04.11.10 17:23
Matar os nordestinos? Mais respeito, por favor!
Recebi um e-mail de um amigo que copiava indignado a opinião de um ex-colega seu, sobre o resultado das eleições. Eis o e-mail:
“É…
NOSSA SINA É CONTINUAR TRABALHANDO AQUI NO SUDESTE PARA VOCES, NORDESTINOS, CONTINUAREM MAMANDO EM NOSSAS TETAS ATRAVÉS DO ASISTENCIALISMO… O LULA (E A MÃE DO CHUCK ESTÃO CRIANDO PÁRIAS), ISSO SIM!!!”
No dia seguinte, vi, estarrecido, o preconceito em pauta, quando uma jovem paulista propôs: “Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado”. Foi seguida por uma miríade de outros “twitteiros”, escancarando o preconceito do Sul e Sudeste contra o Nordeste.
Primeiro, há alguns enganos sobre o Brasil e o “Bolsa Família”. Os estados campeões do benefício não estão no Nordeste e sim no Sudeste: São Paulo e Minas Gerais. Dessa forma, o benefício assiste, proporcionalmente, muito mais “sudestinos” que nordestinos. Pobreza existe em qualquer lugar, não só no Nordeste. Além do mais, na votação do último pleito, segundo o “site” IG, apesar de expressiva, os votos do Nordeste não foram decisivos. Serra perdeu em Minas de Aécio Neves, seu apoiador. Igualmente perdeu no Rio de Janeiro e em diversos outros estados. Esse foi o fator determinante não a região Nordeste.
Achei o “e-mail” uma agressão e, na verdade, uma completa ignorância, porque esconde as reais causas da pobreza. Tenta culpar a indolência nordestina (???) e assim se recusa a pensar em sua responsabilidade, como brasileira, com o destino da nação.
Mais respeito por favor. O nordestino é um povo lutador, criativo e persistente. Euclides da Cunha disse que “O nordestino é antes de tudo um forte”. Sim. Só a garra nordestina explica alguém conseguir tirar o sustento de uma terra seca. Por outro lado, é preciso muita força e coragem para migrar, partindo rumo ao incerto, enfrentando o preconceito para lutar pela vida. Essa é a história de muitos nordestinos que aqui ficaram enfrentando as piores secas. É também a história dos que partiram e, explorados, construíram São Paulo, Brasília e tantos outras cidade neste país. Ai dessas cidades, se os cabeças-chatas não estivessem por lá. E não somente por lá, mas também pelo Norte do Brasil, desbravando a Amazônia desde o século 19.
O preconceito é a mais satânica forma de fechar os olhos para a realidade que está diante de nós, na tentativa de lavar as mãos em relação às responsabilidades que, historicamente, nós temos.
O Nordeste é pobre por diversas razões. A primeira delas é o clima que não favorece. A segunda é a falta de estrutura. Contudo, essa estrutura, há muito, deveria ter sido viabilizada pelos governos, uma vez que os nordestinos pagam impostos da mesma forma que os brasileiros das outras regiões do país. A terceira razão está ligada à segunda: são os programas de governo que não buscam promover mudanças. Considere-se que a esmagadora maioria dos presidentes brasileiros foram do Sul e Sudeste, eles viram na pobreza Nordestina uma máquina de votos. O próprio Zé Dirceu (que não é nordestino) afirmou que o “Bolsa Família” renderia pelo menos 40 milhões de votos. (http://www.youtube.com/watch?v=Et9OrjTelc8).
Fome é uma indústria lucrativa. Então, se o Nordeste permanece pobre e se as diferenças regionais se adensam, é a política cruel, não desenvolvimentista e centralizadora que insiste em manter os pobres sempre pobres.
Não deveria ser considerada assistencialismo a tentativa de suprir a necessidade de alguém. Deveria ser considerada um passo tímido para justiça social. Afinal, o sertanejo paga o imposto que não o beneficia.
Se, na mente de uma pessoa assim, trabalhar e produzir é o que garante sua dignidade, então que ela use a mesma lógica em todas as situações de sua vida. Se um dia for surpreendida pela invalidez, seja ela a primeira a se considerar indigna de receber a ajuda de seu cônjuge, pois tornou-se improdutiva ou produzirá em menor velocidade. Se, em sua opinião, os nordestinos são párias por serem pobres e menos produtivos, então, na aposentadoria, gente assim deveria ter a dignidade de rejeitar o dinheiro do governo, pois sua lógica desconsidera as razões e o estado das coisas. Por que seria justo um velhinho receber benefício do governo, como a aposentadoria, e isso não ser considerado assistencialismo, enquanto um sertanejo lutador, diante das mesmas impossibilidades de trabalho, ao receber ajuda, ser comparado a um pária?
Desculpe, mas é uma lógica burra.
Domingos Rodrigues Alves
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Comentários | 2 Comentários
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George 07.11.10 | 01:12
Olá, passando para lhe parabenizar pelo consistente e sóbrio texto…
O Brasil tem uma dívida histórica com o nordeste que deve sim ser reparada através de muitas iniciativas de desenvolvimento…
Fernanda 26.12.10 | 14:41
Esses comentários só evidenciaram o grande preconceito que existe, mas que vive escondido por uma capa que é transparente! Aos poucos essas pessoas vão mostrando sua verdadeira face… preconceituosa
Sou Nordestina e não trocaria esse lugar por nada mais poluído, ou para viver com riquezas que enganam, pois a verdadeira riqueza é Deus!