Os novos tempos do rock

Pra quem não percebeu (e isso deve ser quase ninguém), a música também tem seus marcos regulatórios. São artistas que chegam com um trabalho de peso e acabam gerando uma série de filhos que ou copiam seus pais, tal e qual, ou acrescentam algo de novidade. Assim foi com os Mutantes, com Roberto Carlos, Chico Science, Los Hermanos, Menudo, Restart e NX Zero, só pra citar alguns. Principalmente no caso dos três últimos, às vezes, fica difícil saber quem é cria e quem é criador. De fato, ganha quem consegue criar um molho próprio e jogar por cima da sua salada de influências. Infelizmente, nem sempre isso possível. Os curitibanos do Sabonetes (que nome, hein?!), embora citem Cartola e Pixies entre suas influências, acabam mesmo repetindo o velho estilo hardcore melódico que já não empolga mais muita gente. Em seu disco de estreia o homônimo Sabonetes (Universal), as guitarras que iniciam a faixa Nanana (?!) chegam a empolgar alguma, mas logo a coisa perde e mão e o ouvinte começa a achar que a Malhação vai começar. A segunda faixa, Hai cai, tem clima oitentista que eleva o nível do produto. Mas, logo cai novamente e tudo parece ficar igual. O grande problema dos Sabonetes (e de algumas outras bandas) está na busca do hit certeiro e na completa ausência de ousadia.

Sem ser encarados como autênticos aventureiros, os paulistas do Nosotros se apresentam com um EP de seis músicas que chegam um pouco mais perto dessa busca pela ousadia. No caso do octeto, o marco regulatório fica com os Los Hermanos. Está tudo lá, os metais, o vocal a la Amarante, as letras melancólicas, as guitarras sujas. Eles ganham mais frescor, provavelmente, pela presença de oito cabeças pensando e trabalhando e pelo despojamento. Logo que começa a tocar, parece que você tem nas mãos uma gravação caseira, uma demo. Por outro lado, com mais alguns minutos, você consegue perceber cada instrumento em seu lugar. O vocal de Ricardo Costa (o tal a la Amarante) traz sinceridade e contrasta com o de Larissa Costa, ainda contida no seu papel como cantora. Ela se sai melhor em Lado B, quando se solta em versos como “Me mostra o seu lado bom que eu quero me ajudar a me encontrar em ti”. Polvilhando Strokes sobre os Hermanos, esta pode ser um bom cartão de visitas para a banda. Não por ser a melhor, mas por facilitar as coisas sem perder a qualidade. Em alguns momentos a influência hermanica chega às vias do plágio, como é o caso de A volta. Ainda assim, o Nosotros mostra que tem lenha pra queimar e pode mostrar mais músicas boas num futuro próximo.

Marcos Sampaio

Sobre Marcos Sampaio

Jornalista formado pela Universidade de Fortaleza e observador curioso da produção musical brasileira. Colecionador de discos e biografias. Admirador das grandes vozes brasileiras.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *