Nostalgia e política tomam palco do U2

Por Isabel Filgueiras (isabelfilgueiras@opovo.com.br)

Trinta anos depois do lançamento do álbum The Joshua Tree, celebrado neste tournê da banda U2, as notícias sobre a política e o mundo continuam difíceis de acreditar, como diz a primeira estrofe do hit Sunday Bloody Sunday (“I can’t believe the news today”). Foi com o ritmo marcante  dessa canção que o grupo irlandês abriu o show no Estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi, em São Paulo, na quinta-feira. As apresentações de hoje e amanhã no Brasil encerram o turnê que começou em maio, no Canadá.

Em pouco mais de duas horas, o show seguiu uma espécie de ordem cronológica, com faixas pré-The Joshua Tree (1987), outras do álbum celebrado propriamente dito e aquelas que vieram depois dele. Em meio a homenagem a artistas brasileiros como Elis Regina, Renato Russo e Cazuza, o vocalista Bono Vox ensaiou um pouco de português. O repertório incluiu Pride (In the Name of Love), uma versão de Heroes, de David Bowie, e I Still Haven’t Found What I’m Looking For. Um dos símbolos do The Joshua Tree, o single With or Without You foi cantado lentamente, com o vocal da multidão e um fundo especial no telão gigantesco montado pela produção. Os efeitos mostravam paisagem de deserto, algo como o Grand Canyon, no Arizona.

Entre um e outro pigarro, o artista agradeceu o carinho do público e manteve o discurso pela paz mundial e igualdade entre gêneros e raças. Bono tem sido ativista de diversas causas, entre elas, a de maior destaque é a luta pela cura da Aids. Em 2006, ele fundou a ONG Red que busca ajudar as vítimas da doença. “Quero agradecer aos brasileiros, homens e mulheres. Porque quando o mundo todo dizia que os remédios do coquetel para Aids eram muito caros, o Brasil apostou nisso. Foi um dos primeiros a acreditar”, disse ao público. São Paulo foi a única cidade que recebeu quatro apresentações da turnê. A última visita da banda ao Brasil foi há seis anos.

Ao lado dos companheiros, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr, Bono homenageou as mulheres, destacando brasileiras como Tarsila de Amaral, irmã Dulce, Taís Araújo e a cearense maria da penha, que apareceram na tela enquanto ele cantava uma música que compôs para sua esposa, a ativista Ali Hewson. Houve ainda um momento especialmente dedicado a criticar o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de modo sutil. Conhecidamente progressista, a banda apresentou trecho de uma série antiga em que um homem chamado Trump dizia que o fim do mundo estava próximo e que construiria um muro. Ao ser contestado, a multidão silenciou seu crítico e um close mostrou o olhar de satisfação deste Trump.

Depois da clássica falsa despedida, a banda voltou ao palco para o último ato, cantando It’s A Beautiful Day, Elevation e Vertigo. O show foi encerrado com One, com a bandeira do Brasil hasteada digitalmente no imenso telão. Apesar dos belos efeitos do telão de LED, o público que ficou mais atrás quase não conseguiu ver os músicos. Eles pouco foram mostrados pela tela, que serviu como um complemento visual da apresentação.

A abertura do evento ficou por conta do ex-Oasis Noel Gallagher e seus High Flying Birds que, apesar de ter álbum novo este ano, só animou o público com os clássicos de sua antiga banda, Wonderwall, Little by Little e Supernova. Ao contrário de U2, ele cantou as mais antigas no fim da apresentação em vez de tocá-las no começo. A expectativa é que as apresentações comecem às 19 horas, como previsto. O trânsito na região do Morumbi é complicado e de difícil acesso por transporte público.

Cartão fidelidade

Depois de 14 shows do U2, o engenheiro Maykon Lenzi, de 42 anos, conta que essa turnê teve um sabor especial. O álbum foi um dos mais ouvidos por ele quando criança e adolescente, por isso, houve um forte apelo emocional. “Eu já tirei férias para ver os caras nos Estados Unidos. A primeira vez que fiz isso foi em 2001. Essa camisa é de 2011”, conta. Ele curtiu a apresentação com um grupo de amigos que se conheceu em outros shows.

A amizade dura desde 1998, quando foram ao primeiro show juntos e nunca mais deixaram de se falar. A gerente de TI, Priscila Wanderley, mora em Houston, no Texas, nos Estados Unidos, mas sempre se encontra com os outros amigos fãs da banda para esses momentos especiais. Ela esteve em quatro apresentações da turnê The Joshua Tree e, hoje à noite, estará na quinta e última. “Eu tinha que vir ao Brasil para ver também. Fui em duas nos Estados Unidos e uma em Dublin e agora mais duas em São Paulo. É muito melhor aqui porque o público brasileiro é o único que interage, pula, canta”, relata. No total, ela já esteve em 12 apresentações da banda.

Priscila diz ainda que há um grupo no whatsapp para combinar a compra de ingressos e que eles, que moram em diferentes cidades do mundo, sempre se encontram nesses momentos especiais, dentro ou fora do Brasil. Na mesma turma de amigos, o casal Sheila Ferreira, de 40 anos, e Leonardo Lugarinho, de 38 anos, interromperam as férias em Nova York para vir ao show da banda em São Paulo.

Marcos Sampaio

Sobre Marcos Sampaio

Jornalista formado pela Universidade de Fortaleza e observador curioso da produção musical brasileira. Colecionador de discos e biografias. Admirador das grandes vozes brasileiras.

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