O baião escandaloso de Maria Alcina

Foto: Feco Hamburguer
Foto: Feco Hamburguer

No início dos anos 1970, a androginia e a sensualidade estavam em alta no meio artístico brasileiro. Apesar do regime militar bater de frente com os mais assanhados, Secos & Molhados, Dzi Croquetes e Edy Star faziam escola exibindo seus corpos de forma mais livre. Foi nesse cenário que surgiu Maria Alcina, cantora mineira, de Cataguases, que dançava de maneira frenética no palco do Festival Internacional da Canção, de 1972, ao som de Fio Maravilha. Tão estranha quanto as roupas exótica, era a voz profundamente grave da intérprete que contagiou o público que lotava o Maracanãzinho.

Sempre colorida, eletrizada e hilária, Maria Alcina manteve o estilo carnavalizante ao longo desses 41 anos de carreira. Apesar dos pouquíssimos discos lançados e dos longos períodos mais à margem das notícias, ela manteve viva sua história com uma agenda cheia de compromissos nacionais e internacionais. No meio desses compromissos, ela arranjou uma brecha para apresentar em Fortaleza, neste fim de semana, o espetáculo Asa Branca, onda dá sua leitura particular para a obra de Luiz Gonzaga (1912 – 1989).

Foto: Laura Del Rey
Foto: Laura Del Rey

Com estreia em 2012, quando se comemorou o centenário de nascimento do Rei do Baião, o espetáculo Asa Branca foi criado pelo produtor cultural Fran Carlo, que convidou Maria Alcina para apresenta-lo. Apesar de ser sempre muito ligada à obra de Carmen Miranda (1909 – 1955), para a mineira, tem tudo a ver a Pequena Notável com Luiz Gonzaga. “São dois ícones brasileiros. A gente se identifica por que eles ensinam as coisas. Ela é muito original, assim como o Gonzagão, que sempre traduz o jeito novo. A gente percebe quando ta ficando incruado e quando precisa deixar vir o novo. Essas pessoas são assim, elas nos ensinam o que é ser artista”, filosofa, entre risadas, ao telefone.

A busca pelo novo também faz parte história de Maria Alcina, desde que buscou um acento pop para seu repertório formado tanto por sambas de Assis Valente, como pela modernices de Wado. Dessa abertura estética, ela emendou dois elogiados trabalhos com o quarteto eletrônico Bojo – Agora (2003) e Maria Alcina, confete e serpentina (2008). Luiz Gonzaga também acompanha a intérprete desde sua estreia discográfica, em 1973, quando ela gravou Paraíba. Esta canção está presente no repertório de Asa Branca, assim como Sala de reboco, Olha pro céu e Baião de dois. “Tem também o lado mais dramático, como A morte do vaqueiro, que eu não conhecia. São músicas que, quando me deparei, fiquei louca. São fatos acontecidos. Dá uma emoção muito forte”, acrescenta.

Segundo Maria Alcina, o grande destaque do show fica para a pesquisa feita para reproduzir com fidelidade os arranjos originais. “O acordeonista (Olivio Filho, também diretor musical do espetáculo) trouxe os arranjos originais. Logo, o público que gosta do Gonzaga, vai estar ouvindo o som que ele próprio e os seus arranjadores criaram”, explica a intérprete que procurou caprichar nos graves para deixar sua voz mais semelhante à do homenageado.

Maria Alcina lembra ainda que chegou a dividir o palco com Luiz Gonzaga nos anos 1970, num espetáculo que contava ainda com as presenças de Benito de Paula e Raul Seixas (1945 – 1989). Numa época em que a repressão política ditava os costumes, suas performances eram motivo de muita de muita censura. E a roupa transparente que usou naquele dia (enquanto Raul usava um pijama de bolinhas), foi o que os militares precisaram para lhe trazer sérios problemas. “Comportamento era uma coisa que valia como palavra. E nós quase tiramos a Tupi do ar”, lembra.

Foto: Feco Hamburguer
Foto: Feco Hamburguer

Passados os tempos de dureza, hoje ela só quer seguir sua estrada de música. Como planos, ela tem o lançamento em CD e DVD do espetáculo Asa Branca. Mais próximo está um disco onde comemora as quatro décadas de carreira. Puxado por uma canção inédita de Zeca Baleiro, intitulada Eu sou Alcina, o projeto vai trazer inéditas de Arnaldo Antunes, Karina Buhr, Péricles Cavalcante e Anastácia, e regravações de Totonho e os Cabras, João Bosco e outros. “Já pensou nisso? É muito chique, não é?”, diverte-se.

Serviço:
O quê: show de Maria Alcina em homenagem a Luiz Gonzaga
Quando: sexta-feira (7) e sábado (8), às 20h; domingo (9), às 19h
Onde: CAIXA Cultural Fortaleza (Av. Pessoa Anta, 287 – Praia de Iracema)
Quanto: R$ 20 e R$ 10. À venda no local
Outras informações: 34532770

Marcos Sampaio

Sobre Marcos Sampaio

Jornalista formado pela Universidade de Fortaleza e observador curioso da produção musical brasileira. Colecionador de discos e biografias. Admirador das grandes vozes brasileiras.

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