SUPERDOTADOS+CARENTES

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50 anos de Psicose

Postado em 8 de julho de 2010 às 10:43 por Flávia Vieira

Obra-prima do gênero do horror, o clássico do mestre Alfred Hitchcock completa meio século, volta aos cinemas e ganha edição de luxo em Blu-ray

Caio Barretto Briso

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HORROR
O grito de pavor da atriz Janet Leigh e o Motel Bates (abaixo)

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 Quarenta e cinco segundos foram suficientes para eternizar uma das cenas mais emocionantes – e assustadoras – de toda a história do cinema: o assassinato da personagem Marion Crane na obra-prima “Psicose”. Até quem nunca assistiu ao filme do diretor inglês Alfred Hitchcock (1899-1980) conhece o grito desesperado da atriz Janet Leigh, no papel da doce e vulnerável Marion, pouco antes de ela receber a primeira das oito facadas que tiraram-lhe a vida sob o chuveiro do Motel Bates. Ninguém esquece também a trilha sonora estridente de Bernard Herrmann, que pontua cada golpe desfechado pelo dono do hotel, Norman Bates, esplendidamente interpretado por Anthony Perkins. Essa sequência tornou-se a mais emblemática da obra de ­Hitchcock, aclamado como o mestre do suspense pelos 53 filmes que realizou em 54 anos de carreira. Hitchcock usou 70 posições de câmera para gravar essa cena, que consumiu nada menos do que sete dias de filmagem.

 O resultado compensou: com um baixo orçamento de US$ 800 mil, a produção teve um faturamento de US$ 50 milhões. Até agora, quando completa 50 anos em agosto, volta em cartaz nos cinemas e ganha uma edição especial em ­Blu-ray, “Psicose” ainda provoca o mesmo arrepio e o mesmo assombro que arrebataram plateias de meio século atrás.

 Muitas curiosidades sobre o clássico foram conhecidas ao longo das décadas. Algumas delas foram reveladas ao cineasta francês François Truffaut na histórica entrevista que virou o livro “Hitchcock Truffaut” (Companhia das Letras), centrada nos bastidores das filmagens: Hitch (esse era seu apelido) não queria música na cena da ducha. Mas Herrmann criou a assustadora trilha que acompanha o assassinato de Marion e só mostrou-a ao diretor quando estava pronta. “Ele ficou fascinado e a música se tornou parte fundamental da cena”, diz Fernando Ferreira, crítico e professor de cinema da PUC do Rio de Janeiro. Nessa sequência, aliás, quem aparece discretamente nua não é Janet Leigh, mas uma modelo contratada apenas para ser sua dublê (“De Janet só vemos as mãos, os ombros e a cabeça”). A personagem é assassinada durante o primeiro terço do longa-metragem, caso raro de rompimento com a narrativa tradicional. É sabido que o diretor inglês tinha como hábito aparecer em algumas cenas de seus filmes. Mas em “Psicose” é particularmente difícil perceber o momento exato em que ele surge na tela. É logo no início da trama, quando Marion volta ao trabalho. O rotundo Hitch mantém-se parado, em pé, na calçada. Aliás, outra curiosidade dessa mesma tomada é a participação de sua filha, Pat ­Hitchcock. Ela encarna a colega de trabalho da protagonista.

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GÊNIO
O ator Anthony Perkins na cena final (no alto) e Hitch com a claquete:
ele comprou todos os livros em que baseou o seu filme para que
o público só soubesse o final da história indo ao cinema
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 “Psicose” foi feito em preto e branco por escolha de ­Hitchcock. Ele achava a opção mais adequada para o suspense da história e, com isso, evitava um ­visual muito sangrento que o uso da cor naturalmente acarretaria. O sangue usado não passava de calda de chocolate. O som das facadas, simulando a arma entrando no corpo de Marion, foi produzido por um assistente que, fora do plano, esfaqueava um melão. Mais do que um grande diretor, Hitchcock era um genial artífice do cinema.

 A morte do personagem do investigador Arbogast, por exemplo, ocorrida enquanto ele sobe uma escada, ainda hoje desperta curiosidade: como o cineasta teria conseguido mostrar a sua queda, em pleno movimento, depois de ele ser esfaqueado no rosto? Hitch filmou separadamente o ator sentado e movimentando os braços, representando a queda; depois filmou a escada propriamente dita, com a câmera sugerindo uma descida. Parece simples, mas na época foi revolucionário. Como também o foi, com menor expressão, a passagem em que aparece, no banheiro do Motel Bates, um vaso sanitário. Por incrível que pareça, foi a primeira vez na história do cinema americano que essa peça foi mostrada em um filme de Hollywood.

FONTE: http://www.istoe.com.br/reportagens/84726_50+ANOS+DE+PSICOSE 

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A segunda tragédia

Postado em 8 de julho de 2010 às 10:33 por Flávia Vieira

Depois das enchentes, moradores das cidades mais atingidas em Pernambuco e Alagoas tentam reconstruir suas vidas. Sobram desespero e desânimo, e faltam comida, luz, água e empregos

Por Bruna Cavalcanti, enviada especial a Palmares (PE)

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RESTOS
Moradores de Palmares recolhem alimentos enlameados de um supermercado inundado

É preciso força e coragem para caminhar pelas ruas da cidade de Palmares, Zona da Mata Sul de Pernambuco. A lama grossa e imunda invade, com um cheiro fétido, todos os caminhos por onde antes trafegavam pessoas e veículos. Em cada canto se ouvem histórias de quem perdeu tudo. Relatos de dor, drama, vazio e desânimo. Por todo o centro da cidade e nas ruas mais afetadas pelas águas do rio Una, a sensação é de se estar num verdadeiro lixão. Em casas cheias de sujeira e entulhos, as pessoas tentam limpar as poucas coisas que não foram destruídas ou levadas pelas águas. Em condições desumanas e correndo sérios riscos de contraírem doenças, os palmarenses lutam como podem. Muitas vezes, tratam de fazer a limpeza com as próprias mãos, já que faltam equipamentos adequados. Precariamente, buscam retomar suas rotinas. Mas é difícil saber por onde começar. “Isso aqui não é uma cidade, isso aqui é o inferno”, grita um morador de dentro de uma casinha. O inferno também ameaça trazer a fome. Já chegam a Palmares notícias de localidades onde os moradores só têm barro para comer. Ali, ninguém duvida: a luta pela vida está apenas começando. 

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SORRISO
Cleiton, 5 anos, e a mãe, Ediane. Eles dizem que perderam tudo, menos a esperança

 Com 54 mil habitantes e apenas oito abrigos para atender toda a população, Palmares tem mais de cinco mil desabrigados e desalojados – em todo o Estado, cerca de 82 mil pessoas estão fora de suas casas. Segundo a Defesa Civil, mais de 14 mil moradias foram danificadas ou destruídas pelas enchentes que assolaram Pernambuco no dia 18 de junho. A casa simples de Lindalva da Silva Santos, 79 anos, foi uma delas. Aposentada, Lindalva conta que sobreviveu com o marido em cima de um telhado. “Pensavam que a gente tinha morrido. Não nos sobrou nada, só uns paninhos sujos.” Há mais de duas semanas, ela vive em condições de penúria absoluta: sem cama, fogão, comida, sofrendo com o frio, a umidade, a lama e o cheiro de esgoto constante. “Quando dão comida, comemos. Quando não… Não tenho lugar algum para onde possa ir. Como os abrigos estão muito lotados, prefiro ficar dentro da lama mesmo”, diz Lindalva. É impossível para ela pensar em futuro: “Hoje estou feliz porque ganhei um cobertor para dormir e porque comi. Mas só Deus é quem sabe como vai ser esse recomeço e o que vai ser de Palmares”, diz. Na desolação completa da cidade, o menino Cleiton Silva, 5 anos, ainda abre seu maior sorriso ao lado da mãe, Ediane Maria da Silva. Morador de um dos bairros mais pobres de Palmares, ele brinca, em meio à sujeira, enquanto Ediane se lamenta: “Já não tinha nada mesmo em casa. Agora, o pouco que tinha não existe mais. Tudo o que fa­ço é retirar a lama que ficou”, conta ela.

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Depois da enchente, a falta de perspectivas é parte da segunda tragédia que desaba sobre o povo dali. Sem indústrias, Palmares, que vivia de comércio, teve mais de 1500 lojas destruídas. Agora teme também o desemprego. O comerciante Jorge Santos Corrêa perdeu as cinco lojas de celular que possuía e ainda viu o pouco da mercadoria que sobrou ser saqueada. “A cheia afetou todo mundo. Meu prejuízo é de mais de R$ 1,5 milhão”, calcula. Com dez anos investidos no comércio local, Corrêa não imagina como poderá manter seus 80 funcionários. “Quem ainda pode comprar vai comprar comida. Ninguém vai pensar em celular.” Situação parecida é enfrentada pelo empresário Hildo Braz, dono de uma rede de supermercados e de atacados de construção. Ele mantém 240 funcionários e estima ter perdido mais de R$ 4,5 milhões. “Acho que terei que fazer acordo e demitir mais de 40 empregados, não sei o que fazer.” Outro comerciante, Hosano Marques, um dos mais antigos e tradicionais da cidade, lamenta que, em apenas um dia, viu todo o seu trabalho de mais de 35 anos desaparecer. “Não sobrou nem a esperança”, diz, emocionado.  

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RESTOS
Em União dos Palmares (acima), à procura de roupas.
Em Palmares (abaixo), juiz Evani Estevão mostra processos destruídos

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O juiz da 1ª Vara Cível de Palmares, Evani Estevão, contabiliza outro tipo de prejuízo: a quantidade de processos perdidos pela inundação do fórum da cidade. Com mais de 20 anos atuando nessa região, ele chora ao olhar o cartório de registro civil e o cartório de registro de imóveis completamente destruídos. “Os danos são imensos. Não possuímos um acervo digital e todos os processos e documentos ficaram submersos. É um caos absoluto.” A exemplo de tanta gente da cidade, ele diz não saber como recomeçar. Pessoalmente, Estevão também viveu um drama: ficou, com a família, ilhado, por mais de 36 horas. “A água estava pela cintura e, quando vi que subia cada vez mais, me desesperei.Chegamos a pensar em nos jogar nas águas do rio. Agora entendo o que é o pânico, o que é o terror”, relata. Estevão já decidiu abandonar a cidade: “Vou me aposentar. Não posso mais continuar em Palmares. Não há clima, só dor”, diz ele. 

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FALTA TUDO
Em Barreiros (acima) meninos catam comida.
Em União dos Palmares (abaixo) não há água nem luz

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 Na vizinha Alagoas, a 130 quilômetros de Palmares, num município de nome parecido, União dos Palmares, o cenário é diferente. Em vez da lama que se vê pelas ruas de Palmares, na cidade alagoana há um grande vazio. União dos Palmares está no chão. Ali mais de mil casas foram devastadas. Sobraram apenas tijolos espalhados pelas ruelas. Maria da Conceição Araújo, 98 anos, moradora da cidade há mais de 50, já teve uma casa no meio daquele nada. Nunca em sua vida tinha visto coisa parecida com o que aconteceu. “Parecia o fim do mundo”, diz ela. “Agora, com a minha idade, só espero morrer.” Maria da Conceição passa o tempo observando antigos vizinhos que vasculham os escombros. “Estamos procurando roupas para lavar e vestir”, explica Quitéria da Conceição. “A ajuda chega, mas é pouca.” Quando aconteceu a cheia, Quitéria voltava de um velório e não teve tempo de salvar nada da casa. “Agora eu como um dia, no outro não.”

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DESOLAÇÃO
Maria da Conceição Araújo, 98 anos, espera ajuda

 Na cidade alagoana de Murici, bombeiros resgataram de helicóptero cerca de 150 sem-terra. A maioria era de crianças, isoladas há mais de uma semana. Segundo os bombeiros, eles comiam barro para sobreviver. As águas do rio Mundaú também arrasaram a vida da dona de casa Sebastiana Henrique de Aguiar, que vivia com o marido e oito filhos num povoado próximo à Usina Laginha. Dois moradores morreram no local, um dos mais afetados pela calamidade. “Foi muita água. Parecia um dilúvio”, lembra ela. Sebastiana, como muita gente ali, não sabe bem o que fazer. Só lhe restou a fé: “Preciso ter fé em Deus. Preciso acreditar. Já perdi tudo o que tinha e agora não posso deixar ir embora esta última coisa.”

 82 mil pessoas estão fora de suas casas em Pernambuco.
Segundo a Defesa Civil, mais de 14 mil moradias foram danificadas ou destruídas

 A árvore dos desesperados

 img6.jpgDuas jaqueiras e uma mangueira foi tudo o que tiveram mais de 60 pessoas para escapar das enchentes. Isto aconteceu em Muquém, um povoado vizinho à cidade de União dos Palmares, em Alagoas. Já era noite quando as águas do rio Mundaú assolaram Muquém, impedindo mais de 500 pessoas de sair de lá. Um grupo ficou ilhado num terreno amplo onde só havia as três árvores. “Nossa sorte foi este pé de planta”, diz José Cícero da Silva, um dos primeiros a subir na jaqueira maior (foto ao lado). Outros moradores foram seguindo seu exemplo e, em pouco tempo, a árvore ficou “lotada”. Com a correnteza cada vez mais forte, a outra jaqueira e a mangueira do terreno também começaram a ser disputadas pelos moradores. Eles permaneceram em cima das árvores por mais de sete horas, sem receber nenhuma ajuda.

 Michele Pereira da Silva, outra moradora de Muquém, conta que em vários momentos pensou em desistir. Chegou a acreditar que não sairia viva dali. “Teve uma hora em que não senti mais as minhas pernas nem os meus braços. Sempre que o ar me faltava eu rezava e todos me seguiam. Dessa forma a gente renovava junto nossas forças”, relata. Emocionada, Michele afirma ainda que jamais deixará alguém derrubar a árvore que salvou não só a vida dela como a de muitas pessoas da comunidade. “De agora em diante, quem derrubar a jaqueira vai ser preso”, sentencia.

 FONTE: http://www.istoe.com.br/reportagens/85266_A+SEGUNDA+TRAGEDIA

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Amar é praticar o companheirismo e a compreensão

Postado em 7 de julho de 2010 às 16:06 por Flávia Vieira

por Roberto Shinyashiki

Muita gente está assustada com a possibilidade de se envolver e perder a liberdade conquistada. De um lado as mulheres buscam homens mais compreensivos, de outro, os homens querem mulheres menos possessivas. O mesmo acontece no trabalho, um profissional que não está atualizado, disposto a desafios e apto para mudanças é, rapidamente, substituído por outro.

O fato é que, se queremos viver um relacionamento gostoso, porém verdadeiro, seja no casamento, namoro, ou em poucas horas, devemos aprender a nos aceitar como somos e olhar para o companheiro como um caminho para o crescimento. Estar com alguém plenamente é a possibilidade de vencer o medo da entrega e de se conhecer no íntimo.

Conviver com alguém que amamos é o mesmo que comprar um imenso espelho da alma, no qual, cada um de nossos movimentos é mostrado, sem a mínima piedade. E, é aí que começa o inferno… Ao invés de encarar a verdade e de ver a imagem temida do verdadeiro “eu”, tenta-se quebrar o “espelho”. Como? Fugindo da intimidade, culpando o outro, não assumindo as próprias responsabilidades e desacreditando o amor.

Viver com quem se ama não é apenas uma oportunidade de conhecer o outro, mas é a maior chance de entrar em contato consigo mesmo. Apenas quando nos vemos é que percebemos o medo de nós mesmos e nos aceitamos como realmente somos. Começamos, então, a nos capacitar para o amor.

O único jeito de amar é buscando a sinceridade. Infelizmente, com o passar dos anos o amor tem sido muito mais estratégico do que espontâneo. Nas revistas femininas via-se muito esse tipo de atitude: “se ele fizer isso, faça aquilo”, o que foi minando a espontaneidade do amor. Nós temos que redescobrir a forma de amar, a naturalidade do relacionamento amoroso. As pessoas precisam ter interesse genuíno no outro.Todas as maneiras de amar devem ser naturais. Quem fica estudando demais o outro, “mata” a possibilidade de amar alguém. O mundo é feito de absurdos e encontros, os absurdos fazem parte, porém, devemos entender que é possível ser feliz, acreditando dia a dia na naturalidade dos sentimentos.

Um dia, perguntaram a um grande mestre quem o havia ajudado a atingir a iluminação; e ele respondeu: “Um cachorro”. Os discípulos, surpresos, quiseram saber o que havia acontecido, e o mestre contou: “Certa vez, eu estava olhando um cachorro, que parecia sedento e se dirigia a uma poça d’água. Quando ele foi beber, viu sua imagem refletida. O cachorro, então, fez cara de assustado, e a imagem o imitou. Ele fez cara de bravo e a imagem o arremedou. Então, ele fugiu de medo e ficou observando, durante longo tempo, a água. Quando a sede aumentou, ele voltou, repetiu todo o ritual e fugiu novamente. Em um dado momento, a sede era tanta que o cachorro não resistiu e correu em direção à água, atirou-se nela e saciou sua sede.

Desde então, percebi que, sempre que eu me aproximava de alguém, via minha imagem refletida, fazia cara de bravo e fugia assustado. E ficava, de longe, sonhando com esse relacionamento que eu queria para mim. Esse cachorro me ensinou que eu precisava entrar em contato com minha sede e mergulhar no amor, sem me assustar com imagens que eu ficava projetando nos outros”. Esse é o ingrediente básico para o amor, o autoconhecimento. Projetar nossos desejos ou nossas “fobias” no outro, apenas causa uma relação de dependência ou doentia, como o desenvolvimento do ciúme ou competição.

FONTE: http://www2.uol.com.br/vyaestelar/amar_dificil_verdadeiro.htm

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