Praia Lírica de Mona Gadelha cresce em estúdio

Mona Gadelha há tempos acalenta o lançamento do disco Praia Lírica. O projeto é uma homenagem à geração 70 de compositores cearenses interpretada apenas com voz e o piano virtuoso de Fernando Moura. O lançamento aconteceu em grande estilo, dia 29 de julho deste ano, no palco nobre do Theatro José de Alencar. Eis que surge um problema, o peso do repertório pareceu demais para a experiente cantora. Abusando mais que o necessário dos graves, a emoção pareceu presa em algum ponto da garganta da cantora que em outros momentos miava lancinante o espetacular blues Cor do sonho (vide o disco Massafeira). Apesar do repertório selecionado com uma maestria incomum, Mona optou por não se soltar e tornou inevitável a comparação com outros intérpretes como Fagner (Astro vagabundo) e Ney Matogrosso (Retrato marrom). A todo momento se esperava o momento em que tudo ali iria explodir em música. Imagino que a ideia seria dar um tom sóbrio à interpretação. Não funcionou. Apenas no final, quando Fernando subiu o tom e Mona o seguiu em Mucuripe, foi que o show realmente aconteceu. Pena que aí já era o biz.

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Eis que agora me chega à mãos o CD Praia Lírica, que deu origem ao show. Os tons baixos estão todos ali novamente, mas agora ganham outro sentido. Encontrando uma boa região para as interpretações, Mona Gadelha parece sussurrar pérolas pelas caixas de som. A delicada Flor da paisagem (Robertinho do Recife/ Fausto Nilo) fica ainda mais doce com a cantora travando um dueto solitário. Além de Fausto, o disco traz outros compositores indispensáveis para quem quer retratar nomes da música cearense dos anos 70, como Belchior e Fagner. Do primeiro, ela resgata a esquecida Sensual, lançada por Ney Matogrosso no disco Feitiço (1978). Um sacada ótima pra fugir de um repertório mais revisitado do compositor. Também fugindo da obviedade, ela traz La condessa, tirada do disco Maraponga (1978), de Ricardo Bezerra, e Lupiscínica, lançada por Ednardo em 1979 no mesmo disco de onde Mona tirou a ótima A manga rosa. Mesmo em momentos mais óbvios, como Paralelas, parece haver uma justificativa para aquela canção estar ali. Retrato marrom, sucesso de Rodger Rogério e Fausto Nilo na voz escancarada de Ney Matogrosso é um dos poucos momentos em que a sobriedade do tributo parece passar do tom. Única intervenção fora do piano de Fernando e da voz de Mona é um sampler econômico e desnecessário no clássico maior da música cearense, Terral. Ao fim de Longarinas, última faixa do disco, a sensação que fica é que o palco do TJA não era o ideal para um trabalho que exigia proximidade com o público. Ainda assim, é certo que todo o trabalho é preenchido com muita emoção e sinceridade. Por isso, sugiro esperar o show ganhar mais corpo e estrada.

Marcos Sampaio

Sobre Marcos Sampaio

Jornalista formado pela Universidade de Fortaleza e observador curioso da produção musical brasileira. Colecionador de discos e biografias. Admirador das grandes vozes brasileiras.

One thought on “Praia Lírica de Mona Gadelha cresce em estúdio

  1. Interessante seu comentário, pois a canção que você mencionou como a hora em que o show realmente aconteceu, foi justamente a única que a dupla não se entendeu e Mona cantou a primeira parte toda num tom diferente do da harmonia. Os dois só se encontraram no final. O que é opinião…

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